- Mamãe, pra onde o papai foi. — perguntaria Pedro, na semana seguinte, durante o café.

- Papai foi levado pelos anjos, querido.

- E porquê os anjos não me levaram também, mamãe.

- Não diga isso, querido! Oh meu Deus!

O comportamento de todos estava diferente. Ainda não haviam se adaptado à vida sem o pai e marido. Marta já não dormia direito havia duas semanas, muito antes da morte de Fernando.

Ela estava no seu limite e tudo o que ouvia era o tic-tac infernal daquele relógio.

Durante uma das noites de insônia, Marta ouviu passos na escada. Levantou-se lentamente de sua cama, com medo de um possível ladrão. Caminhou até a beira da escada, daonde pôde ver seu filho Pedro, no andar de baixo, em frente ao relógio.

- Pedro. O que está fazendo, querido.

O garoto parecia não ouvi-la. Apenas fitava o relógio. Marta, confusa, desceu as escadas em direção ao filho.

- Pedro, você pode me ouvir, querido.

O menino virou-se para a mãe e disse :

- Eu o vi, mamãe.

- Quem. Do que está falando, meu bem.

- Eu vi o anjo que levou o papai.

- Oh meu Deus. Você deve ter tido um sonho. — respondeu a mãe, abraçando o filho — Venha, vamos dormir.

De relance, Marta olhou para o relógio. Eram três e cinquenta e cinco. Logo, ficou apreensiva.

Em cinco minutos, começaria novamente o badalar do relógio. Após deixar seu filho no quarto, Marta desceu novamente as escadas e foi para a cozinha. Estava com sede.

Encheu um copo com àgua mas antes de levá-lo à boca, o relógio iniciou o seu canto medonho. Eram quatro horas.

Marta, assustada, largou o copo que logo se estilhaçou ao tocar o chão.

- Oh, como sou desastrada!

Depois de limpar aquela bagunça, Marta retornava para o seu quarto quando levou outro susto. Na sala, em frente à janela, havia alguém. Suas roupas pareciam bem velhas e gastas e sua pele era branca como um véu de noiva. Marta estava apavorada, mas não pôde deixar de reparar como ele era belo.

Quem era ele. O que queria.

O misterioso visitante voltou-se para ela. A viúva, ao encarar o fantasma, sentiu-se irremediavelmente fraca. Desmaiou.

Sofia foi a primeira a descer as escadas no dia seguinte. E, na sala, sua mãe dormia nua, sobre o tapete.

Fim da Segunda Parte