O Falcão Cinzento
2 Redenção
— Estranho, tenha piedade. Estranho, tenha piedade. Estranho, tenha piedade.
Após quatro abortos espontâneos, e dois nascimentos prematuros em que a criança nasceu morta, Lysa Tully, agora Lysa Arryn, finalmente conseguira levar uma gravidez até o fim, e estava dando à luz. Somente sua primeira esposa, Jeyne Royce, havia conseguido o mesmo, e havia morrido no parto, com a menina tendo nascido morta. A noite já estava alta; praticamente todos no Ninho da Águia já tinham ido dormir. Todos, menos o meistre, alguns guardas, as ajudantes que amparavam Lysa, o falcoeiro Philgas, que geralmente ficava desperto à noite, e o próprio Jon Arryn, que às vezes andava de um lado para o outro do lado de fora do quarto onde ocorria o nascimento, que estava de portas fechadas, e às vezes sentava-se em uma cadeira no corredor, colocando o rosto entre as mãos, enterrando os dedos na testa.
Como o Lorde do Vale sabia que sua esposa não o amava, tentou fazer, pelo menos, com que ela se sentisse o mais bem tratada e confortável possível, desde que os dois se casaram e ela foi morar no Ninho da Águia. Apesar de não amar Jon, Lysa aceitou o casamento de bom grado, pois não se sentia bem em Correrrio, e logo se sentiu em casa no Vale. Ali, ela era a Senhora; com os Tully, ela era só a irmã mais nova que se ressentia por achar que era menos amada que a irmã Catelyn. Ela e Elana não se davam bem; dizia que a irmã de Jon estava “agourando” as suas chances de gravidez, e quando Luwina tentava se aproximar, enxotava-a como se ela fosse um inseto. Lysa não gostava que a pequena Stone chamasse o marido de “Tio Jon”, obrigando-a a chamá-lo de “Lorde Arryn”, como qualquer pessoa de “condição inferior” faria. Inicialmente, o Lorde do Vale não se importou muito com os caprichos de Lysa, achando que era só insegurança inicial, que passaria com o tempo. Mas só piorava. Um dia, conversou com a esposa a respeito.
— Ah, então você quer que eu deixe aquela pirralha fazer o que quiser? Isso é só porque eu não te dei um filho ainda. Quando eu lhe der um filho, nem vai mais se importar com a existência dela. Vou jogá-la pela Porta da Lua. Ela e a mãe dela. Odeio as duas. Sabem que vão perder o espaço que têm aqui a partir do momento que você tiver um herdeiro. Por isso, ficam desejando que eu perca meus bebês.
— Isso não é verdade, Lysa. Elana é uma pessoa temperamental, de gênio forte e palavras duras, mas nunca, jamais desejaria a morte de uma criança. E tenho certeza de que Luwina ficará feliz ao ter mais alguém com quem brincar.
— “Gênio forte”? É assim que vocês chamam as mulheres que não têm valor, que se dão ao desfrute fora do casamento, aqui no Vale? E… NÃO PERMITIREI QUE A BASTARDINHA BRINQUE COM QUALQUER FILHO MEU!
Lady Arryn estava sendo tremendamente hipócrita, pois entregara sua virgindade quando era adolescente a Petyr Baelish, o Mindinho, tendo inclusive engravidado. Seu pai a forçara a abortar a criança, sendo este o principal motivo pelo qual odiava os Tully. Seu marido não sabia disso. Jon Arryn era um diplomata nato, e manteve a cabeça fria e o equilíbrio na discussão. Calmamente, contou a ela as circunstâncias do nascimento de Luwina, contando inclusive sobre a primeira filha de Elana, o que fez Lysa se lembrasse do bebê que havia perdido à força, e começasse a chorar.
— E é por isso, minha querida, que você deveria ser mais simpática com ela. É um pouco agitada, não consegue ficar muito tempo em um só lugar, mas é uma boa menina.
— Está vendo só como estou certa? — respondia ela, entre soluços. — É a existência dessa Stone… que não me deixa ter um filho! Ela é uma avezinha de mau agouro, tal mãe, tal filha!
“Ave de mau agouro” era o apelido ofensivo dado à Elana por ela.
— Lysa, escute. É justamente o contrário do que você está dizendo. Luwina foi uma chance de redenção dada a mim, e talvez também a você, pelos deuses. Elana ter conseguido engravidar já com idade avançada para isso é um sinal de que isso provavelmente foi providenciado pelos Sete para redimir minha alma. Hoje, tenho dúvidas se agi certo com a filha dela e de Anton Stark… mas é tarde demais para remediar este mal. O passado é tinta seca, mas o presente ainda pode ser escrito, para termos um bom futuro. Você não é obrigada a gostar de Luwina… mas pelo menos, trate-a cordialmente, com respeito. Ela não tem culpa das circunstâncias do seu nascimento.
Desde então, Lady Arryn deixou de maltratar Luwina, apesar de odiar Elana ainda mais, após saber que ela conseguira gerar, ter e criar o seu fruto bastardo, coisa que Hoster Tully não permitira. A próxima gravidez de Lysa depois desta conversa conseguiu ser levada até o fim.
Os gritos da esposa no quarto ficavam cada vez mais altos. O tempo passava, e nada parecia mudar. Quando estava perdendo a esperança, lembrando-se de sua filha natimorta, ouviu uma vozinha que o despertou de seus devaneios pessimistas:
— Tio Jon?
— Luwina? O que está fazendo aqui? Já devia estar na cama! Quem te deixou vir aqui?
— Ninguém me deixou, eu vim sozinha, não deixei ninguém me ver. Sou boa nisso.
— Vá dormir. Tia Lysa está… está muito doente. Amanhã, quando ela estiver melhor, você volta, está bem? — respondeu ele, nervoso, não muito confiante se na manhã do dia seguinte Lady Arryn estaria viva ou não.
— Não, ela não está doente – retrucou a menina. Ela está tendo um bebê, não está? Mamãe me contou como são essas coisas. Ela até me contou como os bebês são feitos.
— Sua mãe fala demais – respondeu o homem, levantando uma sobrancelha. — Você só tem dez anos, não tem idade para saber essas coisas, ainda mais sendo uma menina.
— Bom, tio, ela me diz que estar desinformada é pior, é bom eu saber de tudo desde já para não me assustar depois. E não, eu não vou dormir, vou ficar aqui rezando com você até meu primo nascer e tudo ficar bem. Dessa vez tudo vai dar certo, Tio Jon.
— Você é teimosa, menina. Tem uma mistura do gênio forte da sua mãe com o que Eddard Stark chama de “o sangue do lobo”. Está bem… sente-se aqui no meu colo. Vamos rezar juntos.
— Mamãe me ensinou a cantar uma música para os Sete, vou cantá-la para você, tio.
(canta a música The Song of the Seven)
— Por que não cantou comigo?
— Cantei em pensamento. Queria ouvir sua voz. Se continuar assim, vai cantar tão bem quanto sua mãe. Sou um pássaro que não canta, então me calo quando aparece algum que sabe.
A menina riu. O tempo passava mais rápido com ela ali. Então, em um dado momento, os gritos cessaram, e fez-se um silêncio mortal no quarto. Não se ouviu nenhum choro. Luwina pôde imaginar o que se passava pela cabeça do tio: o bebê tinha nascido morto, e Lysa tinha morrido também. Mas continuou animando Jon Arryn:
— Não desista, vamos continuar rezando! Vamos lá: Estranho, tenha piedade… Estranho, tenha piedade… Estranho, tenha piedade…
O Lorde do Vale apertou firmemente a mão de sua sobrinha bastarda conforme repetia junto a ela estas palavras. Após a sétima repetição, ouviu-se finalmente um choro de bebê no quarto. O rosto do homem iluminou-se em um sorriso, e uma lágrima escorreu pelo seu rosto.
— Você… está chorando, Tio Jon? Nunca te vi chorar antes...
— Sim, querida, estou chorando. De alegria.
Teve vontade de entrar no quarto imediatamente, mas sempre foi um homem paciente e equilibrado, ficando onde estava, esperando o Meistre Colemon sair. Quando ele finalmente saiu, Jon Arryn levantou-se bruscamente da cadeira, quase esquecendo-se de que Luwina estava sentada em seu colo. O meistre parecia abatido, exausto, mas visivelmente satisfeito.
— Tenho a honra de lhe dizer, Lorde Arryn… que o Vale finalmente terá um herdeiro. É um menino. Nasceu um pouco franzino, é um pouco mais frágil do que os outros recém-nascidos, mas com os cuidados adequados, vai sobreviver. Dei à Senhora Lysa, após mostrar-lhe a criança, um pouco de leite de papoula e vinho dos sonhos, para que se recupere melhor da convalescença. Logo irá adormecer, mas amanhã irá acordar bem.
Luwina e Jon entraram no quarto. Uma das parteiras deu a ele o bebê embrulhado. Muito mais lágrimas brotaram de seu rosto quando viu as mãozinhas da criança debatendo-se, tentando desvencilhar-se do pano. Finalmente, depois de pouco mais de setenta anos, era pai, alcançando a redenção de seus pecados. Finalmente, o Estranho poupara seu filho e sua esposa.
— Já sabe que nome vai dar a ele, Tio Jon?
— Vai se chamar Robert. Que ele seja alegre, saudável, forte e corajoso como Robert Baratheon. Mas agora seja uma boa menina, e cumpra sua promessa, vá dormir. Você me prometeu que iria para a cama quando visse que tudo estava bem. Mantenha-se sempre…
— “Tão Alta quanto a Honra”. Eu sei. Não sou uma Arryn, mas cumprirei minha promessa, e virei ver meu primo amanhã. Boa noite!
Saiu saltitando para o quarto. Jon Arryn sentou-se na cama, ainda com o pequeno Robert em seus braços, segurando-o com uma mão, e acariciando os cabelos de Lysa com a outra mão.
— Obrigada, minha senhora – murmurou ele – obrigada por este presente magnífico.
Ela sorriu ternamente em resposta, adormecendo logo depois. Ele devotou novamente toda a sua atenção para o bebê. Agora que sabia qual era a sensação de ter um filho nos braços, pensou em Elana quando foi separada de sua primeira filha, que seria irmã mais velha de Luwina. E finalmente se deu conta do quanto foi horrível sua decisão de mandar a criança embora, aterrorizando-se com a ideia de que alguém aparecesse ali e arrancasse Robert dos seus braços para nunca mais devolver.
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