O Falcão Cinzento
3 Berneth
Assim que finalmente conseguiu dormir e descansou, um eufórico Jon Arryn disparou a escrever cartas contando do nascimento do seu filho, disparando tantos corvos para fora do castelo que quase cobriram parcialmente o Sol. Convidava todos os lordes para um banquete em seu castelo dali a três meses, em honra ao novo Herdeiro do Vale. Não quis arriscar-se a descer até o castelo de Portões da Lua, maior e mais acessível para visitantes, por medo de que acontecesse algo ao menino na viagem. Explicou na carta que seu filho possuía uma saúde um tanto frágil, e compreenderia se alguém não conseguisse se deslocar para um local de difícil acesso como o Ninho da Águia, mas pela segurança do bebê faria a festa nele. Meistre Colemon explicou que dar leite materno até uma idade acima da que normalmente as crianças eram desmamadas era algo que poderia fazer bem a Robert Arryn, o que Lysa seguiu à risca. Não quis contratar nenhuma ama de leite: fazia questão de amamentar o garoto ela mesma. Elana foi consolar a filha, lamentando-se com o fato de que quando ela nasceu não foi dado nenhum tipo de festa com convidados de fora.
— Não se preocupe, mamãe, eu nem gosto muito dessas festas cheias de gente chata, metida e mentirosa. Você tem que pedir desculpas para mim por outras coisas, não por isso. Como não me deixar aprender a usar um arco ou uma espada, por exemplo.
— Você é uma dama, Luwina. Já é toda desajeitada nos gestos, na fala e no andar, não tem muita vaidade, faz amizade com pessoas esquisitas como o Philgas, imagine se quiser aprender estas coisas de menino?
— Eu sou bastarda, graças aos Sete nenhum desses lordes está nem aí para o que eu faço ou deixo de fazer. Nenhum deles daria um filho seu para se casar comigo. Aliás… todo mundo fala que ser bastardo é ruim, mas eu acho ótimo. Não quero que ninguém me obrigue a me casar. E o Philgas não é estranho, não fale mal dele, só porque ele usa um manto enfeitado com penas de falcão que caíram, gosta de trocar o dia pela noite, conversa com os falcões imitando os piados deles e come carne crua como eles? É quase um falcão em forma humana, só falta voar! Tio Jon não o escolheu para ser o falcoeiro do Ninho da Águia à toa, muitos nobres bobões queriam essa posição, mas nenhum deles tem a metade do talento e da simpatia do Philgas!
— Agradeça, Luwina, por eu deixar você se dedicar à falcoaria, à música e aos livros, em vez de obrigá-la a estudar bordado e conhecimentos domésticos como as filhas de senhores fazem. Não abuse da liberdade que você já tem. E lembre-se, que por ser uma bastarda, você sempre tem que mostrar o dobro do esforço e do empenho que um filho legítimo mostra para conseguir a mesma coisa. Portanto, não se acomode.
— Será que o papai vem?
— Não sei, se ele vier, vai ter que arranjar alguma desculpa para a esposa dele, como sempre.
Alber Stark aparecia no Ninho da Águia para visitar sua filha ocasionalmente, mas ainda não contara sobre ela para sua esposa, que não podia ter filhos, e sua mãe. A menina não se sentia muito bem perto do pai; ele ainda era como um estranho para ela. Nas visitas, ela ficava tensa, calada, com medo, como se qualquer gesto em falso pudesse desagradá-lo.
Os Baratheon foram os primeiros a chegar; vieram de barco das Terras da Tempestade. Robert, o primogênito, chegou logo dando em Jon Arryn um forte tapa carinhoso nas costas e um abraço quebra costelas.
— Ha! Parabéns, até que enfim sua masculinidade deu às caras! Que venham muitos mais!
— E a sua falta de noção já deu as caras, pelo jeito – retrucou sua esposa, Lyanna Stark, irmã de Eddard. — Perdoe meu marido, Lorde Arryn. Bom, você já o conhece bem… se nem você conseguiu consertá-lo, ninguém conseguirá!
— Senhora Lyanna. É uma honra tê-la aqui no Ninho da Águia. Só alguém com o sangue do lobo teria força o suficiente para desposar alguém tão… enérgico como Robert.
— Claro, Jon, e é por isso que ela é perfeita para mim, ela é forte como eu! Teremos muitos filhos cheios de energia como nós! — levantou a esposa com uma das mãos. Ela se desvencilhou rapidamente, torcendo o braço de Robert, que fez uma careta.
— Se quer ter mais filhos, pare de ficar dando trabalho aos meistres dos castelos de todos os banquetes a que você vai, por ficar bebendo demais. Meistre Colemon já tem um Robert pequeno pra cuidar, não dará conta de cuidar de outro grande.
— Ora, Lyanna, pelos sete infernos, quem disse que eu fico dando trabalho aos meistres? Minha resistência à bebida não se compara a de ninguém em todos os Sete Reinos! Viemos aqui comemorar o primeiro falcãozinho que nasce vivo depois de décadas, percorremos um caminho difícil até aqui, e você quer que eu beba pouco? Deixe-me lembrar os dias de minha juventude aqui, quando eu me divertia à valer!
— Ah, então agora você não se diverte mais?
— Não preciso mais. Você preenche uma parte de mim que nem os Sete Reinos preencheriam, se por acaso eu fosse rei. Ou, tecnicamente, seria eu que preencho uma parte de você?
— Robert, se fizer mais uma piadinha maliciosa, na nossa próxima cavalgada, eu vou acidentalmente me aproximar de você e fazer meu cavalo te derrubar, na frente de todos. Vamos ver o bebê? Lorde Arryn tem outros convidados para recepcionar. Acredito que Ned não demore muito.
Afastou-se pisando duro, puxando Robert pelo braço. O primogênito Baratheon, antes de se afastar completamente, cochichou no ouvido de Jon Arryn: “Eu amo essa mulher”. A personalidade ousada e sincera de Lyanna lembrava um pouco Luwina Stone ao Lorde do Vale. Inclusive, quando o nome da menina foi escolhido, notou que soava parecido tanto com “Lyanna” quanto com “Rowena”, duas mulheres por quem sempre teve muito carinho.
Eddard Stark, chamado de Ned pelos íntimos, chegou no dia seguinte. Apesar de ter feito um longo caminho desde Winterfell, procurou não chegar muito em cima da hora. Acompanhavam-no a esposa, Catelyn, e as duas crianças mais velhas, Robb e Sansa. Os outros dois filhos, Arya e Brandon, chamado de Bran, ficaram em Winterfell, pois eram muito pequenos para viajar. O pequeno Robert estava, como quase sempre, agarrado ao peito de Lysa. Quando ela viu a irmã, cumprimentou-a com satisfação e uma leve ar de superioridade, como se dissesse “viu só, agora eu também sou mãe, meu filho é o herdeiro do Vale”. Após ver o bebê, Ned Stark perguntou onde estaria Luwina Stone; foi-lhe dito que estava treinando falcoaria no pátio, e que poderia aparecer quando realmente a festa começasse.
— Por que tem interesse na menina bastarda? — perguntou Catelyn, sem ninguém ouvir.
— Ela também tem o sangue Stark. Alber nunca a levou para o Norte para que a conhecêssemos; diz que a mãe dela não permite que ela saia do Ninho da Águia. Por isso… gostaria de vê-la. Não me importo que seja ilegítima.
Catelyn assentiu, um tanto contrariada. Os convidados foram chegando; praticamente todas as casas maiores, e muitas das menores, de Westeros, encontravam-se ali. Cada uma mandou poucas pessoas em sua comitiva, pois sabiam que o Ninho da Águia não era muito grande. Os Tully, apesar de estarem próximos e serem parentes diretos da criança, foram alguns dos últimos a chegar. Chegaram pouco depois da Rainha Elia e seus filhos, que vieram representar o rei Rhaegar. Lorde Hoster fingiu não conhecer o irmão, Brynden Tully, que agora servia o Ninho da Águia. O encontro com Lysa foi polido e cordial, mas cheio de tensão. Assim que o pai se afastou, ela pediu licença, e foi ao quarto chorar um pouco.
Um dos últimos a chegar foi Mace Tyrell com sua mãe, Olenna, que fizera questão de vir não só para ver o pequeno Robert, mas para ver Elana, com quem tivera muito contato na juventude. Os pequenos Loras e Margaery também acompanhavam a viagem; os outros filhos ficaram em Jardim de Cima.
— Perdoe-me o atraso, Lorde Arryn – desculpou-se Mace. — Tivemos algumas complicações no caminho. Vimos que havia vários homens seus garantindo a segurança nas estradas, mas… um fedelhozinho deve ter escalado as paredes, livrando-se da vigilância, e tentou roubar minha carruagem. Nós o amarramos no lombo de um dos cavalos. Quero ver se nós simplesmente o arremessaremos pela Porta da Lua ou se deixamos o corpo dele em algum lugar para servir de exemplo para os outros selvagens. Francamente, Jon, por que você não mata todos de uma vez?
— Porque eles também são parte do povo do Vale. Eu só os ataco quando fazem mal a algum inocente. Não posso promover um massacre sem motivo nenhum. Traga-o para mim; irei conversar com ele. Não pretendo que ocorra nenhuma morte na festa pela vinda do meu filho. A Morte atrai mais morte, e a Vida atrai vida.
Luwina havia terminado de se arrumar, após uma longa discussão entre ela e sua mãe sobre qual vestido deveria usar. Elana segurava a filha firmemente pela mão, e ela espiava o salão cheio de longe. Quando viu levarem o menino acorrentado para perto de Jon Arryn, conseguiu desvencilhar-se da mãe, sem que ela percebesse, e esgueirou-se até onde estava seu tio.
O garoto tinha cerca de onze ou doze anos, não mais do que isso. Parecia ser alto e forte, tinha espessos e ondulados cabelos pretos e olhos azuis bem vivos. Seus pulsos, costas e tornozelos estavam machucados por causa das correntes, mas ele não demonstrou estar sentindo dor.
— Você tem nome, menino? A que grupo você pertence?
— Sou Berneth, do clã dos Irmãos da Lua.
— Por que tentou roubar a carruagem de Lorde Tyrell?
— Ora, Lorde Arryn – cortou Mace, impaciente – isso é pergunta que se faça? Ele me roubou porque é um fedelho sem berço e sem caráter, só isso!
Jon fez sinal com a mão para que ele se silenciasse, e continuou falando com o menino, que respondeu à pergunta o mais polidamente possível:
— Os seus homens fazem muito barulho, assustam a caça. Além do mais, muitos nos prendem simplesmente por aparecermos perto das estradas, o que dificulta mais ainda nossa situação. Estávamos com dificuldades para encontrar comida. E sei que a Campina é a região mais rica dos Sete Reinos, então imaginei que Lorde Tyrell teria muito dinheiro e comida em sua carruagem.
— Não lhe ocorreu, menino tolo, que por ser rico, eu também tenho muitas tropas?
— Silêncio, Mace. Eu faço a justiça no Vale.
— Se você não jogar esse menino pela Porta da Lua, eu mesmo o matarei e jogarei! Por que se preocupar com a vida dele, é só um fedelhozinho sem importância, vale menos que um bastardo! Trouxe-o aqui para que sirva de alerta e exemplo para todos, mas se você não colaborar, Lorde Arryn, eu mesmo farei a justiça. Pode ser o seu castelo, mas ele entrou na MINHA carruagem!
Os guardas que acompanhavam Mace Tyrell desembainharam as espadas.
— PAREM! — Luwina gritou, correndo e ajoelhando na frente de Berneth, protegendo-o.
— Ué, quem é essa menina, saiu da mesma toca de ratos que ele saiu?
— Sou Luwina Stone, lorde Tyrell. E não vou deixar ninguém morrer na festa do nascimento do meu primo. A morte é uma pena pesada demais para roubo, e você está desrespeitando meu tio.
— Era só o que me faltava, uma menina bastarda me dizer quais são as leis!
— É algo digno de alguém que precisa de vários guardas para atacar um menino acorrentado e desarmado – provocou um dos Martell.
— Este pequeno gatuno me deu trabalho, precisei de quatro homens para imobilizá-lo!
— Basta – exclamou Jon Arryn, levantando ambas as mãos. Era raro vê-lo perdendo a paciência. — Luwina, você disse que a morte é uma pena pesada demais para ele… que pena você lhe daria, então? Lembre-se de que, apesar de tudo, ele cometeu um crime, e merece punição.
A menina fechou os olhos e refletiu. “Não posso dizer algo brando, pois irá enfurecer ainda mais Lorde Tyrell, o que não seria bom para ninguém. Mas também não posso deixar que o matem. Eu queria ajudá-lo… como posso fazer isso, e ao mesmo tempo acalmar os ânimos de todos? Ele chegou até a carruagem dos Tyrell escalando a parte íngreme da montanha... espere, é isso, já sei!”.
— Que ele seja trancado nas Celas do Céu – falou finalmente Luwina. — Ficando um tempo preso, poderá, quando for solto, avisar seus companheiros de clã o quão perigoso é tentar roubar a carruagem de Lorde Tyrell.
Mace riu.
— Ora, as Celas do Céu! Como não me lembrei delas antes? Uma das prisões mais temidas dos Sete Reinos! O menino vai ficar louco ali, ou morrer de frio, e vai se jogar! Seria perfeito.
— Você está fazendo um papel ridículo – comentou Olena Tyrell, com sua famosa língua ferina, que lhe rendera o apelido de “Rainha dos Espinhos”. — Parece uma criança que deixou cair seu doce. Espanta-me como o orgulho dos homens é frágil.
— Pois bem – suspirou Jon Arryn – que Berneth seja levado para as Celas do Céu.
Deu uma boa olhada no menino enquanto eram tiradas as correntes e ele era levado. Ele se parecia muito com Robert quando era criança. Viu que ele fez cara feia para Luwina. Possivelmente o menino se sentia traído por ela, pois primeiro ela o salvou, e depois o jogou em um lugar inóspito como as Celas do Céu, que não tinham paredes para o lado de fora, o que as deixavam frias e barulhentas por conta do vento. Muitos que eram presos nelas se jogavam, tirando sua própria vida.
“Por favor”, pensava Luwina, “por favor, aguente firme até eu conseguir te tirar de lá”.
Com Lorde Tyrell satisfeito, a festa prosseguiu. Eddard Stark foi cumprimentar Luwina, que fez uma reverência exagerada; não imaginava que alguém distinto como ele fosse falar com ela.
— Jon Arryn me fala muito de você. Fico feliz em ver que você aprendeu bem o senso de justiça e a honra dos Arryn. Tem o porte altivo da família da sua mãe… mas os traços do seu rosto sem dúvida são do Norte. Você lembra muito minha irmã Lyanna quando era menor. E, pelo que vi, não é só na aparência que você é parecida com ela. No Torneio de Harrenhal, há alguns anos atrás, ela ameaçou com uma espada três homens que atormentavam um pequeno cranogmano.
— Sério que ele fala de mim para o senhor, Lorde Stark? E meu pai, também fala de mim?
— Não encontro-me muito com seu pai, ele, sua avó Myrra e sua madrasta Cienne moram no castelo de Stoneshore, um lugar um tanto inacessível. Quando for visitá-los, conversarei sobre você.
— Obrigada, Lorde Stark, foi uma honra conhecê-lo!
Viu sua mãe, Elana, que a estava procurando; correu ao encontro dela.
— Mamãe, mamãe, conversei com Lorde Stark agora, e ela disse que o Tio Jon fala de mim para ele? Será que ele me leva para conhecer Winterfell um dia? Afinal, de uma forma de outra… eu sou uma Stark, não sou? Ele disse que sou parecida com a irmã dele…
— Provavelmente ele só estava sendo cordial, querida. Se acontecer, ótimo, mas é bom não sonhar muito. E agora já sei como te achar, é só ver onde está ocorrendo alguma confusão.
Elana disse aquilo porque sempre foi uma pessoa mais dura, não costumava ser muito otimista sobre os fatos, mantendo expectativas baixas, para evitar decepções; mas sabia que Eddard Stark tinha grande carinho pela irmã, e se comparou Luwina com ela, era porque realmente gostara da menina. Seu coração aqueceu-se secretamente.
Jon Arryn fez um discurso emocionado sobre como se sentia feliz pelo afortunado nascimento, sendo aplaudido no final. Luwina notou que muitos aplausos pareciam ser falsos, especialmente os da maioria dos vassalos do Vale. Elana foi chamada para cantar uma canção; cantou a de Florian e Jonquil, bem conhecida. A pequena Sansa Stark foi às lágrimas com a beleza da canção e da voz de Elana Arryn, o Pássaro Encadeado; aquela tornar-se-ia sua canção predileta. As pessoas pediram mais músicas; ela cantou ainda uma canção de pescadores, em homenagem aos Tully, e “The Wolf and The Moon”, uma música que lhe lembrava Anton.
Aos poucos, todos foram dormir. Luwina esperou ansiosamente por esse momento; surrupiou uma garrafa do melhor vinho servido na festa e foi até as Celas do Céu. Pediu ao carcereiro para conversar com Berneth; ele não permitiu inicialmente, mas a menina disse que, se ele permitisse a entrada dela, poderia ganhar o vinho.
— Ele não vai fugir de lá. Ainda estará lá depois que eu falar com ele, eu lhe prometo.
Entrou. Achou Berneth após procurar um pouco; estava sentado com as costas na grade da porta. Cutucou-o devagar, para que ele não se assustasse; o menino, porém, reagiu com fúria:
— VAI EMBORA DAQUI!
— Berneth, fale baixo, eu quero…
— Quer comemorar por ter me prendido aqui? Quer me humilhar? Mas você não vai, NÃO VAI! As lanças e machados dos povos do Vale um dia vão atravessar vocês!
— QUER FICAR QUIETO E ME ESCUTAR? — berrou Luwina, segurando forte a gola da roupa do jovem prisioneiro. Voltou a falar sussurrando: — Eu fiz isso pra te ajudar! Não tinha como eu fazer nada melhor ali na hora! Mas… eu vim para te tirar daqui. E se você não parar de ficar fazendo barulho, não posso te ajudar.
— E como é que você pode me tirar daqui? Você é uma menina, não tem força para isso – retrucou o rapaz, ainda na defensiva, mas passando a também falar baixo.
— Não preciso de força para isso. Mas talvez você precise – respondeu ela, tirando de dentro de sua capa ferramentas de escalada, que trouxe escondidas. — Se você conseguiu escalar a montanha para roubar Lorde Tyrell… talvez consiga escapar dessa cela escalando a parede para baixo. Só por favor, espere alguns dias para fazer isso, para o carcereiro não saber que fui eu. Ninguém vai estranhar seu sumiço, vão pensar que você se jogou.
Berneth puxou rapidamente para dentro da cela, sem dizer nada, as ferramentas – uma grande corda com gancho, algumas estacas e uma machadinha pontuda de um dos lados.
— Não desça em linha reta, há pedras pontudas ali em baixo, não há lugar seguro para finalizar a escalada. Tente ir até outra parede, a que dá para as Lágrimas de Alyssa, para só então descer. E, para eu ter certeza de que você desceu em segurança… por favor, deixe isso ao lado da queda das Lágrimas de Alyssa; vou pedir para um falcão me trazer de volta.
Entregou a ele um broche de metal no formato de duas asas abertas. As Lágrimas de Alyssa eram uma enorme cachoeira que caia atrás do castelo, e não se sabia ao certo onde acabava, pois suas gotas não tocavam o chão do Vale.
Berneth estava agradecido, mas ao mesmo tempo assustado e inseguro.
— Por que está fazendo isso? O que quer de mim?
— Só quero que você seja livre, Berneth. Agora, eu tenho que ir… cuide-se.
— Espere – disse ele quando ela já estava no final do corredor das celas, e iria ficar longe da visão do garoto.
— O que foi?
— Você… você é bonita. Só queria te dizer isso… caso eu caia escalando a parede.
A menina ficou parada, olhando para ele. Teve que sair correndo, pois o carcereiro se aproximava. Deu a ele o vinho prometido, e foi dormir. Ao amanhecer, pediu a Philgas, o falcoeiro, que mandasse um falcão sobrevoar as Lágrimas de Alyssa a procura do broche. Entristeceu-se nos primeiros dois dias, pois a ave voltou sem nada. Mas no terceiro dia, voltou com o broche.
— Ele conseguiu – exclamou uma radiante Luwina para o falcoeiro. — Viva, ele conseguiu!
Foi dito a Jon Arryn que Berneth havia se jogado. Mace Tyrell gargalhou, virando uma taça de vinho num gole só. O Lorde do Vale havia se esquecido completamente do garoto, por causa da festa; todas as suas atenções estavam concentradas em seu filho. Lembrou-se de sua fisionomia: cabelos pretos grossos e ondulados, olhos azuis, constituição robusta. Uma suspeita passou pela sua mente: poderia ser aquele rapaz um bastardo de Robert Baratheon, gerado nos tempos em que ele era solteiro e morava no Ninho da Águia? Isso fez com que Jon se entristecesse um pouco, pois Robert era como um filho para ele; o menino seria um bastardo, mas do sangue de Robert de qualquer forma. Todos os Baratheon que conhecera tinham cabelos pretos; seria apenas coincidência, ou a semente daquela família realmente era tão forte?
— Meistre Colemon – ordenou ele, assim que o meistre esteve em sua presença – mande um corvo para a Cidadela, preciso de descrições da genealogia da família Baratheon, com descrições de aparência física. Quero investigar algo. Darei grande contribuição à Cidadela pelo trabalho.
Depois de alguns dias, todos os lordes se retiraram, e voltaram para seus castelos. Anter de voltar a Winterfell, Eddard Stark disse que tinha algo a fazer em Stoneshore; orientou a esposa a ir diretamente para casa, e prometeu que logo voltaria também, assim que resolvesse o assunto. Foi recebido pela tia, Myrra Stark, com entusiasmo e respeito.
— Sua neta é adorável, minha tia – comentou o Lorde de Winterfell no almoço do dia seguinte ao que chegara ali – você deveria conhecê-la. Encontrei-a na festa de Robert Arryn.
— Neta? Que neta? Não sei de neta nenhuma.
Alber Stark ficou branco, não sabia o que dizer. Cienne deu um grito e começou a passar mal; o meistre teve que ser chamado.
— Que fique bem claro – ponderou Ned, quando percebeu a tensão – que não houve nenhuma traição, pelo que entendi. Luwina nasceu antes do casamento de Alber com Cienne.
— Luwina? Então ela tem até nome? — falou a senhora Myrra, interessada. — Alber, por que não me contou? Quem é a mãe dela?
— É… Elana Arryn. Ela já estava com idade avançada, queria muito ter um filho… e me seduziu. Ela não deixa a menina sair do Ninho da Águia, é louca, por isso não contei nada. Eu tive medo também por Cienne, veja o estado em que ela ficou.
— Se você tivesse dito isso à sua esposa antes, teria poupado este transtorno – ponderou Ned, levantando uma sobrancelha. — E, pelo que vi no Ninho da Águia, não é verdadeira esta história de que a menina não pode sair de lá. Pelo contrário, tem muita liberdade.
— Sendo verdade ou não, não importa – exclamou Myrra, enérgica. — Quero conhecê-la. Alber, traga-a aqui imediatamente, assim que puder ir para o Ninho da Águia.
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