O Ex-Namorado Perfeito
3 O Pavê
Notas iniciais
Depois do dia catastrófico, porém rotineiro, que Victória tivera, tudo o que mais desejava era uma boa noite de sono para encerrar de vez aquele pesadelo. O que certamente não veio a acontecer.
Após se despedir de sua mãe e de Fernanda. Tomou um banho demorado, respondeu todos os e-mails importantes, olhou em sua agenda o que lhe aguardava no trabalho no dia seguinte e só então foi se deitar, quando já era por volta de meia-noite. Depois de vinte minutos olhando para a cortina tremulando com o ar que entrava pela janela do seu quarto entreaberta, Victória percebeu que não adiantava o quanto quisesse dormir fingindo que seu dia havia sido normal, então deixou que sua mente fosse invadida por lembranças ainda bastante vivas do dia que tivera. Carlos terminando com ela, que levou a um jantar desastroso, que levou a um breve encontro com Pedro, o estranho gato novo no prédio, mas que agora, havia se tornado menos estranho.
Eis um fato curioso sobre como Victória lidava com as coisas ruins que aconteciam em sua vida, ela imaginava como tudo poderia acontecer de maneira diferente, se tivesse se portado de uma maneira diferente. E mesmo sabendo que acordaria cheia de arrependimento, não havia nada que pudesse fazer. Primeiro, o encontro com Carlos.
Carlos havia acabado de chegar na cafeteria e caminhava em direção a Victória.
“Desculpa a demora, o trânsito está horrível”
“Tudo bem”
Victória se levantou de imediato para receber o seu ainda namorado com um beijo.
“Victória…”
Carlos não retribuiu o beijo, afastando-a com as mãos em seus ombros.
“Eu te amo, Carlos. Eu te amo e não quero que isso acabe”
Carlos a olhou profundamente, enquanto encostava seus dedos delicadamente nos lábios macios dela.
“Não precisa dizer mais nada”
Carlos a beijou com uma ferocidade acolhedora, envolvendo o corpo de Victória em um abraço apertado. As outras pessoas na cafeteria se viram obrigadas a parar para admirar aquela paixão ardente que todos desejavam ter. Aplausos ecoaram pelo lugar, mas nenhum dos dois apaixonados perceberam, estavam focados apenas nos lábios um do outro, perdidos naquele beijo interminável.
Preciso dizer que a parte dos aplausos fora totalmente desnecessária e fantasiosa, mas não é como se ela tivesse total controle de sua imaginação extremamente fértil. Dito isso, a primeira fase das lamentações de Victória havia acabado. Como aquele encontro com Carlos poderia ter sido diferente. Mas infelizmente, não foi.
Segundo, o desastroso jantar. Pensar em como seria se Carlos não tivesse terminado com ela, fez Victória pensar em como seria o jantar se ainda tivesse um namorado para apresentar aos seus pais.
Depois de uma tarde divertida na cozinha do apartamento, Victória e Carlos estavam prontos para receber os pais dela no que seria um maravilhoso jantar em família. E já que tudo não passava de um fruto da imaginação de Victória, sua mãe, Ivone, chegou pontualmente e não trinta minutos antes. Seu pai, Arthur, não levou a nova namorada. E o jantar ocorreu com a maturidade que faltava em todos no mundo real.
“Quando é que vocês vão me dar um netinho?”
Ivone passou a noite fazendo comentários divertidos que constrangiam o jovem casal.
“Mesmo morando um tempo em Paris, somos apaixonados pelo Instituto Ricardo Brennand, não acredito que nunca foi à Recife. Será para onde iremos nas próximas férias em família, você vai adorar”
Thiago passou a noite encantando Carlos com todo o seu conhecimento sobre artes e encantando-o ainda mais por incluí-lo em seus planos familiares.
“Nos esbarramos no supermercado, o carrinho dela era praticamente só açúcar e leite condensado, então ela meio que se sentiu na obrigação de explicar que tinha um bufê. E era exatamente do que eu precisava. Bem, a minha irmã precisava para sua festa de noivado. No fim das contas, nós dois saímos ganhando”
Carlos contou como se conheceram, adicionando pitadas ideais de humor e romance, enquanto Victória assistia com os olhos brilhando.
Fora uma noite divertida, as horas passaram voando. Já passava das dez quando Ivone e Thiago resolveram ir embora. Os dois maravilhados com o genro que acabaram de conhecer. Victória e Carlos acompanharam os dois até o térreo. E na volta para o apartamento, enquanto esperavam pelo elevador, a porta se abriu e Pedro saiu de dentro do elevador.
“Boa noite”
Pedro falou, passando pelo casal abraçado.
Espera. Por que Pedro estava nessas lembranças que nunca aconteceram? Seu dia havia sido perfeito. Carlos não terminou com ela e o jantar tinha sido fantástico. Naquele universo alternativo não deveria ter espaço para Pedro, o estranho gato.
Inevitavelmente, Victória começou a pensar sobre seu dom de ver uma parte muito específica de seu futuro. Ela se considerava uma pessoa muito próxima do destino. Então, e se as coisas aconteceram do jeito que aconteceram por um motivo? Se questionou.
Carlos terminou com ela, e por causa disso o jantar que deveria ter sido ótimo foi um desastre, e por causa disso, Victória acabou chorando na praça do condomínio, onde conheceu o Pedro. E foi pensando nas coisas exatamente como aconteceram naquele dia, que Victória adormeceu.
Depois de uma noite de sono não tão boa, mas satisfatória, Victória se levantou pela manhã. Como era mais cedo do que deveria ter se levantado da cama, teve tempo para preparar um café e tomá-lo em sua varanda, enquanto observava a cidade acordar junto com ela. O café demasiadamente forte e quente fazia com que não precisasse fugir do vento frio da manhã em seu corpo pouco coberto com um pijama delicado.
Importante mencionar que ela não estava pensando em Carlos naquele momento. Nem quando tomou banho, nem quando se vestiu para o trabalho, nem quando tomou um ligeiro café da manhã. E estava orgulhosa por isso. Um longo dia de trabalho estava por vir e era só nisso que queria pensar.
Até que Fernanda, que morava dois andares acima, chegou em sua porta para irem juntas aos seus trabalhos, como faziam duas vezes por semana, o trabalho de Victória não exigia que chegasse tão cedo todos os dias. Talvez ser a chefe tenha algo a ver com isso.
— Como você está?
Carlos.
— Estou bem.
Carlos. Carlos. Carlos.
— Vai ficar ainda melhor. Me dá o seu celular.
Victória entregou o seu celular e o deixou com Fernanda enquanto foi buscar sua bolsa e trancou seu apartamento, pronta para ir trabalhar, sem distrações. Exceto por uma.
— Pedro?
Victória pegou seu celular de volta e se espantou – de um jeito positivo – quando viu uma foto de Pedro nele.
— O que você fez? — Victória perguntou, mas em seu pensamento, a verdadeira pergunta que gostaria de fazer era “como ele está ainda mais gato em uma tela de 4.7 polegadas?”
— Consegui o Instagram dele – Victória respondeu cheia de orgulho.
— Como? — Geralmente Victória costumava questionar as pessoas olhando em seus olhos, mas não seria o caso já que estava segurando uma mini versão igualmente perfeita do estranho gato.
— Você me falou o nome e disse que chegou no prédio há quatro dias. Isso são informações mais do que o suficiente para mim – falou ainda mais orgulhosa – você é boa com petits gâteaux e outras sobremesas, e eu sou boa nisso. Embora eu também saiba fazer um pavê maravilhoso.
As duas caminharam sorrindo até o elevador. Desceram até o estacionamento em silêncio e enquanto Fernanda foi buscar o carro, Victória permanecia enfeitiçada pelo seu celular. Ao passo que em sua mente, já não havia indícios do nome Carlos.
— Pronta para ir trabalhar? — Fernanda chamou ao volante do seu carro, convidando sua amiga a entrar.
Durante todo o caminho até o trabalho de Victória, que ficava bem antes de onde Fernanda trabalhava, as duas quase não conversaram. O que não seria precisamente uma novidade. As duas eram amigas há muitos anos e moravam no mesmo prédio, logo, se viam e conversavam sobre tudo o tempo todo. Então não era de se espantar uma manhã de silêncio entre as duas. Embora o motivo principal para aquele silêncio seja o fato de Victória não enxergar nada além do seu celular.
— Você fica por aqui.
Fernanda estacionou o carro e esperou que Victória saísse, sorrindo de como sua amiga estivera tão distraída. Mas não conseguia julgá-la, ela mesma tinha passado um bom tempo olhando aquelas fotos, mas claro, só como análise para saber onde sua amiga estava se metendo. Fernanda era comprometida e muito feliz com seu namorado.
— Bom trabalho – Fernanda se despediu de Victória quando saiu do carro.
Victória quase não ouviu nada do que sua amiga falou, e continuava olhando outras fotos de Pedro em seu celular quando se virou e disse:
— Você falou algo sobre Pavê?
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