O Ex-Namorado Perfeito
4 O Pedro?
Notas iniciais
A manhã de segunda-feira no Buffet Doce Vida começou como outra segunda qualquer. Victória chegou cedo, falou com todos os funcionários, foi para a sua sala e se reuniu com sua gerente, Mariana, para conversarem sobre tudo relacionado ao bufê.
— E agora ela resolveu mudar... — Mariana parou de falar quando notou que sua chefe não estava muito interessada nas coisas que dizia. Hipnotizada pelo celular. — Victória?
Victória levantou a cabeça assustada, encarando Mariana por trás de sua mesa cheia de papéis.
— Mil desculpas.
Victória gostaria de acrescentar algo como, você entenderia se estivesse olhando o mesmo perfil que eu no instagram, mas não achou que fosse algo apropriado de uma chefe dizer. Ou qualquer pessoa.
— Estou meio distraída com umas coisas. — Uma coisa. Ela quis dizer. — Mas chega de celular. O que estava dizendo?
Determinada a não pensar mais no Pedro durante o seu dia no trabalho, onde aquilo estava sendo totalmente inapropriado e desrespeitoso com seus funcionários, Victória excluiu momentaneamente todas aquelas fotos maravilhosas da sua cabeça e permitiu-se ser invadida por doces novamente.
— É sobre a festa de casamento dos Campos. A esposa mudou de ideia e agora quer acrescentar Pedro na festa pós cerimônia.
Victória não acreditou no que acabara de ouvir. Estava tão concentrada em tudo que Mariana dizia, então por isso ficou tão surpresa quando ouviu aquele nome sair de sua boca tão naturalmente.
— Acrescentar quem?
— Macarons. A esposa ouviu dizer que macarons já foram sinônimo de nobreza, então achou propício colocá-los em sua festa.
— Macarons. Certo.
Ainda desconsertada, Victória abriu uma planilha no notebook sobre a mesa e fez alguma alteração. Voltando sua atenção para Mariana.
— Também precisamos falar sobre o Pedro, ele está com algum problema na cozinha…
— Espera, quem?
— O Diego. Ele está atrasando muitas entregas e ele anda meio distraído ultimamente.
O que está acontecendo? Victória se perguntou.
— Está tudo bem?
Definitivamente não está tudo bem.
Carlos tinha terminado com ela (de novo). Seus pais tornaram sua noite ainda pior. E como se não fosse o suficiente, sua mente estava fixada no que parecia ser sempre o ponto inicial de todos os seus problemas, um homem.
— Estou bem – mentiu.
E pelo resto da manhã, foi tudo o que Victória fez. Começando quando mentiu para si mesma no exato momento em que pensou, não vou pensar mais no Pedro.
Quando a primeira cliente do dia chegou, Victória já esperava estar totalmente livre da coisa com a letra P – que certamente não se tratava de pudim, petit gateou ou pavê – e assim conseguiu colocar toda a sua atenção a uma cliente exigente, que sempre fazia questão de ser atendida por Victória. E para sua infelicidade, tudo o que a mulher falava era um gatilho para a coisa com a letra P surgir em sua mente no formato de post do instagram.
— Vai ser uma festa sofisticada, por isso quero doces bem específicos…
Pedro em alguma festa de gala. Ele estava sorridente na foto, segurando um copo com uísque e rodeado de pessoas, amigos, provavelmente. Estava ainda mais lindo de black tie. Parecia um homem amigável e de riso fácil, do tipo que você não veria as horas passando numa noite de conversa.
— Mas certamente não precisa ter um nível de sofisticação tão elevado, estou disposta a colocar um pouco menos de seriedade no evento…
Pedro em alguma praia de águas cristalinas. Ele usava uma regata branca e um short azul apertado. Não dava para saber se a alegria exibida na foto era apenas o recurso artificial que as redes sociais exigiam, mas não era difícil de acreditar que Pedro estivesse genuinamente feliz segurando um coco verde com uma das mãos e a outra segurando o chapéu para impedir que voasse com o vento forte que agitava as palmeiras ao fundo.
— E para o bolo eu quero algo especial. Que seja elegante e ao mesmo tempo atrevido…
Pedro em alguma construção. Ele usava um capacete de proteção azul e uma regata branca definindo seu peitoral, segurando uma planta da obra ao lado de homens engravatados.
E assim foi toda a manhã de Victória no trabalho. Vocês devem saber por experiência própria que tentar tirar algo da cabeça pode ser uma tarefa impossível, uma vez que para querer esquecer algo é preciso saber o que quer esquecer, e você só pode se certificar de que sabe o que quer esquecer lembrando. E vez ou outra você vai querer fazer uma verificação mental para ter certeza de que esqueceu, mas se perceber que não esqueceu, só vai lembrar ainda mais.
Victória sabia bem disso. Ela mesma vinha tentando esquecer a única exceção desde que se separaram, e suas verificações constantes sempre comprovavam que por mais que se esforçasse, ele ainda estava lá.
Já passava de meio-dia quando Fernanda chegou ao buffet para buscar Victória, após mandar uma mensagem convidando-a para almoçar. Aproveitando para se redimir do estado de transe que estivera durante toda a manhã, Victória evitou as tentativas da Fernanda de começar uma discussão sobre o perfil do instagram conversando durante todo o percurso sobre diversas coisas, nenhuma delas envolvia a coisa com a letra P. Ela falou sobre astrologia, sobre uma série nova que queria assistir, um filme que estava torcendo que levasse o Óscar, o lento processo de escrita do seu livro, uma música que estava obcecada, e quando quase lhe faltara munição, falou do clima.
— Está com cara que vai chover.
— Chegamos.
Fernanda estacionou o carro em frente a um restaurante do qual Victória nunca tinha ouvido falar, o lugar parecia agradável, mas a longa viagem não parecia ter sido justificável.
— Por que viemos até aqui? — Victória perguntou, tirando os óculos escuros para analisar o local. — Achei que íamos no Rodolfo.
O restaurante tinha uma típica fachada moderna repleta de vidros para que a iluminação natural do dia clareasse o ambiente, acima da porta automática, havia escrito em gigantes letras cursivas Cherry. O lugar estava cheio de pessoas tão eufóricas quanto as pessoas que andavam apressadamente pela calçada daquela avenida agitada.
— Esse lugar tá bombando. A Marisa veio na inauguração mês passado e disse que a comida daqui é excelente. E tem mais…
Fernanda caminhou até a porta e parou de falar abruptamente, com um sorriso malicioso pendurado no canto da boca.
— Por favor, diga que isso vai ser apenas um almoço normal.
Victória sabia que quando Fernanda falava algo como “E tem mais...” é porque realmente tinha mais, muito mais. Mas esse “mais” nunca foi sinônimo de melhor. Na verdade, Victória teve as piores das experiências ao estar em uma situação onde ouviu “E tem mais...” de sua melhor amiga.
Como na época do colégio, quando Fernanda chegou toda alegre para contar a Victória sobre como finalmente fora chamada para um encontro com o garoto pelo qual sempre teve uma quedinha. E tem mais… Ela disse, segundos antes de explicar que para ter conseguido marcar o encontro, precisou concordar em levá-la junto para fazer companhia ao irmão do garoto.
Ou como na vez em que marcaram de passar o domingo vendo TV e Fernanda chegou no apartamento de Victória com sacolas cheias com sorvetes, salgadinhos e refrigerantes. E tem mais… Anunciou, saindo da frente da porta para mostrar a mãe de Victória parada atrás dela, rindo de nervosa ao explicar como esbarrara com Ivone no supermercado e se sentiu pressionada a convidá-la.
Ou como quando ela falou que por acaso havia encontrado a única exceção na rua e ao descrever como ele estava, já que fazia bastante tempo que Victória não o via, Fernanda disse que ele parecia bem, e poderia ter parado nessa parte, mas… E tem mais…
Só após passar pela porta do Cherry, Fernanda se virou para Victória e falou:
— Não é só um almoço. Tenho uma entrevista marcada com o dono do lugar, para a revista, ele vai almoçar com a gente.
— Quem é ele?
Victória estava tão distraída com a decoração caótica do lugar que não percebeu quando um homem bem vestido se aproximou delas.
— Você deve ser a Fernanda. Prazer, Pedro Vieira.
Ao ouvir aquela voz, uma tensão percorreu a nuca de Victória. Ela não podia acreditar. Era o Pedro. Em carne, osso e perfeição. Não era apenas uma simples e ainda assim maravilhosa imagem na tela de um celular que podia ser facilmente bloqueado e colocado no bolso. E por esse motivo, ela ficou sem reação.
— Prazer. E essa é minha amiga, Victória – Fernanda apertou a mão de Pedro, enquanto olhava sorridente para sua amiga.
— Espera, eu lembro de você. É a garota do prédio, de ontem.
— Como assim, vocês se conhecem?
Fernanda nunca perdia uma oportunidade de colocar em prática seu minicurso de atuação que fizera dois meses durante as férias de fim de ano, quando tinha nove anos.
— Que mundo pequeno – falou Pedro, estendendo a mão para que Victória apertasse.
— Eu… lembrei que preciso fazer um bolo.
Não foi a primeira vez, nem será a última que Victória usava aquela frase específica para escapar de momentos desconfortáveis.
— Eu vou… Uber… Ligo depois… Tchau.
E pela segunda vez, Pedro não entendeu o que havia acontecido. E ao ver a cara de paisagem dele, Fernanda logo tentou amenizar as coisas com mais um pouco de sua brilhante atuação.
— Na verdade, ela tem misofobia. Um tipo de TOC com germes e aparentemente ela esqueceu de colocar o álcool gel na bolsa. É um problema sério, mas ela só precisa de compreensão.
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