O Estereoscópio
8 O Passado
Notas iniciais
Será que a vidente Freia mentira quando disse que Henrique logo encontraria Luciana? Porque as pessoas estavam sempre mudando, em um ritmo tão acelerado que, quando você pensasse tê-las reencontrado, já não seriam as mesmas pessoas. Em um mundo que se tornara assim, a saudade, inimiga persistente, teria de ser morta de forma mais violenta. Tal foi como ocorreu. A mulher que Henrique encontrara já não era mais Luciana. Talvez fosse Luísa, Débora, ou, quem sabe, Natália, mas não Luciana.
Quando percebeu isso, Henrique verteu uma lágrima discreta, mistura de felicidade e de frustração. A seguir, uma nova luz fulgurou em seus olhos: acabara de decidir ir mais longe buscá-la, onde quer que estivesse, ainda que isso significasse voltar no tempo.
― Eu não esperava que você viesse de verdade. ― Disse a moça ao saírem da casa de Freia. ― A vidente me avisou, mas não acreditei.
― Talvez fosse o nosso destino.
― Foi o homem vermelho que te mandou vir me procurar, não foi?
― Então o que você sabe sobre o homem vermelho? O que você tem a ver com ele? ― Questionou Henrique, um tanto espantado.
― Tem muita coisa que você precisa saber. Vamos comer, depois eu te conto tudo ― respondeu Luciana, puxando Henrique.
Os dois foram para um bar, sentaram-se nas mesas do lado de fora e pediram qualquer coisa. Não conseguindo associar direito as ideias, Henrique apenas fitou Luciana o tempo todo, reparando com enlevo o quanto o negro do cabelo contrastava com o rosto dela.
― Ei, vamos dar uns amassos? ― Convidou Luciana, enquanto segurava a mão do rapaz entre as suas e lhe olhava nos olhos. ― Como costumávamos fazer?
― Aqui? ― Henrique corou.
― Não tem ninguém aqui. Vamos.
Realmente, não havia mais ninguém ali. Quando Henrique olhou em volta, a rua estava deserta e não havia mais sinal do garçom. Nem sinal de internet havia. Henrique chamou por alguém, mas ninguém respondeu. Henrique elevou o tom de voz e chamou de novo, mas o que ouviu de volta foi eco no interior do estabelecimento. O rapaz se sentiu sozinho e, como acontecia nas situações de estresse, nuvens lhe cercaram os olhos. Foi quando sentiu, quente e macio, o corpo de Luciana pressionando o seu. Mas como poderia segurá-la ali consigo? Escorregadio, o momento passaria em um piscar de olhos e, ainda que Henrique a prendesse, ela evaporaria, ou viraria outra e sairia correndo dali, esquecendo-o. Então tomou coragem: prenderia Luciana com os lábios e a agarraria pelos cabelos, ou em um abraço. Pararia o tempo arrancando os ponteiros do relógio.
Ah! Para que tanto mistério, por que esconder o que sentia? Que sentido havia em ser tão fechado, aquele coração? Cantava perto um pássaro bisbilhoteiro, sobre um cabo de luz. Seria rouxinol ou cotovia? Nem Henrique nem Luciana quiseram saber.
Os dois ficaram assim, como se estivessem apaixonados. Depois pagaram a conta e foram para a casa de Henrique, onde Luciana prometera contar tudo. Quem sabia o caminho era a moça.
Chegando lá, encontraram Clara, carregando uma vela. As duas mulheres se cumprimentaram de forma efusiva e afetada. Luciana reparou que Clara parecia envelhecida e não receou manifestar isso, tanto que perguntou quando ela iria se aposentar. Clara concordou prontamente com tudo e logo chamou Luciana para uma conversa em particular no quarto dela, porque, embora a casa estivesse quase vazia, Henrique não deveria escutar.
O rapaz sentou-se no sofá cor de salmão, afundou e ali ficou, sem pensar em nada. Depois lembrou que estava fedendo e foi buscar água. Luciana também poderia estar com sede, então aproveitou para buscar mais um copo, para ela. Voltou a sentar-se e, como a conversa das mulheres estava demorando, acabou por tomar a sua água e a de Luciana, o que fez com que ele se considerasse culpado e, novamente, aprisionado em seu egoísmo.
Por que tão frio? Por que tão seco? Henrique se pôs a questionar. Queria chorar, mas nenhuma lágrima aceitou brotar, talvez por um certo esgotamento emocional de uma fonte seca. Porque até uma fonte rica seca. Em vez de palavras doces, por algum motivo, as pessoas por aí só tinham para soprar no seu rosto fumaça de cigarro e mal hálito esquisito. E a falta de educação nunca era pequena. Quando aquele cara que passa chutando as flores indefesas teria o que ele merecia? Porque é de justiça dar a cada um o que lhe pertence. Mas Henrique ainda sentia que alguma coisa faltava.
Em uma alquimia doida, na sua cabeça, procurava... calculava, investigava, tentava adivinhar onde estaria aquela massa amarela, brilhante, que todo o mundo precisava e ninguém oferecia. Tesouro escondido, como encontrá-lo, como merecê-lo? Se estivesse bem à sua frente, não perceberia. Substância! Não havia palavra melhor para lhe definir.
Henrique foi até seu quarto, olhou o cesto de roupa suja e encontrou lá o estereoscópio, do mesmo jeito que havia deixado. Não havia guardado ali, mas esquecido. Com isso em mãos, tudo se tornaria mais claro.
Porque todo o mundo estava sempre precisando de alguma coisa, e isso era assunto sempre muito irritante. Se você perguntasse para qualquer um, ninguém era realmente feliz, sempre dependia de algo além de seu alcance. Henrique pode enxergar que havia pessoas realmente muito magras espiritualmente, desnutridas de substância. Isso era porque não sabiam onde encontrá-la: procuravam no lugar errado, se alimentado de uma fonte pobre, iludidas.
E propriedade rara possuía essa coisa mágica. Pessoas haviam que, por estupidez ou por excesso, ativam a que possuíam uns contra os outros, e Henrique viu que ambas se aniquilavam e, simplesmente, queimavam e deixavam de existir. Viu, ainda, que, quando repartida, poderia aumentar de tamanho. Quando se davam, quando compartilhavam uns com os outros, mais ricos se tornavam!
Amizade! Há quanto tempo não experimentava algo assim. Pois ele viu: amigos a trocavam entre si e ela crescia e tornava mais brilhante. Porém, quando algum indivíduo, por rancor ou por fraqueza, se isolava, encerrando-a consigo, ainda que a guardando com o maior cuidado, a coisa amarela e reluzente acinzentava e encolhia.
Feliz era quem dela vivia e dela se alimentava e, por esbanjá-la, nunca lhe faltava. Tinha sempre uma porção para oferecer aos que dele se aproximassem, sabendo, contudo, evitar os invejosos, os falsos, os gulosos ou aqueles que não reconheciam seu valor. Entre estes últimos estavam a maior parte das pessoas amargas, as infelizes, e as revoltadas.
Então Henrique viu o que acontecia quando ele não ria de uma piada engraçada. Ele viu que o único idiota ali era ele mesmo, que era ele o causador de todo o sofrimento da humanidade e que só cabeia a ele a salvação do mundo.
Porque, conquanto não padecesse de algum tipo de debilidade física nem mental, estava em sua perfeita capacidade de sair por aí distribuindo o que fosse de cada um. Então, enquanto tivesse boca, poderia, muito bem, dizer às pessoas as boas que elas precisassem ouvir. E não teria mais que esperar alguém fazer isso no lugar dele. Porque era exatamente assim que a grande maioria, ou a totalidade até agora, dos indivíduos agia, e nunca dava certo. Eles sabiam o que era preciso fazer, mas aguardavam alguém com mais atitude fazer alguma coisa, porque sempre teria alguém para salvar o dia.
Ele viu também que, se escondesse demais aquela chama que guardava no fundo do peito, a sufocaria e a mataria pela falta de alguma outra coisa. Se o príncipe, tolo, por ventura pensasse que a princesa não quisesse ou não precisasse mais ser salva, seja pela existência polícia, seja porque ela saberia se defender sozinha, porque ela fez um curso de defesa pessoal ou porque ela era independente e tinha uma arma de choque escondida na bolsa, não teria mais primavera, nem história de amor, nem poesia, nem conto de fadas e até a bruxa má se aposentaria. E ficaria todo o mundo meio doido porque nem as crianças curiosas teriam alguma coisa para interessante para ler, nem os adultos que seriam as crianças que cresceram teriam aprendido alguma lição, porque eles não teriam lido nada e não teriam passado por situação nenhuma, tudo porque a moça, na mente do príncipe, saberia se defender sozinha contra toda e qualquer ameça...
Algum tempo depois, não se sabia quanto, uma porta bateu com força, fazendo o barulho de um martelo caindo no chão. Eram as mulheres que terminavam a conversa e pisavam na sala.
― Henrique, escute e ouça o que eu tenho para dizer. ― Luciana mandou, enquanto olhava arrepiada.
Henrique aquiesceu.
― Na verdade, o homem vermelho é um hermafrodito lonjequistanês. ― Começou ela, gesticulando. ― Quando o país dele, ou dela, não sei, foi invadido, os soldados mataram os homens e assassinaram as mulheres, mas não souberam o que fazer com quem não fosse nem homem nem mulher, ou fosse ambos, porque não havia instruções claras sobre isso. Enfim, a população foi toda dizimada e essa pessoa é um dos únicos sobreviventes. Você entende o que isso significa, não é?
Henrique fingiu que entendia.
― Exatamente ― Luciana parecia agitada. ― Se acontecer alguma coisa com ele, pode ser o fim de toda uma cultura milenar, o que inclui a religião deles, a culinária, a música, o idioma, a etnia, uma medicina riquíssima e, mais importante, a bebida que eles fabricavam, ainda pouco estudada, dentre outras coisas. Só há uma solução para isso. ― E a moça congelou, gravemente, como se depositasse toda a sua esperança no olhar de Henrique e na resposta inteligente que ele daria.
― Qual solução? ― Perguntou Henrique, desinteressado, querendo mais um beijo.
― Autofecundação. É assim que um povo inteiro, após destruído, será salvo por um único indivíduo, Henrique. Parece milagre, eu sei, mas o avanço da ciência tornou isso possível. O passado e o futuro dos lonjequistaneses depende dele!
― Ah, esse lugar! ― Henrique quase bocejou. ― Não é aí que estão perfurando poços novos? ― Lembrou ele.
― É aí sim, e quer saber de uma coisa? O óleo que tirarem de lá não dará retorno algum, porque, eu sei, ele tem um teor muito alto de alguma coisa que não era para ter. Você quer saber o que é? É o sangue dos lonjequistaneses que está ali! ― Luciana ficava rosa de histeria. ― Escuta! A voz do sangue clama a mim desde o solo! ― Gritava.
Henrique a olhava cada vez mais assustado, e ela continuava.
― Quando perfurares o solo, ele não te dará de volta o seu poder! Fugitivo e vagabundo serás na terra, e quem te matar terá de sofrer vingança sete vezes… Ouça, sete vezes!
Depois Luciana caiu dura e muda no sofá, com os olhos imóveis, esperando Henrique salvá-la. E ele fez: beijou-lhe e foi para o quarto, morto de sono.
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