Notas iniciais
Desta vez, um pouco de emoção.

Não, o mundo todo mesmo, sem exceção, fazia alguma coisa por algum motivo. E se diz “sem exceção” mesmo, com uma certeza que só tem quem sabe o que diz, correndo o risco de alguém aparecer com um caso que foge à regra, porque só se pode dizer “todo” se for tudo mesmo, até aquele pássaro. Contudo, esse motivo era quase sempre secreto, invisível, e às vezes parecia que ele não estava lá, quando ele estava.

Algumas pessoas pareciam volúveis, inconstantes em seus desejos, em suas decisões, na sua forma de pensar. É que o motivo delas não estava ainda claro. Eles seguiam por um caminho e nunca se desviavam dele, mas esse caminho só eventualmente correspondia com o que eles e os outros achavam que na verdade seguiam.

Em sua vida, Henrique chegou a conhecer uma mulher assim, misteriosa, duvidosa. Ora ela impressionava pela dedicação aos estudos, ora se tornava religiosa e, um dia, chegou a tornar-se profundamente apaixonada por um homem, à distância, e esperava ardentemente pela vinda dele, para viajarem juntos. Quando isso aconteceu, estava desempregada. Depois de esperar ansiosamente por ele, ela mesma, por conta própria, faltando pouco tempo, mudou de ideia, contou-lhe que arrumou um emprego para as férias, que estaria ocupada. Depois disso, ela passou a trata-lo com indiferença até não terem mais nada a ver um com o outro. Um dia, divagando distraidamente sobre o assunto, Henrique lembrou que aquela mulher se entediava com facilidade e não suportava ficar sem fazer nada, até porque não tinha criatividade suficiente para procurar por conta própria um livro, um esporte ou qualquer outro passatempo que lhe interessasse. Levando em conta as férias da faculdade e a sua condição de desempregada, apaixonou-se pelo primeiro que se dispôs a resgatá-la do seu tédio que chegava a ser tortuoso. Isso nem ela percebia. Quando se queixava de estar ficando velha e com medo de não conseguir se casar, talvez não fosse propriamente amor o que ela buscava, nem status, nem homem, mas alguém que a ajudasse a ocupar o tempo na velhice, quando já estivesse aposentada e ociosa. Quando conseguiu o emprego, seus problemas estavam, ao menos por um momento, resolvidos, e não precisava mais de ninguém. Não que ela fosse o tipo de pessoa que maquiavelicamente descartava as outras quando não precisava mais delas, mas já não havia mais necessidade de amá-lo.

Na segunda-feira, como combinado, Henrique foi para a Black Oil, onde recebeu um aviso de que ele só precisava pegar as suas coisas e ir embora, e que fariam o cálculo de quanto lhe deviam, até porque ele fora demitido sem receber um aviso prévio de trinta dias. De fato, os documentos foram assinados pelo próprio Daniel, que, pelo visto, estava falando sério a respeito de sua autoridade para demitir quem ele bem entendesse.

Isso deixou Henrique para baixo. Não era tanto pelo fato de ter sido demitido, mas por perder para o rival. Alguma coisa estava errada; talvez a justiça não estivesse funcionando como deveria, porque talvez aquele não fosse um dia bom. Henrique, no fundo, sabia que algo estava errado. Imaginava que, se não ficassem quites ali, seu fantasma voltaria para aterrorizar a vida de Daniel até que este, por fim, tivesse o que merecesse. Mas refletiu melhor e, finalmente, pensou “como assim? ”.

E se o pássaro, na realidade, fosse um corvo ou um tipo de urubu e quisesse comer os restos de sua família, isto é, a única família que lhe restava, a sua mãe, ele permitiria? O que ele faria? Ficaria parado, olhando, repetido para si que aquele maldito daquele corvo, provavelmente nascido de uma chocadeira, teria, um dia, o que ele merecia. Diria que o que se faz aqui se paga aqui. Diria que todo o carma se voltaria contra ele e que, por cometer uma blasfêmia, reencarnaria como um ser ainda mais baixo, quem sabe uma barata, e pagaria por todos os seus erros. Ou seria melhor expulsar o animal a gritos e a vassouradas.

Porque havia nisso tudo um conflito. Se existisse a sua alma gêmea, teria também o contrário dela, alguém que irrita só por estar perto, alguém que não se pode nem ver nem pensar, que te sufoca e te faz sentir todo errado. Alguém que está de olho em todos os seus erros, e tudo o que você faz ele diz que não está direito. Mas se ele seria capaz de usar a força e bater no bicho, se fosse necessário, disso não sabia. Ou se precisasse dar uma surra em Daniel. É possível que justiça tivesse, de vez em quando, que acontecer pelas as próprias mãos. Henrique pôs de lado essas reflexões, porque isso o esgotava. Foi conversar com Luciana, que muito o agradava.

A mulher então contou o porquê de ela ter pegado o carro e saído feito uma louca do prédio da Black Oil. Foi porque, ao mexer no trabalho de um colega, por simples curiosidade, meteu o olho em um telescópio, no qual não enxergou nada. Absolutamente nada. Nem luas, nem estrelas, nem planetas. Coisa nenhuma. Um céu tão liso que apavorava. Ela não pode acreditar. Então limpou a lente, depois coçou o olho. Mas ainda não via nada, via só que era tudo uma mentira.

― Henrique, você sabe o que é olhar para o céu e não ver nada? Você consegue sentir o que significa isso? Não você não sabe. ― Dizia Luciana.

Henrique concordava.

― Mas eu não disse que é horrível, você por acaso me ouviu dizer isso? ― A moça chegava mais e mais perto com o rosto. ― Porque pela sua expressão você acha que foi horrível. Mas tem uma coisa que eu ainda não te contei.

O rapaz ajeitou-se no sofá, depois, sem pressa, inclinou-se todo para ela, encarando-a, para que ela visse que ele ouviria o que ela dissesse.

― Henrique, eu vou falar, agora eu vou. Quando olhava para o céu, eu vi um olho que me olhava de volta. Ah! ― Luciana gritou. ― Mas que olho era aquele! Eu tremi inteirinha, da cabeça aos pés, juro, e senti uma coisa. Henrique, ― e a moça lhe segurava o rosto, quase com força ― nunca na minha vida eu tinha me sentido tão olhada. Tem certeza que não era você? ― E jogou-se contra ele, beijando-o. ― Foi maravilhoso!

Notas finais
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