Notas iniciais
Quase um anjo caído do céu...

Por mais que os físicos negassem ― e o bom senso também ― talvez a noite fosse muito mais do que a simples negação do dia. O escuro seria, então, mais complexo do que a pura ausência de claridade. Houve um tempo em que se estabeleceu a existência do Ser e, oposto a ele, a inexistência do Não-Ser. Uma mentira “branca” fora contada; pensou-se que algo pequeno assim não faria mal a ninguém. Com o passar do tempo, quebraram-se vários tabus, mas o principal permaneceu intocado.

Os poucos que souberam ficaram mudos ou foram condenados à morte na fogueira. Muitos, curiosos, chegaram perto, mas, milésimos de segundo antes de vislumbrarem, seus olhos se fecharam, como se recusassem a ver aquela cara suja. Quem sabe, encarar o pássaro fosse pesado demais. Por isso os médicos nunca recomendavam: seria demais para a sensibilidade humana.

Pode ser que no, fim, as criancinhas estivessem certas sobre ter medo do escuro. “Deveis prestar atenção ao que as criancinhas dizem” ― diria um adulto sensato. “Sede como elas se quiser ser salvo” ― uma voz acrescentaria. “Filho, tome cuidado com a assombração” ― as mães costumavam se esquecer de dizer.

Quando você olha para ele ― quando ele olha de volta para você ―, qualquer possibilidade de hipocrisia se desmancha. É melhor censurar a nudez do pássaro que voa no escuro, porque isso pode ser imoral demais. Ele cospe na sua cara tudo o que você já pensou em dizer, mas que morreu preso na sua garganta. Por toda a sua falsidade adequada, ele passa por cima, ignorante. Quantas vezes você já não quis confessar o que lhe pungia o peito. Quantas vezes você não quis, simplesmente, dizer que não está nem aí para nada, sem ter medo de perder o emprego, e sair andando pela rua, errante, como ele. Tudo isso ele nem sussurra, grita. E você é obrigado a aceitar, porque, por incrível que pareça, ele sempre está certo.

Contudo, a glicemia de Henrique devia estar bastante baixa, visto ele ter saído de casa sem comer nada. Embora ele não tivesse o hábito de pensar, pensava em muitas bobagens quando isso ocorria.

Enquanto corria, esbaforido, meio que perseguindo o vulto, meio que cambaleando, Henrique parou em uma encruzilhada, quando uma mulher vestida com uma túnica vermelha lhe chamou a atenção. Ela tinha grandes olhos verdes, assustados, e um longo cabelo castanho, que escorria para fora do capuz. Um pouco alta para uma mulher, magrela, devia estar na casa dos quarenta anos; tinha um quilo de maquiagem no rosto. Era feia e, decerto, uma pessoa má.

Ao passar ao lado dela, Henrique virou-se, como atraído por um ímã. No fundo do peito, trazia uma vaga vontade de acreditar em algo, de cair na conversa dela, se deixar levar... ser enganado e se enganar. Ela tinha um cheiro doce de vela perfumada com erva queimada. Poderia tirar-lhe a sorte e dizer que tudo ficaria bem, que Luciana era inteligente e estaria segura onde quer que estivesse, que Daniel pagaria por sua ruindade.

Da parte dela, a mulher sentiu-se igualmente atraída por Henrique, pois viu que o prognóstico seria certeiro: jovem, classe média, acuado. Fincou os pés no chão, hirta, estendeu os braços e fez movimentos suaves, para cima e para baixo, como se desenhasse no ar, quebrando os pulsos e movendo os dedos.

Henrique observou, boquiaberto. A vista tentava acompanhar os movimentos.

― Posso ver ― começou a moça ― que em vão persegues um amor que não liga para você.

Henrique continuava estático, prestando a máxima atenção. Tentava absorver bem tudo, como se aquelas fossem as palavras cheias da sabedoria de um oráculo enviado do céu. Suas mãos ossudas pareciam os pés de uma harpia: quase um anjo caído.

Em um gesto quase automático, Henrique procurou pelo estereoscópio e, finalmente, percebeu sua ausência. Esquecera em casa, no cesto de roupa suja. Cruzou os dedos, torcendo para que Clara não o encontrasse antes dele. Gostaria de observar a moça pelas suas lentes e descobrir algo interessante.

Repetindo o movimento sinuoso com as mãos, a mulher acenou para Henrique lhe seguir, e ele foi, mudo. Iria até para o inferno com ela. Ali perto, ela abriu um portão azul; viam-se vários relógios d’água e várias campainhas à entrada. Os dois subiram por uma escada estreita e úmida, sem corrimão. Vasinhos com plantinhas espinhosas e inofensivas atrapalhavam a passagem.

― Entre, por favor. ― Pediu a mulher, quebrando o silêncio, enquanto abria uma porta antiga e engordurada, que não estava trancada. Ela entrou primeiro e esperou.

Henrique obedeceu.

― Eu me chamo Freia ― disse ela, balançado levemente o pescoço e os ombros ― se você tira o “R”, fica “Feia”.

Reparando que dançava sem música, movendo de leve os braços e balançando os quadris, Freia apertou o colar que levava. Como mágica, vapores encheram a sala e um som de flautas e tambor invadiu o ar. Luzes coloridas saíam de dentro de um prisma.

― Você deve ser... ― Freia pensou um pouco, olhou para cima e, fazendo trejeitos, inflou os pulmões e continuou ― Henrique. Era você mesmo quem eu esperava.

E Henrique, já boquiaberto com o prodígio que acabara de presenciar, ficou ainda mais impressionado com a sabedoria da moça. Aquela onisciência lhe lembrava Luciana.

Quando ele cruzou a soleira da porta, foi como se passasse por um portal para outro mundo, no qual ele acharia, mais do que conforto, solução definitiva para os seus problemas. Na parede oposta, deu de cara com um quadro minúsculo, contudo curioso.

Primeiro contemplou, no quadro, nua, uma mulher, acima do firmamento, tocando as estrelas. Depois correu melhor os olhos na tela e reparou que se tratava de um hermafrodita. Em volta dele, ou dela, um círculo mágico se acendia. A figura esticava bem os braços, ocupando boa parte do espaço escasso. No rosto, talvez um sorriso, não se distinguia direito. No olhar dela, Henrique pode ver a Via Láctea em sua imensidão.

― Esse quadro! Não lhe dê atenção, é horrível. ― Alertou Freia, alterando-se. ― Não sei porque ainda não joguei fora. Eu mesma servi de modelo para ele, mas o artista me deu de presente, porque, se ficasse com ele, ira queimar, de tão feio que ficara. Venha, sente-se aqui, nesta cadeira.

Henrique obedeceu. Reparou no tom de voz nervoso de Freia e elogiou o quadro, dizendo que era incrível e nunca vira nada parecido antes. Depois outra coisa passou pela sua cabeça e lhe deixou preocupado.

Lisonjeada, Freia questionou se ele falava a sério e, Henrique confirmando, sentiu que simpatizava com ele.

― Você já praticou algum tipo de magia antes? ― Perguntou Freia.

― Na verdade eu não sei bem se pratiquei ou não, isso é complicado de explicar. Acho que não, pelo menos não propositalmente.

― Você tem razão no que diz, Henrique. É difícil distinguir a linha que separa magia de não-magia. Mesmo pessoas comuns, sobretudo quando reunidas, estão sempre criando, através de seus pensamentos e vontades, formas relativamente poderosas, intencionalmente ou não. Quando se caminha pela rua, por exemplo, é preciso ter cuidado para não deixar a mente vazia, senão pensamentos que não nos pertencem podem assaltar a nossa mente. Às vezes, esse pensamento pode se fixar e crescer. Essas “formas-pensamento”, como são chamadas, também podem nos ajudar a alcançar objetivos específicos. Quando desejamos o mal a alguém, ainda que não haja nenhuma ação concreta, apenas essa energia destrutiva direcionada a ela já é capaz de prejudicá-la, atrapalhando sua vida e até causando doenças. ― Disse Freia.

― Porém, ― continuou ― quando sujeitos sem conhecimento algum em magia tentam praticá-la, o que eu desencorajo fortemente, porque leram alguma coisa na internet ou por outro motivo, suas intenções apenas abrem portais para criaturas que (bem, nem criaturas são direito, mas resquícios de desejos) se alimentam da energia delas e as enganam, fingindo submissão e praticarem milagres, que são ilusões, enquanto drenam a vitalidade delas. Como você ainda não tem experiência, vamos começar com algo simples. ― Terminou Freia, tomando fôlego.

― Você não vai fazer amarração, não é? ― Proibiu Henrique.

― Não precisamos fazer, se não for da sua vontade. ― Respondeu Freia, um pouco espantada. Era essa a ideia dela. ― Mas por que a pergunta?

― É que eu não acredito em amarração.

Freia ficou brava ante o absurdo que ouvira, mas dissimulou razoavelmente bem. Não fazia sentido alguém entrar na sala de uma vidente se nem sequer acreditava em amarração.

― Bom, acreditar eu acredito. Mas... sabe, acho que as pessoas não deviam fazer isso, com tantos solteiros no mundo. Você só precisa encontrar a sua alma gêmea, e talvez ela não esteja tão longe. Se não deu, não deu, talvez não era para ser. Prender uma pessoa a você só fará os dois sofrerem; isso não é uma coisa boa.

O discurso foi tão simplório que Freia mal prestou atenção. Parecia uma criança tentando explicar que as árvores do bem e as fábricas são do mal.

Distraído, Henrique olhou para o teto: na parede, no alto, um relógio. Mas não pôde saber as horas, porque os ponteiros não se moviam. E ele prendeu ali o olhar; a tensão aumentava a cada milissegundo em que os ponteiros permaneciam parados, como o ar daquela sala. Lentamente, como se descolando a vista, reparou no rosto de Freia. Por algum motivo, parecia que, se lhe tocasse a ponta do nariz, sentiria frio. Como era branco aquele rosto! Henrique arrepiou-se todo. Aquele quadro lhe fez lembrar do que ele há muito desejava ser: alguma espécie de criminoso pérfido, para poder pensar que cada eventual desgosto que sentisse era, na verdade, uma punição por sua má conduta, e assim tudo ficaria explicado. Porque só lhe agravava a situação ― às vezes beirando o desespero ― sentir a dor sem que esta viesse acompanhada de alguma explicação. Felizes eram os condenados, que cumpriam suas penas de forma justa! Assim, sempre que algo lhe sucedia, Henrique buscava repetir para si que era merecedor, dessa forma aguentando o que fosse. No fundo, contudo, permaneceria sempre a perplexidade, sempre o vazio de uma voz que dizia que ele não fizera nada.

No centro da mesa, a bola de cristal de quartzo resplandecia, iluminada por uma vela vermelha. E ele olhava, vidrado, porque ela era dura e ele mole. Ela era muito, ele pouco.

― Eu compreendo. ― Freia afirmou, apertando seu colar para apagar as luzes. ― Nesse caso, vou ler a sua sorte na bola de cristal.

Assim, após alguma cerimônia e depois de fecharem os olhos várias vezes, de repetirem frases e fazerem outras coisas dessa sorte, o que levou algum tempo, Freia ergueu o rosto, retirando-o da penumbra.

― Você vai encontrar a mulher que procura, muito em breve. Eu garanto. ― Prometeu.

― Então já acabamos? ― Perguntou Henrique.

― Sim, e você me deve duzentos reais pelo serviço.

Henrique abriu a carteira, tirou duas cédulas de cem reais e entregou a Freia, que quase engoliu o dinheiro. Depois foi até a porta que ela indicou, a qual ele ainda não notara por ser da mesma cor da parede.

Henrique abriu a porta e depois a boca com o que viu e lhe fez cair o queixo. À sua frente, de joelhos, sobre um círculo sal, ou de farinha, estava Luciana, de olhos arregalados, com os lábios vermelhos e úmidos, flagrada, com o cabelo cortado e tingido de preto. Surpresa, ela deixara cair um vidrinho no chão, que quebrou, derramando seu conteúdo. Era a infusão de cicuta que a moça estava na iminência de beber.

Notas finais
Mds o que foi isso?