O Escorpião Escarlate

5 Ameaça e orgulho ferido


Notas iniciais
Gente quero agradecer a todos os comentários recebidos no capitulo anterior. voçes são divos. para compensar minha demora em postar esse capitulo, o fiz bem grande, e se não tivesse me controlado teria ficado maior ainda. beijos meus lindos. E não deixem de comentarem mais uma vez o que acharam.

Acordei sobressaltado. Algumas gotas de suor escorriam por meu rosto, molhando os fios soltos dos meus cabelos e colando-os em minha testa úmida e pescoço. Apertei os olhos tentando dissipar a nevoa que nublava meus sentidos entorpecidos pelo sono, forçando minhas memorias a lembrar-se da razão pelo qual despertei assim, assustado. Minha cabeça latejava, mas forçava-me a pensar racionalmente. Sabia que estava esquecendo algo importante demais para ser negligenciado dessa forma. Levei a mão na nuca, massageando-a com certa pressão em movimentos cadenciados, enquanto buscava emergir do espesso véu anestesiante do sono pesando sobre as pálpebras, deixando-me torpe, retendo lembranças. Olhei em torno da penumbra envolta sobre o quarto não reconhecendo de imediato aquele denso ambiente, que certamente não era o leito rustico do meu apartamento. Foi então que, com um sobressalto maior ainda, eu me lembrei.

Aqueles lábios cínicos carregados de lascívia que pareciam almejar me incinerar vivo em sua luxuria. Da submissão inerente do meu corpo se contorcendo em chamas sobre o seu. Do brilho de insanidade reluzindo em suas íris magnéticas, intoxicando como peçonha de alta potencia cada célula do meu organismo. Dos gemidos estrangulados de prazer á cada investida abrupta arremetidos contra mim...

Sentia minha boca ficar seca na medida alarmante que as imagens adentravam sucessivas, uma após a outra em minha consciência, agora já bem desperta de sua dormência patológica.

Mon dieu! O que foi que eu fiz?

Como fora possível eu ter sido tão submisso e ainda chegar ao clímax sendo manipulado tão habilmente pelas mãos de um ditador assassino? Tá certo que não fora apenas suas mãos... mas também outras partes excepcionalmente bem desenvolvidas de sua anatomia. Céus! Eu só podia está louco. Ou pior, drogado. Esse comportamento leviano de minha parte era inadmissível e altamente condenável.

Eu era um puto... e ainda por cima masoquista.

Digo, somente isso para explicar a forma indecente com o qual sucumbir ao seu domínio avidamente como uma pasta derretida de nêutrons. Eu não tinha mais duvidas, havia algo de muito errado em minha cabeça. Talvez um distúrbio mental causado pela condição anormal de doncel. Ou ainda hipoteticamente falando algum tipo de mecanismo de defesa pós- traumático por ter sido sequestrado e coagido á consentir num ato sexual por um criminoso com sérios problemas de bipolaridade.

É, essa analise lógica fazia todo sentido... não fazia?

Quer dizer, de acordo com os documentários exibidos pela Discovery Channel e alguns livros de psicologia comportamental de autores renomados que tive a oportunidade de degustar em uma proveitosa leitura. Algumas pessoas vitimas de algum tipo de violência, tendem a agir inconscientemente de forma a se resguardar submetendo-se pacificamente as vontades antiéticas de seus sequestradores em uma situação que ameace a integridade física dos mesmos. Uma espécie de instinto de sobrevivência mediante a quaisquer tipo de coação psicológica.

Claro! Isso explica todo o ocorrido racionalmente. O meu instinto de sobrevivência foi ativado ao nível máximo pela ameaça letal que era aquele loiro sanguinário de mentalidade megalomaníaco. Soltei um suspiro aliviado. Eu realmente amava a ciência, sabe. Pois ela sempre tem uma justificativa imparcial e lógica para ações inaceitáveis da espécie humana.

Incrível em como apenas a mera menção de sua ignóbil existência inflasse quase que instantaneamente minhas bochechas em carmim. Oras! Evidente ser efeito colateral da temperatura elevada da raiva, pela prepotência superestimada daquele psicopata inescrupuloso.

Sentia ímpetos irrefreáveis de esgana-lo até lhe reduzir á uma disforme e maravilhosa poça de 26 gramas de sal diluído em 500 ml de água fervente. Ou esquarteja-lo com uma picareta de lamina cega e tingir as paredes da sala com o seu sangue.

O pior é que não fazia a mais remota das concepções em como conseguiria sustentar a expressão indiferente perante seu olhar aguçado, não mesmo. Ainda mais depois de se contorcer debaixo dele gemendo como uma puta no cio exalando feromónios, praticamente implorando para ser fodido.

Por Napoleão Bonaparte! Se humilhação fosse uma causa mortis válida, nesse momento não passaria de um pedaço de carne em decomposição devorado por vermes rastejantes.

Era impossível reprimir com sucesso a onda hipertermica de vergonha fervilhando como ácido corrosivo sobre as maças do rosto. É o fim. Eu podia ver com nitidez minha dignidade acenando em despedida e partindo para nunca mais voltar.

Cerrei os punhos sentindo o sabor ocre do ódio queimar como lava em minha garganta. Ódio direcionado exclusivamente a mim mesmo. Ódio por ter agido pelo instinto como um animal primata desprovido de racionalidade. Fúria por ceder aos hormônios feito um adolescente volúvel incapaz de controlar as ações orgânicas de seu corpo. Onde fora parar á indiferença, minha mais fiel companheira? O que aconteceu com as muralhas de gelo que cercam como um forte seguro e intransponível a segurança inóspita de meu mundo recluso?

Eu era mesmo um maldito nerd idiota.

Uma cenoura raquítica com retardo mental.

Ah! Como ansiava bater minha própria cabeça contra a parede até ficar inconsciente, amaldiçoando em Frances o dia que tive o infortúnio de cruzar o caminho daquele louco. Se soubesse que essa catástrofe doentia fosse acontecer só por tido a desafortunada ideia de cortar caminho em um exaustivo dia de faculdade, numa noite supostamente normal, não teria nem mesmo me dado ao trabalho de sair da cama, o que dirá então do apartamento.

Fabuloso! Com a sorte que eu tinha deveria começar a pensar seriamente em apostar nos cassinos _ por favor! Sintam a ironia _ De repente enfiar a cabeça na privada e acionar a descarga parecia uma hipótese deveras atraente. Quem sabe assim eu não conseguia escapar pelos canos. Será que ele me caçaria pelos esgotos?

Excelente! Minha sanidade mental já estava sendo colocada em duvidas também.

Passei os olhos por todos os recantos do quarto. Não que fosse possível visualizar muita coisa, já que o dia ainda não havia despontado pelo horizonte e a atmosfera se encontrava parcialmente envolta pelo escuro, tendo apenas a iluminação prateada da lua filtrando pelo vão da janela. Suspirei audivelmente em alivio constatando me encontrar sozinho no recinto. Seria ultrajante encarar aquele patife no momento. Principalmente quando a única coisa que se interpunha entre sua libido e minha nudez era um mísero lençol branco de tecido fino.

De certa forma precisava admitir que estava inegavelmente surpreso por ainda me encontrar vivo. Eu estava convicto que seria imediatamente aniquilado por Milo tão logo ele satisfizesse seu capricho mesquinho. Era para se dizer no mínimo surpreendente não ter sido estrangulado ou alvejado por projeteis de armas enquanto dormia completamente vulnerável sobre a mira de seus olhos mercenários. Eu não me considerava obtuso ao ponto de ignorar que se assim ele desejasse poder- ia me matar sem esforço algum. Era incrível como parecia patético á fragilidade do meu corpo doncel se comparado a sua exuberância máscula. Mas tudo bem, até onda sabia a vida não era justa mesmo.

Entenda que eu não era mais uma criança ingênua desconhecedora da realidade cruel e pérfida do mundo, fora de sua ótica ilusoriamente infantil. Talvez pelo fato de nunca ter tido uma infância propriamente dita, devido ao meu estado de aberração congênita ao ver dos outros. Ou ainda, quem sabe, porque apesar de minha pouca idade, eu conhecia muito bem e por experiência própria a insolúvel capacidade dos seres ditos humanos em ferir os seus semelhantes por razões fúteis, e não raras vezes, por razão alguma. Pessoas são irascíveis em suas verdades frívolas de conceitos hipócritas. Carrascos imundos do que considera fora dos padrões ideológicos de suas demagogias moralistas criadas por mentes limitadas e preconceituosas.

Tinha amplo conhecimento de causa para afirmar categórico que nesse exato momento de delírio minha vida se encontrava sobre as mãos sujas de sangue do Milo. Não havia absolutamente nada que o impedisse de me esmagar como a um inseto sujo sobre seus pés se assim ele quisesse. Ou ainda joga-me como lixo sem utilidade para os seus homens como um prostituto barato que só servia para ser usado e logo descartado. Eu sei! Isso soa terrível. Mas sou realista o bastante para não me surpreender com mais nada que venha dos outros. Principalmente quando se é um pária, visto como putos de baixa aquisição, desprovidos de quaisquer direitos na tradicional cidade Nipônica de machistas de caráter duvidosos.

Eu realmente desconhecia o que se passava pela cabeça insana daquele homem sórdido. Mas seja lá o que fosse, tinha a impressão de que não iria apreciar saber. Algumas vezes a ignorância podia ser uma benção.

A sensação asfixiante que tinha, é que andava numa tênue linha prestes a arrebentar a qualquer instante sobre o peso inevitável de cada passo dado. Milo era um sádico acostumado a torturar e matar com a destreza de um predador que se diverte morbidamente em encurralar e infligir o máximo possível de dor a suas vitimas. E eu não me surpreenderia se ele sentisse algum tipo de satisfação perversa em exterminar os que considerasse um obstáculo inconveniente em seu caminho. Dizem os sábios que os olhos são as janelas da alma, de nossa essência. Se houver verdade nessa citação, os olhos de Milo eram duas esferas espelhadas refletindo todo um precipício de loucura que ele encerava em si. Seus olhos hipnóticos eram inteligentes demais, guardando em si uma chama inexplicável de raiva e fúria. Ele era um demônio inegavelmente deslumbrante cuja presença transbordava força e poder, e um sorriso arrogante que era a própria crueldade.

O fato de ser uma pessoa introspectiva, sem resquícios de vida social ativa em meio a uma vasta sociedade assídua em sua hipocrisia moralista. Tornou- me um exímio observador da peculiar natureza humana e suas reações. Um interprete aguçado na leitura não verbal de reações inconscientes.

Era impossível deixar de ler nas atitudes convencidas e não menos brutais daquele mafioso, a insanidade deturpada de suas ações incautas. E bom, ainda se fazia presente em minhas memorias o nosso primeiro encontro sobre uma rua mal iluminada, em que me senti horrivelmente oprimido pela intensidade sufocante de seus orbes cobalto destituído de qualquer vestígio de misericórdia ou compaixão. Fora sem sombra de duvidas uma das piores circunstancias das quais tive o desprazer de passar. Só não era pior que a minha atual situação, muito embora em ambos os casos a ameaça tenha vindo da mesma pessoa. Havia nele uma beleza animal, beirando ao predatório, estampado na maneira fluida com o qual ele movia, calculada e até mesmo astuta em seus movimentos desenvoltos. O sorriso de seus lábios carnudos não era genuíno, e sim malicioso. Um homem absurdamente perigoso e sem uma gota retida sequer de escrúpulo. E eu ansiava com obsessão fugir para o outro lado do planeta daquele psicopata.

Isso, claro! Se por algum improvável milagre eu conseguisse escapar vivo dali.

Inalei uma grande quantidade de ar, sentindo o oxigênio preencher meus pulmões, tentando inutilmente expurgar de minha mente os pensamentos destrutivos que o rodeavam. A verdade incontestável é que meu mundo se desmoronava pouco a pouco sob meus pés, e não havia nada sólido que pudesse fazer para evitar essa tragédia. Como um vil algoz á impotência era o que mais feria o meu orgulho em açoites de brasa. As vezes penso que o destino, se é que de fato ele existe, era um palhaço dotado de humor negro. Devia ser mesmo demasiado divertido, hilário até, eu diria, foder com a desprezível existência de um doncel nerd emocionalmente fracassado.

Tão engraçado que só me lembrei de rir agora.

Puxei o lençol de seda usando-o como um manto envolto sobre meu corpo nu, pousando os pés descalço sobre o tapete felpudo forrando o chão, levantei-me do leito aconchegante desviando de alguns moveis do qual devido a escuridão só era possível enxergar as sombras disformes de suas silhuetas refletidas sob o brilho incandescente da lua. Não estava exatamente frio, tampouco quente, era o típico clima de temperatura neutra das madrugadas outonais.

Acendi o interruptor de luz localizado ao lado direito da porta de entrada. Aproveitando a aproximação para girar o mais silenciosamente possível a maçaneta. Constatando o que já sabia, a porta estava trancada. Claro! O que eu estava pensando? Que aquele facínora tivesse esquecido de tranca-la? Por favor! Eu me sentia um acéfalo só por ter cogitado essa possibilidade. Uma anta com traumatismo craniano.

Tudo ali estava envolto em um silêncio tão profundo, que chegava a ser inquietante. O simples ato de respirar parecia uma violação imprudente rompendo aquela tranquilidade tão amena, mas que eu sabia ser enganosa, porém nem por isso menos perturbadora. Aquela falso silêncio parecia zombar do meu desespero. Quer dizer! Não é irônico á passividade do ambiente em total antítese com minha péssima realidade?

Ou talvez eu apenas esteja ficando paranoico, o que devo dizer, é muito provável.

Massageei minha tempôra já dando sinais de uma possível enxaqueca. Apertando o lençol sobre meu corpo segui em direção ao banheiro adjacente ao quarto, só agora me apercebendo de uma dor incomoda em uma parte extremamente intima entre minhas pernas. E bom, melhor não pensar no motivo que ocasionou esse desconforto embaraçoso ou acabaria por me deprimir desnecessariamente com a revoltante lembrança de ter perdido a virgindade para um assassino intragável. Que só para constar era um grandessíssimo filho da puta.

Entrei no banheiro esfregando os olhos com as palmas das mãos tentando expulsar o resto de sono que ainda persistia. O banheiro era espaçoso em um estilo sóbrio com uma banheira circular centralizada na estrutura da parede lateral, os azulejos que adornavam as paredes eram de um cinza gótico em formatos de xadrez. Um exagero inútil em minha opinião. Localizei um largo espelho embutido acima da bancada da pia, suspirando em enfado segui em direção á ele.

Meus olhos se arregalaram atônitos enquanto comtemplava estático minha imagem refletida no espelho, sentindo um aumento vertiginoso acelerando minha pulsação. Sim! Porque do pescoço para baixo não devia ter dez centímetros que separasse um hematoma de outro. Havia incontáveis marcas vermelhas de chupões que não tardariam a ficar roxos, assim como marcas de mordidas e unhas espalhadas pelo corpo, num contraste alarmante com a palidez exacerbada de minha pele.

Mon Dieu! Aquele bastardo era um selvagem. Um bárbaro. E possivelmente até mesmo um canibal.

Não bastasse ter sido sodomizado por um mafioso ditador, o desgraçado ainda teve a audácia de me marcar. Santo cristo! Nem mesmo a batina de um padre conseguiria esconder todos aqueles vergões entalhados em meu corpo. Maldito seja.

Isso sim era o cúmulo da humilhação... e até humilhação tinha limites.

Tentei assíduo ignorar as marcas denegrindo ainda mais o meu orgulho, enquanto realizava ritualmente minha higiene matinal. Como não havia uma escova de dente á disposição usei o dedo anelar. Fiz uma careta de desgosto forçando a escova de madeira que encontrei em cima da pia sobre meu cabelo, que se não o disse, assemelhava-se há uma ninhada de ratos.

Percebi que não havia trazido minhas roupas, que de certo deveriam se encontrar espalhadas pelo chão do quarto. Desde quando havia me tornado uma pessoa tão relapsa? O choque por toda essa situação defasada deveria ter afetado meu hipotálamo cerebral, causando algum tipo de retardo mental. Voltei para o quarto praguejando irritado contra minha idiotice. Como previsto encontrei minhas vestes aos pés da cama, num caos amontoado e amarrotado de panos.

Despi-me do lençol que cobria minha nudez, sentindo um leve tremor pela rajada de vento que se embrenhava sucinto pela janela entre- aberta. Sabe, eu gostava do frio, estação inóspita do inverno. Apreciava assistir a queda dos flocos de neve tingindo o solo, transformando-o em um mar branco. Assim como as lufadas gélidas de ar fustigando em uma leve caricia as maças do rosto. Pena que ainda estávamos no outono.

_ Bela vista _ Ouvi uma voz arrastada de timbre hipnótico reverbando sinuosa por todo o cômodo em um eco aveludado, atordoando meus sentidos na medida que o som penetrava meus ouvidos. Eu reconhecia aquela voz. E como não reconhecer se o seu portador era a principal causa dos meus tormentos? Com o coração ameaçando querer saltar pela boca me virei para encarar Milo.

Sentado em uma cadeira estofada revestida em couro preto, com os braços pousados em desleixo no vão do assento, usando apenas uma calça moletom escura e de pernas cruzadas, consequentemente expondo seu torso musculoso com uma notável tatuagem tribal no ombro direito desenhado simetricamente em sua pele bronzeada. Ele me observava de forma descarada dos pés aos olhos com um sorriso sarcástico de canto de lábios, numa postura prepotente, detendo seus olhos azuis enegrecidos sobre minhas nádegas nuas. Molhei meus lábios com a língua, sentindo-os sumamente ressequidos, como se há dias não ingerisse uma única gota de água. Seus olhos se estreitaram fixando sua atenção em minha boca, me fazendo engolir em seco a bile entalada sobre a garganta, desejando que o chão se afundasse e me levasse junto.

Sabe, não era necessariamente uma questão de inteligência ou percepção, eu estava lidando com o homem mais cruel e calculista que já vira. Milo parecia produto de uma ficção de terror, um assassino letal que ninguém era capaz de ver. Como é possível que eu não tenha escutado sequer um átimo de ruído de sua entrada naquele quarto? Pela maneira relaxada com o qual ele se acomodava sobre o estofado, qualquer um diria que sua presença já deveria se encontrar por ali a muito tempo. Entretanto eu sabia que ele não se encontrava até o instante que havia adentrado o banheiro. Milo parecia se mover como uma sombra, se esgueirando silencioso e imaterial pelo espaço físico. E muito embora eu nunca fosse admitir isso em voz alta, ele atemorizava-me.

Nunca estive tão cônscio de minha nudez assim tão exposta, como naquele momento. O olhar malicioso dele pareciam labaredas azuis queimando como se fosse lava a pele eriçada do meu corpo. Ele só podia mesmo ser um demônio, criatura sedenta que atormenta os pesadelos da humanidade desde tempos remotos, aquele que põe medo e seduz em sua luxuria os desavisados que se aproximam de vil ser. Não que como incrédulo cético acreditasse em tal existência, mas talvez, apenas talvez, eu devesse rever alguns conceitos arraigados. Sentia minhas bochechas arderem, e eu não precisava de um espelho para saber que devia está mais vermelho que a cor rubra do meu cabelo.

Merde! Se ele não cessasse com a opressão sufocante daquele escrutínio, eu seria o primeiro homem da história a sofrer uma combustão espontânea.

Tentava. Eu juro que tentava não demonstrar sinal algum do nervosismo corroendo-me internamente como cupim devorando madeira em minha superfície inexpressiva, de jeito nenhum o deixaria perceber o quanto sua presença me acuava sobremaneira.

Infelizmente eu não fora agraciado com a mesma competência cênica do Dite na arte da atuação. Mas isso era apenas um pormenor de pouca relevância. Pois sabia que sendo uma pessoa pouca emotiva, minha expressão não era mais que uma máscara gélida indiferente.

_ O que você ainda quer de mim Milo? Já não conseguiu o que queria? Agora me deixe em paz ou termine logo com isso de uma vez por todas. _ Meu tom de voz soou ríspido até mesmo para os meus ouvidos. Foi então que eu soube. Eu havia enlouquecido de vez. Perdido completamente o senso de auto- preservação e me tornado um suicida de infalível alcunha. O que eu tinha na cabeça para falar assim com um assassino? Não! Porque estava claro que cérebro é que não podia ser.

Eu esperava qualquer reação dele, qualquer mesmo, inclusive ser espancado ao ponto de entrar em coma. Ou qualquer outro tipo de retaliação agressiva culminando com a minha morte prematura. Ao invés disso surpreendentemente ele jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada. Aquele som grave foi a risada mais sombria que podia ser. Deu- me medo. Odiava essa personalidade dele, que não agia como você esperava. Não havia coerência lógica em suas atitudes, sua imprevisibilidade mesclada á sua natureza dominante só o tornava ainda mais perigoso, você nunca sabia o que esperar dele. Assim como surgiu, a risada desapareceu, e seus olhos ferinos novamente foram postos em mim.

_ Está me questionando ruivo? Aviso que não é algo muito inteligente de se fazer. Embora deva admitir que me diverte quando te vejo me enfrentando, com esse seu narizinho arrebitado e sem noção alguma do perigo que corre. Tenho vontade de lhe foder até quebra-lo como um frágil pedaço de cristal _ Disse com a voz rouca de luxuria em uma ameaça muda encrustada em cada letra sibilada por seus lábios.

Sufoquei o ímpeto indigno de abaixar-me e puxar o lençol, escondendo assim minha nudez da fome reluzindo como chamas azuis em seus olhos semicerrados. O quão ridículo seria nessa altura agir como uma virgem pudica cheia de firulas? Faça- me o favor! Nem mesmo virgem eu era mais. Perdi esse status á algumas horas atrás para um bastado narcisista.

_ Mas respondendo há suas perguntas, farei com você o que bem entender _ completou casualmente como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo, quando na verdade não era. E tive que trincar os dentes me privando do prazer imenso que deveria ser manda-lo para os quinto dos infernos ou qualquer outro lugar que o valesse.

Quer dizer! Ele esperava realmente que eu fosse acatar sua vontade doentia como um cachorrinho manso levado contra sua vontade ao cadafalso? Seria de um egocentrismo fenomenal se ele estivesse de fato presumindo erroneamente essa hipótese.

_ Nesse caso, não espere colaboração de minha parte _ Devolvi seco, buscando controlar o ódio crescente como se fosse uma coisa viva e pegajosa. Se antes eu achava Radamanthys um canalha de marca maior, agora o via como um anjo inocente com direito a auréolas, se comparado aquele animal traiçoeiro sentado a minha frente.

Sabia está arriscando minha integridade física, e muito possivelmente a vida, dirigindo-me ao Milo daquela forma insensata. Mas quem disse que estava me importando com esse insignificante detalhe no presente momento? E no final das contas tanto fazia já que estava ferrado de todo jeito. Eu não precisava sentir coragem, contanto que agisse como se a tivesse, sentimento abstrato que estava longe de possuir numa situação deplorável como essa.

_ Camus ... Camus! Isso, resista o quanto quiser, só torna tudo mais... interessante. Principalmente porque no fim de um jeito ou de outro eu sempre venço, e você acabará debaixo de mim gemendo alto como uma puta dos bordéis baratos das periferias de Tokio _ A convicção com que ele proferiu essa sentença teve o impacto de um soco bem aplicado no estômago. Que absurdo! Ele devia mesmo se achar o último copo de água do deserto.

Obriguei-me a manter a face vazia de expressão e não arregalar as orbitas em descrença com tamanha prepotência. Mas o sorrisinho de troça ostentado por ele me dava ímpetos suicidas de lhe aplicar alguns golpes de kung- fu dignos de Bruce Lee. Isso claro! Se eu soubesse artes marciais.

_ Acho que você ainda esta sonhando, ou andou cheirando o que não devia e agora está poluindo meus ouvidos com suas sandices _ Disse, e me arrependi logo em seguida pelas palavras impulsivas ditadas pela temperatura elevada da raiva. Mas simplesmente não conseguia me manter calado, como seria o mais prudente a se fazer, com toda sua arrogância inescrupulosa emanando em cascatas sufocantes daquele homem vil.

No entanto ele apenas se limitou a arquear uma sobrancelha com um sorriso de diversão se delineando em sua boca perfeita. Cerrei os punhos escondendo-os discretamente de seus olhos afiados detrás das costas. Ótimo! Virei entretenimento para o maldito loiro, um palhaço. Céus! Se isso não fosse o fundo do poço eu ignorava o que poderia ser.

_ Sabe ruivinho? Se insistir em me afrontar esteja ciente que acabará se ferindo seriamente, o que seria uma pena. Paciência não é uma de minhas virtudes mais marcantes. Além disso me torna propenso a não te dar o que sei que deseja _ Disse com o tom aveludado como a mais fina seda eriçando os poucos pelos do meu corpo na sedução perigosa de sua voz. Eu devia mesmo ser um babaca por ter essas estranhas reações físicas perto dele. Reações inexplicáveis sobre a ótica impecável da lógica.

_ Não estou interessado em nada que venha de você _ Respondi com toda polidez que me fora ensinado por Dégel ainda pequeno. E era a mais pura verdade, só ansiava poder escapar dali para um continente de distancia daquele lunático. Devia ser mais um de seus jogos doentios antes de me matar. Ou como diria a lei de Murfly, nada esta tão ruim que ainda não possa piorar.

O que ele ainda queria comigo? Será que já não estava satisfeito de ter me usado como um brinquedo para satisfazer sua libido?

Eu temia que a resposta para essa pergunta fosse negativa.

_ Tem certeza ruivo? Nem mesmo sua tão quista liberdade? _ Arrepiei-me de imediato, assim que escutei suas palavras lançadas provocativamente sobre mim. O encarei direto nos olhos em busca da verdade em suas palavras. Mas ou ele estava falando seriamente ou era excepcional na arte da atuação. Quis muito acreditar na primeira hipótese, mas vindo de um assassino dissimulado seria ingenuidade minha creditar no peso de suas palavras.

Não sabia ao certo o que pensar sobre isso. Não havia indícios visíveis em sua face de anjo, ou mais provavelmente de demônio, de mentira aparente em sua fala. Entretanto não me passou despercebido o estranho brilho que reluziu em suas íris azuladas. Não! Eu não tinha um bom pressentimento sobre isso. Lembrei-me de certa vez em uma das cansativas tagarelices do Dite, dele ter comentado algo relacionado ao costume macabro dos yakuzas em eliminar mulheres e homens depois de passarem a noite com os mesmo. Uma espécie de queima de arquivo vivo que resultava numa taxa alarmante de jovens desaparecidos por todo o país em qualquer esfera da camada social.

Evidente que até as autoridades sabiam não ser verdade que todas essas pessoas desaparecidas fossem de fato eliminadas. Uma vez ser de conhecimento coletivo e publico do tráfico de pessoas praticada pela organização mafiosa da yakusa.

Tremi na base com o pensamento aterrador de acabar por ser vendido como um objeto a mostra numa prateleira. Pior ainda! Com minha infeliz condição de doncel terminar sendo jogado como uma meretriz em uma casa de prostituição noturna. Minhas entranhas se reviravam em náuseas na medida que meu cérebro processava todas as variáveis embutida naquela oferta aparentemente genuína vinda dele. Uma vozinha assustada em minha cabeça alertava que Milo me concedia fácil demais a liberdade. Misericórdia talvez? Duvidava seriamente disso. Essa palavra com certeza não devia constar em seu dicionário, e muito menos em suas atitudes. E o brilho incontido em seus orbes sagazes era suspeito demais para conseguir me tranquilizar.

Desconfiança resumia bem o que sentia.

_ Porque? Você ira me soltar desse cárcere ilegal no qual me confinou? _ Indaguei cético com a minha desconfiança no nível máximo. Desejando fervorosamente que ele não pudesse escutar o ribombar ensurdecedor das batidas desenfreadas do meu sistema cardíaco. O vi me analisar de maneira indecifrável sob os longos cílios, mostrando em seguida seus dentes brancos perfeitos em um sorriso jocoso em sua face máscula exuberante.

_ Ah! Camus, sua desconfiança me ofende. O que o faz pensar que não posso ser uma homem ...honrado, ou qualquer outra merda do gênero, e deixa-lo ir tranquilamente de volta para sua casa? _ Perguntou com uma falsa compreensão que não combinava em nada com o sorriso frio e desdenhoso adornando sua boca volúpuosa.

Milo? Honrado? Se a situação não fosse tão apocalíptica para o meu lado, ter-me-ia gargalhado da escolha capciosa de suas palavras. Faça-me o favor!

_ Deixe-me pensar... _ Comecei usando do mesmo sarcasmo _ tirando o fato de você ter tentado me estuprar em um beco, me sequestrado, ameaçado, chantageado e coagido a satisfazer sua vontade? _ Devolvi com outra pergunta.

_ É, tirando isso _ Respondeu prontamente irônico.

Estreitei os olhos em sua direção tentando soar ameaçador. Mas há julgar pelo sorriso trocista se alargando em seus lábios, não deu muito certo. Bufei indignado resolvendo ignorar sua detestável presença e ocupar minha atenção em me vesti, já que vergonhosamente ainda estava nu em sua frente. virei-me de costas para ele, não desejando de jeito nenhum ter que que continuar olhando para sua cara zombeteira. Mesmo de costas podia sentir o peso do seu olhar queimando sobre mim, acompanhando como um predador atento cada mínimo movimento que executava manualmente. Sentia o rosto esquentar de embaraço pela intensidade quase palpável de seu escrutínio. Puxei o mais naturalmente possível o meu cabelo comprido para frente, usando-o como uma cortina espessa para esconder o rubor furioso se alastrando por toda extensão do rosto, juntamente com o constrangimento colossal queimando como a fogueira da inquisição Espanhola sobre minha pele marcada por chupadas e unhas afiadas.

Alguém poderia por gentileza me indicar o buraco mais próximo? Por Napoleão Bonaparte nas margens do rio sena! Que vergonha.

Vesti-me o mais rápido possível buscando não deixar transparecer na linguagem corporal dos movimentos contidos do meu corpo o desconforto indescritível imposta pela opressão magnética que eram aqueles abrasadores orbes postos sobre mim. Abotoei com dificuldade um por um cada botão branco de minha camisa social azul turquesa, surpreso por conseguir realizar essa simples tarefa, apesar de meus dedos trêmulos não colaborar com ordinária missão.

_ Não deveria me provocar assim ruivinho...tentando-me com esse corpo delicioso _ Sua voz grave e rouca chegou até mim num sussurro lascivo admoestador, acelerando a circulação sanguínea em minhas veias e me assustando pela conotação luxuriosa impregnada em cada letra proferida.

Me virei no instante exato que Milo saltou ágil do assento atravessando o quarto em largas passadas até mim, me intimidando com sua altura imponente. Suas pupilas azuis estavam dilatadas evidenciando o apetite selvagem ardendo em suas esferas reluzentes. Por instinto recuei alguns passos para trás engolindo em seco, avaliando mentalmente quanto de chance tinha de escapar pela porta de entrada ou fugir em direção ao banheiro e me trancar do lado de dentro com a chave dependurada na fechadura. Será que ele arrombaria a porta? Talvez eu devesse lhe chutar as partes intimas, incapacitando-o, como fiz da outra vez. Melhor não, provavelmente as consequências seriam dolorosas, apropriada para um enredo de filme de terror. E então, era uma vez Camus Versalhes.

Fui impedido de continuar a recuar quando senti as paredes baterem em minhas costas. Ele me lançou um sorriso torto de canto depositando os braços ao lado de minha cabeça, me prendendo contra si e impedindo qualquer possibilidade de fuga.

_ Parece que você faz de proposito _ murmurou rouco em meu ouvido, tornando minha respiração pesada e rarefeita em meus pulmões com a opressão densa que jorrava em abundância de cada poro de seu corpo desenvolto.

_ O que eu faço de propósito? _ Indaguei confuso num sussurro baixo, sentindo a coerência escapar dos sólidos limites de minha sanidade.

O que raios esta acontecendo comigo?

_ Atiçar-me _ respondeu anasalado recostando seu corpo ao meu.

Não consegui deixar de arfar ao ter seu corpo me prensando ainda mais contra a parede. Ergui as mãos tremulas até seu peito musculoso inalando o cheiro amadeirado que se desprendia dele. Espalmando inutilmente o seu peito na tentativa vã de conseguir alguma distância segura. Mas humilhantemente ele nem parecia notar o meu esforço de tentar lhe empurrar. Estremeci quando senti sua língua quente tocar meu rosto, deixando um rastro de saliva por onda passava.

Braços rodearam minha cintura, manipulando-me como um fantoche. Mordi a parte inferior de minhas bochechas até sentir o gosto férrico de sangue gotejando sobre a língua ao sufocar com custoso sucesso um gemido infame, no momento que Milo encaixou uma de suas pernas no meio das minhas, subindo lentamente. Além da pressão que seu corpo exercia sobre o meu, sua perna começou a provocar-me, subindo e descendo, em movimentos simulados de vai-e-vem, comprimindo-me lascivo sobre a parede atrás.

Uma de suas mãos serpenteou rude pelas minhas costas alcançando as omoplatas e detendo-se sobre a cabeça. Dedos agressivos se embrenharam nos fios soltos dos meus cabelos, me puxando bruscamente ao encontro de sua boca ávida, cobrindo minha boca coma sua. Seus lábios duros pareciam querer me devorar tamanha ganancia que se moviam sobre os meus, tinha certeza que ficariam inchados depois. Senti sua outra mão pousar em uma de minhas nádegas, apertando-a com certa força, enquanto sua perna direita roçava despudorada em minhas coxas, chegando perigosamente próximo do meu membro, que para o meu completo horror começava a endurecer sobre o cós da calça.

Segurei a respiração afoita quando seus lábios deixaram os meus junto com um grunhido grave que escapou de sua garganta. As mãos dele se curvaram nas mechas do meu cabelo, dois punhos pesados pressionando levemente meu maxilar, obrigando-me a expor o pescoço a seus olhos nublados. Senti sua boca mergulhar na pele arrepiada do pescoço, mordendo-o com a ponta de seus dentes e enviando ondas chamas por todo o corpo. Minhas pernas tremiam como se tivesse sido eletrocutado. Era uma sorte conveniente ter seus braços solidificado como duas travas envolta de meus quadris, do contrario teria ido ridiculamente ao chão.

Por fim ele desencostou-se de mim, e senti meu corpo amolecer me obrigando a usar a parede como apoio. Parecia que os meus músculos haviam atrofiado, perdendo toda força que possuíam, deixando-me grogue e instável, entorpecendo a razão em sensações turbulentas. Aspirei profundamente o ar matinal puro, na busca de coordenação motora e regularização dos meus sentidos imberbes.

Mon Dieu! Porque não conseguia me manter indiferente aos seus toques? Eu sou mesmo uma meretriz.

Olhei para seu rosto em meio aquela turbulência de sentidos, e ele sorriu malicioso passando a língua em seus lábios úmidos.

_ Não sei quanto a você ... _ Disse passando a mão sutilmente pelo seus cachos loiros _ Mas isso foi ótimo para mim.

Não me dignei a responder a provocação explicita que eram suas palavras. Até porque ainda não conseguia sentir minhas cordas vocais funcionando normalmente. Se eu abrisse a boca agora tinha certeza que acabaria gaguejando feito um idiota, coisa que não estava nem um pouco inclinado a experimentar, não mesmo, muito obrigado.

_ Para provar o quanto sou um homem... benevolente _ Disse estalando a língua em evidente escárnio ao frisar a última palavra _ Poderá ir embora para sua casa quando quiser._ Acrescentou conciso despertando novamente minhas suspeitas.

_ Se é verdade que posso ir embora, gostaria de ir agora mesmo _ Afirmei categórico testando a veracidade de sua declaração sem jamais desviar os olhos de suas expressões faciais.

Assim como antes ele não parecia esta mentindo, mas aquele brilho indefinível em suas retinas era muito estanho. O meu instinto clamava que havia algo oculto ali, me passando desapercebido, cuja essência não conseguia captar com precisão. Dando-me a sensação de esta caminhando direto para uma armadilha letal e emboscada.

Ou talvez eu apenas estivesse ficando neurótico.

_ Claro Camus! Mas antes você precisa se alimentar adequadamente, assim como eu _ expôs lacônico com a face inalterada.

__ Não estou com fome _ Disse o mais educadamente possível, estranhando sua súbita preocupação pela minha dieta.

_ Oras Camus! É apenas um desjejum. Não pretende me fazer uma desfeita dessas, não é mesmo? _ Retrucou severo num tom de voz que não admitiria ser contestado em sua vontade.

Eu ainda estava com o pé atrás com Milo. Mas não havia nada que eu pudesse fazer além de concordar com o seu pedido, melhor dizendo, ordem.

_ Tudo bem, eu aceito tomar café com você _ Não era como se ele tivesse me dado escolha de qualquer jeito. Tinha certeza que se recusasse ter-me ia obrigado de alguma forma extremamente desagradável a cumprir sua vontade.

De qualquer jeito segundo ele seria apenas um desjejum matinal, e logo depois eu poderia ir embora daquele covil da máfia teoricamente incólume. Então há não ser que o café estivesse envenenado com clorofórmio ou outra toxina igualmente mortífera, coisa que eu não duvidava de todo, não via problema algum em ficar estrategicamente quieto e fazer este último sacrifício.

_ Excelente! Então vamos. Saori já deve ter posto a mesa numa hora dessas _ Verbalizou com evidente satisfação adornando seu rosto, acentuando ainda mais o estranho brilho em suas íris.

Assenti em concordância o seguindo cauteloso porta afora. O corredor do lado de fora era imenso, assim como a antessala de teto de vidro acoplado a escadaria principal. Claro, eu havia notado na noite anterior quando Milo tinha me arrastado pelo braço, por esse mesmo trajeto escada acima, a imponência ostentosa daquela mansão colonial. Entretanto, apenas agora percebia de forma mais ampla sua real extensão.

Continuei o seguindo em silêncio apressando os passos para alcançar os seus. Entramos num espaçoso cômodo totalmente forrado em veludo sangue sobre o piso e uma grande lareira embutida na parede vertical, rodeado por duas chamativas poltronas giratórias. Era um ambiente aconchegante, um recanto agradável para se enroscar em noites frias de inverno e se aquecer no crepitar acolhedor do fogo da lareira na companhia de um bom livro e um cálice de vinho tinto.

Paramos frente de uma longa mesa de jantar que ocupava todo espaço da sala. Aquela mesa deveria comportar cerca de 70 pessoas ou mais. Havia ali uma grande variedade de frutas, bolos, pães, cereais, bolachas, biscoitos e panquecas. Um exagero desnecessário. Acomodei-me em uma das cadeiras ainda em silêncio, sendo acompanhado por ele que se sentou na ponta.

_ sirva-se do que quiser _ Disse com pouco caso pegando uma pequena taça de cristal e a preenchendo com um liquido de espessura densa e tonalidade rubra. Mesmo na distancia diminuta em que eu me encontrava sabia se tratar de vinho ou licor, devido ao odor cítrico emanando do recipiente.

Quem em sã consciência ingere bebida alcoólica as 05:30 da manhã?

Eu detestava comer qualquer coisa sólida durante a manhã, mas para não soar antipático cortei uma pequena fatia de bolo de laranja juntamente com uma xicara de café amargo sem açúcar, como preferia, do bule de louça ancorado na mesa.

Desviei minha atenção para uma chamativa pasta preta pousada ao lado direito de onde Milo sentava. Franzi o cenho em confusão. Não me lembrando de tê-la visto ali antes. Pela visão periférica percebi que Milo me fitava do outro lado da mesa, me remexi em desconforto sentindo o peso opressor de suas obsidianas me oprimindo. E tudo o que eu conseguia fazer era sorver no modo automático aquele bebida amarga, fingindo uma naturalidade que estava realmente longe de sentir.

O silêncio era quebrado vez ou outra pelo som estrepito da faca se chocando levemente com o pires, na medida que cortava milimetricamente a pequena poção do bolo sobre meu prato, levando-o em seguida a boca. Pelo aspecto agradável do bolo que eu mastigava, supus que provavelmente ele deveria está muito saboroso. Sim! Provavelmente. Porque eu não sentia verdadeiramente o gosto do que ia a boca. Estava muito mais preocupado com aqueles olhos afiados seguindo cada movimento que eu fazia, como uma serpente prestes a dar o bote. De forma que não faria diferença se estivesse comendo isopor ou mesmo estrume.

Espiei-o pelo canto dos olhos e ele me encarava abertamente girando a taça de conteúdo vermelho entre os dedos com um sorriso cínico de canto de lábios, me fazendo engolir em seco o pedaço de bolo que entalou em minha garganta.

A aura feroz que emanava dele era absurdamente sufocante, mesmo a atmosfera parecia estalar uma estática sufocante com a sua presença dominadora.

Beberiquei o último gole de café preto de minha xicara, depositando-o sobre o vão da mesa e agradecendo mentalmente por aquele martírio está acabando, era terrivelmente angustiante. Limpei os lábios com o guardanapo incerto do que fazer agora. Jogando meus medos para os recantos mais profundos de minha mente virei-me de lado encontrando os olhos de Milo sobre os meus.

_ Estou satisfeito _ Articulei polido, desejando poder me erguer da mesa e ir embora mais rápido do que um prisioneiro que acabou de ter concedido seu alvará de soltura.

Não pude deixar de perceber que para alguém que supostamente estava com fome, ele não havia comido nada. Apenas bebericado preguiçosamente e em pequenos goles o licor derramado em sua taça. Estranho.

Muito estranho.

_ Perfeito! Como prometido você está livre para ir embora _ Disse passando libidinosamente sua língua em seus lábios avermelhados pelo vinho tinto _ Mas antes gostaria que me desse sua opinião critica sobre a capacidade artística profissional do meu novo fotografo particular. Não estou muito certo de sua competência depois de seu último trabalho. Acho que você pode me ajudar a esclarecer essa dúvida depois de ver o que ele fotografou tão entusiasticamente _ Acrescentou suspirando em enfado enquanto sua mão livre pegava a pasta que jazia inerte ao seu lado, estendendo-a para mim.

Semicerrei os olhos em desconfiança em sua direção. Eu entendi bem? Ele queria me mostrar fotos? Não. Eu não estava gostando nada disso. Parecia uma ação calculada demais para ser um ato inocente vindo de alguém como Milo. E o cintilar astuto impresso em suas íris cobalto não contribuía para diminuir essa inquietante impressão.

Mas evidente que mais uma vez, para variar, eu não tinha realmente uma escolha, há não ser estender o braço e relutantemente pegar a pasta suspensa em sua mão.

E infelizmente foi isso o que eu fiz.

Senti a cor sumir do meu rosto enquanto meus olhos passavam pelas imagens impressas nas fotos seguras em meus dedos.

Eram todas fotografias recentes de Afrodite, Shion e Dohko.

_ Camus, seu rosto está muito pálido. Sente-se bem? _ Indagou simulando uma falsa preocupação em seu tom de voz.

Mas o que significa isso? _ Questionei atordoado sem despregar os olhos das inúmeras imagens que havia espalhado pela mesa. Eram centenas delas. Em sua maioria do Dite, retratadas em pontos diferentes da cidade e até de dentro da faculdade onde cursávamos.

_ Isso o que Camus? Não me diga que não gostou, seria decepcionante para o profissional que as tirou ter uma opinião tão negativa de sua parte. _ Suas palavras casuais eram de um cinismo inigualável, tendo em mim o efeito injetável de uma seringa repleta de morfina aplicada direto na artéria.

Fechei os punhos fincando as unhas na palma da mão, sentindo o viscoso liquido do sangue umedecer as pontas do dedo pela força imposta.

Santo cristo! Qual era á daquele louco?

Empurrando a pasta para o lado levantei a cabeça encontrando seu olhar viperino avaliando-me as reações degustando tranquilamente o licor rubro de sua taça.

_ O que significa isso? _ Repeti a pergunta entre os dentes lutando contra o enjoo ameaçando subir pela garganta. Era um pesadelo, tinha que ser.

_ São amigos seus, estou certo? _ Perguntou retorico, já que obviamente ele sabia a resposta _ Seria uma lástima se algo acontecesse á eles nessa cidade tão violenta _ terminou suspirando de leve como se isso de fato o preocupasse.

Fiquei lívido sentindo o sangue parar de coagular e congelar nas veias. Se não fosse pelo autocontrole adquirido ao longo dos anos, não teria conseguido evitar colocar para fora o bolo que havia acabado de ingerir, se revirando perigosamente em engulhos no meu estômago.

Milo é muito pior do que havia imaginado, ele era um monstro. Eu não conseguia acreditar que ele estava ameaçando as poucas pessoas que de alguma forma faziam parte da minha vida.

Sabe, uma coisa é ter minha vida ameaçada por ele. Eu poderia lidar de um jeito ou de outro com isso. Mesmo que no processo acabasse por ser morto por ele, como tinha certeza que ele o faria inicialmente. Isso seria tolerável! Uma vez que se eu morresse não faria falta para ninguém. Seria apenas uma aberração a menos no mundo, nada demais.

Entretanto não poderia afirmar o mesmo quando o alvo de suas ameaças se direcionava para outras pessoas além mim. Principalmente amigos que me eram caros. Fora mesmo muita ingenuidade de minha parte ter acreditado que Milo me deixaria partir tão facilmente, quando na verdade se mostrava evidente que essa nunca tinha sido sua intenção.

Porque ele estava fazendo isso?

_ O que pretende com isso Milo? _ sussurrei fracamente num fio de voz. Sentia-me derrotado o suficiente para não me importar com mais nada, só ansiava que tudo terminasse logo. Seja lá o que for que isso significasse.

_ Nada demais. Apenas seja um menino obediente que seus amigos continuarão respirando felizes e saudáveis, me contrarie e terá que identifica-los na sala restrita de um necrotério _ A voz escura dele era puro veneno destilado. Suas feições agora endurecidas denotavam toda a perversidade de seu caráter deturpado. Ele era uma pessoa horrível.

Aquilo não podia ser real, tinha que se tratar de uma alucinação desvairada. Meu cérebro humano em negação insistia que eu estava no meio de um pesadelo macabro e ia acordar a qualquer momento. Era isso. Por favor! Tinha que ser isso.

Então porque não despertava logo?

_ O que quer de mim Milo? _ Perguntei apático. Tudo o que eu mais queria era poder dormir e não acordar nunca mais. Minha cabeça girava como se fosse uma roleta russa descontrolada e o meu crânio parecia ter se diluído em vapor.

_ Seu corpo e... sua vida _ respondeu direto depositando a sua taça vazia entre os dedos em cima da mesa.

_ Faça o que quiser comigo, se é o que quer. Mas deixe os outros de fora. Por favor. _ Não parecia eu ali, articulando palavras tão derrotistas par a uma pessoa que decerto desconhecia o valor imutável e transcendental de uma amizade verdadeira. Eu não poderia permitir que as poucas pessoas com quem me importava acabassem se ferindo por minha causa. Isso seria inadmissível. Me sentia uma casca oca, um cadáver frio e sepultado jazendo inerte naquela sala escura.

Então era a minha vida o que ele almejava? Que seja. Eu não conseguia me importar o bastante com a minha existência falida para lamentar por isso, acho que pelo incontestável fato de que por dentro eu já estivesse morto há muito tempo. Não faria diferença de todo modo, não quando você sabe que não tem nada para se perder lá fora, apenas uma vida vazia que há muito tempo perdera seu sentido, se é que um dia ouve algum.

_ Sabia escolha. Esteja ciente de que agora adiante você vai ser minha putinha particular até que eu me canse de brincar com o seu corpo. Agora que estamos claramente entendidos, porque tudo se resolve com um diálogo pacifico como o que estamos tendo agora, você já pode se retirar _ Disse ríspido recostando-se no respaldo da cadeira sem retirar suas esferas de cima de mim. _ Se não me engano esta quase na hora de sua faculdade, Máscara da morte vai leva-lo de carro em seu apartamento para que não se atrase. _ Eu apenas ouvia sem processar direito o que era dito, como se um buraco sem fundo tivesse se aberto sob meus pés. Tragando-me em um vácuo escuro desse precipício lúgubre.

Como ele sabia onde morava? E o horário de minha faculdade? Não sabia. E naquele momento também não me importava.

Sem mais nada a dizer me levantei entorpecido pelo transe seguindo rumo á saída como um zumbi, sentindo seus olhos me perfurando as costas no trajeto.

Naquele instante eu não passava de um pássaro de asas quebradas.