O Escorpião Escarlate
6 Folhas de outono
Notas iniciais
Sabe aquela vontade de arrancar a própria vida?
Pois é! Estou sentido ela agora.
Pensando bem não estou sendo de todo sincero em minhas palavras sombrias. Porque o mais correto seria afirmar que o prelúdio fatídico desse ímpeto funesto dera-se desde o instante de minha saída da mansão palaciana daquele criminoso manipulador, há exatos dois dias. O peso rascante da incerteza trespassava-me em sua lança fria e sepulcral, um estigma avolumando medos passionais em meus atos vacilantes. Não sentia mais o chão sólido abaixo de meus pés, era como se repentinamente ele tivesse sido arrancado de mim, desestabilizando-me a razão. E agora estivesse engolfado por uma avalanche difusa minando lentamente o alicerce até então inabalável de minhas forças físicas e psicológicas ,me expondo, fragilizando.
Eu não conseguia raciocinar direito. Minha mente em frangalhos se assemelhava a um rascunho em branco, uma tela sem cores e vazia. De repente sem prévio aviso tudo virara de ponta a cabeça, e eu não via mais sentido em nada. Todos os meus sentidos pareciam ter se transformado em uma calota polar e emergido numa profunda dormência patológica. Eu funcionava tão somente no modo automático. Um fantoche oco corroído por incertezas cujas cordas imperceptíveis aos meus olhos eram manejadas pelas mãos de Milo.
Milo...
O simples balbuciar das quatros letras que compõem o seu nome enchia meu peito de medo. Trazendo consigo uma nauseante vertigem se espalhando como doença infectocontagiosa em cada membro entorpecido do meu corpo. Por mais que tentasse não conseguia compreender o que o motivava a agir de forma tão baixa em prol de seus desejos escusos segregado de valores inversos ao da ética. Não havia uma resposta plausível extenuando essas e outras indagações sobrevoando como um corvo negro de mórbidos presságios o mausoléu lamacento que era minha consciência devastada. Ele era em si um enigma difícil de ser desvendado, tal como Édipo com a esfinge enigmática.
Suas atitudes calculistas deixavam poucas dúvidas sobre seu caráter manipulador e inflexível. Milo se mostrava a personificação de tudo o que o que eu mais abominava em uma única pessoa, inescrupuloso, cruel e vil.
Se me perguntarem como fora percorrido o trajeto de carro no retorno para o meu apartamento do outro lado de Tókio. Eu não saberia responder. O aturdimento do ocorrido privava-me das lembranças, implantando lapsos de memorias. Apenas recordava-me da chuva colérica despencando sobre as ruas ainda desertas. Dos pingos orvalhados investindo habilmente contra as vidraças escuras do veiculo. E do silêncio espiralado envolvendo como uma mortalha nefasta a atmosfera claustrofóbica daquele diminuto recinto. Entretanto tudo se resumia a um vago borrão disforme. Como imagens tremeluzidas na superfície espelhada de um rio.
Sequer podia fugir para o outro lado do mundo forjando meu sumiço do alcance das garras inescapáveis de Milo. Não quando seus poucos amigos se encontravam sobre a mira certeira do chefe oyaban da maior máfia organizada do oriente médio, a yakuza. Sabia que Milo não teria pudores em cumprir sua ameaça se assim lhe aprouvesse, e isso é apenas uma pequena amostra do que ele era capaz de fazer. Não havia escapatórias reais para mim, não mais. Pensar o contrário só me serviria á induzir-me numa vã esperança, ilusões amargas.
A verdade é que só um milagre poderia me tirar dessa.
Não fora uma das tarefas mais fáceis convencer o Dite que eu estava bem no hall da faculdade no dia anterior. De jeito nenhum ele poderia descobrir o que estava acontecendo. Conhecendo-o bem como eu o conhecia temia pela sua reação intempestiva, levando-o á tomar atitudes imprudentes que o faria inevitavelmente pôr-se em perigo. Dite podia ser um narcisista egocêntrico afixionado pela estética, porém por detrás de sua aparente frivolidade existia um amigo leal e superprotetor. Eu não poderia permitir que ele acabasse se machucando por um problema meu, ou pior, desaparecendo para sempre do mapa pelas mãos sórdidas de Milo ou qualquer outro enviado por ele com o proposito de acuar-me.
Era uma sorte meus rosto ser uma máscara inexpressiva de quaisquer emoção visível em sua superfície. Isso ajuda muito quando você quer passar despercebido aos olhos alheios. Ser invisível ás vezes tem lá suas vantagens.
Entretanto confesso que enganar o Dite é uma tarefa desgastante, a sua perspicácia aguçada parecia desvendar-me por inteiro, percebendo verdades ocultas trancafiadas nas celas mais escuras e distantes de meu âmago. Não havia vacilo em suas esferas azuis piscina. As vezes tenho a inquietante sensação que ele sabe que estou mentindo e fingi acreditar na veracidade de minhas palavras. E internamente rogava para que eu estivesse enganado e fosse apenas uma impressão equivocada, uma paranoia. Mas não ignoro que teria de ficar mais cauteloso quando o Dite estiver por perto, só por precaução.
Eu não vi Milo novamente depois de minha saída de sua mansão, então apenas limitava-me a seguir meticulosamente a rotina já bem conhecida. Como ir para a faculdade de manhã, trabalho no meu emprego de meio período á tarde na livraria de Dohko e estudar durante a noite. Como não o via alguns dias o meu nível de stress já tinha á muito ultrapassado os limites suportáveis . Não que eu queira olhar para sua cara de novo, não mesmo. Eu teria de ser um doente masoquista se desejasse o oposto, e isso até onde eu saiba ainda não era. Daquele psicopata perigoso e mentalmente instável eu só almejo um continente de distancia, obvio. No entanto a ansiedade mesclada com uma alta dose de angustia do que ele faria, era mais do que o suficiente para atemorizar-me. Aquele silêncio vindo dele não me parecia algo bom e isso só acentuava minha insegurança quanto ao que estava por vir. Meus instintos sussurravam que aquela quietude intercalada era falsa, uma armadilha enganosa para dar-me uma ilusória sensação de segurança, antes da letalidade de seu ataque. Era como se eu fosse uma mosca debatendo-me inutilmente em suas teias insolúveis, prestes a ser devidamente devorado por ele, e isso me fazia engolir em seco, apavorava-me.
Respirei fundo mordendo nervosamente a ponta de minha caneta esferográfica entre os dentes. O que se passava por detrás daquelas íris azuis faiscantes? Milo é um quebra cabeças impossível de ser solucionado. A brutalidade de suas ações era enervante, espalhava-se como labaredas de chamas, inegavelmente abrasador, porém perverso. Havia morte e danação naqueles orbes selvagens. Não havia pena nem sentimentos nele, e isso ficou claro no momento que ele mostrou as fotografias do Dite, Shion e Dohko em uma ameaça incrustada em cada palavra proferida pelos seus lábios de imediata retaliação caso não me submetesse as suas vontades promiscuas. Sua atitude era de uma prepotência e arrogância inigualável, com a ressalva dele também ser um assassino sem remorsos e um ditador cínico. O quão odiável Milo poderia ser?
Sentia-me mal. Muito mal. A minha impotência perante ele e toda a essa situação é frustrante, e isso era o que mais me feria. Ao meu ver eu não passava de um inútil fracassado, e admito que em momentos assim eu agradeceria se um meteoro caísse sobre minha cabeça. Eu estava preso em uma prisão criada pelos dedos de um mafioso, e ele sabe que eu não tenho chances concretas de escapar dessas grades. Apenas seletas palavras do meu vasto vocabulário poderiam resumir bem a encrenca surreal no qual me encontrava afundado até a lama: perdido, ferrado e fodido.
Merde! Ainda por cima perdi minha virgindade com ele. Dá pra ser pior? Veja bem, o fato de eu ter perdido a virgindade com ele, um homem, não significa que eu seja gay, foi apenas uma resposta natural de meu corpo repleto de hormônios aos seus toques experientes. E eu me recuso a aceitar qualquer outra explicação que não seja essa.
Inacreditável pensar que minha primeira vez tenha sido com um homem que me sequestrou, chantageou, aterrorizou e coagiu. Não é como se eu tivesse guardando-me para alguém em especial fantasiando sonhos tolos românticos- afetivos e só que, eu não quero que fique gravado na minha memoria que minha primeira vez tenha sido daquele jeito brutal, sem um pingo de sentimentos.
Forcei os dentes na tampa da caneta ouvindo-a estalar dentro da boca. Senti uma leve caricia do vento ondulando suave pela janela aberta, embalando-me gentil os fios soltos dos meus cabelos. A ansiedade visceral corroía-me acidamente as entranhas em etapas de aflição e receios, obstruindo á falha voz da razão em pensamentos pessimistas. Já perdi as contas matemáticas de quantas barras de chocolate meio amargo comi em apenas dois dias. Mas há julgar pela quantidade astronômica de embalagens entulhando as lixeiras do apartamento, pouco é que não fora. E isso não deixa de ser irônico, sabe. Considerando minha aversão por essas porcarias calóricas com baixo teor de proteínas saudáveis. Mas infelizmente para o meu organismo eu descobri o efeito calmante do açúcar em minha corrente sanguínea, e isso me lembra que depois da aula vou ter de passar em uma loja de conveniência para abastecer minha despensa de produtos açucarados. Sem afogar-me em uma grande caixa de chocolates é que eu não ficaria.
Quem sabe assim eu não ganho logo uma diabetes e morra?
Mas como a sorte não vai com a minha cara o melhor era não esperar por isso...
Retirei a caneta agora trincada da boca espreguiçando-me discretamente sobre a carteira voltando minha atenção para a professora egiptóloga que falava fervorosamente sobre os diversos campos da paleontologia e estatísticas históricas através das eras. Eu não tinha o mínimo interesse no assunto, embora seja matéria essencial para que eu possa fazer uma boa avaliação no final do semestre e consegui um bom estágio. A minha mente dispersa insistia em apossar-se de qualquer tópico de assunto remotamente interessante que se remete as horas gastas trancafiado dentro de uma sala de aula. Procurei o celular em meu bolso e olhei o horário. Ótimo, minha tortura ainda demoraria a acabar. Faltavam horas para que a aula maçante findasse. A voz insistente da professora ecoando aguda pelo ambiente estava provocando uma incômoda dor de cabeça em minha nuca. Respirei fundo resignado com aquele martírio sonoro. Tudo o que eu mais desejava era que o dia terminasse logo, e com isso eu tivesse meu alvará de liberdade para podes ir para casa. Queria sentar em meu quarto, jogar minha bolsa em qualquer canto e, principalmente pairar sobre a pequena varanda da sala, comtemplando de cima a lua cheia calmante se revelando translúcida por detrás das pálidas cortinas brancas, acalmando-me os sentidos confusos e tumultuados. Queria poder descansar esquecendo os problemas que eu sabia não ter mais solução.
Estava exausto. Sentia-me extremamente fatigado pelo desanimo e o peso carrasco da opressão. Tudo o que eu consigo desejar é um pouco de paz para o meu espirito atormentado, um bálsamo que eu sei não virá. Dormir? Por favor! Nem sei mais o que é isso desde a morte de Dégel, e ter um psicopata manipulador em sua cola que pode invadir o seu apartamento sem cerimonias e te estuprar não é bem meu conceito para se ter uma boa e despreocupada noite de Morfeus...
_ Camus Versalhes _ A professora chamou despertando-me dos meus pensamentos. Sua expressão rígida evidenciava que minha alienação em sua aula não lhe passou batido. Merde! _ Venha responder essa questão no quadro.
A encarei inexpressivo, como sempre, e percebi seu ardil reluzindo sobre suas retinas cor de café. E eu soube de imediato. Ela é mais uma no extenso quadro dos professores daquela instituição que me via como escória indigna contaminando a sala requintada com minha presença anormal e indesejada. Ela sabia de minha desatenção em sua aula, e estava claro que esperava um passo em falso meu para relatar a reitoria, com o propósito obvio de eu ganhar uma advertência e quem sabe até a expulsão. Sendo um bolsista beneficiado por um programa educacional do governo em parceria com algumas faculdades espalhadas em diversos pontos do país, eu tinha plena noção que não devia ser lá muito difícil expulsarem-me dali como um cachorro sarnento. E isso apenas pelo fato de eu ser um doncel.
Uma tentativa frontal e desprezível de denegrir minha imagem aos olhos dos outros alunos, já que no seu ver eu não seria capaz de responder a questão no quadro se não estava prestando a devida atenção em sua matéria.
E é sempre assim. Eles subestimam minhas capacidades, crentes que eu cairei na imbecilidade fajuta de suas ações previsíveis.
Ajeitei os óculos de grau que uso para ler suspenso em meu rosto e levantei-me do assento pegando o livro oferecido das mãos dela, analisando em seguida o problema que consistia em uma equação de algarismos romanos.
Era um cálculo extenso que provavelmente tomaria todo o espaço da lousa dos fundos.
Peguei o giz branco na caixa e comecei a resolver a cálculo no quadro. Devido as minhas pernas curtas eu tinha um pouco de dificuldade em atingir o topo da lousa, tendo algumas vezes que ficar na ponta dos pés e esticar os braços em riste. Mas depois de uns quatro minutos finalmente consegui finalizar a equação. Alguns alunos me olhavam perplexos e de olhos arregalados. Por fim a professora conferiu meus cálculos e disse.
_ Está errada _ O sorrisinho vitorioso dela era asqueroso.
_ Não. Não está _ Afirmei dando-lhe as costas retornando para minha carteira.
_ O livro diz...
_ O livro está errado _ A egiptóloga conferiu atentamente o quadro e observou o livro em seguida.
_ Tem razão _ disse visivelmente incomodada perante a turma _ Muito bem Sr. Versalhes pode se acomodar em seu devido lugar _ Juntei as apostilas empilhadas no canto da carteira guardando-as na bolsa para sair da sala.
_ Minha aula ainda não acabou mocinho. Sente-se...
_ Para mim acabou. A senhora não tem mais nada a me ensinar. Avec licence _ O rosto dela inflou-se de um vermelho berrante deturpando a seriedade de suas feições ríspidas. Não me importei. Eu realmente nada tinha á fazer ali. Se ela não se agrada de minha presença nesse momento a reciproca era verdadeira. De qualquer maneira meu déficit de atenção estava abaixo de zero e obviamente a culpa era de Milo.
Sai da sala seguindo pelo corredor principal que estava calmo sem a presença inconveniente de alunos baderneiros transitando fora de suas respectivas salas. Eu ainda tinha duas aulas antes do término, e por mais convidativo que fosse a perspectiva de ir embora não podia dar-me ao luxo de atender esse desejo, principalmente porque tenho uma avaliação no último horário com Shion.
Lá fora estava fresco sem resquícios dos raios solares amortecendo o cinza opaco do céu nublado. E sabe, foi mesmo uma sorte anormal, conveniente até, a atmosfera climática se encontrar pendendo perigosamente para o frio. Do contrário que argumentos ia usar para justificar o meu vestuário mais apropriado pra estação do inverno? Claro! Não é como se eu tivesse uma escolha propriamente dita e pudesse usar algo diferente. Não quando do pescoço para baixo todo seu corpo esta todo entalhado de marcas roxas provocadas por unhas e chupadas. O que eu iria dizer aos outros? Pior, o que eu iria dizer ao Dite se visse aqueles hematomas? Que eu fui atacado pelo chupa cabra?
Mon Dieu! Dá pra ser mais absurdo?
Ouvi sons de passos reverbando no piso marmóreo da entrada do pavilhão quando já estava na saída para o pátio interno. Um garoto de estatura pequena e tez pálida caminhava incerto em direção ao final do corredor deserto abraçando uma considerável pilha de livros entre os braços. Entretanto o que chamou minha atenção era a coloração incomum de seus cabelos compridos, uma tonalidade lilás intenso esvoaçando harmonicamente com os seus traços delicados.
Ele era um doncel, assim como eu.
Eu sabia disso porque sua estatura física e delicada denotava essa condição. Mas o que realmente o entregava era justamente a cor exótica de seus cabelos lavanda. A maior parte dos nascidos donceis eram reconhecidos por serem portadores de pupilas carmesim, como no meu caso. Mas há os que não possuem essa periculosidade genética delatora. Sendo que em alguns casos de rara ocorrência essa condição pode ser reconhecida pela pigmentação diferenciada da melanina do couro capilar criando tons anormais de cabelo. Mas lavanda é realmente novidade pra mim.
Acho que ele percebeu minha presença muda estagnada na porta já que de súbito estancou no lugar e se virou olhando-me diretamente nos olhos. A passos trôpegos começou andar em minha direção apertando nervosamente os livros sobre os braços, parecia temeroso. Arquei as sobrancelhas indagativo vendo-o se aproximar vacilante.
_ Desculpe. Mas você pode me informar para que lado fica a recepção? _ Perguntou notoriamente sem graça.
Não pude deixar de impressionar-me com o verde esmeralda dos olhos dele. Lembrava-me as florestas impenetráveis das terras altas escocesas, escuras e profundas. Ele não tinha sobrancelhas, em vez disso possuía duas peculiares pintinhas na testa. Era realmente exótico.
_ Você está no lugar errado. Tanto a recepção como a coordenadoria pedagógica ficam no segundo piso do prédio mais ao norte. _ Informei condescendente vendo-o suspirar resignado. _ Se quiser posso lhe acompanhar até a entrada do bloco _ Acrescentei solicito. Estava mais do que claro o quanto ele se encontrava perdido naquele campus. E de qualquer maneira eu passaria perto de onde ele procurava, de forma que não faria diferença mostrar-lhe o caminho.
_ Obrigado. Mas não quero incomoda-lo com o meu péssimo senso de direção _ Sorriu encabulado mostrando adoráveis covinhas na bochecha. Devolvi o sorriso naturalmente surpreendendo-me com o ato, porque eu não era dado a demonstrações expressivas, muito pelo contrario. Mas era impossível ser indiferente com a pureza genuína daquelas esmeraldas.
_ Não é incômodo algum. Alias sou Camus Versalhes _ Garanti sincero.
_ Agradeço. Pode me chamar de Mu Dallas. Só não aperto sua mão porque no momento estou impossibilitado _ Disse constrangido indicando os livros aprisionados entre os braços. Sorri novamente. Se tem uma coisa que eu entendo é sobre livros. Eu com certeza não seria mais o único nerd da faculdade.
E isso é reconfortante. Para variar seria bom ter outra pessoa com conteúdo útil para conversação que não seja o Dite com seus monólogos infernais sobre como obter uma maquiagem impecável e a eficiência satisfatória das posições sexuais do Kama sutra.
Sim! Isso é animador. E não, eu não quero falar o que penso sobre o Kama sutra.
_ Tudo bem. Você é novo por aqui. Estou certo? _ Indaguei curioso enquanto andávamos pelo passeio de concreto, atravessando sem pressa o pátio em direção ao bloco principal.
_ Está tão obvio assim? _ Na verdade está, e muito. Mas achei melhor não dizer isso a ele.
_ Nunca o vi por aqui antes. E um outro doncel com cabelos lavanda certamente não passaria desapercebido pela faculdade _ Expliquei cautelosamente já que não sabia como ele lhe dava com sua condição de procriador. Eu mesmo tenho minhas crise de negação algumas vezes. Claro, longe dos olhares julgadores dos outros. E se me perguntarem isso em voz alta, desnecessário dizer que vou negar até a morte.
_ Ahhh... então você percebeu. Mas você tem razão seria impossível passar sem ser notado. É a primeira vez que piso nesse campus, já que cheguei recentemente do Tibet onde até então morava com meu tio Hakurei. Mas com o seu falecimento recente e sem ter condições de continuar morando por lá, não tive outra escolha se não trancar minha matricula e me transferia para o Japão para morar com Shion _ Justificou olhando-me tranquilo por sobre os cílios longos com cara de criança. Mas uma criança madura para sua pouca idade, consciente de seus atos e escolhas.
_ Você é parente de Shion? _ Perguntei surpreso. Até onde sabia Shion não tinha mais familiares vivos. Mas ao que parece é uma informação equivocada. Claro! Eu já devia saber que toda informação, ou no caso futrica, vindo do Dite é sempre algo excepcionalmente duvidoso. E eu não sei porque ainda me dou ao trabalho de ouvir seu abastado banco de dados da vida alheia. Está decidido, na próxima vez que ele vier com o seu arsenal platônico de intrigas e mexericos eu não vou dar a mínima, irei apenas fingir prestar atenção. Sim, é exatamente isso que eu faria.
_ Não de sangue. Ele é meu padrinho de batismo. Mas você o conhece? _ Ok! Retiro o que disse. Bom, ás vezes as fofocas sem noção do Dite tem algum fundo de verdade.
_ Sim. Ele é o meu professor de história contemporânea. Além de ser muito amigo do meu empregador _ Disse dobrando a calçada, pensando em como o mundo era mesmo um cubículo pequeno.
_ Nossa que coincidência fabulosa de conhece-lo então em meio a tantos estudantes da faculdade _ Verbalizou surpreso após breves segundos de silêncio. E eu não podia deixar de concordar com sua estupefação. Quer dizer, era mesmo algo inusitado _ O que você esta cursando? _ Perguntou acelerando as passadas no ritmo dos meus.
_ Estou fazendo segundo ano de história _ Respondi ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha que teimava em esvoaçar pelo meu rosto, tampando-me a visão.
_ Sério? Eu também estou cursando o segundo ano de história. Quer dizer, cursava no Tibet, mas devido a transferência vou continuar o curso aqui. Acha que ficaremos na mesma classe? _ O olhei incrédulo com mais essa coincidência.
Dá pra acreditar?
_ Provavelmente. Só há uma sala para os alunos secundaristas do curso de história _ Disse incisivo. Agradando-me sobremaneira a ideia de tê-lo como companheiro de classe. Ainda mais que ele era assim como eu, você sabe, um doncel, hostilizados pela sociedade convencional execrada de dogmas corruptos.
As vezes eu me flagrava realmente impressionado com a quantidade de lixo que um único homofóbico estupido consegui reunir em uma só frase. Era assombroso. Eles eram sutis como um elefante e delicados como o demônio da Tasmânia.
_ Ah! Que sorte. Não vou ficar sozinho na sala _ Sorriu em contentamento com noticia.
Tive pene dele. Não me passou incólume nas entrelinhas de suas palavras vacilantes a nota reprimida de tristeza. Eu sabia por conhecimento de causa que sendo um doncel o mais certo é que assim como fora comigo desde que me lembro por gente, ele também não deve ter sido bem aceito pelo mundo a sua volta. O estigma de putos, vadios e aberrações dentre outros adjetivos vulgares e degradantes, é uma chaga purulenta seguindo indistintamente cada homem da sociedade com capacidades geradoras. Éramos humilhados e insultados abertamente pela sociedade como se fossemos portadores de alguma doença transmissível.
A vida de Mu mesmo no Tibet não devia ter sido fácil. Ele era tão sozinho como eu.
Nada mais fora dito, apenas seguimos em um silêncio reconfortante, acolhedor, cada qual submerso nos próprios pensamentos repletos de significâncias conflituosas. Apenas pessoas execradas como nos éramos perante essa segregação hipócrita, também conhecida como sociedade, compreendia na pele a real dimensão do preconceito velado e multifacetado espreitando em cada esquina , e nas instituições familiares estruturadas sobre o alicerce da intolerância e de valores inversos ao respeito e a igualdade. Não tinha esperanças de viver o bastante para presenciar o futuro se descortinando dos velhos conceitos arcaicos. Não quando as crianças de hoje são incutidas pelos próprios pais a hostilizar o que for considerado fora dos padrões discursados dos bons costumes e da moralidade.
Desacelerei o passo quando o pavilhão central entrou em meu campo de visão na ala norte. Evitava perambular naquele lado do campus para evitar me esbarar com a presença desagradável de Radamanthys instalado justamente numa das salas do terceiro andar daquele prédio. Era inacreditável no meu ponto de vista a facilidade dele conseguir me localizar quando me encontrava por perto. Parecia até um cão farejador.
Melhor não dar brecha para o azar. Ainda mais com minha sorte desgraçada.
_ É aqui. Você vai encontrar a recepção logo na entrada _ Informei olhando desinteressado para o lado dentro.
_ Obrigado mais uma vez por ter me acompanhado _ Disse gentilmente. Assenti vendo-o entrar no recinto encurvado pelo excesso de livro empilhado nos braços. Ele realmente gostava de lê.
Soltei um suspiro desanimado enfiando as mãos desocupadas nos bolsos da calça. Sem o que fazer retornei para o pátio da entrada vazio á essa hora. Puxei a bolsa lateral para frente da cintura e sentei-me na beirada circular de um chafariz em estilo neoclássico ornamentando os portões da entrada daquela instituição.
A ausência de sons era uma benção que eu apreciava. Pena ser um evento de rara ocorrência nos centros urbanos das grandes metrópoles. Eu não entendia a necessidade das pessoas de falarem alto, como se assim pudessem ser reconhecidas no ciclo inquebrantável da competitividade capitalista. Mera ilusão. O mundo seria um lugar mais tolerável se as pessoas só abrissem a boca quando tivessem algo de útil para pronunciar. Talvez assim nem houvesse tanta procura aos fonodiologos, psicanalistas e terapeutas.
Afrouxei um pouco a pressão do cachecol enrolado estrategicamente em meu pescoço de forma a escondes os vergões arroxeados espalhados na minha jugular. Aquilo era humilhante. Fazia-me sentir um gado que fora marcado pelo ferro quente pelas mãos de seu dono. Um atestado de posse. Principalmente porque me lembrava da traição vergonhosa do meu próprio corpo contorcendo-se feito uma cadela no cio debaixo do seu. Francamente que espécie de imbecil eu era? Tsc! Provavelmente um dos mais ferrados na vida. E eu prefiro abster-me de recordar que segundo suas ditas palavras ordenadas friamente naquele amaldiçoado café da manhã, ter-me-ia que submeter as seus caprichos lascivos como se fosse um prostituto vulgar sem escolha para declinar de seus mandos e desmandos.
Esse pensamento aterrador era mais que suficiente para fazer meu coração bater oco entre as tripas. Peguei o meu recém descoberto calmante de minha bolsa, uma barrinha empacotada de chocolate meio amargo. Amarga como minha existência falida. Sabe, talvez ele tenha me esquecido já que não tenho sinal de sua detestável presença a dois dias. Sim! Vai vê arrumou outra vitima para torturar e decidiu que não vale a pena ter o seu precioso tempo perdido com um ninguém como eu. Qual é? Não dizem que a esperança é a última que morre? E embora eu saiba que numa escala de um a dez a real probabilidade de minha teoria está correta é ainda bem abaixo de um monte de zeros separados por vírgulas, não deixa de ser uma hipótese a se considerar.
Certo! Eu sei. Estou me iludindo ingenuamente como uma criança sonhadora ainda crente na vinda do papai Noel em um trenó puxado por renas voadoras na véspera de natal. Tolices! Porque as pessoas insistem em camuflar a realidade crua com mentiras fantasiosas? Oras! Papai Noel não existe. É cientificamente impossível pela lei gravitacional renas voarem. Branca de neve não despertou do esquife de gelo, morreu envenenada pela maça. João e Maria nunca encontraram o caminho de casa, se perderam na floresta da bruxa e provavelmente tornaram-se o desjejum dos lobos selvagens, não é obvio? Rapunzel morreu de velha na torre mais alta, onde já se viu escapar de uma altura quilométrica usando os cabelos como corda? A cabeça não teria suportado o peso do corpo e consequentemente ela teria o pescoço quebrado no processo. É pura lógica e física quântica. Faça-me o favor.
Porque ninguém percebe que finais felizes não existem?
Mastiguei com força em pedaço de chocolate sentindo o sabor açucarado da glicose espalhando-se pela língua e a falange. Que sina desgraçada essa minha, virei vadia de um criminoso da máfia. Um brinquedinho novo sem prazo de validade estipulado que seria usado até ele se se cansar da mesmice de sua aquisição e com certeza descartado para sempre com uma bala de chumbo na testa logo em seguida. O que mais poderia esperar de um assassino cruel que fala em matar como se só estivesse discutindo o sabor da pizza que vai pedir pelo telefone? Pelo menos é isso que eu acho. É isso o que diz a sábia voz da razão. E fora isso o que ele afirmou em suas próprias palavras. O que mais poderia significar quando ele revelou desejar a minha vida? Eu vou ser assassinado a sangue frio por ele, é isso o que significa. Ou pior, ele mandará aquele psicopata que me levou de carro até o meu apartamento pra fazer o serviço. Aquele tal de Máscara da morte era mesmo assustador, um maníaco intimidante que lhe analisava como se estivesse decidindo a melhor maneira de decapitar sua cabeça, e da forma mais dolorosa. E eu não quero descobrir o porque ele tem esse nome, ou apelido, minha intuição me diz que eu não vou gostar de saber a resposta.
Com tanta gente nesse país para me perseguir tinha que ter sido logo o chefe da yakuza? Sim! Eu sei. Ninguém precisa me dizer que já estou com um pé na cova. Estou ciente que minha vida se esvaia pelo ralo.
Não havia luz no fim do túnel porque não tinha uma saída, simples assim. E mesmo um asno com acefalia já sabe disso. Isso para não falar o quanto Milo é insano e mentalmente instável, e sem um pingo de consciência por sinal.
E sabe? Essas conclusões não são nada promissoras, eram péssimas, catastróficas inclusive. Para mim logicamente. Passei a língua úmida nos lábios limpando-os dos últimos resquícios de chocolate terminando de degustar aquela iguaria calórica. Eu tenho que controlar o meu nível alarmante de ansiedade ou acabaria virando um chocólatra compulsivo. E a culpa é toda do Milo. Eu já mencionei o quanto o odeio? Não? Pois é! Então para que não reste dúvidas grave bem. EU O ODEIO.
Sujeitinho odioso. Nem mesmo a mulher que o colocou no mundo deve suporta-lo. Alias eu não duvido nada que ele tenha matado sua própria mãe. Coitada com um filho desses talvez seja melhor mesmo está sete palmos abaixo da terra, levando em conta que ele é um criminoso, bandido lunático, sarcástico, irônico , venenoso como uma cobra naja do Saara, sardônico e um assassino perigoso que nem deve saber quantas pessoas já matou e tudo mais, um completo canalha. E ninguém gosta de canalhas. Se eu não fosse tão patético gostaria de soca-lo até ver sua cara cínica se esvair em sangue pelo nariz. Mas tudo bem, a vida não é mesmo justa, e nada sou em toda escala da cadeia alimentar. Apenas um número medíocre nas estatísticas dos fodidos na vida.
_ Posso me sentar aqui com você? _ Despertei abruptamente de minhas reflexões torpes atoladas em conjecturas despropositadas e inversa a qualquer tênue linha de coerência lógica. Em minha distração inerte não atentei-me para uma possível aproximação afora dos vastos limites de meus pensamentos incontidos. De forma que sobressaltei-me assustado ao ter assim tão próximo de onde estava uma outra presença.
Virei-me sobressaltado no eixo sedimentado do assento e vi-me encarando um MU embaraçado em pé bem ao meu lado do chafariz. As maças alvas do seu rosto estavam levemente coradas e ele não carregava mais uma bateria homérica de livros nos braços. Recuperando a compostura perdida pelo susto sorri discreto o olhando intrigado. Ele não deveria está na sala de aula?
_ Claro. Mas achei que estava na frente de uma turma se apresentando para os alunos e o professor como o mais novo integrante do curso de historiador _ Falei em um imperceptível dar de ombros formulando em voz alta aquela dúvida.
Ele fez uma careta de desgosto com o que disse e deduzi que sendo ele aparentemente tímido, a perspectiva de se prostrar frente uma sala repleta de alunos em uma apresentação pessoal não deve ser uma das melhores. E realmente não era.
_ Sim. Mas como cheguei atrasado não seria adequado interromper a aula pela metade e impor minha presença aos demais. Por isso ainda estou do lado de fora aguardando o término desse horário para entrar no próximo _ Explicou sentando-se na beirada de concreto enquanto comtemplava os pombos ciscando restos de chips jogados no chão a poucos metros.
E assim passamos o restante do tempo disponível sentados ali naquele pátio deserto, conversando sobre assuntos aleatórios ou apenas interagindo com o silêncio trazido pelos ventos do outono ondulando os fios soltos sobre uma leve brisa, e o farfalhar úmido das folhas verdes balançando em cima das árvores centenárias do canteiro. Mu era uma companhia agradável. Uma presença suave e distinta em meio a tanta superficialidade oca. A força amena de suas esmeraldas pacificas em nada condizia com sua aparente fragilidade, de certa forma ele era uma incógnita. A calmaria do ambiente só foi rompida quando o sinal anunciando o intervalo se fez escutar eclodindo por toda infraestrutura da faculdade. Eu detestava intervalos e sua inutilidade acadêmica, um desperdício de tempo e aprendizagem. Geralmente nesse horário eu me encontrava hibernando com um livro sobre robótica ou filosofia, que é um excelente assunto, sozinho em minha carteira de sala de aula.
E lá vinha o segundo motivo de eu não consegui apreciar os intervalos desfilando de um jeito que só pode ser descrito como obscena, usando uma calça jeans colada no corpo que pouco deixava á imaginar, uma bata branca bordada nas mangas deixando a mostra boa parte do peito liso desprovido de pelos e um sorriso de dentes perfeitos altamente safado. Sério, tá certo que o Dite é lindo, sexy e que boa parte da população masculina e até feminina fariam qualquer coisa para tê-lo em sua cama. Mas precisava mesmo chamar tanta atenção? Francamente, acho que os pais do Dite erraram na escolha de seu nome, Narciso teria sido mais propicio ao seu ego. Se bem que Afrodite também lhe cai como uma luva, não é mesmo? Quer dizer! Considerando que é o nome da deusa do amor, da beleza, das paixões sensuais e tudo mais. O Dite parecia até mesmo um anjo de candura com aqueles olhos azuis cerúleos e os cabelos compridos aloirados, e ele era, digo, um anjo. Só que um bem subversivo.
_ Pelas bolas de Zeus Camus! Jogaram explosivos nucleares dentro de sua sala de aula? O que você esta fazendo aqui fora? _ E esse é o Dite. Um furacão ambulante desmiolado e sem papas na língua. E apesar de ser o meu único e melhor amigo, quase um irmão, não significa que as vezes eu não sinta ganas de estrangula-lo. Como agora por exemplo.
_ Não Dite, nem um integrante fugitivo da AL-Qaeda jogou uma bomba na sala. Apenas tive vontade de quebrar um pouco minha estabelecida rotina _ Ele não precisa saber que estou plantado no pátio desde a primeira aula por uma divergência com a professora egiptóloga. Ele estranharia minha repentina insubordinação e astuto como era em suas capacidades dedutivas somaria um mais um e descobriria que algo estava fora do lugar comigo. Isso se ele já não estiver desconfiado, coisa que há julgar pelos olhares estranhos que tenho interceptado em minha direção não é de todo impossível, Muito ao contrario.
_ Tá, se você diz. Quem sou eu mero mortal para duvidar das palavras empoadas de um gênio nerd sabe-tudo _ escarneceu estalando a língua em notória descrença. Revirei os olhos com indiferença. _ Não vai me apresentar o roxinho aí do seu lado? _ Perguntou voltando sua atenção para Mu que estivera calado observando nossa conversa.
_ Claro! Mu esse é meu amigo Afrodite. E Dite esse é o Mu, ele é novo aqui na faculdade, chegou recentemente do Tibet _ Fiz as devidas apresentações como manda a etiqueta.
_ Olá muito prazer _ Cumprimentou Mu.
_ O prazer é todo meu _ Respondeu Dite olhando-o de cima a baixo maliciosamente batendo as pestanas de forma coquete. Bufei, o Dite não tem jeito mesmo.
_ Camus você ficou sabendo da nova boate que vai ser inaugurada nesse fim de semana no bairro Takeda? _ Indagou Dite de súbito.
_ Não, porque? Eu deveria saber? _ devolvi fazendo-o soltar um muxoxo aborrecido.
_ Nossa Camus você parece velho ranzinza que só pode ter sentado atrás de Jesus Cristo na terceira serie, isso é broxante. Pois pra sua informação fique sabendo que esse evento está sendo super-mega divulgado pelos meios de comunicação, ainda mais que se trata da abertura da segunda maior GLS da capital _ A animação em sua voz poderia facilmente contagiar qualquer um, menos a mim que pouco me importo com essas orgias que o Dite faz questão de denominar de ‘festa’. Que no meu ver nada mais era do que uma aglomeração massiva de inúmeras matérias orgânicas dividindo o mesmo espaço físico compartilhando toda sorte de fluidos hormonais e sexuais.
Apenas lancei- lhe um olhar entediado de quem diz “ E o que eu tenho a ver com isso? “.
_ Bom... Camyu... sabe o que é... _ Mordeu o lábio inferior enrolando um cacho de seus cabelos entre os dedos. Estreitei os olhos prevendo problemas e enxaquecas a caminho _ ...é que eu quero muito poder ir. Mas como não tenho companhia eu pensei...
_ Não _ Cortei-o secamente prevendo de antemão onde aquela conversa ia parar. E não gostando nem um pouco disso.
Será que ele não cansa?
_ Por favor Camyu só dessa vez, prometo que não te peço mais nada até o final do ano _ Seus olhos safiras lacrimejaram chorosos despertando a curiosidade de alguns alunos sentados no banco debaixo de uma árvore de cerejeira próximo. Mu olhava-nos como um expectador obviamente entendendo pouco do que se passava.
Internamente perguntei-me quantos desavisados o Dite teria conseguido persuadir usando aquela expressão tétrica do gato de botas. Infelizmente esse truque fingido não funciona comigo, infelizmente para ele, claro. Ainda assim preciso reconhecer que ele acertou em cheio na escolha de carreira no curso de artes, ele é um ator nato. Se tivesse optado por outra área estaria desperdiçando talento. Serio! Eu acho que o Dite finalmente descobriu a vocação dele.
_ Não_ Repeti.
_ Então que seja como um presente de aniversário. Afinal vou completar mais uma primavera justamente no dia da inauguração da boate _ Insistiu ele mudando de tática.
_ Chantagem Dite? Quanta maturidade _ Sorri de canto enviesado pelo seu golpe baixo e infantil.
_ Ora Camus, cada um usa as armas que tem _ Disse matreiro abrindo um sorrisinho vitorioso de quem sabe que acabara de vencer uma dificílima partida de xadrez.
Eu não gostava do tumulto e desordem proporcionados por festas, boates e baladas noturnas. Por isso mesmo sempre me nego participar ou frequentar esse tipo de lugar. Simplesmente não me encaixo nesse cenário barulhento e eclético. Por que vejam bem, o que um cara assim como eu, antissocial, incapaz de se expressar, introspectivo, sem vida pessoal, frio, insensível e sem graça, faria em um ambiente desses? A mera ideia chegava mesmo a ser surreal, cômico até, eu diria.
Além disso a única vez que arrisquei á aventurar-me num lugar desses acabou se revelando uma experiência traumática. Na verdade ainda hoje culpo minha idiotice por ter deixado o Dite me convencer com sua lábia persuasiva digna de um politico de alto escalão a ir com ele naquele show do The Gazette dois anos atrás, fora um pesadelo. O pior é que eu nem queria ter ido, sabe. Aquilo tinha todos os componentes necessários para ser um fiasco, uma canoa furada, e havia sido. Sim! Porque chegando lá foi só o tempo de eu virar as costas e o Dite desaparecer em meio toda aquela multidão de fãs ensandecidos que só sabiam gritar á plenos pulmões o nome de Ruki, Reita, Aoi e Uruha, enquanto tentava herculeamente não ser pisoteado como se fosse uma barata desviando-me daqueles fanáticos histéricos e bêbados abusados.
E foi assim que eu me vi sozinha, irritado e mau humorado naquele fatídico show. Ou melhor naquilo que o Dite disse que seria um show, porque aquilo podia ser qualquer coisa, suruba, motel, exorcismo, inferninho... mas teoricamente um show inocente eu tenho lá as minhas dúvidas. E se isso é o que chamam de show hoje em dia eu tenho que rever meus conceitos sobre festas o mais breve possível. O lugar estava lotado tornando impossível se deslocar em meio tamanha multidão. Isso não mencionando o cheiro pungente de cigarro, maconha e sei lá quantas outras substancias psicotrópicas e alucinógenas impregnando como uma nuvem esfumaçada os pulmões e o cérebro aquela atmosfera. Enquanto procurava o paradeiro do Dite naquele caos andando de um lado a outro perdido e sem rumo tentando esquivar-me de esbarrões, empurradas e mãos bobas em minha bunda, eu tive certeza, quase uma epifania, que nunca mais ariscar-me-ia pelos próximos mil anos á pisar novamente nesse tipo de lugar. E só para constar no fim das contas eu não havia encontrado o Dite naquele show. E depois de quatro torturantes horas desisti de procura-lo e voltei sozinho para o meu apartamento de taxi.
E agora lá esta aquele inconsequente chantageando-me com um argumento ridículo e desvalido querendo me arrastar para uma boate gay em um bairro violento na periferia da cidade.
_ Por favor Camus... _ Pressionou.
Suspirei audivelmente passando a mão na cabeça. Merde! Eu provavelmente vou arrepender-me disso depois.
_ Está bem _ Consenti por fim, amargando por antecipação o suplicio que tenho absoluta certeza que aquilo seria.
E porque tenho a sensação de que isso não vai prestar?
De qualquer forma o estonteante brilho de felicidade do Dite atenuou um pouco do meu desagrado. Talvez se eu levar um livro para me distrair a situação seja mais tolerável durante minha expiação pré- programada para o final de semana.
_ Obrigado Camyiu... _ Disse eufórico soltando um gritinho de contentamento pegando-me desprevenido quando sem prévio aviso se jogou sobre meu colo quase nos derrubando dentro da água suja esverdeada do chafariz. Passei instintivamente o braço ao redor de sua cintura buscando estabilidade no assento de concreto, evitando assim nossa queda. Uma veia de irritação saltou em minha testa.
_ Afrodite... _ Sibilei entre dentes.
_ Desculpe Camyu, foi mais forte que eu _ Disse não demonstrando arrependimento nenhum enquanto entrelaçava os braços sobre meu pescoço _ Mu você também tá convidado para ir com a gente. Vai ser legal e você ainda vai poder conhecer lugares e gente nova por aqui. Quem sabe não consegue arrumar um namorado exibindo esse seu corpinho delicioso que até eu quero estuprar? _ Acrescentou na maior cara de pau virando-se para Mu sentado do lado. O que fez sua face alva tingir-se de vermelho.
_ Afrodite abstenha-se de comentários desnecessários. Mu não esta acostumado com esse nível vulgar de conversação _ Intervi notando o desconforto de Mu. Essa mania do Dite de não medir o que fala ainda vai lhe trazer sérios problemas. As vezes ele realmente perdia ótimas oportunidades de ficar com a boca fechada.
Ele apenas deu-me a língua infantilmente evidenciando dessa maneira que estava pouco se lixando.
_Tudo bem. Acho que vou aceitar o convite. Não é como se eu tivesse outra ocupação para desempenhar no meu final de semana _ Disse o lilás sorrindo timidamente com as bochechas ainda coradas
Bom, se o Dite escafeder novamente na balada, ou melhor furdunço, pelo menos eu não vou ficar sozinho e desacompanhado feito um otário abandonado pelo seu melhor amigo em uma boate homossexual lotada de homens cheios de testosteronas.
_ Perfeito! Essa festa promete ser muito interessante e divertida _ Exclamou empolgado o loiro sapeca e abusado no meu colo. E fiz uma nota mental de não esquecer de levar tylenol para prováveis dores de cabeça.
O resto do intervalo se resumiu há um incansável inquérito da vida intima de Mu. Era desnorteante a quantidade de perguntas invasivas que ele conseguia agrupar em uma única frase, uma tsunami, afogando Mu em sua curiosidade insaciável.
Penso que Mu nunca ficou tão grato na vida do que quando ouviu o sinal finalmente soar anunciando o findar de seu martírio, obrigando o Dite levantar-se de meu colo e retornar para sua respectiva sala no segundo andar.
Os dois últimos horários de aula passou com a agilidade de um relógio parado. Não é irônico que quando você quer que os minutos se adiante ele se atrase, e quando atrase ele simplesmente se acelere nos ponteiros? Sequer sei quantas vezes puxei o celular do bolso conferindo a evolução das horas só para me frustrar com o seu retardamento. Hoje não era mesmo o meu dia. Olhei de soslaio na direção de Mu que após ser intimado pelo professor a se apresentar na frente de toda classe como o mais novo membro da turma escolheu se sentar-se na carteira lateral a minha. Ele parecia concentrado em suas anotações ditadas monotonamente pelo professor. E sabe, normalmente eu também estaria. Pena que o meu hipotálamo cerebral insistia tanto em desvirtuar minha atenção para um demônio sardônico detentor de meus piores pesadelos.
Sem delongas fui o primeiro deixar a sala que de um momento a outro parecia ter se transformado em um penoso purgatório criado para expiação de todos os meus pecados, depois de concluir o teste aplicado por Shion consistindo basicamente numa minuciosa explanação dissertativa sobre fatos históricos da era vitoriana e do impacto abrangente dos ideais iluministas. Nada muito complicado no fim das contas.
Como o meu ônibus demoraria pra passar eu não precisava me apressar para chegar no ponto de espera. Coloquei meus fones de ouvidos e fiquei escutando as sinfonias clássicas de Clair de Lune. Do nada senti um arrepio atravessar minha espinha como se fosse uma lança de gelo glacial. Sabe quando você tem a sensação que está sendo observado descaradamente por alguém? Pois é. Estremeci e olhei nervosamente para todos os lados da rua e estaquei atordoado ao encontrar um par de olhos azuis cobalto encarando-me sardonicamente do lado de fora de um sedã preto, parado em uma vaga onde tinha uma placa avisando que era proibido estacionar qualquer veiculo. Sua presença magnética e opressora atraia olhares de fascínio e luxuria dos transeuntes que passavam suspirando como se estivessem hipnotizados pela imponência dominante daquela figura.
Engoli em seco e desejei que o ônibus passasse nesse exato momento pra que eu pudesse entrar rapidamente e desaparecer dali.
Santo Cristo! O que Milo fazia ali no portão de entrada da faculdade?
Fale com o autor