O Escorpião Escarlate
15 O Juiz
Notas iniciais
A minha manhã de segunda não havia começado bem.
O despertador não havia badalado no horário habitual, eu o havia esquecido de programá-lo antes de pegar no sono. Eu havia ficado até ás altas horas assistindo uma sessão de longa-metragens de algum festival de Cannes que o Dite trouxera entocado em sua bolsa. Ele estava nas nuvens depois de ter tido seu nome cotado para uma disputadíssima vaga de estágio no teatro municipal. Para Dite tudo era um motivo válido pra se fazer uma algazarra, e ele não desperdiçou a oportunidade para celebrar e estourar um espumante e deixar uma baderna no meu apartamento para que eu arrumasse sozinho.
Não que eu estivesse desvalorizando sua conquista ou algo assim, que isso fique bem claro. Melhor que ninguém eu sabia de seus esforços e o quanto ele ralara para reivindicar aquele posto pelo seus próprios méritos. É só que, precisava mesmo de todo aquele estardalhaço?
Só não estava mais atrasado do que me encontrava graças a disciplina funcional do meu relógio biológico tão adaptado a já estar em pé antes do surgimento do sol no ocaso. Achava que pior do que aquele vacilo que resultaria em perder a condução e ter que me deslocar algumas quadras até a estação mais próxima de metrô, não poderia ficar, mas repensei essa ideia quando a cafeteira queimou com um curto-circuito e lerdo e coibido pelo sono tropecei no carpete da sala e fui brindado com uma proeminente contusão na nuca que eu tive que tapar com um band-aid. Se eu fosse um crédulo em misticismo ou em astrologia como Dite que nunca saía de casa sem conferir seu horóscopo diário, eu estaria propenso a acreditar que eu havia entrado em algum espécie de inferno astral, mas como eu não acreditava nessas bobagens eu diria que a culpa era minha mesmo por ter me privado do descanso, e com tanta preocupação rondando a cabeça ao invés de dormir ter simplesmente me contentado em cochilar quando já estava quase na hora de acordar.
E o fato é que naquela altura o meu humor estava tão insuportável quanto a neve que insistia em atolar as ruas em metros e mais metros de flocos de gelo do outro lado da sacada.
Pegando o encharpe de lã do parapeito, eu chequei pela última vez minha imagem no toucador da penteadeira. Os olhos fundos, os cabelos sem viço e as marcantes bolsas escuras em torno dos olhos não me deixavam com uma fisionomia sadia, eu parecia um doente arrasado depois de uma sessão massacrante de quimioterapia, eu parecia acabado. Catei as roupas sujas deixadas no piso do banheiro para a cesta de peças pra lavar na área de tanque, e saí apressado para as ruas após apanhar minha pasta e um pequeno pacote na gaveta do guarda roupa, desmotivado quanto a possibilidade de chegar à tempo de assistir a primeira aula. Não teria como, de qualquer maneira, levando em conta que eu ainda precisaria passar na reitoria para atender o comunicado do e-mail recebido da coordenação no dia anterior e descobrir o que o Sr. Hades desejava falar comigo.
Eu estivera apreensivo quanto a isso, remoendo-me sobre o possível conteúdo desta conversa. Por mais que eu divagasse eu não conseguia atinar a razão pela qual minha presença estava sendo sumariamente exigida tão de repente na diretoria da subdivisão.
Apesar de nevar, o clima abafado derretia o gelo muito rapidamente, o degelo fazendo das avenidas e rodovias uma pista de esqui instável, perigosa e escorregadia, eu já havia contado pelo menos uns cinco carros derrapando no asfalto assoreado. Não que para os pedestres a situação estivesse melhor, antes fosse, as pessoas andavam em bando apoiando-se uma nas outras, parecendo patinar em busca de equilíbrio nas calçadas e passarelas, e em determinado ponto eu já não conseguia mais sentir as meias quentes e secas dentro das botinas de tão enxarcadas que estavam por aquela nevasca diluída, fazendo um irritante “trec trec” quando andava.
O estímulo sensorial mesmo naquele tempo era atordoante, o cheiro de fumaça dos escapamentos misturados com as frituras dos carrinhos dos ambulantes; os gritos dos camelôs e promoutes espalhando seus panfletos se misturavam com as músicas dos ciganos e artistas de rua. Era incrível que mesmo naquele clima que poderia peitar com o inverno Siberiano as pessoas não paravam suas atividades por nada.
Esporadicamente uma ambulância, uma viatura ou um caminhão de bombeiros tentavam romper a torrente de táxi e motocicletas com o uivo eletrônico de sirenes ensurdecedoras. Os transeuntes, homens e mulheres preocupados com suas próprias vidas, nem reparavam nas gradativas mudanças que se operavam bem debaixo de seus narizes individualistas. Como as ondas de vapor que subiam dos bueiros e saídas de ar, o gramado cortado para o desfrute dos passantes nas regiões arborizadas, nem pareciam notar o chão tremendo sob seus pés com a passagem de metrô nos túneis ferroviários. A cidade parecia pulsar como um organismo vivo, no entanto, o distrito para eles era tão familiar e confortável como um velho par de sapatos, e os detalhes não eram chamativos o bastante para atrair a atenção dos moradores ou da população.
Eu estava ofegante quando cheguei ao centro, consequência do ócio de minha vida sedentária, eu não era aquilo que se poderia chamar de atleta ou praticante regular de exercícios físicos, de forma que, invariavelmente, qualquer corrida que eu me propusesse a fazer acabava por me esgotar, deixando-me exausto e ofegante. O sinal para a travessia de uma das principais BR de Tóquio estava piscando, e embora a seta indicasse que ainda estava fechado eu não vi nenhum carro a vista nos próximos seis metros, então não vi problema em correr para alcançar o outro lado da calçada. Uma ação mal calculada, um carro preto reluzente que parecia ter brotado da terra buzinou em minha orelha e eu voltei-me para ele estancando paralisado. Meu coração palpitou alucinado no peito parecendo o apito de um trem de carga quando o pneu queimando o asfalto queimou minhas narinas e eu esperei ser atropelado. Não é irônico? Morrer da mesma causa que havia levado meu pai ao túmulo?
Todavia, estancado e catatônico, eu vi o carro fazer o que eu pensava ser impossível naquela curva aquaplana pela estiagem. As rodas rugiram alto no meio fio, desmanchando a faixa branca com as borrachas dianteiras dos pneus brecando numa freagem potente e brusca que fez os motores rosnarem avassaladoramente, dissolvendo a neve acumulada no quebra- molas e ocasionando uma ruptura num dos vidros do para-choque antes de finalmente parar a poucos centímetros.
Transtornado, eu podia senti a fumaça quente subida do capô bafejar no meu braço, demonstrando a gravidade que aquele incidente poderia ter tomado se não fosse pela perícia do motorista no volante. O meu humor que já não estava dos melhores havia acabado de desandar, de descer ladeira abaixo. E muito embora eu soubesse que a culpa daquilo fosse única e exclusivamente de minha impaciência e estupidez por ter me precipitado a atravessar a rua com o sinal aberto, eu fiz algo que não era da minha natureza, descontei minha raiva e frustração no motorista que eu não conseguia visualizar por detrás do fumê do vidro.
_ Seu idiota! Você conseguiu sua carteira de habilitação numa auto- escola para cegos?
Não esperei por uma contra resposta e segui para a plataforma de metrô. Não iria esperar ser insultado, afinal eu tinha conhecimento que o errado ali era eu.
Assim que embarquei quase decidi dar meia volta e pelo menos naquele dia cabular aula, o que também não me era algo condizente. A superlotação estava um inferno, as pessoas se apertavam e empurravam-se uma nas outras, o cara do violão cantando uma música desafinada, ou o pulha que ficava tentando encoxar uma mulher que estava ao meu lado são apenas algumas das atrações que eu conseguia monitorar de onde estava. Sentar seria uma benção reconfortante, mas eu cedi meu lugar no banco para uma senhora idosa quando esta subiu na parada seguinte.
Quando eu avistei os alojamentos acadêmicos no píer de entrada, eu enxuguei o suor do rosto e me encaminhei para o pavilhão administrativo, a sede corporativista da reitoria se destacava por ter uma torre imponente com um brilho metálico que parecia chegar até as nuvens e superar em tamanho uma das catedrais do Vaticano.
Inclinei a cabeça e contornei o edifício até o Hall de entrada. Tirei minhas credencias do bolso e apresentei-as para os dois seguranças de terno escuro que faziam a ronda frente as portas giratórias. Eles me barraram quando tentei entrar de primeira, sem dúvida por eu estar vestido como um indigente para aquele tipo de ambiente empresarial, mas depois de conferirem minha documentação eles me deram passagem.
Muito embora já se iam mais de dois anos que eu estudava naquela faculdade, quase arredondando para três, eu nunca havia pisado antes naquela parte do campus, e o lado de dentro se provou ser tão opulento quanto a fachada de fora. As portas rotatórias eram banhadas em cobre maciço, o ladrilho do piso revestido em madeira nobre e as catracas de bater ponto forjado em alumínio polido.
Tanto os funcionários quanto aqueles que só estavam ali de passagem ou por algum compromisso inadiável, vestiam-se de maneira formal e sofisticada, e eu compreendi a relutância dos seguranças em me dar passe livre. Eu estava extremamente mal vestido para frequentar aquela parte do instituto, e foi inevitável não me sentir um vândalo maltrapilho enfiado num saco de pano.
_ Posso ajudar em alguma coisa, senhor? _ Interceptou-me uma das recepcionistas do saguão.
_ Creio que sim. Tenho uma audiência com o Sr. Hades. _ Informei-a.
_ Tem hora agendada? _ O tom profissional da secretária possuía toda a impessoalidade que sua gestão requeria. Fixado com uma presilha, o crachá de identificação ficava à mostra abaixo da logomarca do paletó uniformizado enquanto ela digitava sem parar no teclado de mesa.
_ Pode-se dizer que sim. _ Eu tinha?
_ Ok! Eu precisarei checar se o senhor está sendo aguardado. _ Avisou prestativa, pegando o telefone. _ Poderia por gentileza me informar seu nome?
_ Camus. Camus Versalhes._ Disse, num tom maçante.
Anotando aquele dado numa prancheta ao lado de um porta-lápis, ela transferiu a ligação para outro departamento.
_ Pandora. Eu tenho um rapaz aqui na recepção que diz está sendo esperado pelo Sr. Hades. _ Prestei ouvidos aquela rápida conversa trocada com a outra pessoa na linha. _ Camus Versalhes. _ Inteirou, provavelmente respondendo a pergunta de quem estivesse do outro lado. _ Sim, pode deixar, irei conduzi-lo. _ Disse, devolvendo o fone ao gancho.
_ Pode subir, o reitor o está aguardando, sua sala fica no último andar. _ Liberou-me.
Eu estava seguindo para o elevador depois de ter obtido meu aval para continuar meu caminho quando vi uma moça que parecia tão deslocada quanto eu passar pela catraca sem levantar devidamente a mochila, que ficou imprensada e se abriu, provocando um pandemônio de folhas e moedas rolando no chão. As moedas caíram soltas e saíram saltitando alegremente como confetes, e as pessoas que passavam se esquivavam do caos como se nada estivesse acontecendo. Compadecido e solidarizado, eu me curvei para auxilia-la a recolher os Ienes num gesto cavalheiresco, juntamente com um dos seguranças que se sensibilizou com a situação.
_ Obrigada. _ A garota disse, mortificada, as bochechas quentes como uma fornalha por causa da calamidade.
_ Não se preocupe com isso. Essas coisas acontecem. _ Tentei conforta-la, e ela baixou o rosto ainda mais sem graça.
Eu tinha acabado de me ajoelhar para alcançar uma moedinha que fora parar perto da entrada, quando dei de cara com um luxuoso par de sapatos Oxford encimado por uma elegante calça preta. Esperei um pouco para que aquele homem saísse do meu caminho, todavia, como ele não se mexia ou fizesse menção para tal, eu levantei a cabeça para ampliar meu campo de visão. O cardigã sob medida jogado sobre os ombros largos foi a primeira coisa que meus olhos captaram, a segunda foi o corpo alto e esguio debaixo dele que o tornava distinguível. Apesar disso o que sobressaía nele mesmo eram os apurados olhos argutos de uma coloração incomum nunca vista por mim antes; âmbares, facilmente associados ao Whiski de cevada dourada ou aos campos de trigo dos vales campestres, combinado com os cabelos igualmente platinados e o nariz aquilino que destoava soberba.
Em um gesto cheio de elegância e classe de movimentos, ele se agachou de frente para mim, pegando e entregando-me o vintém de prata. Contudo, como se um escudo tivesse sido removido, enxerguei as dobras de suas gemas topázios se enrugarem e os olhos se estreitarem minimamente quando ele concentrou sua atenção no meu rosto, um luzir indetectável de reconhecimento cruzando as gemas de suas íris antes de de sua expressão se metamorfosear numa hostil, ranzinza e seca.
Desbaratinado com a súbita animosidade vertida para mim, eu me arredei para trás, reagindo puramente por instinto, e caí de bunda no chão.
Meus cotovelos ralaram contra o ladrilho, mas a dor aguda foi prontamente ignorada. Pena que eu não poderia dizer o mesmo sobre o acumulo de sangue quente que tingiu meu rosto.
Com uma notável economia de gestos ele se reergueu, e em desacordo com sua demonstração sem cabimento de antipatia injustificável ele me estendeu a mão para me ajudar a levantar.
Trocando minha pasta de braço, eu fiz que não vi sua mão suspendida, eu não tinha porquê mostrar civilidade para com alguém que não escondia seu desprezo sem sequer me conhecer. Talvez ele tivesse aversão à donceis e como tantos outros os vissem como leprosos que sujam a sociedade.
Tarde demais meu corpo reagiu como deveria, quando desconsiderando a minha negativa clara de dispensa, ele cingiu a mão abandonada sobre o meu antebraço, pondo-me de pé.
_ Não fique parado frente a porta. Está interditando a passagem dos outros. _ Censurou-me, a voz monocórdia e refinada destoando reprovativa como se estivesse chamando a atenção de um delinquente desordeiro.
Bestificado pela reprimenda direta, vi-o trazer seu blaze para junto da maleta preta em mãos e continuar caminho até a balconista.
Recobrando o comando de meus músculos paralisados e isolando a esquisitice do ocorrido do meu balancete de prioridades mais urgentes para resolver, repassei o punhado de moedinhas a garota e segui para o elevador apertando o andar pretendido. Encostei-me nos fundos assentindo vagamente com o monologo de uma ocupante comentando algo sobre os elevadores serem o meio de transporte mais seguro que existem. Não discordei de seu ponto de vista, mas não pude deixar de refletir o que ela diria se soubesse que com a sorte que eu andava nela nos últimos tempos eu não duvidaria nada se os cabos de aço daquele elevador se partissem enquanto subíamos e acabassemos tendo uma morte horrenda.
Não foi uma tarefa complicada encontrar o gabinete da reitoria, uma placa fundida na porta entregava a sua localização. Pandora, o nome escrito no distintivo da assistente pessoal de Hades me anunciou tão logo adentrei no térreo.
O gabinete de Hades não era grande, mas era bem planejado. Não havia nada de diferente ali, exceto talvez por um pote com um líquido meio amarelado exposto orgulhosamente no alto de uma prateleira. Dentro, um cérebro humano descansava no fundo do recipiente com a exata cor que teria originalmente. Supus que Hades tivesse percebido minha atenção desmedida naquela bizarra relíquia já que ele me convidou abruptamente a me sentar na seize após seguir o alvo de minha distração. Veja bem, não há nenhuma lei que proíba de manter um cérebro humano num pote de conserva, assim como também não há nenhum problema em tê-lo, desde que ele tenha sido retirado legalmente, e de preferência de um cadáver. Mas exibi-lo no alto de uma saleta onde provavelmente dezenas de pessoas deveriam circular por dia, principalmente aquelas que assim como eu não cursavam medicina, era sim pra lá de excêntrico. De repente imaginei o Sr. Hades como tendo sido um adolescente desesperado por atenção que fazia questão de mostrar para o mundo como ele era incompreendido e diferente de todos os outros. O engraçado, contudo, é que a maioria desses adolescentes acabavam sendo exatamente iguais a todos os outros.
Hades tinha o aspecto de um homem trevoso e calculista. As olheiras escuras ao redor dos olhos conferiam-no a aparência de alguém com mais idade do que deveria realmente ter. Os cabelos tão negros como as penas de um corvo enfatizava a sombriedade de seu semblante melancólico e indisvendável. Organizando uma pilha de papéis espalhados sobre a mesa, eu esperei que ele iniciasse a conversa e me pusesse a par do porque de minha convocação em sua sala, coisa que não tardou a acontecer.
_ Lamento pelo transtorno em tê-lo feito se deslocar até aqui, mas é um assunto delicado que eu julguei melhor tratar pessoalmente. _ Fechou uma planilha de cálculos que eu julguei ser de contabilidade e corrigiu sua postura , unindo as mãos ossudas debaixo do molar do queixo. _ Para não tomar seu tempo além do indispensável, pois suponho que você ainda tenha aulas para assistir, irei direto ao ponto. Por motivos que não veem ao caso estamos redirecionando os alunos que outrora estiveram sendo monitorados pelo Prof. Flégias como orientador de dissertações acâdemicas para outro com as mesmas qualificações em doutorado. Felizmente não são muitos pelo que consta nos autos, afora você há apenas o Sr. Yukida...
_ O que houve com o Prof. Flégias? _ Num assomo, interrompi-o, e não era para menos, afinal eu estivera sendo orientado na tese que eu pretendia defender para publicação de um artigo e também para obtenção de nota com Flégias nos últimos quinze meses desde o ano passado em pesquisas incansáveis e consecutivas para agora ter que descobrir que teria um novo orientador ministrando minha monografia e que talvez não aprovasse o roteiro que eu havia escolhido.
Aquilo era uma catástrofe.
_ Ele sofreu sanções administrativas e como penalidade foi exonerado de seu cargo, tendo sua licença para ensinar ou orientar caçado, por razões como já citados anteriormente que não estão inseridos nesse tópico. _ Embora seu rosto fosse estéril e carente de emoções, reservado, taciturno, como a face distante e inclemente de um cirurgião legista que diz à família que o paciente não sobreviveu aos procedimentos médicos, comunicando-os friamente o óbito do moribundo, seu timbre delatava seu descontentamento por ter sido cortado enquanto ainda falava.
Em outras palavras o que ele quisera dizer é que aquilo não me dizia respeito e eu teria de me contentar com aquela explicação pela metade e editada.
_ Já se tem um professor substituto? _ Perguntei, forçando uma expressão casual.
_ Sim. Acredito que ele deva se apresentar ainda hoje nas classes que ficaram desfalcadas da matéria lecionada por Flégias. _ Ele disse, destacando uma das inúmeras folhas da prancheta e selando-a dentro de um envelope asséptico com um anel de sinete pressionado no lacre. Interceptei a carta antes dela deslizar pela quina quando tive-a atirada sobre o meio da mesa.
_ O que é isso? _ Empossado do envelope, me pus a examinar o brasão do anel esculpido em cera quente.
_ É um boletim transcrito de suas notas. Peço que as repasse na coordenadoria para ser lançada no diário do orientador que tomará frente a sua monografia a parti de agora. _ Disse. _ Creio que isso seja tudo, não vou faze-lo se ausentar por mais tempo de suas obrigações.
Eu tinha muita coisa para verbalizar sobre esse arranjo de última hora, a maioria delas desagradáveis. Mas não dei voz a nenhuma delas, não era algo inteligente se indispor com Hades. Existiam duas maneiras distintas de se lhe dar com pessoas feito ele. A primeira é argumentar, rebater e contrariar tudo o que ele dizia até que ele se alterasse e chama-se os seguranças para me jogar pra fora no relento, e assim arriscar-me a perder a minha bolsa de estudos acusado de desrespeitar a soberania do reitor. A outra, e minha escolhida, devo emendar, é ouvir tudo o que ele tem a dizer, acenar em concordância com a cabeça e sair do gabinete o mais rápido possível. Sei que agindo assim me faria parecer um sem opinião, mas o ponto é que eu sabia que nada do que eu dissesse mudaria aquela esquematização. Todos ali seguiam sem questionar suas diretrizes, sem pestanejar, ele fora acostumado assim, com a submissão daqueles que o rodeavam, e não seria um surto de ousadia minha que amansaria aquela personalidade inflexível e perfeccionista. Como reza o ditado 'se está em Roma vista-se como os Romanos”. Também desconhecia porque ele tinha um nome tão tenebroso, talvez a mãe dele tivesse sofrido de depressão pós-parto e houvesse se inspirado na entidade que regia as almas dos defuntos condenados a penarem no submundo.
Reprimi uma risada com essa ideia tão logo fechei a porta atrás de mim após deixar sua presença morbosa, não sem antes me despedir com uma mesura que destilava ironia. Munido com o envelope, eu o entreguei para uma moça na diretoria. O sinal do término da segunda aula ainda não havia repercutido, então me dirigi a cafeteria do outro lado da rua uma vez que eu só poderia entrar no terceiro tempo.
Havia um letreiro na parede dizendo que eles preparavam o melhor chá verde de toda a Tóquio, e eu meditei sozinho por alguns instantes se poderia haver muita diferença entre o gosto de um chá verde para outro se era tudo a base de vegetal. Era como alguém se vangloriar de fazer o melhor biscoito de polvilho, sendo que polvilho sempre terá apenas gosto de polvilho. Tão logo sentei-me na seiza, encaixando-me à mesa, uma garçonete surgiu segurando uma pelúcia, parabenizando-me por ser o trigêsimo cliente a entrar no estabelecimento e por isso conquistado o direito de ganha o bichano em mãos, ela sorriu me passando o cardápio junto com a pelúcia, e eu desconfiei que ela estivera doida para se livrar daquele encargo. Pedi um frappuccino descafeinado enquanto pensava no que cargas d'água eu iria fazer com um coelho branco de dentes desproporcionais e pernas longas, os botões de plástico dos olhos pareciam me encarar de volta como se quisesse pular no meu pescoço, como “Peter Rabbit”, o coelho do conto inglês, e inconscientemente eu levei as mãos ao pescoço.
Não me prolonguei ali por muito tempo, assim que o cronômetro na parede advertiu-me que estava na minha hora, eu quitei minha conta no caixa e enfiando a pelúcia no fundo da pasta eu retornei para o campus.
Mu se mostrou aliviado quando me viu entrando no auditório, como ele ainda era novato, e doncel, presumi que ele estivesse tendo dificuldades para se engajar com os outros alunos, se enturmar. Eu dava a mínima para isso, eu continuaria seguindo o fluxo do rio, afinal a vida não poderia parar por conta disto, mas talvez ele não pensasse a mesma coisa e precisasse da aceitação dos outros para se sentir realizado.
_ Pensei que você não viria hoje. Bom dia! _ Saudou-me ele, mostrando suas encantadoras covinhas enquanto me instalava na carteira e retirava meus materiais de dentro da bolsa.
_ Tive alguns contratempos. Perdi alguma coisa?
_ Nadinha. Só tivemos uma introdução chatíssima ao Xogunato e uma revisão sobre cartografia. _ Atualizou-me, relaxando as costas de encontro a cadeira.
_ Ainda bem. E quanto a você, animado para o seu primeiro dia de trabalho na livraria? _ Puxei assunto, desenrolando minha armação de óculos do estojo.
_ E como, mas também uma pilha de nervos. _ Admitiu, simplista.
_ Você vai se sair bem. _ Confortei-o. Mu era uma pessoa muito gentil. Penso que muito provavelmente ele não seria rude com você nem que você desse um tiro nele. Ou dois. Talvez no terceiro tiro ele perdesse um pouco a calma, mas não tinha certeza absoluta disso. _ No início pode parecer assustador, mas com o tempo vem a familiaridade e a adaptação, e quando você der por si já está criando raízes e tirando a função de letra.
_ Me consola saber que você também estará lá para me impedir de cometer alguma besteira ou enfiar os pés pelas mãos com alguma garfe de principiante. _ Ele estava indiscutivelmente nervoso, e não pude deixar de reparar o quanto aquilo o deixava adorável.
_ Lhe garanto que o que quer você faça de errado não será mais desastroso do que foi comigo no meu primeiro dia. Eu estava tão empenhado em dar o meu melhor que eu consegui a proeza de ser estabanado o bastante para fazer justamente o contrário do que me propusera, como etiquetar os livros com o código errado, me confundir com troco, derrubar caixas de livros no depósito e ir trabalhar com um sapato que me deixou com bolhas tão grandes que mais pareciam úlceras abertas. _ Disse-lhe, espiando-o risonho por cima dos aros de metal. Sendo bem sucedido no meu propósito de descontraí-lo com a minha desgraça quando ele riu gostosamente. _ Serio! Até hoje não sei como Dohko não me demitiu no fim do expediente ou mesmo abateu os prejuízos que eu causei na loja no meu ordenado. E eu ainda precisei de um unguento de aspecto asqueroso para desinchar as bolhas nos pés no fim do dia.
Ele riu mais ainda da minha infâmia.
_ Realmente, pior que seu primeiro dia o meu não pode ser. Um raio não pode cair duas vezes no mesmo lugar, quer dizer, na mesma loja. _ Foi a minha vez de ri. _ Posso te fazer uma pergunta? _ Mudou de assunto, subitamente.
_ Você já fez. _ Brinquei. _ Mas nada te impede de fazer mais uma. _ Concedi, curioso.
_ Porque desapareceu de repente da boate? _ Soltou, as esmeraldas profundas resplandecendo a vivacidade e sabedoria de um sábio de mil anos.
_ Tive uma pequena indisposição e resolvi me retirar antes do esperado. _ Eu havia tido o cuidado de não olha-lo nos olhos enquanto as palavras jorravam por minha boca quase como se tivessem sido decoradas. _ E você? Soube através do Dite que esteve em agradável compania, e que o mesmo teria se habilitado a escoltá-lo até a sua casa.
O velho truque de virar a mesa e inverter os papeis era uma boa saída quando se quer mudar o foco do assunto
_ É, Shaka se mostrou um verdadeiro gentlemam a moda antiga. _ Ele corou, desviando o rosto para o lustre no teto. Arquei uma sobrancelha, então era esse o nome do loiro com quem eu o havia visto interagir na boate? _ Você acha que existe amor à primeira vista?
Eu não sei o que me deixou mais aparvalhado, a pergunta em si, a pergunta feita a mim, ou a expectativa que iluminava seu rosto. Eu não era expert no assunto, então não sabia muito bem o que dizer, nunca havia me deparado com esse tipo de questionamento antes. Porque ele não indagava isso para o Dite? Com certeza ele deveria ter mais a dizer sobre o assunto do que um zero a esquerda feito eu no quesito relacionamento. Pensei em dizer isso a ele, mas achei que seria uma desfeita, então apenas fiz uma rápida avaliação sobre aquilo, sem me aprofundar, no entanto.
Não. Eu não acreditava em nenhum sentimento duradouro nascido à primeira vista, muito menos amor, que por si só é uma palavra forte demais para ser banalizado frivolamente como acontecia nos dias de hoje. Talvez uma paixão arrebatadora, uma química, um compartilhamento de ideais e afinidades, fascínio ou mesmo uma aventura momentânea fadada a esgotar-se e extinguir-se após ser consumido. Você só pode amar aquilo que você conhece, o que requer cultivo, disposição e interesse mútuo de ambas as partes. Nenhum “amor à primeira vista” sobreviveria aos prós e contras, falhas e defeitos numa “segunda vista'.
_ Não, seria algo superficial e ilusório baseado apenas pelo impacto de uma primeira impressão. _ Falei.
_ É... acho que você tem razão. _ Ele não parecia muito certo disso, entretanto, e embora eu estivesse me coçando para pergunta-lhe o porquê dele ter levantado isso, eu me contive, eu conhecia Mu à pouco tempo e não tinha intimidade com ele para questiona-lo dessa forma.
Tivemos que deixar o nosso papo para outra circunstância, o Prof. Shion havia acabado de entrar na sala. Embora ele fosse um homem tolerante ele não gostava de falatórios e cochichos em suas aulas. Se havia algo que ninguém jamais poderia reclamar era sua competência para ensinar. Talvez seja por ele ter uma enorme paciência, ou mesmo apenas por ele ser um excelente locutor e usar o máximo de seu dom com as palavras para que todos, sem exceção, entendessem perfeitamente bem o que ele explicava, o fato era que, após mais uma de sua oratórias, nenhuma dúvida nos restava. Eu não fazia ideia qual era a mágica que ele usava, apenas sabia que ela era eficaz para prender a atenção de toda a turma, de forma que, mesmo os mais desinteressados ou mais lentos de raciocínio não se permitiam piscar, temendo perder alguma informação.
Assim que o sinal novamente tocou, anunciando o intervalo, e Shion deixou a sala, eu peguei o pacote que eu trouxera dentro da bolsa e desci até a cantina esperando encontrar Dite após Mu dizer que permaneceria na sala relendo os rabiscos sublinhados do fichário. Como eu quase não deixava a sala neste horário, eu entrei no grande salão da mesma maneira que um colegial não muito popular entra no seu primeiro dia no ensino médio, procurando desesperadamente por uma mesa que estivesse desalojada no refeitório. Por sorte, eu o encontrei desassossegado na mesa próximo ao cavalete da janela, tomando algo quente de dentro de um copo.
Ele sorriu quando me viu, chamando-me para junto.
_ O que o fez sair da toca, puseram fogo na sala? Ou finalmente descobriu que não pode viver sem meus encantos? Tudo bem! Não precisa se envergonhar. Eu sei que sou irresistível, o desejo de consumo da maioria dos homens e também do sexo frágil, lindo, divino, maravilhoso...
_ Modesto. _ Inclui, zombeteiro.
_ Sim... sim... claro! Isso também. Mas já vou logo avisando que eu sou difícil, se suas intenções não forem honestas, saiba que a tia Shina ainda tem em posse aquela velha garucha deixada em testamento para lavar a minha honra. _ Estufou o peito, cheio de si, e eu belisquei a língua entre os dentes para segurar o riso com a sua encenação melodramática.
_ E você ainda tem honra para ser lavada? _ Cutuquei, entrando no jogo, resfolegando-me ao seu lado no banco.
_ Como assim? Difamação! Calúnia! Eu sou a pureza em pessoa. _ Atestou, balançando espivitadamente as pernas como um pêndulo para lá e para cá.
Ri anasalado, passando-lhe o pacote.
_ O que é isso? _ Volveu, desfazendo a pose de conquistador.
_ Uma reparação um tanto atrasada por meu esquecimento indiscupável, mon chèr. _ Disse. _ Abra. _ Incentivei-o.
Sua piscinas luziram em dúvida enquanto desfazia o laço do embrulho. Antenado, eu observei a empolgação florescer na sua face à medida que ele destampava a pequena caixa de madeira contendo um álbum de fotografias.
_ Sei que deveria ter lhe dado isto no seu aniversário, mas com a ida a boate e aquela celebração particular ontem no meu apartamento por sua nomeação ao estágio, eu acabei me esquecendo de te entregar seu presente. _ Expliquei, sendo correspondido por um sorriso sincero, autêntico, enquanto ele traçava com os dedos um dos retratos, um brio de adoração no fundo dos olhos.
Folheando o álbum, ele alternava sua atenção entre uma ou outra gravura. Aparentemente eu havia acertado na escolha do que presenteá-lo. Não fora fácil reunir boa parte daquele conjunto de fotos, algumas estavam tão deterioradas, corrompidas e carcomidas pelo desuso e pelas péssimas condições de manutenção, que recuperá-las só foi possível através de uma restauração especializada. O trabalho fora desgastante, é verdade, mas não estava arrependido, nada se igualava a face de contentamento do Dite enquanto se perdia nas várias passagens de sua infância e puberdade documentadas naquelas imagens.
_ Isso é incrível! Eu não fazia ideia de que você tivesse essas fotos guardadas. Veja só isso! Você lembra? Foi a primeira peça de teatro que eu interpretei na escola! _ Exclamou ele, radiante, me mostrando uma das fotos do álbum.
Contagiado por sua alegria com algo tão simples, sorri, deixando o olhar tombar para o alvo de sua euforia. Imediatamente, não apenas a reconheci como também remexeu com minhas memórias mais antigas. Por segundos, pensei estar de volta aos tempos do fundamental em que éramos obrigados pela escola a participar de alguma oficina, eu prefefiria o clube do xadrez, mas aliciado por Dite eu acabei me metendo no de teatro. Não que eu tivesse alguma vez contracenado ou algo assim, não, meu lugar era no camarote ajudando a montar os figurinos e as fantasias que os que atuariam iriam usar nas apresentações, seja desmanchando-as, customizando-as e, dependendo, refazendo-as. Em pouco tempo, as recordações de tardes perdidas pintando cenários ou costurando tecidos junto com os outros meninos que compunham o grupo passaram frente aos meus olhos, deixando-me com um ar entristecido e saudosista. Como arrependia-me hoje por não ter aproveitado melhor a minha infância e de ter crescido antes do tempo...
_ E como esquecer você interpretando o pequeno príncipe e declamando à plenos pulmões para a plateia...
_ ...”Só se vê bem com o coração, pois o essencial é invisível aos olhos”. _ Recitamos em uníssono enquanto fazíamos uma troca conspiratória de olhares.
_ Sinto falta dessa época. _ Confidenciou, levando o copo de canela com leite à boca. _ Desde então não foram poucos os percalços para chegarmos onde nos encontramos hoje, nem mudamos tanto assim, se formos parar para pensar, talvez apenas tenhamos assumido mais responsabilidades. Mas acima de tudo o que partilhávamos ainda permanece sólido como uma casa firme construida sobre as rochas, isso meu amigo, não é para qualquer um. _ Declarou, enfático, lambendo o bigodinho de leite formado acima dos lábios.
_ Continuaria sendo meu amigo mesmo se eu fosse um foragido,... ou... perseguido por um mafioso psicopata? _ Tão logo as palavras saíram, eu quis ser capaz de engoli-las de volta, rebobinar a fita, quando tive os olhos cismados de Dite enquadrando-me perfurantes e inquisitivos.
_ Isso não mudaria nada entre a gente, Camus, pensei que você já tivesse aceitado o fato de que somos uma dupla, um pacote fechado, se um cair o outro também cai. Se algo assim acontecesse poderíamos pedir asilo político em outro país, ou então fugir. Que tal o México? Ouvi dizer que a comida lá é quente. A Sicília também é uma boa pedida, os homens Italianos tem pegada e sabem o que fazem entre quatro paredes... e... em armazém de boates... _ Matraqueou ele, de forma brincalhona e aventureira que não desmentiam a seriedade de suas palavras, os olhos expremiam uma gama de emoções diferentes, dentre elas, a lealdade, as bochechas rechonchudas e rosadas pelo frio inflando enquanto ele inventava soluções mirabolantes para o suposto “caso”
Meu peito se aqueceu de paz e carinho pela demonstração incondicional de sua amizade, e pela primeira vez, eu considerei abrir o jogo, contar-lhe toda a verdade. Talvez eu realmente viesse a fazer isso, não somente para desencargo de consciência como também para aniquilar aquele circulo de mentiras que eu havia criado.
_ Acho que já está na minha hora. _ Falei, detectando a entrada dos amigos de Dite no salão.
_ Ah, não! Fique. O intervalo já está quase terminando e você não pode só ficar enfurnado dentro de sala com seus livros enquanto todos se entrosão do lado de fora, é muito marra até para os seus padrões de nerd pé no saco. _ Reclamou azedo, dando um empurrão de protesto de seus ombros sobre os meus. _ Sem contar que vai ter bebida Camus, isso, vai ter álcool! Misty ficou de contrabandear e camuflar água ardente em garrafas pet, se você preferir também pode pedir suco de laranja, as serventes daqui preparam um que vale a pena conferi, e você gosta da cor creme amarelo que eu sei. _ Sua expressão pidonha de quem não comeu a sobremesa depois do jantar quase me desarmava enquanto ria de sua infração descarada ao regulamento da faculdade que era contra ao consumo álcool em seus limites.
O que eu faria sem aquele endiabrado?
_ Não posso, meu anjo, eu já perdi duas aulas hoje por ter chegado atrasado e ainda preciso copiar o que foi passado. _ Desculpei-me, rindo de novo do beicinho de criança contrafeita que ele fez. _ E outra, eu não gosto da cor creme, nem de amarelo, dá onde você tirou isso? Nem mesmo roupa eu usaria com essa cor. Se fosse para ter algo assim no meu closet eu preferiria bancar o adolescente revoltado, ou o rebelde sem causa e usar jaquetas de couro, munhequeira, piercing no rosto e na língua e alargadores nas orelhas, e claro, não esqueçamos de fazer parte do fã clube dos Ramones ou do Nirvana. _ Emendei, cínico.
_ Você se tornaria um emo enrustido. _ Sentenciou, num tom professoral, dando-me um dos seus sorrisos charmosos. Nunca perdi a esperança de que seu rosto arrasador aparecesse um dia em outdoors e revistas de moda quando ele alavancasse na carreira de ator._ Se bem que é um look inovador que você poderia usar numa festa a fantasia ou num Happy hour. Uma roupa a caráter com tudo o que um roqueiro adorador de seitas satânicas tem de direito; roupas preta, correntes de prata no pescoço, lápis nos olhos e um topete moicano no clássico estilo bad boy. _ Diverti-me com a imagem bizarra e horripilante que minha mente montou com as descrições que ele fazia.
Peguei uma barrinha de cereal do bolso e me ergui quando os demais chegaram na mesa.
_ Idolatrem-me ralé, noses e perdedores Eu sou foda! _ Adiantou-se Misty pondo-se na outra extremidade de Dite com um “chega pra lá” de seus flancos.
_ Quem foi o cafetão que te iludiu assim? _ Dite rebateu, movendo os cílios de forma perniciosa, malévola.
_ Liga não, Misty tá que não se cabe em si por ter conseguido extraviar as bebidas jogando charme para o zelador banana. _ Apartou uma loira, Tétis, se não estivesse enganado, enquanto rasgava as verduras supridas na sua bandeja com uma faca.
_ Como fez isso? Achei que ele fosse um hetero convicto. _ Falou Dite, parecendo impressionado.
_ Todo macho alfa esconde seu lado gay, eu só o ajudei a traze-lo à tona, embora ele não jogue completamente no nosso time ele é no mínimo bi, ou sei lá, total flex. _ Exemplificou Misty, servindo-se de frango kung e carne com brócolis separados pelas repartições do prato, acrescentando arroz branco e mandando ver com os palitinhos.
Eles eram um grupo animado, indiscutivelmente.
Joguei fora a embalagem do cereal na urna de lixo e despedi-me de Dite, cumprimentando vagamente os outros com a cabeça antes de ir embora com uma decisão tomada.
Eu contaria toda verdade a Dite e assumiria as consequências que adviria disto, independente do que isto implicava, eu só precisaria encontrar o momento certo para abordar o assunto, se é que um momento desses existia.
Sentindo-me estranhamente mais leve com essa resolução, eu me esgueirei para dentro do vestiário masculino para lavar as mãos, mas quase dei meia volta ao topar com Radamanthys terminando de usar o mictório, impeli-me para frente, todavia, ele já havia me visto e eu não queria que ele pensasse que eu tinha medo dele, coisa que eu não tinha, devo dizer. Poucas pessoas conseguiram incutir esse sentimento em mim, e Milo encabeçava esse seleto número.
Abri a torneira, deixando a água limpar os resíduos do cereal entre os dedos, não me permitindo baixar a guarda enquanto estivesse dividindo o mesmo ar que Wyvern.
Entenda, eu não odiava Radamanthys, realmente, também não me importava com sua existência. Por ele eu sentia... nada.
Tanto melhor, o que era preferível, que a pessoa a quem você detesta lhe dedicasse todo seu ódio, ou que lhe fosse totalmente indiferente? Que perdesse o sono maquinando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse o sono dos justos esquecido por completo de sua existência? Oras! O ódio era um sentimento forte demais para ser gasto com pessoas como Wyvern. Já a indiferença, em contrapartida, dispensa declarações e reclamações. Seu nome não consta mais no cadastro para isso, nunca constou, na verdade. Odiar alguém significa que reconhecemos que esse alguém lhe provoca sensações, por piores que elas sejam. E para isso precisaríamos reconhecer o objeto do nosso ódio e desgosto, nem que seja para dedicar nosso desprezo, nossa ira, e nossa pouca sabedoria para entendê-lo e aturá-lo. Em suma, a indiferença é a melhor resposta quando falar já não adianta e as palavras tornam-se apenas uma voz que ecoa solitária no deserto.
O que Radamanthys tinha dentro de si era o que muito provavelmente havia sido plantado pelos seus próprios pais.
_ Porquê não aproveitamos que estamos a sós aqui para brincarmos um pouquinho, hum? _ Ele disse, emparelhando-se a mim no lavabo, os olhos arenosos fitando-me injetados através do espelho. Apesar de minha expressão permanecer glacial, um meio sorriso irônico brotou entre meus lábios.
_ Claro! Que tal de vida? _ Debochei. _ Você cuida da sua e eu cuido da minha.
Ele bateu com o punho fechado na pia, sem ter previsto, ele conseguiu que eu gritasse de dor quando ele torceu meu braço atrás das costas, quase arrancando-o do lugar, batendo minha cabeça contra a parede de uma das boxe. Eu estava atordoado, e por um instante minha visão turvou quando recebi o impacto do azulejo duro no alto da cabeça, dando-me uma breve vertigem.
Desorientado, era assim que eu estava, que Radamanthys era alucinado e instável isso eu sempre soube, mas até então ele nunca havia se atrevido a tanto. Sua investidas normalmente não passavam de convites que eram prontamente escusados, insinuações e até esporadicamente ameaças veladas, porém sem nunca ter ultrapassado esse limite.
_ Guarde minhas palavras, ruivo. Eu ainda vou foder com você, e quando eu estiver te enrabando eu vou garantir para que não sobre muito dessa sua altivez e auto- suficiência. _ Grasni em repúdio frente a promessa grotesca de sua ameaça proferida de forma alucinada em minha orelha. Debati-me tentando reaver meu braço quando senti-o raspar sua genitália ereta por sob a calça em minhas nádegas, mas parei, gritando novamente, quando mais uma vez ele retorceu-o dobrado para trás, parecendo estrunchá-lo e desloca-lo do lugar, a dor que isso infringia era indescritível.
Contudo, aquela agonia não se prolongou muito, Radamanthys teve que se afastar quando dois alunos entraram, prostrando-se para amarrar o cadarço como se não houvesse feito nada demais, e eu trotei para trás, cambaleante, massageando o braço inchado para fazer o sangue voltar a circular no lugar que já dava mostras que ficaria arroxeado e luxado enquanto ainda assimilava o que havia acabado de acontecer ali. Passei reto para fora ainda flexionando o braço que doía muito, talvez eu tivesse que fazer um toniquete e deixá-lo inutilizado por alguns dia.
Pensava se deveria prestar queixa acerca do ocorrido na direção, mas preferi me calar. Além de ser bolsista eu também era um doncél, não havia testemunha e seria minha palavra contra a dele.
Não daria em nada. E se duvidasse eu ainda passaria de vítima a causador da situação.
Radamanthys era um problema antigo, e eu estava certo que não seria resolvido de um dia para o outro.
Inconformado com tanta impunidade acima do doncéis, eu voltei para a sala cobrindo o braço magoado abaixo do xale. Eu encontrei Mu explicando pacientemente a matéria que Shion passara pouco antes para um aluno, Ichi, se não me falhava a memória. Desgostei-me daquilo, até onde me constava Ichi era conhecido por sua opinião extremista e desagradável sobre as “abominações doncéis”, como ele tão fervorosamente denegria a casta de homens que podiam engravidar, como Mu era novato, presumi que ele não soubesse disto. Algo em Ichi não me agradava, talvez fosse seus sorrisos forçados e artificiais ou o brilho de lagarto de seus olhos, e foi com algum custo que meneei o cenho num cumprimento vazio.
Voltei-me para minha pasta, frustrando-me quando o fecho para abri-la emperrou sem que eu tivesse pego a caneta e o meu fichário com minhas anotações. Era só o que me faltava! Será que tudo que tinha que dá errado sempre dava no mesmo dia?
A porta bateu alto com intrépido anunciando que o professor já houvesse chego. Mu me cutucou pelas costas e por pouco eu não o olhei atravessado. Será que ele não via que eu estava numa guerra com a minha pasta?
Comemorei vitorioso quando pus mais força e o trinco cedeu e sem mais impedimentos eu pude retirar meus materiais de dentro. Me recompus da postura encurvada e, desenrolando a apostila eu me virei na carteira, me retesando quando meus olhos automaticamente caíram sobre o homem de olhos cor de Whiski que eu havia visto mais cedo na recepção.
Jogando o terno no espaldo da cadeira dos professores e pondo a maleta sobre a mesa, seus passos criteriosos gravaram o chão quadriculado da sala quando ele se voltou para encarar o auditório, estudando cada face espectante antes de se apertarem imperceptivelmente ao se deterem em mim por mais tempo.
Por alguma razão aquilo me fez me encolher na carteira.
_ Sou Minos de Griffon, e atendendo à um pedido pessoal de Hades estarei assumindo provisoriamente as funções que outrora competiam ao Prof. Flégias. _ Seco e direto, foi essa a impressão que eu tive à seu respeito num primeiro momento.
Um burburinho alvoraçado preencheu a sala.
_ O Prof. Flégias abandonou o cargo? _ Alguém da primeira fila verbalizou, sobrepondo-se aos demais que falavam ao mesmo tempo.
_ Silêncio. _ A ordem imperiosa elevou-se sobre a balburbia do vozerio, aplacando e pondo fim ao tumulto que havia se instalado. _ Estamos numa sala de aula, não numa incursão ao mercado livre do Cairo, então não se comportem como macacos se debatendo numa jaula de laboratório. E não, respondendo a sua pergunta, Flégias não abdicou de seu cargo, ele foi afastado de suas incumbências por motivos que cabem a direção esclarecer, não a mim.
Uma garota levantou timidamente a mão, pedindo a palavra, o que foi prontamente concedido.
_ Griffon? Mas esse não é o sobrenome de sua excelência, o juiz magistrado da primeira comarca? _ Especulou, duvidosa.
_ Boa observação, senhorita. Minhas atribuições de fato se encontrão no fórum, porém como pontuei à pouco, a pedido do reitor, a quem tenho em grande estima, estarei exercendo temporariamente a contar de agora minha segunda formação, que, para quem não sabe e antes que perguntem, também sou versado em história, embora seja a primeira vez que estarei lecionando...
Duas batidas na porta cortaram seu monólogo.
_ Esses trotes deveriam ser proibidos. _ Disse um Hyoga com cara de poucos amigos, a blusa borrada e encardida de suco, não se dando conta que o professor já se achava a postos. _ Isso viola a dignidade humana e uma série de dispositivos constitucionais! É inadmissível que isso aconteça numa faculdade, ainda mais vindo de alunos que cursam direito!
_ Sou tão avesso a essa barbárie quanto você, Sr...?_ Griffon estalou o dedo, reportando-se a Hyoga numa pergunta muda.
_ Hyoga Yukida. _ Respondeu de pronto.
_ Sr. Yukida. _ Experimentou o nome. _ A diferença é que eu não interrompo a sua aula para expor a minha indignação com determinados fatos que ocorrem nessa instituição.
Hyoga ficou completamente constrangido.
_ Se mais alguém estiver cogitando me interromper, aconselho que se retirem da classe, interferências não serão aceitas em minha disciplina. _ Ele prosseguiu, indubitável e irredutível, sem se comover ou se abalar. _ Embora não faça parte da matéria de vocês, alguém saberia me dizer o que é uma petição?
_ É o meio pelo qual se pleiteia direitos perante a justiça. É a ferramenta utilizada pelos advogados para revogar ou obter uma decisão judicial que satisfaça o interesse de seus clientes. _ Hyoga disparou. _ Se manifesta através da ação de requerimento ou pedido efetuado de modo escrito ao poder judiciário.
_ Bravo Sr. Yukida. O senhor também saberia o significado de retundante? _ Minos perguntou, secamente, ácidez escorrendo de sua boca como pingos de uma torneira esquecida de fechar.
_ Falta de variedade ou simplesmente a repetição de coisa obvi... _ Hyoga começou, roboticamente, mas se calou ao perceber que a primeira pergunta havia sido não apenas puramente retundante como também retórica.
Eu me afundei na carteira, sentindo vergonha pelo loiro que parecia plantado no lugar e sem reação frente a turma e também acuado pelo jeito grosseiro do novo professor.
_ Como eu estava dizendo antes de ser interrompido pelo colega de vocês. Minha substituição será um arranjo temporário, uma vez que é inviável a contratação de um professor efetivo em pleno semestre sem uma petição de requerimento. A qual tão gentilmente o Sr. Yukida fez-nos a favor de elucidar-nos com seu significado. _ Ironizou. _ Tal ação só é possível legalizando-a formalmente mediante ao Estado que acatando ao pedido promoverá a abertura de um concurso para que o mais apto possa vir a preencher a vaga desfalcada. Como podem ver os tramites legais para a contratação de um funcionário efetivo de uma universidade que recebe subsídios e verbas do Governo, envolve muito mais burocracia do que muitos presumem ou ao menos tem conhecimento. _ Inteirou ele, removendo as luvas pretas de película que cobriam suas mãos e arregaçando a manga social da camisa até acima dos pulsos.
_ Alguma dúvida a mais a ser discutida? _ Ninguém se manifestou. _ Ótimo! Então podemos dar sequência a nossa aula.
Após ele se atualizar onde seu antecessor havia parado, ele deu continuidade a disciplina, introduzindo um novo tema para debate. Eu não podia negar que ele era bem articulado, não deixando furos ou dúvidas para questionamentos em suas colocações diretas e simplificadas. Vez ou outra regadas a ironia quando esbarrava em algum trecho do livro didático “idiotizado ou romantizado” pelos autores, dizia ele.
_ Você. _ Eu congelei quando ele apontou para mim. _ Me diga o que achou sobre o que acabei de dizer. _ Sua voz detinha uma autoridade inquestionável.
Por instinto eu olhei para trás para me certificar que era comigo que ele falava, mas como não havia mais ninguém atrás de mim, ficou claro que sim, era comigo. Fiquei em silêncio. Eu não falava em aulas, a não ser em seminários. Salva exceção de Shion eu me acostumara a ser deixado de lado, excluído ou somente ignorado pelos outros professores, como se eu nem existisse. E francamente já havia me acostumado com isso para querer que as coisas fossem diferentes agora.
_ Você escutou minha pergunta e a está ignorando ou é autista?
A sala explodiu em ovação e risadas por ter sido praticamente chamado de retardado e eu rangi os dentes de ódio com tanta força que pareceu que eles estavam se esfarelando dentro da boca, levou todo meu auto-controle não mandá-lo ir se ferrar. Um pensamento aterrador que até então não tinha me ocorrido travou meus músculos até os ossos. Se ele era o professor que Hades mencionara, isso queria dizer que...
não, não, não. Deus não podia me odiar tanto assim, podia?
Mas a realidade logo me acertou com o peso de uma bola de boliche. Se Minos era quem tomaria o posto de Flégias isso significava que ele também seria o orientador de minha monografia.
Apavorei-me com essa constatação.
_ Como você não se pronunciou vou considerar a última opção. Conheço excelentes profissionais que podem te ajudar com isso, não vejo como pode ser produtivo ensinar alguém com deficiência intelectual.
Maldito sarcasmo, maldita soberba. O olho da pior forma possível, não querendo ficar por menos e ignoro minha vontade que choramingava para atirar-lhe meu estojo.
Num andar ereto ele recapitulou a explicação de onde havia parado, eventualmente lançando alguma pergunta para serem respondidas por alguns alunos, escolhendo-os aleatoriamente. Mas o meu tormento provou-se ser apenas o começo, após ter descoberto meu nome e sobrenome durante a chamada, ele parecia ter adquirido algum tipo de prazer em me ridicularizar e diminuir sempre que tinha oportunidade. Eu retribuía os olhares atônitos de Mu que me encarava de boca aberta pela animosidade latente que emanava do professor por mim. Eu nem o conhecia, então qual era o problema dele comigo? Eu nunca havia me sentido tão destratado e ofendido em toda a minha vida de universitário. Assim como anteriormente, eu cheguei a pensar que talvez pudesse ser pelo fato de eu ser um doncél, mas desconsiderei logo isso, ele não parecia ter algum problema com Mu que também era um doncél. Então o problema não era pela minha condição de doncél, o problema era apenas por ser... eu.
A classe entrou em expectativa quando ele apagou as luzes, o blackout abaixado condenando a sala a escuridão, e ligou o projetor de imagens inserindo alguns slides para rodar e sentou-se elegantemente em cima da mesa com uma caneta laser rodopiando entre os dedos, desfazendo-se da cadeira. Todos os olhares se convergiram para a tela quando o narrador do pequeno filme colocado começou a endeusar, enaltecer, grandes feitos atribuídos a “este homem”, que ninguém podia visualizar por estar propositadamente desfocado pela lente da câmera.
“Este homem pegou uma nação destruída e recuperou sua economia, devolvendo o orgulho ao seu povo. Nos quatro anos de Governo, o número de desempregados se reduziu de 6 milhões para 900 mil pessoas. Este homem restabeleceu e fez crescer o produto interno bruto em 102% e o rendimento per capita triplicar.”
“Aumentou o lucro das empresas de 175 milhões de marcos para 5 milhões de marco. Este homem adorava música e pinturas. E, quando jovem, imaginava seguir a carreira artística”.
Com o controle remoto do projetor, Minos pausou os créditos finais justamente quando a imagem do “tal homem” ia entrar em foco, um esgar auspcíoso aflorando em seus lábios e em seus olhos trigueiros.
_ E então, o que acharam do filme?_ Elaborou a pergunta.
Uma enxurrada de mãos se levantaram, cada qual formulando sua própria opinião que iam desde “este governo é um modelo histórico a ser seguido”, “o aludido homem deste filme fez milagres em sua nação” ou mesmo “ele é um exemplo que deveria ser copiado pelos países em desenvolvimento”. Quieto em seu canto, Mu não se manifestou, com as pintinhas suspendidas sobre a testa, ele mirava a tela pausada com ceticismo. Eu também não me expressei, preferi apenas observar os variados palpites, sem me colocar em evidência. Esbaldei-me num prazer quase malévolo dos ditos sabichões e “entendidos do assunto” quando novamente ele apertou o play do vídeo, dando zoom com o controle na imagem que até então estivera desfocada, iluminando a reticula que formava um retrato de fundo em preto e branco. O rosto pertencente a uma das mais conhecidas figuras do século XX, o chefe de estado nazi Alemão Adolf Hitler..
_ Ainda o acham um modelo a ser seguido?_ Ardiloso, ele debochou, usando o infra-vermelho da caneta para dar ênfase a imagem.
_ Sr. Versalhes, enriqueça-nos com sua participação. Estou ansioso para ouvir o que tem a dizer sobre o tema. _ Eu estava imaginando quanto tempo levaria para que ele se dirigisse a mim. Céus! Essa aula não acabaria nunca? Era como se ele estivesse me testando, conferindo até onde meus limites iriam, como se estivesse esticando um elástico para ver quem o soltava primeiro.
_ Que é possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade. _ Assegurei.
Ele desligou o projetor e reacendeu as luzes, o belito âmbar de seus olhos pairando aguçadamente sobre meu rosto.
_ Uma colocação pertinente mas filosofíca demais e pouco prática, não acha?_ Rechaçou.
Minha boca se apertou ressecada, meu coração também, quando ele encurtou a distância até mim, sua altura agigantando-se sobre a minha sombra. O termo “o diabo veste prada” veio a minha mente, só que nesse caso não era prada que ele vestia, mas sim Versace, terno e gravata.
_ Se são colocações menos “filósoficas” e mais realistas, eu posso citar algumas. _ Revidei, nervosamente, minha voz, no entanto, tendo tanto sentimento quanto uma parede de aço escavado. _ Não é possível contar a verdade contando apenas uma parte dela. Então vamos ao que qualquer um sabe que não foi contado. _ Ironizei, ajeitando os óculos que havia escorregado para a ponta do nariz, minhas palmas comichando quando ele puxou minha anotações da mesa para lê-las, um perfume sofisticado penetrando meu olfato vindo dele, não saberia dizer se era de loção corporal ou de xampu. _ Nem mesmo um super-economista com poderes cósmicos e super-capa bordada à cifrões com fórmulas milagrosas poderia recuperar uma economia desta maneira em apenas quatro anos. Um tal desenvolvimento em tão curto espaço de tempo só foi possível com o investimento dantesco de dinheiro Judeu, que era quem dominava a finança na economia Alemã e de outros países baixos Europeus, roubado e desapropriado descaradamente pela política nazista. Mesmo o ex-ministro Vitor Gaspar levou dois anos, e ainda assim com a ajuda das políticas trapaceiras do seu antecessor, o vigarista Sócrates, a restabelecer economicamente um país. Ainda assim, uma coisa é reconstruir a economia de uma grande potência, outra é destrui-la numa guerra viciada à partida. Num caso ou noutro, a força era uma só por detrás de tudo: O controle financeiro mundial Judaico.
_ Excepcional, Sr. Versalhes, folgo em saber que autista o senhor não é. _ Ele disse, mordaz, repondo meu bloco de folhas na carteira e tornando a circular entre as fileiras.
Cerrei os punhos, tomando um ar fresco pela janela para arrefecer a raiva, acalmar-me.
_ Como ainda temos mais uma aula depois dessa. _ Ele iniciou seu discurso. _ Por favor, quero que sejam sinceros. De zero à dez, qual nota vocês dariam para a minha metodologia de ensino neste primeiro tempo?_ O garoto que sentava na carteira da frente, Lune, eu acho, ergueu a mão.
_ Diga, Sr. Lune. _ Naturalmente, com a inteligência apurada e percepção detalhista que ele demonstrava ter, ele já havia memorizado o nome de todos, ou, senão, da maioria.
_ Dez, senhor. _ Pude registrar o entusiasmo ardoroso em sua voz, por Griffon ter concedido tal “honra” a ele em lhe permitir falar. _ Eu avaliaria como dez, senhor. _ Eu rolei os olhos com a bajulação indisfarçável e com a forma oferecida na qual ele se portava sem tentar sequer ser discreto.
Tsc.
_ E por que uma nota tão alta? Especifique. _ Minos devolveu, não parecendo ter reparado, ou, se reparou, não se importou com o flerte.
_ Porque... _ Lune hesitou, vacilante, com o tratamento seco enquanto procurava as palavras. _ Porque o senhor explica de uma maneira muita clara e objetiva, sem deixar pontas soltas. Não é igual aos outros professores, no qual as aulas chegam a ser cansativas e enfadonhas... suas aulas são... produtivas?
_ E vocês acham que se eu quisesse, vocês estariam prontos para uma avaliação?
_ Uma... _ Titubeou. _ prova?
_ Exatamente. _ Bateu palmas. _ Faremos uma prova surpresa. Peguem lápis, caneta a borracha.
Com uma calma estudada, ele se virou de costas, mexendo na sua maleta escorada no projetor. De dentro, tirando um maço de folhas grampeadas do que, decerto, deveriam ser as provas.
_ Por essa eu não esperava, não estou muito certo se estou preparado para fazer uma prova tão repentina. _ Segredou Mu, guardando os objetos da carteira e permanecendo apenas com o que fora ordenado.
Eu admirava essa característica de Mu em ser humilde, despretencioso. Eu tinha uma vaga noção que ele possuía conhecimento o suficiente para zerar uma prova e gabarita-la sem maiores apertos.
_ Professor. _ Alguém se fez ouvir, Ichi interpelava o professor com certa urgência, esperando sua anuência para tomar a palavra, o que de fato aconteceu. _ Porque uma prova surpresa?
_ Oras! Eu não posso? _ Virou de frente, mirando-o, sem deixar de contar o maço de folhas em mãos, contudo.
_ Não é isso, é claro que pode, mas é que... _ Ichi se endireitou, e pude perceber certa pressa nele em se justificar, como se estivesse pisando em um campo minado e um passo em falso eclodisse numa bomba letal. _ Normalmente os professores avisam com antecedência, ou, pelo menos, um dia antes.
_ Isso me lembra de certa vez em que eu estava julgando um caso criminal e o advogado de defesa fez a seguinte pergunta para o perito: _ Discorreu Griffon, os olhos cravados em Ichi, ainda sentado ao lado de Mu, mesmo o intervalo tendo terminado. _ “Como o senhor pôde afirmar que a vítima estava morta?”, e o perito respondeu “Porque o cérebro dela estava em minha mesa”. Então o advogado soltou a seguinte pérola. “O cérebro dela podia estar na sua mesa e ainda assim, ele estar vivo”. Eu tive que interromper a sessão e dizer. “Sim , doutor, ela estaria viva e cursando a mesma faculdade do senhor.” É claro que todos no tribunal riram, era muita parvice saída de uma cabeça só. _ Distendeu um minúsculo sorriso arrogante. _ Abreviando a historinha, Sr. Ichi, o senhor está constatando o óbvio. Mas se ainda assim não me fiz claro o bastante, terei que pedir encarecidamente ao Sr. Yukida, que se mostrou tão talentoso em definições, lhe diga o significado de “prova surpresa”. _ Enviesou os lábios, sarcasticamente. _ Sr. Yukida, por gentileza, faça-nos as vezes. _ Apesar de ter se dirigido a Hyoga no extremo oposto da sala, seus olhos argutos não se desviaram dos de Ichi.
_ Ahn...er... _ Hyoga raspou a garganta, visivelmente desconfortável. _ bem... É uma prova que o professor aplica sem um prévio aviso.
_ Isso! _ Exclamou Minos, falsamente surpreso. _ Foi esclarecedor o bastante para você, Sr. Ichi, ou é necessário que o Sr. Yukida escreva à giz no quadro? _ Mu corou, tomando as dores constrangedoras do seu vizinho ao lado.
De forma esquisita, uma parte vingativa que eu não sabia ter, sorriu por dentro, eu estava me sentindo incomodado com o jeito lânguido e sorrateiro com que Ichi estivera medindo Mu sempre que ele estava distraído copiando ou escrevendo algo no caderno, eu podia ver isso toda vez relanceava os olhos para o canto onde eles estavam.
Distribuindo as provas entre as carteiras, ninguém mais se atreveu a falar, temendo tornar-se o alvo das grosserias cortantes e ácidas de Minos, ou mesmo ser posto para fora de sala de forma rude. O único som que enchia a classe era o da caneta arranhando os testes e o da neve castigando a cidade do outro lado das grades da janela.
_ Aqueles que forem terminando estão liberados para irem embora após me entregarem as provas devidamente preenchidas e assinada, com a exceção do Sr. Versalhes, a quem tenho algo a tratar findando o horário. _ Vocalizou, fixando-me diretamente, e eu me retrai, tenso.
Eu finalizei a prova em poucos minutos, porém, como não poderia me retirar sem antes me pôr a par do que ele queria comigo, continuei pregado no mesmo lugar. Gradativamente, aos poucos, as carteiras iam se desocupando e a sala se esvaziando. Mu me enviou um olhar de solidariedade na porta, antes de sair para o corredor, me esmerei para retribuir a simpatia com um sorriso tranquilizador, mas suspeito que não tenha conseguido mais do que esboçar uma careta.
Estava para ficar impaciente quando finalmente o último aluno restante se levantou e ressarciu a prova concluída a Minos. Esperei ele ficar sozinho e juntando minhas coisas desci do auditório parando frente a sua mesa.
_ O que que queria falar comigo? _ Interpelei-o, e ele levantou a cabeça do laptop, a qual ele havia ligado enquanto fazíamos a avaliação, perscrutando-me por cima da tela.
_ Ah, sim, claro... _ Irritei-me, ele agia como se não tivesse me deixado de molho até agora._ Quero que você me traga sua monografia amanhã para que eu possa lê-la, e decidir se precisará ser feitas modificações ou ajustes. De acordo com o diário em posse de minhas mãos, estou responsabilizado em tutorar sua dissertação no lugar de seu antigo orientador. _ Disse, pontuadamente, retornando sua atenção para a página carregada do notbook que captava o sinal do Wi-Fi do campus. _ Era somente isso, Sr. Versalhes, pode ir. _ Dispensou-me.
Eu engolfei uma grande quantia de ar para dentro da garganta e, dispersando a indecisão, eu sonorizei ao conflito que estivera rondando-me durante toda a aula.
_ Qual o seu problema?
Ele rapidamente voltou a me fitar. _ Perdão?
_ Porque ficou de marcação comigo durante a aula? _ Reformulei.
_ Isso é coisa de sua cabeça. _ Seu timbre seco e neutro serviu de gatilho para reascender a raiva acumulada naquelas quase duas horas de tortura.
_ Você me chamou de autista._ Exautei-me.
_ E você me chamou de idiota e disse que eu comprei minha carteira de motorista em uma auto-escola para cegos. Estamos kits, não acha? Aliás, você está ciente que se esse seu gosto de se enfiar em frente de carros em movimento poderia ter terminado de maneira trágica? Afora o fato de que você transgrediu as leis mais fundamentais do código de trânsito.
Petrifiquei, meu corpo congelando bem mais que os bonecos que estavam sendo montados na neve.
Por toda a França iluminada no aniversário da queda da bastilha! Era ele o motorista do carro que por pouco não me atropelara mais cedo? Mon Dieu! Não bastasse ele ser o novo professor e também orientador, ele também era um juiz, o quão desgraçado eu poderia ser?
Certo, Camus. Comece do zero, peça desculpas e tente fazer com que ele não leve o incidente para o lado pessoal e transforme sua vida acadêmica num inferno.
_ Me desculpe. _ Usei um tom brando. _ Foi uma fatalidade, eu não tive a intenção de te ofender ao dizer aquilo.
Ele fechou a tampa do computador e girou a cadeira para mim.
_ Não? _ Escarneceu.
_ Não. Como disse, foi uma fatalidade, reconheço, um episódio lamentável. Sei que fui o causador e que se você não tivesse parado a tempo eu não estaria aqui. _ Só Deus sabia o quanto minha boca queimava por estar dizendo aquilo. _ Eu realmente sinto muito por esse começo tão... calamitoso. _ Adicionei.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!_ Não, você não sente. _ Rebateu, deitando o dedo na nuca. _ Está apenas preocupado de que eu leve o ocorrido para o lado pessoal.
_ E não é o que você está fazendo? _ Repliquei-o, espertamente.
_ Talvez. _ Entrelaçou as duas mãos embaixo do queixo, estudando-me compenetrado.
Expulsei o oxigênio dos pulmões, prendendo um gemido de dor quando o braço ferido latejou. Não havia mais nada a se fazer ali, estava claro que Minos não mudaria sua postura em relação a mim por causa do que havia acontecido.
_ Que seja, você quem sabe, vou te enviar meu trabalho e nos falamos via e-mail. _ Encaminhei-me para a saída. _ Foi realmente ótimo falar com você, Sr. Griffon. _ Ressentido, a ironia escorreu de minha boca.
_ Sente-se. _ Ordenou.
_ O quê?
_ Eu mandei você se sentar. _ Repetiu.
Sorri-lhe amarelo.
_ Ainda a pouco o Senhor disse que eu podia ir, você se contradiz, Sr. Griffon. E fora de suas aulas o senhor não tem nenhum poder sobre mim, portanto não sou obrigado a obedecê-lo. _ Céus! Porque a porta tinha que ser tão longe? _ Passar bem, Prof. Griffon.
Eu soube que aquela afronta não ficaria por menos enquanto eu sentia seu olhar perfurando minha nuca.
Eu estava numa baita encrenca.
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