Notas iniciais
Passei aqui só para tirar o mofo. Boa leitura!

_ Acho que estou pegando a prática disto. _ A declaração enfática do meu novo colega de trabalho não foi nada surpreendente. Sempre atencioso com os fregueses, e, ocasionalmente, com os turistas que entravam a procura de informações sobre o circuito histórico, Mu aprendia rápido os deveres que competiam a loja. Um feito e tanto para quem estava começando hoje.

_ Nada mal para um primeiro dia. Quisera eu que o meu tivesse sido igual. _ Reconheci, empilhando uma remessa de livros novos no último lance de degraus da escadinha onde estava para começar a etiquetá-los manualmente antes de serem organizados por códigos.

Apesar de gostar de ler e cultivasse uma paixão única pela leitura, trabalhar numa livraria não era tão inspirador quanto muitos poderiam pensar. Tínhamos de ficar em pé durante toda a jornada de trabalho, memorizar de cor a localização de cada item da loja, e quantas não eram as vezes que era preciso ter a paciência de um Yoda com clientes que esperavam que você fosse clarividente porque não sabiam nem ao menos a primeira sigla do livro que pretendiam levar? Estávamos mais folgados agora que o movimento havia desafogado, o que nos possibilitava uma brecha para recobrarmos o fôlego enquanto papeávamos sobre assuntos sem importância para matar o tempo.

_ Devo entender isto como um elogio? _ Sorrindo jovial ele replicou. Reconferindo a contagem do lote que os fornecedores descarregaram no depósito pouco antes de termos saído para almoçarmos juntos.

_ Depois de ter lhe confidenciado toda a minha odisseia desastrosa quando fui eu o aprendiz aqui? Com certeza deve. _ Garanti enquanto repunha os livros catálogados na prateleira.

_ Eu odeio engarrafamentos! Estas estradas congestionadas estão cada vez mais intransitáveis._ Sacudindo a neve da capa de chuva e jogando-o no penduricário atrás da porta, Dite cruzava o batente sugando com as palhetas o macarrão instantâneo de um pote de yakisoba.

_ O que faz aqui? _ Galguei as escadas indo até ele.

_ Faço minha a pergunta! _ Reforçou Mu, guardando o balancete junto com os outros embaixo da registradora.

_ Nossa! Quanto amor! Assim eu gamo. E sim, eu estou ótimo, muito obrigado por terem perguntado. _ Esculachou ele, zombador, afofando uma almofada e pondo-a nas costas. _ o teatro municipal onde comecei a estagiar fica a uma quadra daqui, não é o máximo?

_ E como está sendo? _ Mu deu corda alongando-se na cadeira.

_ Aceitável, mas sabem? Estou descobrindo que é bem mais emocionante o gerenciamento de palco do que necessariamente encenar. Talvez eu escolha esse segmento da carreira. _ Disse.

_ É uma modalidade bem diferente do que você estava pleiteando. _ Falei.

_ É, eu sei, mas por enquanto é apenas uma possibilidade, não decidi nada ainda. _ Falou com um olhar sonhador como se estivesse pesando as vantagens e os riscos daquela empreitada. _ Ah, Camus, eu arranquei isto do mural de avisos da faculdade, achei que pudesse te interessar. _ Desamassou um encarte xerocado do macacão.

Era um anúncio de contratação a procura de alguém que tivesse as qualificações necessárias e disponibilidade noturna para tocar num restaurante de luxo nos fins de semana.

_ Como você toca quis que você visse o panfleto. _ Inteirou ele. _ Pelo que pude escutar nos corredores não é algo regular, mas é um restaurante de bacanas, geralmente fechado a banqueiros, CEOS, executivos, empresários e figurões do alto governo, onde homens da alta sociedade vão para exibir suas amantes e cornear sua esposas socialites, então suponho que o cache pago deva ser bom, afora o abonos das gorjetas que não devem ser de se jogar fora.

_ Posso estar desinformado, mas não era onde Orfeu tocava? _ Mencionei.

_ Era. Só que como você sabe Orfeu era um intercambista de verão e como ele não conseguiu revalidar seu visto de permanência junto ao consulado, ele teve que deixar o País e voltar para a Eslovênia, ou isso ou ser extraditado. _ Informou, prendendo um grampo de cabelo entre os dentes antes de ajeita-lo numa de sua melenas, assentando-o debaixo da toquinha de novelo.

_ Obrigado. _ Disse, embolsando descompromissado a folha no rasgo do meu avental.

Sentir o cheiro de cheddar e bacon do ensopado que o dite saboreava foi como ser esmurrado com tudo no estômago. Eu tranquei a respiração repelindo o vômito que parecia fazer uma sabatina na minha barriga. Meu corpo pareceu girar e querer desabar como se estivesse sendo desligado, tragado para baixo, a dormência rastejou sobre mim e tudo pareceu turvo, disforme, como se eu tivesse acabado de fazer piruetas e estivesse vendo dobrado. Eu cravei a mão na vitrine como um moribundo que se agarra a beira de um penhasco lutando para não cair, os membros pesando molemente flácidos como se eu tivesse sendo desossado. Eu me afastei alguns passos, deixando que o ar condicionado de cima filtrasse e purificasse o ar para dentro dos meus pulmões como uma bombinha de ar, eliminando e expurgando aquele cheiro odioso para longe. Eu poderia morrer se tivesse que aguentar aquilo por mais um minuto.

_ Você está bem, Camus? _ A voz de Mu não parecia mais que um chiado distante de um rádio mau sintonizado tentando desembocar até mim. _ Você ficou branco de repente e se afastou.

_ Eu estou bem. _ Fechei os olhos, débil, dardejando a testa oleosa de suor frio. _ Só não estou tendo um dos meus melhores dias. _ Confessei-lhes.

_ Você está mais sem cor que um defunto, Camus, você está infinitamente longe de alguém que parece estar bem. Você está parecendo um doente que andou convalescendo num leito de hospital. _ Bronqueou Dite, estourando, acudindo-me com um copo de água pego na maquina de bebidas da entrada.

_ Exagerado como sempre. Já disse que estou bem. _ Assegurei. _ não precisa se preocupar. _ Insisti mais brando.

_ Talvez ele só esteja assombrado por vê-lo atacar este pote de yakisoba como se fosse um esfomeado de algum campo de refugiados. _ Socorreu-me Mu, extrovertido, detectando meu pedido mudo de S.O.S.

_ Isso é recalque por que você só come alimentos pertencentes a cadeia alimentar de um coelho. Quem nesse mundo carnívoro sobrevive só de folhas e vegetais? _ Resmungou, bravo.

_ Finja que não o ouviu, é o melhor que você faz. _ Embarquei. _ Dite só esta com inveja, já que nesse ritmo ele precisa se cuidar para não virar uma matrona. _ Provoquei, olhando-o de viés, disfarçando a fraqueza que me acometia.

_ Antes que isso aconteça eu me mato numa academia. _ fuzilou-nos com determinação. _ Com sorte o personal trainer pode ser o meu príncipe encantado sarado e malhado que eu tenho esperado sentado até hoje e que nunca chega. _ Disse suspirando.

Apertei o nariz ainda sentindo o cheiro que subia do ensopado e voltei a etiquetar os livros ouvindo as discussões de Dite, apesar de ter-lhes garantido estar bem eu podia sentir vez ou outra os olhares reticentes e vigilantes que se revezavam sobre mim. Eles pareciam empenhados em rodear-me a todo instante como se esperassem que eu pudesse desmoronar de uma hora para outra do alto da escada, ainda assim eu estava tocado pelo cuidado que eles me dedicavam, eu era um homem abençoado pelos amigos valorosos que tinha, apesar dos pesares.

Tão rápido quanto havia vindo aquele mau estar se foi e eu me pus a narrar sobre a conversa que tivera mais cedo com Hades. Descontrai-me e ri um bocado, sobretudo porque Dite parecia ter tomado como meta de vida maldizer e invocar pragas pra aquele xerox mau ejaculado de "Severus Snape", como ele destemidamente o denominou pelas costas. Mu e eu gargalhávamos horrores, provavelmente em ressonância com a imagem de um Hades enfiado em roupas pretas, cor a qual ele já demonstrava ter certo apego, pavoneando como um morcego velho e sénil pelos corredores do campus prestes a lançar um Avada Kedavra para o primeiro estudante desavisado que fosse apanhado fora de seus respectivos dormitórios.

Contaminada pelo embalo e como nenhuma alma viva entrava na loja, Mu contou-nos detalhes de seu entrosamento com o tal Shaka que ele conhecera na boate. Eles não marcaram de se reencontrarem novamente depois daquele evento, mas se falavam periodicamente quase todas as noites pelo skype, mas tinham combinado de se verem no feriado do fim de semana. Dite viu naquilo um prato cheio para tirar uma com o coitado do Mu e aporinha-lo com conselhos desclassificados que o enrubescia como se eles tivessem programado de irem a um pardieiro, não para o cyber- café no centro da cidade.

_ Não se esqueça da camisinha, de um tubo de lubrificante, porque não vou te enganar, perder a virgindade de trás dói, e não é pouco. _ Recomendava ele indecorosamente. _ Ah! E não seja o passivo. _ Gritou ele quando Mu sumiu no almoxarifado. _ A não ser que queira. _ Repensou, sorrindo de orelha a orelha. _ Sei que normalmente as pessoas lhe diriam para seguir seu coração e ir fundo nesse sei lá o que você e aquele loiro metido pretendem levar nesse se conhecerem melhor, mas não quero ter que consolar alguém de coração partido depois, então vou reeditar esse ditado e aconselhar para não ir tão fundo assim. Porque não acredite em nenhum segundo que seguindo o coração significa que tomemos as melhores decisões, todos temos um coração diferente que bate por motivos e ideais diferentes, por razões que talvez não sejam os mesmos que o seu, por isso não se precipite e siga a cabeça também. _ Receitou ficando mais sério.

Mu estava tão abestalhado quanto eu.

_ Quando foi que você ficou tão maduro assim? _ Externei o que em unanimidade estávamos pensando.

Ele sorriu malandro como uma criança peralta que havia acabado de depredar a janela do vizinho.

_ Gostou da performance? Tirei a dica de um site de relacionamentos adolescentes, daqueles que vivem se lamuriando a cada paragrafo que "ninguém me ama", "ninguém me quer", "ninguém me entende", "sofro bulling por isso prático cutting e me automutilo com um gilete debaixo do chuveiro", "sou gorda e todos me odeiam", "sou a nerd dentuça e esquisita apaixonada pelo capitão do time futebol". _ Recapitulou lixando as unhas como uma lixa de nécessaire folgadamente como se estivéssemos numa manicure. _ Sério! Eu havia me esquecido de como adolescentes podem ser imbecis. Por isso é que eu prefiro aquela máxima de pegue, mas não se apegue, é bem mais descomplicado desse jeito. _ Terminou rolando os olhos enquanto assoprava a cutícula.

_ Mas você já não se apegou antes? _ Retorqui, fazendo alusão a seu primeiro fora amoroso.

_ Sim, por isso é que eu insisto no façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço. _ Exemplificou, como se isso explicasse tudo.

Mu e eu rimos de sua lógica prática completamente sem lógica. Dite merecia o prêmio Nobel dos cara de pau, sua fala fácil já seria um excelente slogan de propaganda.

_ Quando você nasceu o médico ao invés de bater na sua bunda bateu na sua cabeça? _ Importunei-o.

O sino colocado em cima da porta, avisando sempre que alguém entrava ou saia da livraria repicou, avisando-nos que a nossa mordomia havia acabado. Saindo de trás do balcão Mu se prontificou em atender a corriola de estudantes do colegial que adentraram atraídos pelos mostruários da vitrine enquanto Dite desbloqueava seu iPhone.

Ninguém gosta de ter assuntos pendentes, e embora tivesse decidido contar-lhe a verdade, eu ainda não havia encontrado um momento adequado para algo dessa dimensão. Eu ao menos sabia como entrar no assunto sem esperar que Dite não surtasse no meio da narrativa. Não era impossível que uma parte minha estivesse relutante, adiando o inadiável, temendo um possível afastamento, talvez ele ficasse sem falar comigo por um período indeterminado de tempo. Nossa amizade já havia sido posta em cheque antes e provado ser mais resistente do que qualquer picuinha e desentendimento que pudéssemos ter, mas por outro lado jamais havia lhe escondido tanto quanto atualmente.

_ Este livro é bom? _ Espanando a poeira das mãos, eu rastreei a voz de quem me falava. Olhando para baixo do cume da escada, eu me vi terrificado quando visualizei ninguém mais ninguém menos do que Minos segurando dois grossos livros nas mãos enluvadas.

Pela forma natural com a qual ele se portava ele já deveria ter me visto antes que eu o notasse. Não havia nada nele que indicasse surpresa por me encontrar ali. Mordi a minha língua, tacando na minha cabeça que ele era um cliente e pela política da loja eu não poderia destrata-lo como ele fizera comigo em sua aula naquela manhâ. Então, adotando uma postura profissional e aderindo ao "modus operandis", eu deixei o que estava fazendo e debrucei-me um pouco sobre seus ombros para checar os volumes que ele trazia consigo. Um era sobre acordes de músicas, concertos, especificamente. Era de se esperar. Griffon parecia ser um daqueles apreciadores vanguardistas de artes clássicas criteriosos, do tipo que se enclausurava num escritório enquanto redigia bateladas de papéis burocráticos ao som de lacrimosa de Mozart para não ser perturbado. O único problema era que o outro exemplar era sobre um maestro que era um achado como compositor, porém péssimo como escritor.

_ Quer a minha sincera opinião? _ Inesperadamente, eu estava inseguro, debatendo se deveria ou não me meter. Ora bolas! Como vendedor o correto seria eu divulgar o produto, prestigia-lo e vendê-lo, mas também tinha que vender um produto bom e de qualidade. Vai que depois que ele lesse não atingisse suas expectativas e ele voltasse e reclamasse com Dohko que seu empregado era um oportunista inescrupuloso? Eu não podia deixar que algo assim acontecesse, podia? Como ele nada disse intui que seu silêncio fosse uma afirmativa para prosseguir. _ Não. _ Dei meu veredito.

Quiz retirar o que disse tão logo aquela única sílaba ganhou forma através de minhas cordas vocais. Ele bateu a capa do volume em mãos, fechando-o, o seu perfil oscilando entre a irritabilidade e a insatisfação. O que eu havia falado demais? Senti-me tentado a cruzar os braços numa pose que para mim seria desafiadora, mas que para ele poderia dar entender que eu estava na defensiva. Então apenas esperei que ele me iluminasse sobre o que eu fiz de errado dessa vez. Não que adiantasse de alguma forma, já que ele sempre parecia estar irritado comigo por alguma razão.

_ Norman Lebrect é um dos maiores regentes da orquestra sinfônica e sarais da atualidade, e também um extraordinário compositor. _ Ele disse rude, sacudindo encrespadamente o livro amarronzado como se tivesse escutado um descalabro, um sacrílego profanar algo não menos valioso do que uma escritura sagrada.

_ Bem, fora o senhor que pedira minha opinião franca, e eu a dei. O livro de Norman Lebrecht se resume a documentários e compilações, uma investigação do que há por detrás dos bastidores da música sinfônica, apenas relatos e depoimentos sem dinamismo. Se é essa a temática que você está procurando, então apenas desconsidere o que eu disse e o leve. Mas se for sobre a história da música erudita que você visa, eu sugeriria Mila Tânia ou Domus Racfort. _ Ia falando enquanto despejava os ditos volumes em cima dele retirados de diferentes partições.

_ Não vejo porque eu deveria levar em conta a sugestão de alguém que claramente não reconhece a genialidade de um homem visionário quando claramente se depara com um. _ Despeitado, ele pareceu rosnar, o que não era compatível com suas maneiras moderadas, excelsas de autocrata.

_ Em nenhum momento eu disse que Norman Lebrecht era um musicista ruim, pelo contrário, ele inegavelmente é uma raridade nessa geração que chama barulho de canção lírica. Mas evidentemente seu talento não se estende a escrita. Sua obra é um lixo com mais pompa e palavras floreadas do que conteúdo. _ Revidei me enervando, suas gemas brilharam e eu reavaliei meus modos grosseiros para o atendimento de alguém que no momento era um cliente e temi que ele pudesse dar parte a Dohko. E foi nisto o que eu pensei quando tentei remediar o estrago. _ Quero dizer... _ Quis me retratar, mas a mão justa de Minos encoberta sobre a luva preta, fez-me calar.

_ O que o faz crer que eu deveria levar em consideração o argumento inconsistente de alguém de sua estirpe se ao menos parece ser conhecedor do assunto, o que você entende sobre arte? _ Desta vez não me impedi de cruzar os braços na altura do peito com a ofensa sublinhada. Minha estirpe? Como era alguém da minha estirpe?

_ Talvez porque ao contrário do senhor eu tenha lido essa porcaria podendo atestar que ela é tosca, nem de longe merecedora de todos os títulos que lhe são atribuído. _ Devolvi apelando, e ele sorriu amargo, cheio de fleuma, um sorriso que não alcançava os olhos, como se assim quisesse pudesse me esmagar com a sola de seus carríssimos sapatos Italianos.

_ O que eu faço com você, hein, Sr. Versalhes?

Minhas sobrancelhas foram parar na testa com aquilo.

_ Camus, eu já estou indo, tá na minha hora. _ O meu amigo loiro murmurou, andando para ficar ao meu lado. Ele capturou a atenção do meu orientador quando enlaçou minha cintura com os braços, o queixo pousado no côncavo de minhas costas. Dite estava manhoso demais, e ele só ficava assim quando queria alguma coisa que sabia que eu estaria potencialmente inclinado a negar. _ Você não me disse que tinha um teacher tão gostoso assim. _ A sua voz não era mais que um sussurro na haste do meu ouvido, mas apesar disto meu rosto cozinhou com a malícia abundante nela. Tive receio de que daquela distância Griffon pudesse tê-lo ouvido. Não sei como ele soube que Minos era o meu novo professor, mas o pedido singelo de desculpas nas esmeraldas de Mu me disse o que eu precisava saber.

_ Sou Afrodite Tomlinsom. Melhor amigo de Camus. _ Ele ofereceu a mão para Prof. Minos. O olhar altaneiro do juíz transmudou de Dite para mim, ele estava sério, e os seus cílios vibravam sobre as maçãs do rosto quando ele cavalheirescamente levou a mão de Dite aos lábios num gesto antiquado, mas que nele dava-lhe ares senhoriais, depositando um beijo nas costas de sua mão.

Dite pareceu encantado. Minos encarnava um verdadeiro lord Inglês saído de algum conto da era Vitoriana.

_ Minos de Griffon, professor e orientador do Sr. Versalhes. _ Eu ouvi o seu timbre comportado dizer. Eu estava boquiaberto, ainda era muito cedo para o meu cérebro digerir a informação de que ele não estava sendo rude com o meu amigo, bem diferente do tratamento que ele me dispensava. Ele estava receptivo, carismático, no entanto aquilo não estava certo, havia algo de premeditado, insincero, na forma como ele parecia passar mel na suas palavras para o fascínio de Dite.

Ele era um fingido.

Um farsante.

Eu caí em transe por cerca de segundos, a minha mente apenas conseguindo pensar no quanto Minos era misterioso, versátil, comparando as semelhanças, que, embora numa escala diferente, invariavelmente remetia-me a outro loiro igualmente pedante. Até a primeira sílaba do nome deles eram similares, mas isso não vinha ao caso agora

_ Precise que leve meu carro com você quando acabar seu turno. _ Dite verbalizou, eu girei para confrontá-lo quando ele praticamente abriu a minha palma e largou o chaveiro de sua mercedes sobre. _ Mysti me intimou a ir com ele na palestra do cronograma dos cursandos de teatro e artes cênicas. Não posso deixar o carro aqui por tempo indefinido sem que ele acabe indo parar no reboque, só posso contar com você para isso, o buscarei no seu prédio no regresso. _ Um tanto suplicante, ele pediu.

Eu pisquei forte abraçando precariamente o braço torcido protegido pelo agasalho. Embora tivesse tirado a carteira de motorista há cinco anos, eu não tinha muita prática no volante. Também pouco dirigia para ser considerado seguro alguém me confiar um carro. Eu olhei severamente para ele, mas ele desviou os olhos para o meu orientador. Submergindo de minha inflexão, eu vi o quanto Griffon se fazia concentrado, até então eu não havia me mancado que a nossa conversa já não era mais tão particular. Pela forma intensa que ele me encarava, como se me vasculhasse, eu me perguntei se estava tão visível assim meus defeitos como motorista.

_ Eu o deixo até onde você mora. _ Ele se pronunciou, seus pés achegando-se até onde eu estava. Antes que eu pudesse compreender suas motivações ou objetar, as chaves foram arrancadas de mim. _ Eu estou sem carro, não me atrapalhará. Aproveito a viajem e adianto-me para pegar sua monografia, não terei problemas em apanhar um táxi depois de me certificar que esteja a salvo.

A ficha caiu, e como um tapa eu percebi que ele me tinha como um perigo no volante. Não que eu realmente não fosse, de todo modo. Mas os conceitos que ele fortalecia em si sobre mim, apenas dizia que ele não estava propenso a abrir concessões para muda-las. Para ele eu sempre seria o idiota que se jogou na frente de seu carro. Ele não acreditava que minha integridade física sairia ilesa se eu conduzisse um carro.

_ Problema resolvido, sendo assim eu te vejo mais tarde. _ Dite anunciou. _ Ou a noite. _ Repensou.

Já na porta, eu o metralhei como se pudesse desintegra-lo ali mesmo quando ele mexeu os lábios sem som, porém podendo soletrar em seus lábios a frase formada.

"Quero saber de todos os detalhes picantes depois".

Com certeza ele não diria uma disparidade dessas quando no lugar de lhe contar detalhes picantes, o contasse o quão desagradável ele poderia ser.

_ Levarei suas indicações e comprovarei o que você entende como arte. _ Minos vocalizou, recolhendo os exemplares que eu havia separado. Ele ainda criava caso por isso? Finquei as unhas na palma dentro do uniforme. Minos tinha o dom de despertar o que há de pior nas pessoa.

_ Pague no caixa. _ Vociferei a instrução rabiscando uma comanda e estendendo-lhe.

Como já havia passado um tanto do meu horário de saída, Mu veio me render, assumindo à frente da loja. Demorei mais do que o preciso no trocador, aprontando-me para ir embora. Eu tinha minhas reservas quanto a ter sido pertinente aceitar a oferta inusual do meu orientador para me deixar em casa, deveria ter sido mais duro com Dite e insistido em demove-lo daquela acordo.

Dando a volta na rua de paralelepípedos, Griffon já me esperava encostado na porta do automóvel. Supusera que ele o localizou através do alarme portátil no chaveiro, uma vez que ele o desconhecia até o dado momento. Não disse nada, nem ele, portanto apenas me pus para dentro encaixando o cinto no adaptador. Eu o vi austero enquanto manobrava para arrancar o carro da vaga apertada do estacionamento. Ele era bom, e tinha que ser, senão eu teria sido esmagado pelas rodas de seu carro naquela manhã. Se ele competisse num racha ilegal meu lance é que ele ganhava o primeiro prêmio no pódio, depois me impressionei com minha própria invencionisse. Um juiz participando de um racha?

Em que seriado de televisão?

_ Você não parece muito feliz por ter-lhe confiscado as chaves e ter-me dirigindo o carro de seu amigo, Sr. Versalhes. _ Ele observou, a neve havia baixado, deixando apenas uma fina garoa e uma forte ventania que encurvava as copas.

_ Não exatamente. Como você mesmo disse o carro pertence a Dite, não a mim. E independentemente eu não sou muito bom em manusear um, de qualquer forma. _ Admiti, formal.

_ E assim mesmo ele pretendia emprestá-lo a você? _ Ele perguntou ironicamente. _ Não acho que ele chegaria intacto no seu destino.

A raiva que subiu-me não tinha precedentes, tão certo quanto o astro rei que brilha fulgurante sobre as nuvens eu estava prestes a perder as estribeiras. Quase não me reconhecia, meu humor parecia viajar de um extremo a outra muito rapidamente de uns dias para cá. Onde ele queria chegar, afinal? Me humilhar e me pôr para baixo era sua forma de me punir por alguma falta imperdoável que tivesse cometido? Uma coisa era ter que me sujeitar a suas farpas dentro de uma sala de aula onde eu não tinha culhões para replicar, outra fora dela. O máximo que eu ganharia se o respondesse agora seria talvez sua desistência da minha monografia.

_ Talvez não chegasse intacto, de fato. Mas veja só! O que o senhor acha ou deixa de achar a meu respeito não me acrescenta em nada, não tem nenhum valor pra mim. Da mesma forma que suas habilidades não são da minha conta, as minhas idem para você, monsieur. _ Espicaçei, e então sorri gaiato, motejador. _ Oh, mil perdões, talvez a minha indelicadeza não esteja de acordo com o protocolo para com um juiz. Talvez o senhor prefira um tratamento diferenciado, algo como vossa excelência, meritíssimo, vossa majestade ou quem sabe... amo! _ Reclinava-me zombeteiramente a cada título adulativo que gania. O dourado esplendoroso de seus olhos inflamaram como um campo de trigo em chamas, seus sapatos causaram ranhaduras no carpete emburachado quando seus pés trocaram de marcha. Ele sorriu sem mostrar os dentes, um sorriso de tubarão que fez um estalido doloroso no meu peito.

_ A intenção não foi insultá-lo com o comentário, Sr. Versalhes, mas admito que a minha colocação foi de fato muito infeliz. É apenas difícil para mim associar a sua figura tão... frágil e... delicada... sentado nesse banco para comandar um carro, são duas sentenças que não se encaixam para mim. _ Paramos num guichê de pedágio. Meus tendões comicharam, o que era para mim então?

_ Eu não sou frágil. _ Refutei retorcendo-me.

_ Você é, Camus, bem mais do que imagina. _ Reafirmou, complacente.

Era para isso então que ele quis me levar? Para me diminuir? espezinhar? Eu já tinha minha própria cota de desgostos para suportar, não precisava de mais uma, nem que esfregassem na minha cara minhas limitações.

_ Me surpreende que você nada tenha dito. _ Retomou, verificando o marcador de combustível.

_ Essa é a sua opinião, e honestamente não estou com ânimo para tentar muda-la. _ Rebati sem disposição, sentindo uma nova onda de vertigem fazer com que os passantes se tornassem borrões rodopiantes sob seus guarda-chuvas e me isolei não tendo mais força para continuar a peita-lo.

Quando chegamos não o convidei para subir, nem ele pediu para tal. Repassou-me as chaves do carro e ficou aguardando na portaria que eu buscasse a minha dissertação, disse que lhe enviaria a conclusão da pesquisa que eu ainda não havia concluído e dado os últimos retoques naquela mesma noite por fax.

Eu entrei no meu apartamento novamente já desamarrando a tira da sandálias e lançando-as em qualquer lugar e marchei para a cozinha para preparar algo pra comer. Estava com muita vontade de provar algum cupkake, ou qualquer outra receita que levasse açucar no meio, a mera ideia de experimentar um trazia saliva a minha boca, o ruim seria o tempo que demoraria para o preparo. Fucei os armários caçando os ingredientes e utensílios necessários, fiz a massa me sujando um pouco com os ovos e a farinha quando a desempacotei num rompante e untei a massa na forma, levando-a ao forno.

Guardei as louças e as vasilhas, restituindo-as onde estavam antes de minha interferência e bebi um grande copo de limonada tentando plantar alguma coragem no meu metabolismo para fazer o que tinha em mente. Não gostava de ficar de pernas para o ar, à toa, então gastaria aquele tempo de espera para faxinar o quarto de Dégel. Eu não havia pisado ali novamente depois de seu sepultamento, não me sentia emocionalmente preparado para dar esse passo ainda, apenas havia-o trancado e confinado a chave dentro de uma latinha que enfeitava a sala.

Tão logo arreganhei a porta espirrei, a rajada de vento esvoaçou a camada fina de poeira. Meu nariz coçou com o forte cheiro de mofo impregnado. Eu me adiantei em abrir as cortinas, a luz fraca do dia ricocheteando pelas paredes e lustres jorrou pelas frestas das venezianas, arejando os recantos mais secretos e a mobília soterrada de pó. Meus olhos arderam, a velha sensação de sufoco apertando-me como uma forca, e eu lutei para não esmorecer.

Podendo sentir o meu peito fulminantemente descompassar, eu esvaziei o guarda- roupa, encaixotando cada um dos seus pertences das gavetas e cabides, as doaria para alguma instituição de caridade. Desinstalei os calçados da sapateira e retirei da cabeceira um livreto rasurado que ele sempre lia antes de dormir, uma tarja acinzentada marcava a página onde ele havia parado. Assim como os outros objetos, empacotei os Cds souvenirs e as moedas antigas que ele gostava de colecionar.

Troquei os lençóis e fronhas sujos e ao passar os dedos debaixo do colchão para suspende-lo, senti minha mão esbarrar em algo. Puxei-o de seu esconderijo apenas para tardiamente descobrir que se referiam a promissórias, a maioria vencidas, e muito, do prazo estipulado para debita-las.

Empunhando os recibos, eu escorreguei para o chão, entrelaçando minhas próprias pernas. Meus pulmões estavam cheios de oxigênio, mas parte dele não queria colaborar e escapar normalmente pelas narinas, então eu o expulsei para fora com a boca enquanto processava o significado de cada paragrafo que eu assimilava daqueles papéis.

Dégel havia hipotecado o apartamento.

Mas porquê? Meu pai sempre foi muito comedido em suas finanças, não era alguém que desse um passo maior do que as pernas, então qual a urgência de dispor de uma quantia tão vultuosa quanto aquela, dando como garantia o apartamento para um banco com juros extorsivos? Acima de tudo, com que finalidade? Eu não conseguia encontrar uma razão que fosse minimamente razoável para aquilo, o único que poderia me esclarecer o espiral de perguntas que bailavam no meu âmago não se encontrava mais entre os vivos.

Teria de arcar com a responsabilidade de resgatas aquela dívida, ela não havia prescrevido com o falecimento de Dégel. Se tratando de banco eu podia apostar nisto. Com algumas promissórias vencidas nada os impedia de contestá-las ou levarem o imóvel a leilão para ressarcirem o valor emprestado. Eu teria de reduzir gastos e despesas pessoais, e mesmo recorrendo a essas medidas não sabia de onde desembolsaria um valor tão fora de minhas condições, tão alto. Os juros computados por si só cobriam todo o salário que eu recebia num mês inteiro na livraria, aquilo era tão abusivo que chegava a ser agiotagem deslavada. Eu precisaria arrumar outro emprego, um que fosse rentável, e que desse para ministrar com meus outros horários tanto na faculdade quanto na livraria. Irefletidamente alisei o anúncio que o Dite me dera afanado do mural do campus, era o que tinha em mãos, e eu não podia me dar ao luxo de escolher.

Desligando o forno, o apetite totalmente perdido, eu tomei uma condução até o endereço impresso no rodapé. Dite não havia mentido, o lugar era intimidantemente refinado. Visto de longe parecia um bunker, uma casa de veraneio. Uma sacada encrustada no morro de pedras virada para o mar e iluminado por lamparinas o integravam as riquezas naturais do Arquipélago. Era uma construção antiga, mas com traços modernos, muito provavelmente edificado no fim do período Edo, o que o tornava um patrimônio no meio de tanta mudança arquitetônica que Tóquio continuamente passava. O interior lembrava um tatame, e a rigor os funcionários trajavam yukatas, quimonos tradicionais, para receber e servir a freguesia.

Submeti-me a alguns testes no piano de calda que ficava num relevo entre duas colunas de centro. Não fui o único, entretanto, haviam outros candidatos aguardando serem chamados. Mas o maître pareceu achar que eu me destaquei por ter executado Rachmaninoff sem errar uma nota, o que me valeu o encargo.

Devorei um algodão doce de um ambulante na caminhada que me propus a fazer na volta, o cheiro de melado havia renovado em mim minha vontade por doces, lambia os dedos lambuzados de açúcar ainda aéreo sobre os motivos de Dégel quando parei de chofre ao escutar meu nome ser chamado sob as sombras da torre Sky Tree.

Aiolia gesticulava-me de fora de seu estabelecimento. Não esperava ser cercado por ele, só o conhecia por intermédio de Milo e não éramos amigos para tal. Mesmo assim não tentei fugir, com seus sorrisos fáceis e sempre amigáveis, Aiolia me passava confiança. Nem mesmo eu seria capaz de explicar como isso era possível se mau o conhecia, era apenas uma empatia, uma intuição, eu me simpatizava com ele e pronto.

_ Camus, foram os Deuses que o trouxeram até aqui! _ O musgo verde de seus olhos radiavam um alivio que me fugia a compreensão, mastiguei o palito entre os dentes enquanto esperava que ele prosseguisse, eu sentia que aquilo era apenas um pano de fundo para o que viria. _ Milo está completamente embriagado lá dentro e não sei mais o que fazer pra que ele largue o copo de ponshe. Preciso que você me ajude a tira-lo de lá antes que as coisas saem do meu controle, se ele não der ouvidos a você eu lavo as minhas mãos, pois a mais ninguém ele dará. _ De cima da rampa eu olhei furtivamente para dentro, encontrando, de costas, Milo espreguiçado sobre o balcão com uma garrafa de bebidas pela metade. Uma mulher se dependurava em seu pescoço sentada em seu colo. Eu vi vermelho, o palito espatifou na minha língua antes de o triturar com os dentes. Quis brigar, fazer uma cena, e depenar todos os cabelos daquela vagabunda oferecida.

Como ser crivado por uma bala de canhão, percebi que estava me roendo de ciúmes por alguém que não era meu, a realização foi como meter um tiro nos próprios pés. Não estávamos engatados em nenhum compromisso para que com quem Milo ficava ou deixava de ficar pudesse ser da minha conta. Não era a primeira vez que eu repetia aquilo para mim mesmo, saber disso no entanto não tornava a aceitação de ter que engolir aquilo mais fácil, o sentimento de perda que entranhava suas estacas no lado esquerdo do peito. Mas perda? Perda do quê? Eu nunca tinha ouvido falar de alguém que pudesse perder o que nunca teve, mas esse era um sentimento que vinha se tornando recorrente pra mim.

_O que você espera que eu faça? _ Perguntei, se ele, que era suposto ser seu amigo, não era escutado por Milo o que o fazia pensar que eu seria? Outra coisa que também me atiçava a curiosidade, era do porquê de Milo estar se embriagando. As pessoas só tendiam a beber desse jeito tão desregrado como forma de escapismo. Para chegar ao ponto de não saber mais diferenciar seus atos não fora pouco os copos que ele virou, com a imunidade que ele parecia ter algumas rodadas não o poria neste estado.

_ Que o convença a ir embora, antes que ele faça algum estrago difícil de ser consertado. _ Desarrumou os cabelos acastanhados nervosamente, uma mania que eu havia reparado ser bem comum nele quando não sabia o que fazer. _ Você tem mais influência sobre ele do que qualquer um de nós. Já estávamos nos perguntando quanto tempo Milo levaria para se cansar de seu novo mascotinho. _ Ele me olhou penalizado como se estivesse se desculpando por aquilo. Só não sabia se era pelo acanhameto ou por ter sido comparado a um animal com cabresto. _ Chegamos mesmos a fazer uma aposta sobre isto numa de nossas noitadas de jogatina, afinal Milo sempre foi inconstante e nunca passou mais do que uma noite com a mesma pessoa, mas também nunca fez chantagem para levar alguém para a cama como no seu caso. Não sei se te parabenizo ou se me apiedo, mas, Camus, Milo está completamente na sua. _ Me eximi de lhe rebater com qualquer coisa que fosse, só o encarei deixando claro o recado "Milo é quem bebe e é você quem delira?"

_ Não posso te ajudar, como pode ver ele está muito bem acompanhado. _ Falei ataracado, com estopim curto, assistindo os esforços da mulher que se desvelava para chegar a suas calças.

_ Ah, quanto a isso posso dar um jeito. _ Propôs, e desapareceu, retornando logo depois. Do acostamento, eu pude observar o momento exato em que o barmem derrubou bebida no corpete da mulher, que, alterada, teve que se retirar, muito provavelmente para o toalete, para se secar. O garçom responsável pelo acidente fez um assentimento para Aiolia, e eu fiquei pasmado ao sacar seu engenho.

_ Melhor você se apressar antes que ela volte. _ Avisou-me.

Nada estava sobre controle quando assim o fiz, a prova disso foi os meus joelhos que não pareciam querer cooperar quando pareei-me para tão perto dele.

_ Milo... _ Chamei-o, fazendo com ele me enxergasse, a pulsasão pareceu regar insuficiente sob as minhas artérias quando ele se virou.

_ Camus. _ Suas tumalinas estavam foscas, nubladas, como se estivesse vendo-me através de um embaçado nevoeiro, meu peito se apertou por vê-lo num estado tão deplorável. _ O que faz aqui? _ Inquiriu-me, a voz grogue e embolada enquanto bebia direto do gargalo de uma garrafa de Ouzo*.

_ Eu me perdi enquanto voltava para casa, ainda não estou familiarizado com essa região. Será que poderia me ajudar a voltar? _ Eu não funcionava bem sobre pressão para elaborar uma desculpa melhor e o risco de não ser rápido o bastante pra evitar entrar numa disputa direta com aquela mulher me fazia agilizar.

_ Eu não confiaria sua segurança a mais ninguém, ruivo. _ Um sentimento caloroso me aqueceu como se um cobertor quente tivesse me enrolado, e uma esperança que não era bem vinda sobre o que Aiolia me dissera pudesse ser verdade germinou em mim mostrando sua face risonha. Pior, mais do que tudo, eu quis que fosse.

Avancei sobre ele quando, instável, ele se ergueu sem equilíbrio, as reações motoras comprometidas.

_ Vamos então. _ Ditei, passando seu braço no meu ombro.

_ Pra quê toda essa pressa? Quer tanto assim ficar a sós comigo? _Rusgou, e eu bufei, a garganta repentinamente contaminada pela forte mistura de bebida e meritos que acompanharam sua insinuação.

_ O mundo não orbita em torno de você, Milo, vê se se enxerga. E outra, eu tenho mais o que fazer do que perder meu tempo querendo ficar a sós com você. Por que eu iria querer isso? _ Desdenhei atirando um até mais pra Aiolia no sopé na saída.

_ Você é estranho ruivo, não é como ninguém que eu já tenha conhecido antes. Isso me tira do sério, me deixa fora de mim, não ser capaz de saber o que você sente, o que está pensando, o que há por debaixo dessa sua couraça de indiferença de quem não se importa. Você me confunde, não é o que eu esperaria de um Doncel. Você parece frágil, mas não se comporta como se fosse. _ Disparou ele, desapontado, sinalizei para o táxi que desembarcava um casal numa guarita.

_ Isso é porque você me subestima, senão sua mente abitolada saberia que nem tudo, ou quase nada, do que propagam sobre nós é verídico, a mídia adora distorcer a realidade e nos pintar de inválidos. _ Defendi-me, empurrando seu corpanzil pesado para o banco traseiro antes me espremer ao seu lado como podia.

_ Para onde vão? _ O taxista virou-se para trás esperando as coordenadas. Empaquei, enfrentando um pequeno impasse quanto a isso antes de lhe passar meu endereço.

Não era nem uma consideração apenas o escoltar até os limites de sua morada e acabar retido por ele como sucedeu na última estadia que tive por lá.

_O que você acha que eu pretendo com tudo isso, Camus? _ Ele soltou, eu revistei seu perfil tentando entrever nele o contexto do que Diabos ele estava falando, mas não consegui extrair nada. Suas palavras eram desconexa, descontinuadas, o que me impossibilitava de ter seu sentido elucidado. Desconsiderei, ele não estava em posse de suas faculdades e naquele grau avançado de embriaguês era de se esperar que ele começasse a falar coisas despropositadas. Contudo ele me fitava com tamanha exigência e selvageria que me senti desencorajado a simplesmente lhe dar um gelo como requeria a situação.

_ Eu não sei, Milo. Eu não tenho como saber, eu o conheço pouco. Tudo que presumo sobre suas pretensões não vão além de suposições, algumas fantasiosas, outras talvez nem tanto. _ Suspirei, subitamente saturado daquilo tudo, aconcheguei-me no banco deixando os ombros murcharem, as forças parecendo me deixarem. Decidi usar de toda a honestidade permitida pelo momento, ele acordaria com ressaca e se tivesse sorte não se lembraria de nada daquilo. _ Eu sou só um jovem de 21 anos, cheio de dúvidas, de receios, de preocupações, de inseguranças, de problemas, de rancores, de complicações... eu não sei. Não tenho como conhecer caminhos ainda não trilhados, sendas ainda desconhecidas, ou o que você ainda quer de mim que já não tenha conseguido. Ainda a pouco você me disse que eu o confundo, mas você também me confunde, duas medidas e dois pesos, tenho a sensação de que está sempre brincando as escondidas comigo. Eu não sei como ou quando isso vai acabar, nem o que o futuro me reserva, mas eu me reconheço cada dia menos e eu não sei se é o acaso ou se aos poucos eu me perco de mim mesmo. Sou humano, Milo, e tenho medo, não quero me machucar. Minha concha não é a prova de sentimentos, não é invencível, inderrubável, como gostaria que fosse. Tenho medo de gostar, de querer, de me apegar e não estar pronto para me desapegar, tornar-me dependente...

_ Você precisa confiar mais. _ Interveio, sua cervical recontraindo-se tensa sobre a coluna, talvez assombrado por me escutar tagarelar tanto.

_ Confiança é como dar um tiro no escuro, só quando as luzes se acendem é que se sabe se acertou. _ Sussurrei pra ninguém em especial.

_ Mas isso você só descobre se você se arriscar. _ Pressionou, insistente.

_ Você se arriscaria? _ Contornei.

_ Estou fazendo isso neste exato instante. _ A afirmação gorgolejante floresceu em mim um ramalhete de sentimentos ternos, acolhedores, como ser esperado e aceito, tal como o filho pródigo que retorna para o lar depois de anos de exílio e solidão.

Saltei para frente ruborizando e o acotovelando quando seus dedos relaram sorrateiramente minha coxa e o olhar do motorista voou sobre mim no retrovisor.

_ Tem alguma coisa que queira aqui atrás? _ Milo interpelou-o asperamente, os olhos em fendas.

_ Não senhor. _ O motorista se apressou em dizer.

_ Então mantenha os olhos na estrada e faça o trabalho pelo pelo qual está sendo pago, ou precisa de um convite escrito? _ Retaliou-o, um sobreaviso na saliência dura de sua molares.

Quando descemos pude me certificar que o carro de Dite não se encontrava mais, ele já deveria tê-lo buscado naquele interim. Eu aproximei-me do meu apartamento já revirando os bolsos a procura das chaves para destrancá-lo. Por não possuir um elevador no prédio foi sacrificado chegar no meu andar sustendo parte do peso de Milo sobre o lombo, eu precisaria enfia-lo debaixo do chuveiro pra ver se dissipava um pouco daquele pileque.

_ Tire suas roupas. _ Comandei, dando um pontapé na porta.

_ Seu garoto safado, mal chegamos e já quer tirar as minhas roupas. Essa sua cara de santo irrepreensível nunca me enganou. _ Eu contei até cem clamando paciência, sentindo uma veia desconjuntar minha testa. Porque mesmo eu não o larguei na calçada quando tive a chance?

Minha nossa Senhora dos bons Samaritano! Eu devo ter sido Judas na minha outra vida e traído Jesus para merecer aquilo.

Sem nenhum cuidado o larguei no sofá, sua mão foi como uma corrente apreendendo a minha quando vi-me sendo puxado e despenquei num tombo nada gracioso em cima dele.

_ Hum, eu gosto de um garoto montado encima de mim, mas prefiro-os embaixo.

Sem que eu pudesse o afastar, ele inverteu as posições. Com um dos joelhos apoiados no estofamento e outro pé no chão, o peso superior de seu corpo estava apoiando seu braço esquerdo, enquanto ele agarrava a parte de trás do meu joelho com a mão direita, passeando-a na fenda entre minhas pernas num carinho terno e possessivo.

_ Você se tornou uma droga para mim, Camus, uma da qual não consigo me livrar. Sou um dependente, apenas esperando pela próxima dose de seu vicio. _ Um gemido conturbado, rendido e grave ribombou em seu peito com a declaração, uma declaração sonora que trouxe eletrificação para todas as minhas células.

De soslaio, vi a parte inferior do corpo de Milo contra o meu, forçando minhas pernas a abrirem-se para acolher a amplitude de seus quadris. Baixando um pouco a cabeça, ele deixou um beijo na minha testa antes de atacar minha boca com agressividade, ferindo um pouco minha gengiva com a sua impetuosidade. Suas mãos estavam em partes minhas sem nenhum pudor ou contenção como se uma fera tivesse sido libertada. O álcool em sua boca pareceu me embriagar também quando meus dedos se enveredaram por sua camisa diáfana o trazendo para mim, correspondendo-o com a mesma volúpia.

Sua exploração se alternava, ora sobre a minha silhueta, ora sobre minhas laterais, parecendo demarcar-me, tornando-se quase dolorosa sua investigação. Sua respiração silvava por entre a mandíbula, desnorteando-me o juízo. Envenenado pelo perfume almíscarar salgado da transpiração contínua de sua pele, percorri sua omoplatas por de dentro de seu colarinho, sentindo a rigidez de sua massa corporal. Estávamos tão colados que podia sentir nossos cílios se baterem e nosso ar se misturar e trafegar a cada tragada de oxigênio que expulsávamos. Ele incitava-me, farejava minha tez, bochechas, clavícula e as sardas pontilhadas no meu pescoço como um animal que espreita sua presa e depois a converte em carne morta.

Como eu podia deixar que ele me afetasse dessa forma? Porque eu não conseguia me manter imune, indiferente ao seu domínio?

Eu já havia visto lírio nascer no lodo e borboletas voarem com uma só asa, eram pequenos milagres cíclicos proporcionados pela natureza. Mas se as minhas experiências anteriores servissem de referência, e eu torcia para que não fosse esse o caso, não haveria milagres quando aquilo terminasse, chegasse no ponto crucial. E chegaria. Nada é eterno, duradouro. Nem mesmo os Deuses que dependem de nossa memoria para sobreviverem, não caírem no esquecimento. A corda sempre rompia no lado mais fraco, e se eu ainda existisse quando o momento chegasse, seria eu a ter que catar os meus próprios pedaços, resetar, reiniciar tudo novamente a partir do zero. E eu, o tolo, como a menininha boba de algum filme bobo não terei sido mais que uma conquista para ele.

Com um safanão desvencilhei-me dele e com as pernas trêmulas refugiei-me na concha segura do meu quarto. Eu estava duro, quem precisaria de um banho calmante para aplacar os hormônios idiotas era eu. Pisei duro até o aparador e surrupiei uma pequena barrinha de chocolate caramelizado esquecida ali. Sem relutar o desembalei e o dentei com gula. Estava mais do que disposto a satisfazer toda a minha necessidade por doces naquele dia, eu gostava da ideia de possuir um tempo extra para deixar o chocolate e o recheio trufado derreter na minha língua e retardar a minha volta para sala para ter que lhe dar com o problema loiro que deixei no meu sofá, eu só precisava solucionar o empecilho que havia batido uma barraca dentro das calças. Decidido a adiar o confronto, equipei-me com uma toalha limpa do enxoval de banho da partição de cima do guarda- roupa e despi-me, partindo para o banheiro com a toalha enrolada na cintura.

Abri a manivela temperando a água numa temperatura morna, indo para o frio. Enxaguava a massa de cabelos ensaboados, quando Milo adentrou de supetão, o peito semi- nu e arriando as braguilhas dos coturnos

_ O que você pensa que está fazendo? _ Indaguei, a face esquentando.

Para minha estupefação ele não me respondeu como o esperado, seus olhos vermelhos, sanguinolentos, efeito colateral de seus excessos, estavam cravados em algum outro ponto meu, especificamente no meu braço enfaixado.

_ O que aconteceu com seu braço? _ Seu semblante era pesado, atroz, uma profusão de emoções desfiguravam sua fisionomia, raiva, ira, confusão, cólera, dúvida, nenhuma se prolongando por um período largo o bastante pra se estabelecer. Suas mãos se abriam e fechavam e eu me retrai, Milo parecia capaz de abrir alguém e beber todo seu sangue.

_ Isso? Nada demais. Apenas um lembrete do que um imprevisto pode nos custar. _ Simplifiquei sem delongas.

_ Não minta para mim, Camus. Nunca. _ Havia uma implicação subentendida naquela advertência, uma que me fez girar nos pés e o defrontar.

Sem ter se mexido do lugar ele ainda me examinava, os orbes vulpinos me radiografando como se me pesasse numa balança, me arrancasse confissões que espontaneamente nunca faria.

_ Como disse, não foi nada, apenas me acidentei no vestiário da faculdade. _ Minha divergência com Radamanthys não precisava ser de conhecimento de terceiros. _ Agora poderia por gentileza esperar lá fora? Você está sendo invasivo e tomando liberdades que não lhe foram dadas. _ Contra- ataquei.

A visibilidade estava comprometida, ruim, a supresão da fumaça quente embaraçava o box, azulejos, vidros e janelas como uma sauna abafada. Então não podia afirmar com certeza, mas por uma fração de segundos podia jurar que sua revista indecorosa sobre meu corpo ateve-se por mais tempo sobre minha barriga.

_ Você me deu mais do que liberdades. _ Sorriu janota, pervo, injuriando-me com seu desplante. Irefletidamente atirei o sabonete molhado nele, fungando amuado quando ele se desviou facilmente. _ Além disso, não há nada aí que eu já não tenha visto... e provado. _ Continuou maledicente.

_ Contra a minha vontade. _ Enfatizei quase aos berros, torcendo para que os vizinhos embaixo não tenham me escutado.

_ Ah, sim! Bom, nesse caso eu devo ter entendido errado então, porque não foi isso que me pareceu em todas as vezes que você se contorcia, gemendo e me aranhando como um gato indomesticável implorando por mais. _ objetou. _ Mas se seu fetiche é incorporar a vítima... _ Deu de ombros com a mesma paciência de um professor que ouve algo imbecil vindo de um aluno beligerante e não muito brilhante.

Eu estava apaixonado pela mangueira. Sim! Porque além dela liberar jatos frio para apaziguar o quenturão que tingiu minhas bochechas, ela ficava no alto, o que me proporcionava a desculpa perfeita para olhar para lá sem parecer estar fugindo.

Desejei ter um frasco com a poção de Alice pra diminuir de tamanho e caber dentro de um bule.

_ Não fique se achando. Você não está com essa bola toda que você parece achar. _ A mentira é uma arte que precisa ser praticada para se chegar a perfeição. _ Sem mencionar que não é como se eu tivesse antecedentes histórico para tecer comparações. _ Desbanquei-o, descendo a sua laia, a laia dos cafajestes ordinários.

_ E continuará não tendo. _ Parafraseou com ferocidade, a voz estridente como gelo seco se partindo. movendo-se lânguido e articulado, considerando o porre que se supunha que ele estava, ele me pôs de bruços, jogando-me contra a parede enxovalhada, não com força, mas o suficiente para que eu soltasse um grito apavorado. Me firmei sobre o reboco e Milo se encaixou atrás de mim, as mãos calejadas remando pelas minhas ancas e flancos. Ele tirou todo o cabelo enxarcado que permeava meus ombros, levando-os para trás, sua respiração pairou na minha cartilagem e outro tremor me atravessou. _ Se sua memoria é falha, Camus, eu não tenho nenhum problema que me impeça de lhe recordar a quem seu corpo é devotado. Você é meu, Camus, lhe poupará lágrimas se aceitar isso de uma vez. _ Eu conseguia sentir o calor que irradiava de seu corpo sobreposto ao meu de forma enlouquecedora e provocativa, trazendo uma torrente de excitação e adrenalina para todo o meu núcleo. Minha relutância parecendo cada vez mais a anos luz, tal como as estrelas distantes da minha luneta.

_ Você ainda virá a mim por vontade própria, ruivo. E você não faz ideia do quanto aguardo por isso. _ Meu corpo se retorceu e arquejou sobre a varredura laburiosa de seus dedos.

_ Isso... _ Exclamei dificultosamente. _ ...nunca vai acontecer. _ desiludi-o, qualquer coisa que o desbancasse eu falaria.

_ Sim, vai, é apenas uma questão de tempo e empenho. Sua armadura está rachando, Frances, e seus pontos fracos estão se mostrando. _ Meu pênis bateu duro no meu umbigo quando ele pincelou minha cavidade com a unha. Minhas pálpebras se entrecortaram diante da facilidade com que meu corpo se ajustava a ele.

Ele estava realmente ébrio ou era uma tramoia? Um engodo para me testar?

_ Será que você nunca para de vomitar asneiras? Estou começando a achar que você calado deve ser um poeta. _ Desferi cismado ferozmente

Ele riu estrangulado na junta da minha garganta perante meu mau gênio.

Sua ereção rondava as pregas escondidas em minha fissura.

_ Você está tão duro para mim. _ Não fui capaz de silenciar um gemido sofrido quando ele atolou o indicador dentro de mim, a mão perfazendo a descente da minha espinha até pairar em meus mamilos.

Gritei prazeiteiramente quando minha próstata foi cavacada inadvertidamente por seu polegar. Aquele Filho da Puta tinha mãos talentosas, confiantes, e definitivamente sabia o que fazer com elas. Ele queria me ver perder a compostura e estava sendo bem sucedido na empreitada.

Pelo inox da saboneteira, pude ter um vislumbre do sorriso trambiqueiro que ele exibia, um sorriso ao mesmo tempo perverso e atiçador, e aquilo me fez guinchar entre os soluços de prazer.

Com outro grito incontrolável cheguei ao orgasmo, apoiando-me no material escorrido até os tendões dos dedos formigarem, remexendo os quadris empinados nas mãos que se saboreavam com a minha carne. Ainda mole ele me revirou daquela bolha em que estivera trancafiado pela parede de músculos que seus braços se convergiram, e meus olhos rapidamente se conectaram com os seus indefinidamente sem que nenhum de nós o quebrasse. Seus olhos brilhavam depravados, numa mistura de presunção e triunfo Masculino.

Desvinculei-me dele. Que ego!

_ Hora de retribuir o favor. Os Franceses se vangloriam de terem os melhores beijos, pois bem, quero provar de sua boca, só que em torno de meu pau. _ O recente prazer experimentado não ajudava meu raciocínio a funcionar como deveria, de outra forma eu gostava de repetir para mim mesmo como uma jaculatória interminável que jamais me sujeitaria a algo assim. Os granulos de água que desciam, flagelando minhas costas como um córrego, apagavam os vestígios de esperma que maculavam minha pele. Eu ainda estava sensível pelo orgasmo e sucessível a qualquer coisa que me fosse induzido. Eu faria tudo o que ele quisesse naquele momento e ele se aproveitava por saber disso.

Eu trabalhei minha pulsação irregular, estabilizando-a atráves da transpiração como me lembrava de fazer no exercício de Yoga e fixei sua a ereção orgulhosamente apontada. Apesar de ter recebido dele em mais de uma ocasião esse tipo de prazer, eu mesmo nunca havia lhe compartilhado de igual forma. Reavaliando agora pareceu-me injusto e egoísta, mas desencanei logo, não era nada a mais do que ele não merecesse. Contudo essa justificativa que dei a mim mesmo não foi empecilho quando me pus sobre os joelhos. Eu tinha algumas reservas sobre o que estava prestes a fazer, mas decidi que não deixaria qualquer nojo ou repulsa interferissem ou fossem um entrave sobre minhas ações e tabus pessoais, deixaria a crucificação para depois quando a realização do que fiz finalmente me atingisse como um taco de baseball.

Ele deu duas passadas para trás, cambaleante. A visão de seu corpo nu nunca deixava de ser por demais sublime, e não pude deixar de beber cada linha de sua invejável constituição. Algo pecaminoso que teria feito Michelangelo chorar para retratá-lo numa de suas esculturas.

Talvez fosse essa a máxima ironia da natureza. O demônio ter a face de um anjo. Quem pensaria em tal embuste?

Ele trazia no rosto um sorriso depravado quando envolvi seu órgão quente e vibrante com as mãos. A aproximação com o seu falo me era intimidadora, aterrorizante, mas eu estava obstinado a não dar pra tráz. Não iria amarelar agora que tinha chegado até ali, me posto naquela sinuca de bico. Meus olhos não se desconectando do seu em segundo algum, apenas quando ele apertava as pálpebras mais demoradamente, como se estivesse curtindo meu toque em sua região tão sensível. Seus olhos apenas se fecharam de vez quando assoprei a cabeça de seu membro e, por fim, introduzi desajeitadamente toda a extensão que coube dentro da boca. Eu nunca havia feito sexo oral na minha vida antes, aliás antes de Milo nunca havia feito sexo em geral. Duvidava que houvessem inventado uma régua grande o bastante que pudesse medir o tamanho da minha vergonha e estupefação para comigo mesmo.

Movi minha cabeça para frente e para trás, cá e lá, arriscando algumas lambidas esporadicamente. Milo se retraiu emitindo alguns gemidos. Eu não tinha como saber como estava me saindo, eu apenas me guiava baseando-me em como gostaria se fosse comigo.

Enroscando os dedos em meus cabelos ele ditou o ritmo, forçando-me a acelerar o movimento. Não fiz oposição ao seu afoitamento, deixando-me ser conduzido por ele. Seu membro inchava vibrando em minha boca, o gosto agrícode de seus fluídos salgando minha língua e empapando meu paladar com sua essência. Inovei alguns movimentos enquanto deixava-me ser controlado por ele, como passar a língua na sua virilha e pélvis ou tiscar de leve sua fina membrana com os dentes. Após alguns minutos naquele ritual profano, ele liberou um gemido pesado e desfez-se em minha garganta, me fazendo engasgar brevemente.

Um tanto estabanado e desengonçado, reergui-me tossindo um pouco.

_ Isso foi delicioso, deveríamos repetir isso mais vezes. _ Ele disse, sorridente, emergindo do chuveiro e agitando a toalha nos cabelos pingados. Torci os próprios cabelos para eliminar o excesso de água, divertindo-me secretamente com sua incompetência para se emprenhar dentro das roupas, era cômico, um espetáculo impagável, a maneira como ele cerrava os olhos para um reles pedaço de pano como se ele fosse o culpado de sua falta de tato. Fora que ele não conseguia se manter parado como se tivesse pisando em limo ou escalando uma ribanceira pedregosa. Dei uma risadinha quando vi-o colocar a calça virada do avesso e com um palavrão retira-la com a mesma dificuldade que teve para pô-la.

Vazei para o quarto sem nenhum remorso por deixa-lo por sua própria conta. Mil e uma coisas se passavam pela minha cabeça, nenhuma que prestasse, no entanto, devo prevenir. Tais como passar a chave na porta e deixá-lo trancafiado no banheiro, vasculhar seus pertences atrás de alguma prova que eu pudesse usar para sabotá-lo, a falar de suas transições ilícitas com um gravador ligado, dentre outros planos que se formavam sumariamente na minha cabeça.

Desengavetei meu velho pijama de listras e vesti-o por debaixo do roupão. Escovando o cabelo emaranhado, eu continuei armando formas de conseguir algo concreto que eu pudesse usar para me defender contra os desmandos de Milo. Quando a bebida entra, a verdade sai. Partindo desse princípio talvez eu conseguisse arrancar algo comprometedor o bastante que o afugentasse. Pus minhas pantufas desgastadas, começando a me incomodar com seu atraso. Ele poderia ter caído no banheiro na minha ausência e se ferido, não podia? Ter caído e batido a cabeça. Meu coração falhou uma batida com o pensamento e eu me endireitei na penteadeira pronto para ir em sua busca quando o ranger do assoalho dedurando sua aproximação me acalmou.

_ Esqueceu isso pra trás. _ Ele girava no dedo uma cueca minha, com os tornozelos de fora e a camisa ao avulso ficou claro que ele não conseguiu se vestir sozinho.

_ Esqueci não, isso estava no cesto. _ Enquadrei-o.

Ele capotou na minha cama, deixando-se cair nela com um sorrisinho insolente rasgando a cara. Antecipei a dificuldade que teria para enxotá-lo dali. O mais acertado é que eu teria que pernoitar no quarto de Dégel, era providencial que eu tivesse o arrumado.

_ Estava...? _ Cruzou os braços atrás da cabeça, o sorrisinho insolente aumentando expoencialmente.

Ele me irritava.

_Milo, me faz um favor? _ Rosnei. _ Se mata.

_ Você não iria querer isso. Se eu morresse sua vida voltaria a ser a mesma chatice, Admita, eu o tiro marasmo do tédio. _ Devolveu-me convencido.

_ Suas fantasias dariam um conto, mas como eu tenho outras ocupações vou deixá-lo acreditando nisso. _ Desgranpeei a parafernalha de rascunhos conclusivos da minha pesquisa e me preparei para sair, revirando os objetos atrás do meu pendrive.

_ Onde você vai? _ Milo exigiu.

_ Tenho que formatar um trabalho e enviá-lo corrigido ainda hoje para o meu orientador. _ Me agachei para pegar o cabo do computador.

_ Vou te esperar para esquentar a cama comigo. _ Avisou varrendo o quarto com os olhos como quem descobre um mundo novo.

_ Vai? Sorte que já está no lugar certo, assim não vai ficar com torcicolo. _ Disse sarcástico, puxando de volta minha peça intima.

_ Vou atrás de você se demorar. _ Falou, centrado nas fotos caseiras infantis que ilustravam meu porta- retrato.

Pelo visto a noite seria longa.

Notas finais
*Ouzo/ bebida tipicamente Grega.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.