Notas iniciais
Demorei mais cheguei. Não me chinguem, a culpa é do carnaval. Esse capitulo está mais parado, já que é mais voltado para uma interação entre Camus, Dite e Mu. Para quem está curioso para saber o que vai acontecer na tal boate gay, bem, será só no proximo capitulo. Beijocas e até a próxima.

_ Eu, eu não suporto mais! Estou cansado dessa vida! Sinto asco de mim mesmo por ser tão fraco, impotente, e desse mundo pútrido a minha volta! É o fim da linha. Um homem sábio deve saber a hora do qual é preciso sair de cena! Cansei-me de ser humilhado, violado, tratado como misero joguete ou um reles copo descartável pelo meu vil algoz! Não vejo outra saída desse mausoléu selado! Não há luz no fim do túnel, só um íngreme penhasco! A morte é o único bálsamo capaz de aliviar minha agonia!

“Um grito alto e desesperado rasgou como uma foice ceifadora o silêncio macabro do térreo, quando o jovem sem vestígios de hesitação jogou-se do décimo nono andar do prédio.”

Engasguei com a pipoca amanteigada recém tirada do microondas e larguei o livro de crônicas sob o vão da escrivaninha como se ele tivesse transformado- se na cabeça da medusa. A familiaridade desse trecho soava quase uma cacofonia satírica aos meus ouvidos. Não é irônico?

Se eu já pensei em me suicidar?

Não. Simplesmente porque sou estupido demais para ainda acreditar em dias melhores. É, eu sei, isso me torna um ser humano otimista, eu acho. O que significa que provavelmente eu sou um panaca com P maiúsculo. E é Nessas horas que eu realmente me achava mais acéfalo que uma mula. Por favor! Diga-me como dias melhores poderiam vir ao meu encontro? Em que universo paralelo? Bingo. Acho que mereço o prémio de retardado do ano. A esperança é uma piada de mau gosto, uma erva daninha seduzindo os tolos em suas mentiras venturosas, uma droga viciante lubridiando os mancebos, ou uma Harpia devoradora dos irrealizáveis sonhos humanos. No fim, tão somente uma quimera, uma víbora, esmigalhando vidas com suas falsas promessas.

Não me entenda mal. O fato de eu achar a esperança uma farsante agiota das desgraças humanas não significa necessariamente que eu veja o mundo sobre um prisma negro, de forma alguma. Apenas procuro ver os fatos de forma imparcial, desapaixonada, despido das ilusões fantasiosas que criamos para nós mesmos como um mecanismo de defesa sobre algo do qual não temos nenhum controle, como água se esvaindo entre os dedos, ou poeira se perdendo no vento. Pessimismo? Não. Realismo seria o termo mais propicio.

Além disso arrancar a própria vida nada mais era do que uma atitude irracional, desvairada, inconsequente, consumado por indivíduos desesperados, sem estrutura psicológica estável, depressiva, perturbada e mentalmente fragilizados. Em suma, um ato covarde encenado por aqueles que buscam na morte uma saída fácil para uma situação do qual julgam ter se tornado insustentável, intolerável.

Sorri sem humor. A vida podia mesmo ser uma vadia irônica.

Espreguicei-me sobre a rustica cadeira da escrivaninha, flexionando os músculos dormentes pela postura prolongada, ouvindo-os estralarem com a ação. Retirei os óculos que usava para ler, depositando-o na cômoda, e levantei-me do estofado seguindo para a varanda do quarto. Senti alguns fios do meu cabelo esvoaçarem sobre o crepitar constante da brisa e debrucei-me sobre o parapeito de madeira apoiando os cotovelos na bancada, apreciando o perecer de mais um fim de tarde. Era um espetáculo magnifico comtemplar os últimos feixes do sol apagarem-se gradativamente através dos grandes prédios urbanos, até o ressurgimento inevitável do breu noturno trazendo consigo frescor e calmaria.

Entrelacei os dedos unindo as mãos e usei-os como suporte para pousar o queixo. Semicerrei as pálpebras cansadamente e pela enésima vez só naquele dia senti as comportas da represa agitadas de minhas memorias serem rompidas, inundando-me a consciência em imagens pouco ortodoxas do ocorrido naquele banheiro da manhã anterior. Não adianta. Por mais que eu tente não pensar sobre o quão promiscuo fora o episodio, e eu tentava, a verdade é que sempre me flagrava revivendo a todo instante a sucessão de fatos que trouxera-me até aqui. Minha mente absorta parecia uma parte isolada de mim, ao invés de parte integrante de todo um conjunto físico. Era enervante. Eu não detinha nenhum controle sobre meus próprios pensamentos traidores, que sempre teimava em retornar sobre o ocorrido, e certo bastardo.

E isso era frustrante.

Eu não me lembro, tampouco sei, o que houve depois de eu ter apagado vergonhosamente em cima de Milo. O fato é que quando despertei da inconsciência descobri-me deitado na cama do meu próprio apartamento. Claro! O mais certo é que o déspota tenha se apropriado das minhas chaves dentro da bolsa que eu havia deixado no seu carro enquanto estava desacordado. Seja como for sentia-me confuso por tantas emoções conflitantes degladeando-se entre si de tal forma que beirava ao insano, parecia que minhas estruturas estavam sendo desestabilizadas, deitadas por terra. Eu me sentia um dependente químico sofrendo uma overdose de sentimentos controversos, angustiantes. Naquele momento Milo era esse entorpecente vicioso, nocivo, obstruindo minhas certezas e suscitando duvidas até então impensáveis.

Eu não entendia a mim mesmo. Nem o que estava acontecendo comigo. Talvez fosse o caso de eu procurar um analista, ou um terapeuta.

Sentia-me um completo idiota por dormir literalmente nos braços do meu carrasco. Qual era o meu problema? Quando despertei e fui atingido na velocidade da luz pela compreensão de minha vergonha, novamente, em primeiro instancia quis me atirar da janela e torcer para ser atropelado por um caminhão, assim não existiria chances de sobrevivência. Depois desejei imitar o avestruz e enterrar a cabeça em algum buraco, de preferencia um bem fundo. E por último já mais conformado, depois de uma crise neurótica compulsiva envolvendo muitos chocolates e unhas ruídas, apenas quis ser abduzido por algum objeto voador não identificado e desaparecer para sempre pelo buraco negro em outra dimensão.

Algo assim.

Quem em pleno domínio de suas faculdades mentais adormece no colo do chefe oyaban da maior organização criminosa oriental? Merde! Eu não tinha mais duvidas. Minhas suspeitas foram sanadas. Eu era mesmo um babaca. Uma desonra para os ruivos esquisitos do país.

Senti minhas bochechas queimarem ao me lembrar que estava impecavelmente limpo, banho tomado há julgar pela umidade do cabelo e usando uma camisa preta maior do que eu mesmo. Afundei o rosto em brasas nas mãos com a ideia de Milo ter me dado banho enquanto estive desacordado. Santo cristo! Ele me viu nu.

Seria pedir muito querer ser acertado por um asteroide?

O som clássico de Debussy tocando no meu celular trouxe-me de volta a orbita, despertando-me de minha mortificada auto- flagelação. Atravessei em breves passadas o quarto e saquei o telefone esquecido de dentro da bolsa. Crispei os lábios ao identificar o número do Dite no visor. Confesso que cogitei a possibilidade em não atender, porém descartei logo a ideia considerando a alta possibilidade dele resolver fazer uma visita inesperada.

_ Fala mon ami _ Disse abrandando o tom. Ninguém tinha culpa de eu ser um fodido fracassado que gemeu feito uma prostituta vulgar no cio em época de acasalamento debaixo, ou melhor, em cima, do seu pior pesadelo.

“Gozei” Exclamou o loiro do outro lado da linha. Franzi o cenho não entendendo o comentário.

_ Como é? _ Verbalizei minha confusão.

“Sabe o que é Camyu? Você atendeu o telefone com uma voz tão gostosa e sexy que acho que acabei de molhar minha cueca. Eu não resisto quando você fala em Frances, posso até imaginar o biquinho feito para pronunciar as palavras. Droga! Vou ter que me masturbar debaixo do chuveiro.” Choramingou teatralmente. Revirei os olhos já bastante acostumado com seu tagarelar incessante e malicioso. O Dite era uma força da natureza, incontrolável, ou tão somente um caso perdido. Eu nunca conheci alguém tão hiperativo e desassossegado como aquele loirinho diabretes. Graças a deus.

_ Tanto faz. Me ligue quando tiver solucionado seu problema _ Zombei cinicamente. Talvez eu goste de provoca-lo um pouco. Escutei-o amuar do outro lado.

“Você é um insensível. Eu aqui atolado até o pau numa fossa pensando em beber até entrar em um coma alcoólico e você ainda fica ai, chutando cachorro morto, seu pinguim, iceberg desnaturado” Resmungou aborrecido, censurando-me. Arqueei uma sobrancelha intrigado com sua declaração atípica.

_ E porque exatamente você quer se tornar um boêmio e encher a cara? _ Indaguei não contendo a curiosidade.

“Porque eu sou oficialmente o mais novo corno no curral dos viados. Aquele filho de uma puta mau comida do Shura me deu um superdotado pé na bunda, pior ainda, teve o desplante de me trocar pela lacraia oxigenada do Misty. Dá pra acreditar? O que ele viu naquele drag queen arrombado? Ele é míope por acaso? Eu estou me sentindo um chifrudo. O meu nome devia ser Cornélio, meu signo capricórnio, e país de origem Cornuália. O pior mesmo vai ser encarar o sorrisinho vitorioso daquele puto esguelado nos corredores da faculdade sem querer arrancar aquela peruca sintética que ele chama de cabelo.” Despejou esbaforido de uma só vez sem sequer tomar fôlego, obrigando-me a aguçar os ouvidos para conseguir acompanhar seu rosário de queixas e protestos. Tive de segurar a vontade de rir de sua dramatização exagerada. O Dite é uma figura em extinção.

Se estou sensibilizado com o seu drama? Não. Eu o conhecia bem demais para saber que a única coisa a irrita-lo nessa história era sem sombra de duvidas seu ego exorbitantemente elevado que havia sido ferido. Como todo bom Narcisista fissurado em sua própria imagem estética a concepção de ser preterido por outrem devia se igualar a morte súbita de sua pretensiosa e anormal auto- estima. Principalmente se esse outrem em questão fosse seu desafeto habitual desde os tempos do ensino médio. Oh, eu até supunha o tamanho do rombo infligido a sua ditosa vaidade.

Além disso para ser sincero eu nunca gostei mesmo daquele espanhol sisudo, cheio de fleuma e empáfia, vertendo soberba, autoritarismo, neutralidade, portando seu próprio e rigoroso código de ética. Se Shura fosse eleito o novo governante parlamentar de uma grande potência mundial, o mais certo é que seu distorcido senso de justiça acabassem por fazer dele o mais novo Hitler da história, ou qualquer outro tirano de igual alcunha. Humm! Ele é que voltasse para Barcelona, Madri, ou sei lá para qual cidade espanhola ele nasceu. Nunca passou-me despercebido os olhares de desprezo e escracho lançados por ele a mim quando o Dite me arrastava para perto deles em raras ocasiões no intervalo da faculdade. Obviamente ele abominava pessoas como eu e o Mu.

Tsc! Como se eu me importasse.

_ Bom, não é como se isso fosse algo surpreendente. _ Longe disso, eu diria.

“Está por acaso deixando subtendido nas entrelinhas que você já esperava por algo assim?” Inquiriu com uma perceptível pontada de desgosto.

_ Não. É só um palpite mesmo. _ Desconversei. Ele não precisa saber minha real opinião sobre aquele projeto nazista de gente. Até porque eu nada tinha a ver com isso. Tampouco com as escolhas feitas pelo Dite.

“Sei! Que seja. O que eu preciso é esquecer essa afronta galhada na minha testa, ou vou acabar tendo uma sincope. Comprei três ingressos para assistir um ótimo filme no cinema, um enredo sobre superação e dar a volta por cima, um troço assim. Tudo o que estou precisando no momento, um bom exemplo. Já convidei o Mu e ele aceitou, agora só falta você. Não irá fazer uma desfeita para um amigo prestes a cortar os pulsos debaixo do chuveiro, não é?” Chantageou encenando. Bem, recusar era exatamente minha intenção. Mas acho que não seria cortês simplesmente virar as costas para o primeiro fora do Dite. Tenho certeza que devia ser o primeiro que ele levava em seus vinte e três anos de vida. E eu apostava todo o meu acervo de livros na instante do quarto o quanto ele devia esta odiando a novidade, pelo menos para ele.

Pessoalmente penso que isso fora muito bem feito para ele. Não. Não se escandalizem chocados com minha declaração. Contudo já cansei de ver, inclusive presenciar, o Dite pisar, espezinhar, e descartar sem nenhum escrúpulo ou consideração os tolos desavisados que cometeram o erro de se apaixonarem por ele. A verdade é que ele nunca correspondeu a nenhum sentimento ou expectativa dos seus ‘rolos’, nada além de superficialidades frívola e sexo descompromissado. Se isso o torna uma criatura leviana e indecorosa? Depende do ponto de vista. No fundo creio que isso se dá pelo fato dele nunca ter se entregado a uma relação verdadeiramente, e nunca ter se apaixonado de fato por nenhum dos seus casos passageiros. Apenas diversão descompromissada, e algumas vezes pura vaidade, quando o alvo em questão não demonstrava o mínimo de interesse por sua pessoa, o que em sua concepção narcisista era um sacrilégio imperdoável ao seu ego anormalmente grande.

Acredite, quando ele decide caçar após escolher sua próxima vitima, não há quem o faça frente ou oponha resistência ao seus encantos, não até que ele dobre seu alvo. Então ele apenas se cansa, proferindo o quanto fora fácil subjugar sua conquista, um desafio vencido e sem graça. Simples assim.

Ponderação e modéstia são virtudes que o fariam bem.

_ Filme de auto- ajuda Dite? Sério? Quantos anos você tem mesmo? _ Questionei incrédulo.

“Nossa Camus sua delicadeza é comovente, um primor. Eu sou um poço sem fundo de maturidade e sabedoria. Como você pode ser tão indelicado com um garoto lindo, loiro e de incríveis olhos azuis assim como eu? Por favor né! Somos todos anjos.” Gracejou matreiro, e eu pude até visualizar o sorriso beatífico, falsamente casto, emoldurando seu rosto de beleza impar, quase celestial. Torci os lábios sardonicamente. O Dite um anjo? Só se for em Nárnia.

_ Isso, continue se iludindo. Alias como conseguiu entrar em contato com Mu se o conhecemos ontem? _ Perguntei.

“Oras Camus, bem vindo ao século 21 e as revoluções tecnológicas. Já ouviu falar em aparelho celular? Uma dica. Você esta usando um agora.” Debochou escarnecendo, o descarado. Eu já devia ter suspeitado de sua rapidez em arrancar o numero do Mu dele. O mais provável é que o cara de pau tenha praticamente exigido essa informação pessoal do lilás.

_ Tsc! Porque será que eu não estou surpreso com sua indiscrição? Sua sutileza me espanta, ou devo dizer a ausência dela?_ Alfinetei mordaz, ouvindo-o soltar um muxoxo indignado.

“Não seja um estraga prazeres, Matusalém, isso é muito empaca ondas, broxante. Eu sou apenas um sujeito sociável e comunicativo, ao contrario de certas pessoas. Posso passar ai te buscar para o cinema?” Suspirei pesadamente passando a mão pelo cabelo. Lá se foram meus planos para um fim de noite tranquilo, metódico, e sossegado, hibernando como um parasita hospedeiro debaixo das cobertas pelo ralo. Tudo bem! Não era exatamente isso que eu tinha em mente para aquela noite, eu assumo. Era algo mais como lamentar minha sorte, com um pote de sorvete de creme na mão, assistindo Titanic e Marley & Eu. Eu só queria poder sumir, me enfiar em algum buraco feito um tatu, fazer uma carteira de identidade falsa e pegar o primeiro voo para a Patagônia, ou qualquer outro lugar longe o bastante daquele ditador e seus jogos bizarros.

_ Tudo bem, pode. O que você não me pede sorrindo que eu não faço chorando mon ami?_ Consenti, já vislumbrando antecipadamente a tortura maçante que isso seria. Escutei-o soltar um gritinho de jubilo, contente, satisfeito, e não pude evitar rolar os olhos. Porque mesmo eu aceitei sair com ele?

“Certo. Você não vai se arrepender. Passo ai daqui a pouco.” Disse alegremente. Eu já estava arrependido.

Desliguei o aparelho, deixando-o sobre a cabeceira da cama, e a contragosto arrastei-me até o guarda- roupa para escolher o vestuário. Teria de ser obrigatoriamente algo fechado e discreto, há não ser que eu quisesse ser visto com todas aquelas marcas indevidas e indecorosas causadas por aquele biltre devasso no meu pescoço, costas e colo. Merde! O pior é que aquilo demoraria para desaparecer. Talvez fosse o caso de eu dar uma passada na farmácia mais próxima e comprar uma base para esconder os vergões arroxeados, logo não seria possível camuflar aquilo apenas com suéteres e cachecóis sem começar a levantar suspeitas e desconfianças no Dite. Principalmente quando o sol surgisse e a temperatura ambiente subisse alguns graus Celsius. Estremeci. Isso sim seria uma verdadeira saia justa, uma catástrofe, o apocalipse, o juízo final.

Maldito seja aquele mafioso desgraçado e sua libido sadomasoquista.

Optei por um confortável jeans e uma blusa cacharrel com uma providencial gola rolê alta. Troquei-me rapidamente e usei uma longa mecha de cabelo como presilha para amarrar os mesmos. Peguei a carteira e o celular na cama guardando-os no bolso da calça e segui para a sala aguardando a chegada de Dite.

Estava inquieto, impaciente. E apenas duas atividades conseguiam a proeza de me acalmar quando o nervosismo e a ansiedade assolava-me, ler até esquecer o passar das horas, e tocar piano.

Sentei-me na cadeira frente ao piano de calda na sala. Aquele instrumento musical era a única coisa que possuía de minha mãe, ela era professora de música antes de se casar e mudar para o Japão, segundo as palavras de Dégel. Ele não gostava daquele piano, sempre olhava-o com um ar melancólico, distante, acho que aquele legado deixado por Natasha despertava em si lembranças nostálgicas, sepultadas pelo tempo e a morte. Penso que ele nunca superou a perda dela, e a maior prova disso é o fato dele ter se isolado do mundo, nunca mais ter se relacionado com outra pessoa enquanto fora vivo.

Eu gostava de tocar, de sentir as teclas de marfim deslizarem suaves pelos meus dedos enquanto os acordes melódicos preenchiam todo o ambiente com suas notas efêmeras, etéreas. Talvez esse gosto estivesse no sangue, uma dadiva hereditária passada de mãe para filho, a emoção augusta de se entregar ao toque de uma esplendida melodia bucólica, clássica, era em si um prazer enervante.

Tamborilei os dedos pelas teclas começando a tocar Pathetique, de Beethoven. Logo o som grave ecoava por toda sala e fechei os olhos apreciando a musica. Era uma terapia, um balsamo revigorante em dias de expiação, uma injeção dulcíssima de ânimo. Pelo menos era assim para mim.

Mudei o ritmo da musica para Konna ni Chikaku, com um casto quê de canção de ninar. Sorri. Como há muito não sorria. Era incrível a revolução que uma simplória musica podia desencadear no interior devastado de uma pessoa eclipsada por tantas preocupações, pressão, incertezas. Aquele piano era realmente mágico. E nem era bruxo.

Lembrei-me da conversa que tive com Dohko pelo telefone hoje de manhã. Era notória sua preocupação pelo meu súbito mau estar. Afinal em todos esses últimos quatro anos trabalhando em sua loja, ontem foi á primeira vez de meu não comparecimento a livraria. Senti-me mal por precisar mentir daquela forma para encobrir o real motivo de minha falta. Mas o que mais eu poderia dizer? Que apaguei e perdi a hora depois de ter copulado como uma prostituta no cio? Oras! Tenha dó.

Acabei suspirando sem querer. Como sinto falta da minha antiga vida pacata e dos tempos de celibato. Hoje tudo é confuso e conturbado, e o amanhã apenas um rabisco incerto.

Errei uma nota ao ouvir a campainha do interfone tocar, avisando da chegada do Dite na portaria. Fechei a tampa do piano e sai do apartamento após desligar o interruptor de luz. Como não havia elevador no prédio o jeito era descer manualmente fazendo uso das pernas. Segui pelas escadas de madeira ouvindo os degraus rangerem a cada passo dado. Queria saber como Milo conseguiu a proeza de entrar naquele condomínio comigo desacordado nos braços sem despertar a atenção dos outros inquilinos. Principalmente sendo ele um completo desconhecido para a vizinhança alcoviteira. Não tinha como ele passar sem ser notado, ou tinha? Sacudi estupidamente a cabeça. Nada que venha daquele criminoso bastardo me surpreendia mais.

Existe algo no universo que ele não consiga usando de métodos escusos, vis, corruptos, sujos, e manipuláveis? Eu tenho serias duvidas quanto a isso. Ele é um demônio com face de um serafim. Sua face de anjo caído poderia rivalizar com as obras de Michelangelo retratadas no teto da capela Sistina.

Um anjo negro impiedoso e sadista.

Passei rapidamente pelo saguão acenando a cabeça num polido comprimento para o porteiro, e encontrei o Dite recostado em cima do capô de sua Mercedes estacionado no lado oposto da rua frente ao condomínio. Vi Mu sentado dentro do carro olhando pela janela. Ele sorriu timidamente mostrando suas covinhas quando me avistou fazendo-me sorri automaticamente em retorno.

_ Camus você ainda tem que me ensinar a tocar piano. _ Falou Dite olhando-me com aquelas safiras reluzentes. Enfiei as mãos no bolso e encarei-o interrogativamente.

_ Deu para escutar daqui o som do seu piano. _ Esclareceu ele vendo minha confusão impressa no rosto. Encarei-o cético. Eu conhecia muito bem os gostos musicais do Dite para leva-lo a sério.

_ Claro. Vou fingir que você não gosta de musica pop. Justin Bieber, Demi Lovato, Jonas Brothers, The Gazette, One Direction… _ Debochei de maneira divertida vendo-o me fuzilar com os olhos. Ele saltou do capô e apontou fervorosamente o dedo para mim em acusação.

_ O que? Claro que não! Isso é um absurdo, uma calúnia. O fato de eu curtir musica pop não me torna um ex adolescente gay apaixonado por Juistin Bieber. _ Defendeu-se. Contrai os lábios em escarnio e entrei no banco de trás do carro sem nada a dizer. Ele também entrou, acomodando-se no banco do motorista e me olhou pelo espelho retrovisor ainda furioso pela provocação.

_ Tudo bem, não está mais aqui quem falou._ Joguei as mãos para cima em sinal de rendição, e olhei cumplice para Mu que parecia se divertir com a conversa._ Mas qual é mesmo a sua musica favorita do seu ídolo teen? Assim eu posso conseguir uma partitura para você da música. _ provoquei-o novamente e em resposta a peste arrancou com o carro antes de eu prender o cinto de segurança, lançando-me de cara contra o banco da frente.

_ Você esta insuportável hoje. Eu sempre disse que a falta de uma boa foda ia acabar te tornando um velho ranzinza mal comido, tá ai agora, mas ninguém me escuta nessa merda._ implicou ele emburrado, fazendo bico, sem tirar as vistas da estrada. As bochechas de Mu tingiram-se de rubro com suas palavras sujas, improprias. Passei o cinto de segurança pela cintura e entortei os lábios em deboche por sua infantilidade.

_ Então você quer aprender a tocar piano? Aposto que é para pedir Bieber em casamento. _ Cutuquei mais uma vez não resistindo á sua cara de desgosto, enfezada. Ele grunhiu colérico e ergueu a mão mostrando-me o dedo do meio num gesto obsceno.

_ Por favor! Não me diga que você tem um santuário no seu quarto para o Justin Bieber. _ Proferiu Mu com uma perceptível nota de zombaria em sua cálida voz. Segurei o ímpeto de rir da cara de incredulidade de Dite, era impagável, hilária.

_ Até você Mu? o que é isso? Um motim? Todos contra Dite? Todo mundo tirou o dia para curtir com minha cara, só pode. Pois fiquem vocês sabendo que o meu ídolo é o Reita do The Gazette, não aquela bicha encubada do Bieber._ Esbravejou lançando-nos um olhar mortal, como se fossemos dois insetos prestes a ser devidamente esmagados por ele.

_ Aquele cara estranho que usa uma faixa branca no rosto? _ Indagou Mu mordendo o lábio inferior parecendo está se segurando para não rir.

_ É. Ele mesmo. O mais lindo, o mais gostoso, o mais bem dotado, enfim, o mais tudo. _ Esclareceu soltando um suspiro de fã apaixonado.

_ Por deus Dite! Aquele cara parece uma cacatua desnarigada. _ Declarei por fim quebrando o breve instante de silêncio, tirando risadas de Mu que assentiu em concordância.

_ Isso é uma blasfêmia, um sacrilégio, o Reita não é nada disso. Ele apenas tem personalidade e estilo próprio, e o topete mais sexy já visto desde Elvis Presley. _ Proclamou fascinado quicando no assento. Eu e Mu nos entreolhamos e desviamos rapidamente o rosto para o outro lado tentando sufocar a gargalhada que ameaçava sair.

_ Humm... se você diz... _ Desconversei. _ Mu o que esta achando de Tokio? _ Perguntei, desvirtuando-me do assunto anterior.

_ Ainda é cedo para conseguir lhe dar uma resposta consistente. É tudo extremamente diferente, a cultura, a história, as crenças, a etnia, a culinária e até a arte. É um choque cultural. Acho que sou uma pessoa difícil de se adaptar em novos ambientes. Me sinto exilado. Por hora vou me dedicar a conseguir um trabalho remunerado que possa me proporcionar alguma independência financeira. Não quero me acomodar, ou acabar sendo um peso morto para Shion. Não me sentiria bem com isso. _ Expôs, sereno. Olhando distraidamente para algum lugar ponto qualquer através do vidro da janela. Mu tinha a alma de um sábio ancião encerrado naquele corpo franzino que exalava fragilidade, delicadeza. Um rosto oval de traços suaves e infantis, contudo dono de uma maturidade sólida, enraizada. Suas maneiras pacificas, gentis, e seu olhar calmo como o escoar fluente das correntezas cristalinas pousadas nos leitos de um rio, poderiam perturbar o mais rude dos homens, acalmar hordas de soldados exaltados, agressivos, e talvez por fim a terceira guerra mundial, caso haja uma. Ele se daria bem trabalhando como diplomata na ONU.

_ Acho que você não precisa continuar procurando. Dohko está precisando de outro funcionário na loja, e sendo você familiar de Shion como referência, com certeza ele o admitirá, caso queira. _ Disse, lembrando-me da reclamação feita por Dohko dias atrás sobre a necessidade de ter mais um vendedor para dar conta da demanda. Além disso tinha certeza que nenhuma porta seria aberta para Mu na sua busca, pelo simples fato dele ser um doncel, assim como eu.

Sociedade de merda. Homofóbicos de merda.

_ Obrigado. Vou falar com ele amanhã logo cedo. _ Ele disse, virando-se para mim no banco da frente. Assenti. Seria agradável trabalhar com alguém que compartilha dos mesmos gostos e opiniões em assuntos diversos. Mu e eu tínhamos muitas coisas em comum.

Chegamos em cima da hora no cinema. Fiquei surpreso com o número de pessoas que estava na fila para entrar, não eram poucas. Devia ser alguma estréia. Como Dite já tinha os ingressos comprados não foi preciso enfrentar a outra fila absurdamente extensa do guiché, o que foi um alivio, encarar aquilo seria desestimulante. Mu e Dite compraram pipocas, eu não quis, já tinha comido isso pouco antes, preferi uma mini latinha de suco em conserva, detesto refrigerantes.

_ Do que se trata o filme? _ Perguntei para Dite enquanto entravamos para nossa sessão.

_ Aaaahh... bom... _ Começou ele, bebendo saltitante seu refrigerante pelo canudinho. Ele não parecia remotamente triste pelo fim do relacionamento com o espanhol. _ ...é sobre um garoto desiludido que quer aprender a dançar tango para o campeonato estadual... é um filme sobre superação... ele aprende a dançar a dança. _ Resumiu animadamente.

_ Fascinante. _ Disse destilando sarcasmo.

Escolhemos os primeiros bancos da última fileira para sentar, devido o número de pessoas não havia mesmo muita opção. Acomodamo-nos respectivamente eu no lado esquerdo, Mu no direito e Dite no meio. Quando finalmente as luzes se apagaram anunciando o inicio do filme desejei com ardor ter ficado em casa. Aquilo prometia ser longas duas horas de martírio, um suplicio. Estava me sentindo totalmente deslocado ali, um peixe fora de seu habitat natural. E eu podia jurar á julgar pelas feições de Mu que ele estava sentindo a mesma coisa.

Todavia o som estalido de um disparo vindo da tela fez-me arquear as sobrancelhas em descredito, quando sem nexo nenhum um dos personagens puxou o gatilho de uma arma na própria cabeça estourando os miolos logo nos primeiros cinco minutos de filme. Quanta idiotice.

Será que dá para sair sem ser notado pela saída de emergência?

_ O que leva uma pessoa a tirar a própria vida assim? _ Sussurrou Dite ao meu lado com os olhos pregados na tela.

Olhei-o de soslaio e pensei em dizer “talvez ele seja perseguido pelo chefe de uma organização mafiosa”. Mas preferi ficar calado. Nunca se sabe se havia algum membro da yakuza assistindo aquele filme com a gente.

Mais cinco minutos de filme e eu cruzei as pernas imaginando o desfecho da historia do livro de Agatha Christie que estava lendo, e eu ali, acompanhando um diálogo idiota sem conteúdo útil. Dez minuto de filme e eu já podia ver pela visão periférica Mu ocultando um bocejo com a mão e apoiar a cabeça no antebraço com as pálpebras pesadas. Céus! Ainda faltava muito para terminar? Vinte minutos depois e mais diálogo inútil e eu já começava a sentir o corpo bambo pela inércia, se continuasse assim eu acabaria tendo atrofia muscular precoce. Mais trinta minutos de filme e finalmente a música começou. O tal tango também.

O personagem começa a fazer movimentos desengonçados e desajeitados para o professor de dança, um cara muito ridículo na minha opinião. Mesmo sendo leigo no assunto era notória a falta de coordenação motora executados pelo novato aspirante a dançarino para aquele ritmo de dança. Outro giro descordenado no salão e o professor sem mais nem menos prensou o garoto aprendiz contra a parede. Arregalei os olhos perplexo emergindo completamente da letargia do tédio vendo o professor tirar peça e mais peça de suas roupas enquanto ele e o aluno se beijavam vorazmente e se apalpavam por toda parte do corpo em preliminares. Dite inclinou-se no assento para ver melhor e Mu enrubesceu quando o dançarino aprendiz sem talento tirou seu membro duro e ereto de dentro da calça collant.

_ MAS QUE RAIO DE FILME É ESSE? _ Berrei pulando do banco. Puxei o rascunho do bilhete de dentro da calça e li o gênero do filme _ DITE SEU DOIDO! EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ TROUXE A GENTE PRA ASSISTIR FILME PORNÔ GAY! É ESSE SEU FILME DE SUPERAÇÃO? _ Ele nem ao menos teve a decência de se mostrar envergonhado, ou arrependido. Várias cabeças se viraram em nossa direção em desagrado e censura pelo meu grito escandalizado. Virei o rosto para o outro lado sentindo um acumulo de sangue nas maças do rosto.

Eu vou matar o Dite. Devo avisa-lo para já ir encomendando os serviços funerários?

_ Não seja tão puritano Camyu, senta ai. Isso é o que eu chamo de superação, terapia sexual. Muito melhor do que procurar sobre casamento gay na internet. _ Disse a praga como se isso fosse a coisa mais corriqueira e banal do mundo com a boca cheia de pipoca. Uma veia saltou na minha têmpora.

_ É. Eu sei muito bem o que vai ser superado ali. _ Esbravejei apontando o dedo para a tela do cinema no exato instante que o professor virou de bruços o aluno contra a parede, esfregando seu membro nas nádegas do outro. Tive um déjà vu do banheiro do dia anterior e senti meu rosto pegar fogo, em chamas. _ Faça como quiser. Só não conte comigo para isso. _ Acrescentei desejando que o projetor de imagens caísse sobre minha cabeça e me achatasse contra o chão. Olhei para Mu que mantinha o rosto corado escondido entre as mãos. Porém podia ver que ele espiava o filme por uma fresta entre os dedos. Lancei um olhar gélido assassino para aquela peste loira e tive a satisfação de vê-lo arregalar os olhos cerúleos e se encolher contra o banco.

Soltei uma imprecação zangada e virei ás costas rumo á saída. Permanecer ali assistindo aquela orgia animalesca, vulgar, baixa e chula estava fora de cogitação. Escutei o som de passos leves e afoitos ressoarem atrás de mim, e não foi preciso checar para saber que Mu e Dite me seguiam para fora. Passei por um segurança corpulento de fraque na saída, que olhou-me de cabo a rabo com os olhos negros repletos de luxuria e malicia. Estremeci em repulsa. Odiava esse tipo de escrutínio sujo carregados de lascívia direcionados tão descaradamente a mim. Como se eu fosse um item, ou um objeto sexual exótico a ser adquirido em um leilão ilegal de donceis no mercado negro, ou numa feira escravagista de exposição. Talvez fosse isso o que se passava na cabeça daquele energúmeno de terno vigiando a entrada do cinema. Que eu e Mu fossemos duas aquisições sem donos sem direito a autonomia. Balela! Não era apenas ele. Era a concepção machista e preconceituosa de toda uma sociedade amoral e corrupta. O preconceito era muito bem maquiado por uma falsa suposta igualdade quando se tratava de seres assim como nos, donceis.

_ Camus, não fique com raiva de mim. Talvez eu tenha me excedido um pouco na escolha da programação. _ Balbuciou Dite emparelhando-se no meu lado.

_ Um pouco? ­_ Repeti.

_ Tá, muito. Mas não achei que você ia reagir como se tivesse acabado de ganhar um presente de grego. _ Justificou receoso brincando com um cacho de seus cabelos aloirados entre os dedos. Bufei inconformado. Ele era um caso perdido.

_ Certo! Vamos abolir da memoria esse episodio lamentável. _ Disse mais calmo. É impossível ficar aborrecido com aquele inconsequente. Sobretudo quando ele fazia aquela cara de cachorro sem dono que caiu do caminhão de mudança. Dite precisava de alguém capaz de controla-lo, frear suas sandices irresponsáveis. Ele era uma força indômita e expansiva da natureza, e assim como tal, incontrolável. Se existisse alguém no universo capaz dessa proeza teria meu eterno respeito e admiração, ou não, o mais certo é que aquela praga loira acabasse tendo o infeliz enrolado direitinho em seu dedo mindinho. Não duvide. Um fio de cabelo do Dite amarra um elefante, ou na pior das hipóteses o mais hetero dos homens.

_ Maravilha! Então, já que você estragou a minha diversão nada mais justo que pague por isso _ Anunciou sapeca em tom pilherio. Encarei-o de lado, questionador, e ele sorriu travesso exibindo uma fileira de dentes impecavelmente brancos dignos de um comercial de pasta de dente. _ eu estou com fome e quero comer, e é você quem vai arcar com o meu lanche. _ Aliciou apontando para uma lanchonete de fest food do outro lado da rua. Sorri de canto. Incrível como ele parecia uma criança de olhos pidões, e uma das mais travessas, devo dizer.

Atravessamos a avenida após o sinal se fechar para os veículos, com Dite em meu encalço praticamente colado em cima de mim. Vislumbrei Mu pouco atrás aparentemente distraído digitando algo no seu celular. Não pude deixar de observar que éramos um trio peculiar, chamativo, pouco convencional, suscitando olhares belicosos, subversivos, sujos, jocosos. Não que eu me importe. O tempo eventualmente lhe ensina o quão mesquinho, abjeto, superficial e tendencioso são os julgamentos tecidos pelos outros. Nada além de opiniões distorcidas e analises frívolas.

O quão imaturo é a espécie humana em suas demagogias primatas, subornáveis? E ainda creem que sejam uma raça evoluída... ledo engano.

_ Primeiro as damas _ Caçoei burlesco segurando a porta de vidro para que o Dite passasse. Ele empinou o nariz arrebitado e atravessou o portal como se eu fosse um mero súdito. Mu guardou seu celular no bolso e passou dando uma risadinha da cena.

_ Camus a partir de agora quero que me chame de Darth Vader, meu novo apelido, o que você acha Mu? _ Exclamou efusivo Dite, jogando a cabeça para trás e dando seu melhor olhar de vilão.

_ Não sei, não sou muito fã de Star Wars, mas pode ser. _ Riu-se Mu se sentando na cadeira encostada na parede da lanchonete, seguido por Dite.

_ De que mundo você veio? Ditetopia? _ Zombei acomodando-me á mesa. Ele mostrou-me a língua. Quanta maturidade.

Fomos atendidos pela garçonete que anotou nossos pedidos, retirando-se logo em seguida. Dite escolheu um x tudo acompanhado por coca, eu apenas uma água mineral sem gás, e Mu nada quis.

_ Porque você não pediu nada Mu? _ perguntou Dite curioso cruzando as pernas.

_ Eu não consumo alimentos de origem animal. _ Justificou ele.

_ Nossa! Então você é vegetariano?_ Inquiriu o bisbilhoteiro olhando Mu como se ele fosse o mais novo Gandhi da humanidade, ou um integrante radical extremista do Green Peace.

_ Sou _ Disse tranquilamente.

_ Impressionante, eu não conseguiria viver sem fest food. _ Sentenciou.

_ É uma questão de hábito, opção. E claro, todo uma reeducação alimentar _ Explicou o lilás.

A conversa foi interrompida com a chegada dos pedidos postos sobre a mesa em uma bandeja de plástico. Peguei a garrafinha descartável de água a coloquei-o do lado sem lhe conferir muita atenção. O Dite devia está realmente com fome, uma vez que atacou o conteúdo da bandeja com uma voracidade alarmante. Puxei o celular da calça e conferi as horas no visor. Suspirei em enfado. Ultimamente sempre tenho a impressão desconfortável e ilógica que o tempo em vez de avançar parecia fazer justamente o trabalho reverso. Ou isso ou eu estava ficando neurótico. Pus o celular na mesa e me voltei para a água mineral ao meu lado, bebericando-o numa pequena dose sobre o gargalo, sem sentir sede de fato, ou gosto.

Flashs do ocorrido naquele banheiro passavam de segundo a segundo na minha cabeça, e por mais que eu tentasse ignorar o rumo indevido dos meus pensamentos as imagens insistiam em serem reprisadas a todo instante pela minha mente num ciclo vicioso. Era agoniante não ter nenhum domínio sobre os próprios pensamentos sem a intrusão insistente de um certo bastardo manipulador. Uma parte irracional de mim sentia-se vazio, em abstinência, e não havia explicação plausível para tal.

Eu era um paradoxo ambulante. O que raios estava acontecendo comigo?

_ Camus, quem é Milo Kalomires? _ Escutei a voz de Dite rompendo minhas divagações a pouco centímetros á frente, despertando-me de meus devaneios.

Empalideci quando minha mente processou sua pergunta. Levantei bruscamente a cabeça na sua direção e ele me observava intensamente com o olhar inquisidor segurando na sua mão direita o meu aparelho celular. Gelei. Da onde ele havia tirado o nome de Milo tão de repente? Nem mesmo eu até o presente momento sabia o sobrenome dele. Como ele sabia? Teria ele descoberto alguma coisa? Mas como? Não fazia sentido. Aquilo fora demasiadamente repentino. Eu precisava verbalizar alguma coisa, e rápido, Dite me perfurava com os olhos com um semblante atipicamente sério.

_ Não faço ideia _ Respondi. E quis me parabenizar por minha voz não ter tremido. Porém sentia um principio de taquicardia.

_ Como não? Esse nome esta agendado em seus contatos no seu celular. _ Emudeci. Eu não esperava por isso. Os pensamentos fervilhavam num estopim ensandecido, caótico, desconexo, em polvorosa. O número de Milo estava salvo no meu celular? Desde quando?

A única explicação plausível é que ele tenha se apossado do aparelho enquanto estava inconsciente e agendado seu número pessoal no meu celular. Claro! aquele dado não ia materializar do nada no meu telefone. Senti o sangue correr mais rápido nas veias. Eu realmente não sabia o que pensar sobre essa ação dele. Uma tentativa de me monitorar? Controlar? Vigiar-me os passos? Um aviso? Engoli em seco apertando a garrafinha plástica entre os dedos. Essas possibilidades me davam ânsias de me enclausurar no meu quarto e permanecer por lá até o próximo milênio.

_ Se você não sabe de quem é esse número então não se importará que eu faça a rediscagem automática e pergunte de quem se trata _ Ameaçou pressionando o botão de rediscagem do número de Milo, avaliando-me a expressão facial com um olhar suspicaz, desconfiado.

Senti meu coração esmurrar as costelas para logo em seguida retornar a seu devido lugar e a boca ficar seca como se eu estivesse em um avançado processo de desidratação. Ele não podia fazer isso. Forcei meu semblante a permanecer inalterado, neutro, impassível, e não exteriorizar o terror crescendo internamente em proporções geométricas. Ah, se ele soubesse...

_ Não seja imaturo. Lhe ocorreu que talvez não seja ninguém significativo o bastante para me lembrar de quem se trata?_ Disse secamente rezando para que ele acreditasse na minha mentira e me devolvesse logo o aparelho.

Santo cristo! Que situação.

Num ágil e inesperado movimento Mu arrebatou o telefone das mão de Dite de forma surpreendente e de tal rapidez que o loiro sequer teve tempo para desviar da investida do lilás, devolvendo-me o aparelho em seguida. O alivio foi tão grande que eu poderia canonizar o Mu naquele instante e dar-lhe minha gratidão eterna.

_ Todos estão contra mim hoje, não é possível. Mu você esta se bandiando para o lado desse pinguim? Isso foi muito Judas Iscariotes de sua parte. _ Reclamou Dite fazendo birra lançando um olhar mortífero para Mu.

_ Não é educado invadir a privacidade alheia. Se Camus quiser compartilhar com a gente sua vida pessoal ele mesmo vai se abrir sem precisar espionar mensagens ou números confidenciais registrados no seu telefone._ Disse apaziguador como se Dite fosse apenas uma criança matreira sem noção.

E era exatamente isso o que ele era.

Guardei o telefone dentro do bolço da calça para evitar novos incidentes perigosos com o mesmo e decidi aproveitar o resto da noite usufruindo da companhia de Dite e Mu esquecendo por algumas horas minhas preocupações, e tentando não ficar pensando tanto em Milo, porque isso já estava ficando paranoico e doentio.

Pena que minha resolução não tenha funcionado.

Não naquela noite...