O Escorpião Escarlate
9 Final de semana parte 1
Notas iniciais
Uma mão áspera apertava com força descomunal a pele nua da minha cintura, aprisionando-me imobilizado no chão frente uma crepitante lareira. Arquejei ao sentir as costas despidas chocar-se com a madeira fria do assoalho. Estremeci assustado sendo invadido pelo mais primitivo medo ao ser observado tão intensamente por aquele par de olhos cobaltos, assim com a face de serafim tão próxima à minha. Os olhos azuis dele passeavam viperinos por todas as linhas do meu rosto de forma obsessiva, a boca, tão perfeitamente sensual, parecendo ter sido feita para o pecado, se encontrava puxada numa linha dura, cruel, emoldurando com esmero seus traços de anjo caído. Tentei mover-me debaixo de si já sabendo de antemão que seria impossível escapar de seu domínio, seu jugo. Seus lábios tão escarnecedores retorceu-se num sorriso irônico, ácido, com minha falha e frágil tentativa de fuga.
Apavorei-me. Estava exposto, nu, vulnerável, estirado sobre o chão frio como em um sacrifício pagão, como um holocausto feito para algum deus morto á muito tempo.
A luz vivida advindo da rustica lareira fazia sombras espectrais, aterradoras, bestiais, sobre seus contornos faciais, parecendo arrancar-lhe qualquer traço de humanidade. Sentia o coração martelar alucinadamente no peito, em tal desvario que tornava o mero ato de puxar o ar para os pulmões uma agonia dolorosa. Eu não compreendia como fora parar ali com aquele maníaco psicopata, nada daquilo fazia algum sentido para mim.
Estaria eu sendo acometido pela insanidade?
_ Você me pertence Camus. Conforme-se com essa verdade. _ Proferiu com a voz aveludada, hipnótica, uma arma por si. As pupilas faiscavam num magnetismo astuto, opressor, animalesco, uma fera estudando as reações de sua presa. Havia uma arrogância bruta, primata, em suas palavras possessivas, transbordando em cada nota de seu timbre sedoso, macio, como uma droga viciante.
Milo era louco.
Lunático.
_ Vamos! Diga que você é meu! _ Ordenou autoritário como uma serpente sibilante mordiscando o lóbulo da minha orelha. Senti a garganta ficar seca como o solo árido do deserto inóspito quando uma de suas mãos subiu lascivamente até minhas nádegas, envolvendo-as, apertando-as, arranhando-as com a ponta afiada de suas unhas, deixando marcas impressas de seus dedos sobre a pele. Contorci-me impotente debaixo de seu corpo sentindo um de seus dígitos rodear perigosamente minha entrada.
Eu estava encurralado...
_ Eu... e-eu sou... _ Minha mente se encontrava turva, entorpecida, nublada, como se tivesse sobre o efeito de uma anestesia, uma poderosa morfina. Os pensamentos embaralhados confundia-me a razão, compelindo-me a proferir palavras que em sã consciência jamais seriam pronunciadas por mim. Aquela voz belicosa era pura magia negra, instigante, persuasiva, parecendo perfurar minhas defesas com pericia e manipular-me com maestria a seu bel prazer, á suas vontades.
_ Diga! _ Incitou num tom despótico, controlador, adentrando minha entrada com seu dedo. Arfei, arrepiando-me em desconforto, desejo, com aquela súbita invasão. Sua perna direita ergueu-se entre as minhas, deslizando provocativamente sobre minhas coxas expostas, até alcançar a virilha numa leve pressão, friccionando-a com seu joelho.
Gemi sôfrego e senti as maças do rosto se incendiarem de vergonha e pudor ao presenciar o meu membro até então flácido enrijecer-se, despontando teso sob o contato provocativo de Milo. O sorriso em seus lábios tornou-se tão malicioso que causou-me calafrios na espinha. Suas pupilas dilatadas, enegrecidas, rasgava-me como a mais fina lamina de titânio, ainda aguardando uma resposta pela sua ordem emitida.
_ Eu... eu sou seu... _ Sussurrei debilmente num fio falho de voz. Estava chocado demais comigo mesmo, por minha entrega absoluta e cega, aquilo não podia ser normal, era insano demais. Contudo eu não tinha forças para lhe resistir, era uma resistência inútil, uma batalha perdida. Convulsionei-me em ondas de choque ao sentir seu dedo acertar meu centro em toques certeiros e experientes. Suas íris safiras escureceram de satisfação, ornamentado por um sorriso zombador, maquiavélico.
Fogo liquido parecia verter nas minhas veias em puro extâse, anseios, fazendo-me retorcer em agonia sobre o seu corpo pétreo, inescapável. O sorriso dele alargou-se em um extremamente presunçoso, jocoso, faminto...
“I don’t care what people say.
When we’re together.
You know I want to be the one to hold you.
When you sleep.
I just want it to be you and I forever.
I know you want to leave so come on.
Baby be with me so happily…”
Despertei desnorteado com a música escandalosa do despertador ecoando em meus ouvidos. Algumas gotas de suor escorriam pela minha tez e nuca até a clavícula, perdendo-se entro o linho fino do lençol. Merde! Que raios de sonho fora esse?
Passei a mão trémula pelo cabelo, retirando alguns fios colados na nuca e pescoço. Santo Cristo! Isso só podia ser brincadeira, um delírio de muito mal gosto pregado pela minha mente coagida, perturbada. Mas não. O volume duro entre minhas pernas discordava veemente dessa teoria.
Inferno! O que havia de errado comigo? Ter pesadelos com Milo seria natural, plausível dado ás circunstancias. Mas sonhos de teor sexuais? Isso é inaceitável. E como se não bastasse agora tinha um problema rígido implorando por alivio dentro da cueca.
Eu estava com uma puta de uma ereção matinal.
Rilhei os dentes furioso por permitir que o patife egocêntrico me atormentasse a existência até mesmo na privacidade inconsciente do sono. Não. Eu me recuso a bater uma punheta para um mafioso manipulador, terrorista de mentes, que só para frisar era um honorável bastardo filho de uma boa dama.
Puxei o lençol do corpo jogando-o para longe e levantei da cama seguindo reto para o banheiro. Abri o registro do chuveiro na temperatura mais fria possível e emergi debaixo d’água após livrar-me da cueca boxe sufocando meu membro muito bem desperto dentro, sentindo o corpo todo arrepiar-se com o choque térmico. Isso teria de ser o suficiente para acalmar os hormônios em ebulição. De forma alguma eu me masturbaria pensando naquele grande desgraçado.
Sentei-me no azulejo de granizo revestido o chão, permitindo que a água gélida ensopasse os cabelos enquanto buscava estabilizar a temperatura efervescente do sangue. Talvez aquele desprezível sonho tenha sido consequência das cenas do filme inconveniente que o Dite tinha arrastado a mim e Mu para assistir na noite anterior. É, fazia sentido, não fazia? Isso não significa que eu esteja de alguma forma atraído por aquele patife. Lógico que não. Quem em sã domínio de suas faculdades mentais se interessaria, ainda que remotamente, por um criminoso ditador? Só se for algum fugitivo da área restrita para casos irrecuperáveis de um sanatório de segurança máxima.
Ou um completo imbecil.
E obviamente esse não era o meu caso. Só para esclarecer.
Abracei o próprio corpo entrelaçando os braços nos joelhos, apreciando a pressão da água bater relaxante sobre as costas e esvair cristalina em direção ao ralo. Não deixa de ser irônico, sabe. Se dias atrás alguém me dissesse que minha vida estaria nesse calabouço sem saída, eu questionaria a sanidade mental dessa pessoa e ainda lhe indicaria uma consulta emergencial com um psiquiatra. Mas assim é a vida! Uma caixa preta de surpresas desagradáveis enviada pelo diabo.
Olhei para baixo constatando que o meu membro havia ficado flácido, amolecido. É, não se pode negar a eficácia de um banho frio nessas horas. Lembrei-me do número de Milo agendado no meu celular. Eu realmente tinha considerado a possibilidade de deletar aquele dado do aparelho quando cheguei em casa, contudo não fui adiante com a ideia temendo as possíveis consequências do ato. Estremeci com o pensamento. As possibilidades não eram nada agradáveis, para mim, logicamente.
A verdade é que por detrás de minha impassibilidade de sempre, de minha pele marmórea , de meus olhos opacos e inexpressivos, eu queimava. Por mais que tentasse eu não conseguia ter acesso, sequer nuances do que se passava na mente de Milo. Logo eu, que sempre gabei-me de decifrar facilmente os outros, lê-las. Porém Milo anulava minhas capacidades perceptivas como se eu fosse um mero peão arrematado em um tabuleiro de xadrez. E sabe, eu já fui um pouco de tudo nessa vida, menos telepata. Como eu poderia presumir, ou supor, o que ia na cabeça ardilosa e traiçoeira daquele psicopata criminoso? Provavelmente seria bem mais fácil calcular o valor do Pi até um grau infinito de ponta cabeça e assobiando do que tentar descodificar aquela esfinge enigmática que era Milo. Mesmo porque eu não sou nenhum Édipo.
Levantei-me do chão fechando o chuveiro e sai do banheiro enrolado em uma felpuda toalha. Como hoje era sábado e consequentemente não teria aula, aproveitaria o dia pra organizar o apartamento e adiantar alguns trabalhos pendentes da faculdade. Vesti-me rapidamente não dispensando o conforto e a praticidade de um short e uma regata branca sem estampa. fiz uma trança frouxa no cabelo e como de praxe sorvi apenas uma pequena xicara de café forte para desjejum.
Seria um longo dia cheio de afazeres.
E realmente fora.
Vou admitir. É impressionante o avançar das horas quando não lhe falta o que fazer. O tempo escoava bem mais veloz e irrequieto, como uma ampulheta virada destoando suas parcas areias, de forma que realmente surpreendi-me quando o relógio pendurado na parede avisou-me o quão tarde já era. Removi alguns fios de cabelo colados na testa que haviam escapado da trança, colocando-os atrás da orelha.
Merde! Eu estava irremediavelmente arrependido por ter aceitado sair com Dite para uma boate estupida no outro lado da cidade. Pelo amor de Deus! O que alguém assim como eu, reservado, recluso, incapaz de interagir com os de sua própria espécie faria num lugar desses?
Ninguém gosta de estar sozinho num lugar onde todos os demais apreciam, divertem-se, bebem, se drogam com as mais variadas substâncias psicotrópicas e alucinógenas, numa antítese absoluta de sua natureza pacata, anti- social. É como se de repente alguém o jogasse numa tribo de desajustados desconhecidos e você se visse obrigado a interagir e adaptar-se para não se sentir um extraterrestre boiando sobre um aglomerado de pessoas ensandecidas, loucas. Você se sente um idiota deslocado ali, simplesmente por não se encaixar no ambiente. E a última coisa do qual precisava no momento era me sentir um ancião ultrapassado dentro de uma boate gay, muito obrigado.
Todavia não faz parte da minha natureza voltar atrás ou não arcar com as palavras assumidas. Eu tinha dito ao Dite que eu iria e por mais tentador que fosse não abdicaria do compromisso já firmado, seria leviano de minha parte. Nunca gostei de dois pesos e duas medidas equivalentes, um meio termo, somente os calhordas inconsequentes ou políticos de lábias corruptas prometem afincos dos quais não se tem pretensões reais em cumprirem. Talvez por isso nunca tenha tido alta tolerância para indivíduos incertos, vacilantes, que vivem pernoitados em cima de um muro numa falsa neutralidade, um pendulo sem arestas buscando equilibrar-se. Nada consegue ser mais irritante do que frases dúbias, ambíguas, do tipo ‘ eu não sei’, ‘ talvez’, ou o famoso vulgo ‘ mais ou menos’.
De seres confusos já bastava eu.
Guardei os trabalhos concluídos dentro de uma pasta, deixando-a em cima da escrivaninha e fui para o quarto me arrumar após desligar o notebook. Tentei reconfortar-me com o pensamento de que Mu também iria, e na pior das hipóteses poderia inventar uma enxaqueca ou qualquer outro mau estar inconveniente e escapulir pela porta dos fundos, se tiver uma, mais rápido do que um condenado a guilhotina que acabara de receber um indulto de sua pena.
Troquei-me sem pressa, optando por vestir uma discreta calça Skinny e uma tradicional camisa social branca. Como os hematomas no pescoço e colo ainda eram bem nítidos não me restou outra alternativa há não ser camuflar as marcas com um goro de malha fina. Mas eu ainda não havia descartado a possibilidade de usar uma base ou qualquer outro cosmético do gênero para ocultar esses vergões.
Maldito Milo.
Guardei minha carteira com a identidade e o celular no bolço e fiquei aguardando Dite na sala passeando aleatoriamente pelos canais da televisão com o controle remoto. Dite nunca foi a pessoa mais pontual do mundo, isso não é novidade, porém um atraso colossal de quase uma hora já fazia o meus níveis de stress se excederem além do tolerável. Isso devia ser um record deselegante digno de entrar para o Guinness. Minha vasta paciência se encontrava escassa com o ultraje e estava ponderando seriamente em desistir daquele martírio, digo, eu não queria ir mesmo, quando finalmente o interfone soou dissipando as ideias de desistência, anunciando a chegada do infeliz irresponsável.
Tranquei o apartamento e desci para encontrar com o biltre decerto me esperando no outro lado da rua. Para ser franco tive esperança dele ter, sei lá, desistido de me arrastar com ele contra a vontade para aquela balburdia intragável que ele chama de ‘ diversão’, ou ‘forma de relaxamento’. Bobagem! Porque usar de eufemismo para suavizar a realidade? Oras! Os termos corretos seriam algo mais para ‘suruba’, ‘inferninho’, ‘orgia’ ou simplesmente ‘sexo fácil’.
_ Sua pontualidade Inglesa é encantadora mon ami _ Critiquei irônico quando aproximei-me do loiro aparentemente afobado, aguardando-me em pé do lado de fora do veiculo. Ao menos ele teve a decência de corar e parecer envergonhado, o que creia-me, vindo dele é uma reação extremamente rara.
_ Ah Camus, não me dê sermão ou ralhe comigo, meu atraso não foi proposital, na verdade foi por uma causa muito injusta por sinal. _ Defendeu-se ele com um grunhido, irritado com alguma coisa.
_ Que seria? _ Instiguei, cético.
_ Ah, bom, sabe o que é? Talvez eu tenha exagerado um pouco em uma das ultrapassagens durante o percurso, já que tive o infortúnio de ser parado por um guarda de trânsito mau amado com cara de quem teve uma ejaculação precoce. O filho da puta além de me presentear com uma multa abusiva e tirar alguns pontos da minha carteira ainda acrescentou desacato á autoridade na ficha só porque o mandei educadamente ir se ferrar. Autoridade né? Autoridade é o meu pau. Aliás quem foi o cabeleireiro dele? Edward mãos de tesoura? Freddy Krueger? Wolverine? _ Desabafou revoltado. Eu só consegui encara-lo incrédulo, em total descrença pela sua completa falta de noção.
_ Você insulta um policial e ainda espera não ser retaliado por isso? Devia estar grato por não ter sido detido e acabar passando a noite na cela de uma delegacia. _ Disse repreendedor entrando no carro, ainda abismado pela sua inconsequência irresponsável. Francamente não sei por que eu ainda conseguia me surpreender com as loucuras do Dite. Um dia desses eu ainda seria chamado para pagar sua fiança numa delegacia. Sai de minha reflexão dando pela falta de uma pessoa. _ Mu não veio? _ Indaguei subitamente.
_ Esqueci de dizer que ele avisou que se atrasaria, mas ficou de nos encontrar na entrada da boate. E sabe, até que você tem razão, eu não tinha pensado na possibilidade de ser preso e acabar tendo que dormir no chão duro de uma sarjeta, cheio de homens sujos, cachaceiros, estupradores, querendo foder um garoto lindo e maravilhoso assim como eu. Jesus! Tia Shina me mataria._ Exclamou apavorado arregalando os olhos. Não aguentei ver o terror estampado em seu rosto e gargalhei jogando a cabeça para trás. Sério que só agora ele pensou nisso?
Shina era tia do Dite, era com ela que ele vivia desde a morte precoce de seus pais num acidente de carro na Suécia. Ela era uma ótima mulher de mentalidade aberta, nunca censurou ou reprimiu a opção sexual do Dite descoberta bem no inicio de sua adolescência. Era incompreensível como uma mulher maravilhosa como ela ainda não tivesse se casado sendo ainda tão jovem, eu duvidava seriamente que fosse por falta de pretendentes. Pouco antes do Dite perder os pais e vir morar no Japão ela teve de fazer uma cirurgia em decorrência de alguns nódulos no útero e acabou tendo que o retirar para evitar que o mesmo se tornasse um possível câncer. O fato é que ela não poderia mais ter filhos e quando o Dite veio para Tokio para morar consigo ela o recebeu de braços abertos. Na verdade sendo Shina o último familiar vivo do Dite, ela acabou o adotando e transferindo para ele seu afeto materno tal como sua super proteção exagerada. Apesar de sua estrutura esguia e feminina ela realmente assustava quando ficava furiosa. Eu havia presenciado sua cólera uma única vez, e acredite, eu nunca mais quero estar por perto para presenciar sua fúria novamente.
_ Acho que vou ter de comunicar á ela sua transgressão contra um guarda de trânsito._ Afirmei casualmente cessando o riso. Sua expressão de horror quase me deu pena.
_ Se você fizer isso é melhor encomendar meu caixão por antecedência, eu serei morto sem direito a defesa. A pica vai entrar pro meu lado, não que eu esteja reclamando ou achando ruim, levando em conta que eu gosto e tal, mas francamente essa ai eu estou passando. _ Dramatizou vulgarmente escancarando um sorriso amarelo repleto de dentes impecavelmente brancos. Céus! Onde diabos eu fora amarar meu jegue? Era melhor não pensar nisso. Eu precisava manter minha cabeça sana, não insana. _ Aliás caro amigo que está querendo ferrar com minha existência, você pelo menos podia fingir que esta animado. _ Reclamou torcendo a cara em desgosto.
_ Mas eu estou transbordando animação. Desculpe por não consegui exteriorizar tamanha felicidade e... euforia. _ Tudo bem! Acho que exagerei no sarcasmo. Pelo menos era isso o que dizia o semblante critico de Dite olhando-me de esguelha. Geralmente eu não costumava recorrer ao humor ácido assim tão gratuitamente, porém meu psicológico fragilizado estava longe de se encontrar em seu estado normal e complacente nos últimos tempos.
_ Sua facilidade em ser irônico por vezes me irrita, Camus. Assim como essa sua impassibilidade impecável que oculta um turbilhão de pensamentos e inquietações. Você sabe que pode se abrir comigo para qualquer coisa, não sabe? _ Verbalizou com a expressão indecifrável, séria, carregada de algo abstrato que só poderia ser definida como preocupação e suspeita.
Eram circunstancias assim que me faziam crer na possibilidade dele saber, ou no mínimo desconfiar da verdade, do quanto me encontrava chafurdado na lama, coagido á base de ameaças e chantagens por um criminoso isento de qualquer vestígio de escrúpulos e moralidade, e apenas fingi desconhecer a realidade que me precipita. Mas exorcizava logo o rumo desses pensamentos inaptos. Não havia chance real para isso, eram apenas receios e melindres de uma mente torturada, esmigalhada. Eu nunca me considerei uma pessoa covarde, titubeante, até pela criação firme e de certa forma rígida dada por Dégel. Mas transparência também não é algo do qual faça parte da minha natureza introspectiva, e infelizmente confessar as desventuras que eu omitia para o Dite não era uma opção a ser considerada. Não que eu não confie nele, e sim por querer preserva-lo. Eu o conhecia bem demais para saber de antemão que ele não seria capaz de ficar quieto e neutro caso lhe desse a conhecer o peso da verdade.
E esse era o meu medo.
_ Não há nada me inquietando ou remotamente interessante para ser dito. _ Declarei incisivo. Aliás como a conversa chegou nesse patamar?
_ Sabe Camus, não é de agora que tenho notado o quão distante você tem andado, parece sempre na defensiva, tenso, preocupado, alheio á tudo e a todos em sua volta. Porra! Eu pensava que eu fosse seu amigo, acreditava que você confiasse em mim para se abrir, contudo percebo agora o quanto estive equivocado em meu achismo. _ De certa maneira eu já imaginava que Dite apelaria para as pseudo chantagens emocionais, não tardaria e ele também começaria acusar-me de ser um receptáculo sem vida e inerte das minhas emoções mais recônditas. Contudo não podia negar que seu súbito e inesperado desabafo não tenha me pegado desprevenido, mesmo porque a ultima coisa que eu esperava era presenciar uma repentina explosão de sua parte naquele momento dentro de um carro a caminho de uma boate gay.
Eu não sabia ao certo o que deveria dizer para dissipar sua evidente mágoa e ressentimento, apenas cerrei os punhos sentindo o fel amargo da impotência arder como ácido sulfúrico na garganta. Eu jamais puxaria Dite para o inferno sem saída no qual me encontrava condenado, mesmo que ceder ao seus apelos fosse uma tentação, e a vontade de jogar tudo as favas me impelisse para tal. Estava cansado de ser Camus, o homem da máscara de gelo, impassível, no qual aparentava ser com perfeição sobre a superfície, quando na clareza da verdade eu não era nada mais que uma criança assustada, insegura, receosa, reprimindo o choro que não raras vezes ardia nos olhos.
A verdade é que eu estava ruindo lentamente como um frágil castelo de areia construído as margens do oceano.
E eu tinha consciência disso.
_ Não se chateie por amenidades mom ami, não há razões para isso. Você me conhece e sempre me conheceu o suficiente para saber que não sou de demonstrar o que sinto nem o que deixo de sentir, contudo isso não significa nem nunca significou que eu não esteja sentindo. Talvez parte dessa minha apatia se dê pelas bruscas mudanças com o qual estou tendo que lhe dar. Isso nada tem haver com confiança ou a ausência dela. Ainda estou digerindo a perda recente de Dégel. _ Articulei pausadamente. E em parte, mesmo que ínfima, não deixava de ser um pequeno estilhaço de toda uma verdade. Não sei se ele acreditou em meus dizeres, como ele encarava a estrada eu não podia ver qual era sua expressão.
_ Você está me assustando. Nunca te vi assim, tão vulnerável, abatido. Sinto-me triste. Se nem você, que sempre foi uma fortaleza nas adversidades mais atemporais e sempre teve uma resposta lucida para tudo quando mais ninguém o tinha sente-se assim, não sei o que pode ser de mim que não possuo um décimo de sua força. Chame-me de egoísta por isso, eu não me importo, mas você tem sido desde que cheguei aqui nesse país a minha âncora, a muleta que muitas vazes me deu suporte, impedindo-me muitas veze de cair e esquecer quem sou. você é, sempre foi e continuará sendo parte integrante do que restou de minha família nessa terra estrangeira tão longe da minha. Eu só tenho medo. Medo de te perder, de ficar sozinho._ Confidenciou num fio falho de voz, apertando o volante até o nó dos dedos esbranquiçarem. O som baixo de um soluço avisou-me que ele reprimia o choro usando as madeixas aloiradas como uma espessa cortina no intuito de ocultar o rosto. Perguntei-me internamente se meus pesares e desolações carregadas em dissabores estavam assim tão notáveis no meu semblante. Eu realmente esperava que não.
As vezes eu me esquecia o quão sensível era o Dite por debaixo de sua aparente frivolidade. E pensar o quanto fui arrogante quando o julguei um ser superficial e facilmente influenciável quando o conheci logo de começo ainda no ensino médio. Uma cabeça vazia de reais valores e insensível ás dores do mundo e de seus semelhantes. As aparências enganam, e o Dite era uma prova viva dessa constatação. Ele era uma pessoa emotiva ao extremo, leal, e de fácil apego. Ainda hoje era pra mim que ele corria quando algo em sua vida dava errado, quando tinha suas crises existenciais, quando estava deprimido ou se sentindo melancólico, para baixo. Ou mesmo quando apenas corria atrás de amantes fugazes para saciar sua vaidade indolente e narcisista. Porém no fundo ele era tão somente um menino carente de atenção, temendo as incertezas do futuro e do desconhecido...
_ Desculpe-me, chèr, se eu o deixei triste com meu distanciamento _ Disse gentilmente pousando a mão no seu ombro, escutando-o fungar. _ me desculpe por te deixar me ver assim, tenso, sem animo. Mas não precisa ficar assim. Algumas vezes é impossível evitar pequenos deslizes, abater-se, isso é ser humano, afinal. Eu vou sempre ser sua fortaleza quando você precisar, sempre. Distante ou perto, vivo ou morto, eu sempre vou estar aqui com você, e por você. Não são promessas vazias dispersadas no nada, esvanecidas ao vento. Você me conhece bem o bastante para saber disso, talvez até mais do que deva, eu só me mostro como sou de fato para você, e mais ninguém. Entretanto mesmo uma fortaleza não está isenta de sofrer rachaduras, de falhar, e isso também se aplica a mim como a qualquer outra pessoa. Perfeição é uma utopia declamada pelos poetas, apenas uma ilusão fora da mortalidade humana. _ Declarei calmamente num tom ameno, brando, e sorri de lado quando o vi secar as lágrimas das bochechas com as costas da mão. Tudo ficaria bem novamente.
Não trocamos mais nenhuma palavra no restante do trajeto, nada, apenas o silêncio, acolhedor e cordial. A tal boate era revestida de uma estrutura maciça inegavelmente impressionante pelo seu grande porte. Parecia mais uma Rave ocupando todo o quarteirão do que uma GLS propriamente dita. Sem mencionar o número exorbitante de pessoas na fila de entrada para a inauguração, era assombroso.
Eu não me sentia muito confortável ali, como já era de se esperar. Ainda mais que aquele lugar era a o subúrbio da cidade com índices medonhos de criminalidade. Nem mesmo a policia fazia ronda naquele bairro depois do por do sol. Não que fizesse durante o dia. Eu realmente não sei o que o Dite tem na cabeça para perambular nas ruas mau cheirosas daquele lugar sem lei numa hora daquelas.
_ Camus, olha só quem chegou. _ Gritou elétrico o Dite em meus ouvidos gesticulando em direção a rua. Segui seu olhar e vi Mu saindo de uma condução de táxi, seguindo para onde estávamos. Ele parecia intimidado pelo lugar, não o culpava, já que eu também estava.
_ Desculpem pelo atraso. Espero não tê-los feito esperar muito. _ Desculpou-se ligeiramente envergonhado com um sorriso doce. Eu nunca havia parado para pensar nisso, mas eu realmente gostava de covinhas.
_ Na verdade você chegou quase junto com a gente. _ Afirmei, e ele suspirou baixinho em alivio.
O lado de dentro da boate parecia um imenso galpão, tão ostentoso quanto seu exterior. O chão era de um metal maciço, lustroso, com plaquetas anti- derrapantes refletindo o jogo de luzes incandescentes espalhados por todo o teto e paredes pintadas em grafites. A música eletrônica ressoava ensurdecedora aos ouvidos, tornando impossível escutar qualquer outro som que não fosse o da caixa acústica estourando os tímpanos. Caminhar sem tropeçar ou esbarrar em outras pessoas ali era um desafio à paciência e flexibilidade, o lugar estava tão lotado que mais parecia um ônibus coletivo em horário de pique, constantemente sentia uma ou outra mão boba passear em partes indevidas do meu corpo, alguns um pouco mais atrevidos relavam descaradamente na minha bunda enquanto cruzava o recinto.
Era possível ver camarotes vip revestidos com um denso vidro fumê escuro na parte térrea superior do segundo andar, cujo acesso era guardado por dois homens corpulentos que mais pareciam dois armários de aspecto tenebrosos, sombrios. Eles bloqueavam a passagem de penetras, bêbados, drogados, que tentavam driblar suas vigilâncias e subir as escadas sem permissão.
Respirei fundo tentando esconder de Dite meu tédio mortal e deslocamento naquele antro infernal. Como o lugar se encontrava superlotado não tinha mesas sobrando para se acomodar, obrigando-nos a procurar refugio nas cadeiras livres frente ao balcão do bar. O sorriso esfuziante no rosto de Dite entregava toda a animação que ele estava sentindo, parecia uma criança num parque de diversões ou que acabou de ganhar um brinquedo novo. Melhor assim. Pelo menos ele se ocupa com outras coisas que não sejam suas desconfianças a meu respeito.
_ Camus, vamos dançar? _ Dite berrou frenético nos meus ouvidos fazendo sua voz sobrepujar em meio ao som alto. Eu? Dançar? Oras! Faça-me o favor.
Eu não gostava de dançar, e se gostasse com toda certeza aquele barulho estridente martirizando meus tímpanos não seria o meu ritmo preferido de musica para tal. Além disso convenhamos, eu não sabia nem arriscar alguns passos sem parecer um boneco movido a pilha, ou um idiota, quem dirá dançar. Talvez um dia eu até tente aprender, ou não, mas obviamente esse dia não seria hoje, tampouco agora. Eu não precisava pagar um mico em publico dançando feito um epilético na pista de uma boate gay. Eu disse mico? Não. Seria mesmo um King Kong inteiro.
_ Dite, eu não danço, e você sabe disso. Mas se quiser não se faça de rogado, sinta-se a vontade para isso. Eu vou ficar por aqui mesmo. _ Disse dando levemente de ombros apoiando o cotovelo no balcão. Ele me olhou emburrado e se voltou para Mu sentado ao lado.
_ E você Mu? _ Perguntou esperançoso.
_ Eu também vou ficar por aqui. _ Apressou em dizer o lilás, fazendo-me rir internamente.
_ Vocês são muito chatos, fodam-se, eu vou dançar sozinho. _ Ladrou, endereçando-nos um olhar demoníaco antes de empinar o nariz e sair batendo o pé, empurrando algumas pessoas no caminho até alcançar a pista de dança.
Revirei os olhos e me contentei em pedir uma dose de Martini com gelo ao bartender enquanto trocava algumas palavras formais com Mu. Ele havia me comunicado ainda a pouco seu sucesso com a entrevista dispensada hoje cedo com Dohko em sua loja, e em decorrência disso sua admissão na livraria. Em nenhum momento duvidei de sua aceitação instantânea naquela vaga, sendo ele familiar do provável namorado de seu empregador já era de se esperar. Se isso não era nepotismo? Oras! Evidente que sim. Tenho absoluta certeza de o fato de Mu ser afilhado de Shion fora o fator determinante de sua contratação, a carta de referencia perfeita, ou se preferir apenas favoritismo mesmo.
Voltei minha atenção para a pista principal assistindo Dite deslizar sensualmente no centro da boate sobre o badalar sugestivo da música. Eu realmente não sei onde esse garoto aprendeu a dançar desse jeito, provocativo, malicioso, rebolando insinuantemente sobre outros corpos de forma que beirava a indecência, delegando erotismo á cada movimento executado, atraindo olhares lascivos de todos em sua volta, tanto de homens quanto de mulheres, era nítido o grau de luxuria reluzindo nas pupilas dos que acompanhavam sua performance impregnada de erotismo.
Aquilo parecia mais um ritual de acasalamento. Um show de strip-tease aberto ao público.
Eu já comentei o quão absurdamente exibicionista o Dite podia ser? Não? Pois eu lhe digo, ele adorava ter uma plateia a sua disposição e ser o centro absoluto das atenções.
_ Camus, você se importa em ficar sozinho por alguns instantes enquanto vou ao banheiro? _ Indagou Mu ao meu lado, levantando-se do bar. Sorri com sua preocupação genuína e neguei com um aceno de cabeça. Ele assentiu vincando a testa ainda preocupado e adentrou a multidão, desvencilhando-se como podia da orda ensandecida de corpos inundados de adrenalina que pulavam alucinadamente sobre a pista.
Escutei o barulho de cadeira sendo arrastado vindo do lugar pertencente à Mu anteriormente e vi pelo canto dos olhos um homem de estatura mediana alta, cabelos curtos num corte moicano e uma longa cicatriz simétrica estendendo-se desde o principio esquerdo da nuca até a parte inferior da mandíbula, pouco acima do queixo, dando-lhe um aspecto desagradável pela deformidade. O odor fétido de vodca misturado com suor e nicotina desprendido por seu corpo inundaram meu olfato, revirando meu estômago em náuseas. Remexi-me incomodado na cadeira sentindo seu olhar desfocado e pegajoso sobre mim, afastei-me imperceptivelmente para a beirada do banco.
_ Não vai me dizer qual o seu nome, docinho? _ Disse com a voz pastosa, grogue pela bebida, evidenciando seu estado avançado de embriagues. Me fiz de surdo concentrando a atenção no copo de Martine entre os dedos.
_ Um doncel tão pequeno e delicado não devia perambular sozinho e desprotegido num lugar desses sem um acompanhante, docinho, é tentação demais para um homem que tem suas necessidades. _ Emendou ele, e era possível sentir na pele as más intenções proscritas em cada palavra proferida, mesmo á distancia. Apenas continuei ignorando o fanhoso.
Do nada remexi-me inquieto no assento com a sensação sufocante de esta sendo observado atentamente por alguém, eriçando todos os pelos do corpo. Era uma sensação tão intensa e opressora que me queimava como um jato de lava vulcânica, derretendo e pulverizando todos os ossos do corpo. Encolhi-me instintivamente contra o balcão sentindo minha respiração se tornar rasa, rarefeita, asfixiante, como se uma mão invisível estivesse me sufocando, apertando minha garganta. Passei a língua nos lábios sentindo-os secos de repente e apertei nervosamente o copo de Martini nas mãos.
Varri os arredores da boate com os olhos procurando a causa ou o responsável por aquelas sensações torturantemente opressivas, conturbadora, contudo nada encontrei através do meu limitado campo de visão. Eu estava ficando louco, neurótico, só podia ser, provavelmente imaginando coisas criadas pela minha cabeça traumatizada, algum tipo de delírio psíquico paranoico. Talvez eu tenha desenvolvido uma síndrome de perseguição, ou ainda, quem sabe, o cheiro pungente de ecstasy, LSD, anfetaminas entorpecentes e maconha impregnada no ambiente como uma névoa densa e esfumaçada tenha sido absorvido pelo meu organismo gerando efeitos alucinógenos.
É, faz sentido.
Virei o copo de Martini de uma só vez na boca, sentindo a bebida descer queimando feito fogo pela garganta e bater em cheio no estômago vazio, dando-me uma breve bambeza. Decidi me desligar de quaisquer pensamento inconveniente, auto- punitivo, que se remetia a minha atual Via Crucis e pedi outra dose de bebida, dessa vez absinto que tinha um teor de álcool um pouco mais concentrado que o Martini. Senti meu telefone vibrar no bolso da calça rompendo meus pensamentos absortos. Puxei o aparelho do compartimento constatando o recebimento de uma mensagem no visor. Franzi o cenho vincando a testa e abri-a.
“Camus... Camus... Camus...
Ninguém nunca te avisou sobre o risco de se mexer com fogo? Você pedi por um castigo por me provocar desse jeito. É melhor que você tenha uma boa justificativa para explicar o porque de está sentado no balcão de uma boate ao invés de se encontrar em casa como um bom menino. Gosta de brincar com a sorte, ruivinho? Então espero que goste do que vou fazer com você daqui a pouco...
xx Milo”
Senti o rosto ficar lívido quando cheguei no fim da mensagem, e eu não precisava de um espelho para saber certificar-me o quão branco eu devia esta. O que ele queria dizer com isso? Milo estava ali? Me lembrei da sensação de esta sendo observado instantes atrás e engoli em seco. Sim, definitivamente ele estava naquela boate. Fiquei estático por alguns segundos, olhando sem reação para o celular na minha mão como se ele fosse dinamite. Pisquei sucessivamente algumas vezes, catatônico, e num impulso ingeri todo o absinto do copo de uma só vez, sentindo a visão turvar e o sangue circular enfurecido nas veias.
Meu questionário contingente de perguntas e duvidas internas foram sanadas quando relanceei o olhar para o alto da escadaria que dava acesso aos camarotes particulares da ala vip. Parado em pé no último degrau da escadaria trajando uma calça coturno colada ao corpo e uma blusa preta sem manga, salientando o peitoril definido e o abdômen rígido, tal como as tatuagens tribais no ombro descoberto, numa postura corporal rígida típica de um militar, ele olhava-me fixamente com um olhar tão sádico que petrifiquei em cima da cadeira.
Era um pesadelo. Tinha que ser.
Se ele conseguisse portar uma expressão mais sádica que aquela talhada em seu rosto de anjo caído, eu realmente preferiria não esta por perto para ver, menos ainda ter sido o causador dela. Eu não sei com que cara eu devia estar, mas se o sorriso torto delineado em seus lábios grossos fosse indicativo de algo, devia ser uma bem assustada. Arregalei os olhos experimentando um principio de pânico quando ele começou a se locomover descendo as escadas em minha direção sem cortar o contato visual, com a fluidez predatória de um leopardo emboscando sua caça.
Estremeci em pura angustia e saltei do banco para evaporar dali embrenhando-me na multidão aglomerada, contudo uma mão áspera e calosa envolveu meu pulso, segurando-me do lugar, frustrando meu plano de fuga. Virei-me com raiva para trás me deparando com o homem fanhoso da cicatriz me analisando de forma asquerosa enquanto prendia meu braço. Eu havia esquecido sua presença ali no balcão.
_ Não me toque. _ Ditei rispidamente, alterado. Espiei nervosamente sobre o ombro, oscilando ao cruzar com os olhos estreitados de Milo pousados na mão áspera do homem que me tocava.
_ Não se faça de difícil, docinho, eu tenho o que você quer, posso te foder bem gostoso com o meu pau e lhe mostrar como é um homem de verdade enquanto estoco sua entrada quente e apertada. _ Emitiu o fanhoso com a voz embargada pela bebida, carregando uma expressão abjeta, lasciva, o cheiro fétido de seu hálito fez-me retrair o corpo e engolir o vômito que subiu vertiginosamente pela garganta. _ O que acha? _ Adicionou sugestivamente.
O que eu acho?
Eu realmente acho que ele deveria ser congelado para todo o sempre num esquife de gelo, saltar sem para- quedas do monte Everest ou pular de cabeça nas cataratas do Grand Canyon. Eu tinha outras preocupações imediatas na cabeça e não podia desperdiça meu tempo com aquele bêbado fanfarrão regurgitando baboseiras libidinosas, como por exemplo encontrar uma saída daquele lugar antes de ser alcançado por Milo, aquele grande filho da puta.
Num impulso de adrenalina puxei o braço de supetão do agarre exercido no meu pulso, libertando-me de sua mão nodosa. Não era difícil ler a mancha apodrecida da perversão moldada nos olhos arenosos, de uma coloração acre do fanhoso, denunciando o grau deturpado e repulsivo de suas fantasias imundas, pérfidas. Era o olhar que eu recebia de Radamanthys dentro da faculdade.
Afastei-me apressado do balcão sem me atrever a olhar para trás um instante sequer, só parando para recuperar o fôlego quando julguei ter posto uma distancia segura. Estava grato pela alienação cega do Dite enquanto dançava compenetrado e inebriado no meio tumultuado da pista, alheio ao que estava acontecendo á sua volta. É, dançar tinha esse efeito avoado no Dite. Graças a deus. Me encostei numa grossa pilastra buscando me acalmar e normalizar a respiração descompassada, vendo pelo meu vasto e privilegiado ângulo de visão Milo deter-se no balcão do bar, debruçando-se sobre o fanhoso com um sorriso escarnecedor, sombrio, psicótico, esculpido no rosto, e sussurrar alguma coisa em seu ouvido com um brilho escuro, atroz, diabólico, flamejando como labaredas macabras em suas íris cobaltos.
Eu não faço ideia qual fora o contexto das palavras proferidas para o fanhoso por Milo. Eu não sabia fazer leitura labial e era impossível presumir o que ele tinha dito, no entanto presenciei o rosto do fanhoso congelar numa expressão de puro terror mesclado a desespero, a cor sumiu esvanecendo da sua face deformada sobrepujando ainda mais a disforme cicatriz que riscava sua pele, deixando-o numa palidez cadavérica. Ele se levantou cambaleando da cadeira e em passos trôpegos, vacilantes, se afastou de Milo, desaparecendo de suas vistas como se ele fosse a própria morte em pessoa.
Mordi o lábio inferior confuso com aquela cena e os meus próprios sentimentos. Eu mentiria se dissesse que não estava assustado com aquela cena.
Milo intimidava sem precisar se esforçar para tal, era tão natural nele como uma segunda pele. Por isso na mesma proporção que sua beleza magnificamente deslumbrante atraia ás pessoas à sua volta feito mariposas pelo néctar doce, com igual medida sua aura agressiva, feroz, pesada, as repelia.
Distrai-me vendo-o se sentar no banco outrora usado por mim com a fluidez de um lord monarca acomodado em seu trono. Rezei internamente para que Mu não retornasse agora, porém como não era uma pessoa obtusa o bastante para contar com a sorte, até porque eu não tinha nenhuma, preferi permanecer exatamente onde estava, apenas observando quais seriam suas ações.
Vi ele levar a mão no bolso coturno da calça e puxar de lá um maço de cigarro juntamente com um isqueiro prateado. O que de fato estava me perturbando era o sorriso malicioso salientado em seus lábios promíscuos, como se algo o divertisse. Ele acendeu um cigarro soltando uma nuvem afunilada de fumaça pela boca e tombou a cabeça para o lado, mais precisamente em minha direção.
Senti a respiração se acelerar novamente e o sangue bombear mais rápido. Dei-me conta que ele sabia que eu o estava observando desde o começo do lugar onde estava. Minhas bochechas inflamaram e tingiram-se de carmim.
Alguém poderia por gentileza me aponta a saída de incêndio mais próxima?
Ele me olhou de cima abaixo como um lobo avaliando sua presa, suas pupilas azuis continha um quê de maldade calculada enquanto me perscrutava astutamente. Vi-o fixar os olhos em meu rosto enquanto tragava seu cigarro e logo em seguida repuxar os lábios num sorriso de canto belicoso repleto em cinismo. Ainda me fitando abertamente ele puxou um celular do bolso e digitou alguma coisa no aparelho.
O som vibrante do meu próprio celular estremecendo na minha mão me alertou da chegada de uma nova mensagem de texto. Olhei para Milo em suspeita e li-a.
“Acha mesmo que pode se esconder de mim, pequeno? Vou ter que ensina-lo como se comportar quando eu não estiver por perto, afinal eu sou seu dono e não admito ser provocado por quem quer que seja. Você está sendo um garotinho mau e atrevido Camus. E você sabe o que garotinhos maus merecem ganhar? Sim... tenho certeza que você é inteligente o suficiente para imaginar....
Ah, já ia me esquecendo, não pense que vou poupar essa sua bunda branca do castigo que merece pela sua ousadia. Você é meu ruivo, apenas meu.”
xx Milo”
Dei alguns passos para trás ao terminar de ler sua mensagem até sentir as costas baterem na pilastra e olhei-o chocado por sua prepotência arrogante encrustada em cada em cada letra sibilada, assim como sua ameaça velada encrustada em cada frase escrita.
Uma ova que eu pertencia a ele, o escambau a quatro. O que ele pensa que sou? Uma aquisição arrematada numa convenção de leilão particular? Uma mercadoria adquirida em uma feira de exposição? Pois ele é que fosse para o inferno e ardesse por lá.
Prendi a língua entre os dentes e encarei-o desafiadoramente com desdém, se ele acha que me intimidaria com suas palavras eu lamento ter de dizer que ele está redondamente enganado. Seus olhos se semicerraram faiscando perigosamente deitados em mim. Se eu não estava com medo? Inferno, e como estava. Mas ele não precisava saber disso.
Maldição! Eu não era um maldito covarde.
Foi com esse pensamento libertador eclodindo nos meus pensamentos caóticos como uma orquestra sinfônica que eu resolvi responder sua mensagem com outra.
“Eu faço o que eu quiser da minha vida. Você não manda em mim. Não sou um animalzinho adestrado do qual você possa dar ordens. Sou livre o bastante para fazer minhas próprias escolhas e não há nada que possa mudar isso.
Foda-se você seu desgraçado e me deixe em paz.
Xx Camus”
Cliquei em enviar ainda imberbe pelo estupor, buscando reaver o controle das minhas emoções e apaziguar o tremor incontrolável tremelicando o nó dos dedos. Vi-o desviar sua atenção para o seu celular pousado em cima do balcão, arqueando uma sobrancelha ao receber uma resposta minha em retorno.
Entretanto quando ele chegou no término da mensagem e olhou para mim apenas dois sentimentos percorreu-me as entranhas como se fosse um enxame de vespas venenosas, fazendo-me recuar ainda mais contra a pilastra e empalidecer.
Medo...
Arrependimento...
As obsidianas azuis de Milo adquiriram um tom mais escuro, quase pretos, chispavam fúria incontida como brasas vivas bruxuleantes, ele parecia fora de si, como um felino possuído. Ele travou o maxilar tornando suas feições endurecidas, aterradoras.
Fiquei feliz por me encontrar numa distancia relativamente segura de seu alcance. Quer dizer! Melhor para minha saúde. Obvio que na pior da hipóteses fugir sempre seria um bom segundo plano, droga, deve ter uma saída de emergência em algum lugar pelos fundos, eu acho, ou pelo menos uma janela.
Sobressaltei-me sentindo o coração pular pela boca quando ele deu uma última tragada no cigarro e jogou a bituca incandescente no chão esmagando-o com a sola do sapato, antes de se virar para mim com um sorriso doentio, destoando crueldade, e tão traiçoeiro como de uma cobra emboscando á lebre.
Senti a garganta ficar seca e olhei-o paralisado com olhos esbugalhados.
Eu estava fodido....
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