O Enigma de Delfos
5 Capítulo 5 - As runas mostram o caminho
O conselho fora reunido às pressas como a muito não se fazia. Os chefes dos chalés reunidos na sala de estar espaçosa e bem iluminada. Charmosas poltronas de couro legítimo, tapetes persas com lindos desenhos e quadros de pinturas bucólicas da Grécia antiga davam ao lugar um ar atemporal e clássico ao mesmo tempo, como se tivesse saído de algum hotel antigo que sobreviveu à ação das eras.
Numa pequena mesa de centro repousava a causa de toda essa bagunça. Uma esfera prateada, do tamanho de um maçã grande, que até pouco tempo atrás fazia parte de um touro de bronze, que os campistas do chalé de Hefestos achavam que podiam converter em algum guardião para o santuário. Ele seria só mais uma peça, não fosse a projeção holográfica que ele manifestou horas antes, conclamando a todos para mais uma profecia, dessas de levar o mundo à destruição.
Nathália bufava de impaciência enquanto os chefes do chalé de Atenas e de Hefesto manipulavam aquela coisa, tentando trazer à projeção de volta. Mas BêPê e Tânia já tinham tentado de tudo e nada da esfera funcionar.
— Ah, eu desisto! — Disse Tânia finalmente, jogando uma chave de fenda no chão como se fosse uma imprecação. — Já tentamos de tudo e nada dessa droga de esfera voltar a transmitir a sua mensagem.
— Acho que é a hora e darmos um passo para trás e observar o problema de outros ângulos — Sentenciou BêPê, o rosto cansado torcido pela sensação de fracasso. — Podemos explorar outras opções enquanto pensamos em como fazer essa coisa funcionar. Podemos enumerar o que fizemos até agora e ver se não deixamos passar nada.
— Bom, a primeira coisa que fizemos foi chamar a Oráculo. Ela deu seu espetáculo, mas não conseguiu tirar nada da situação. É como se os deuses não soubessem de nada do que está acontecendo — Comentou Nathália, deixando que a espinha se arrepiasse ao se lembrar da dança do Oráculo para entrar em transe e se conectar com a névoa, a fim de ter alguma iluminação dos deuses. A Oráculo, popularmente conhecida como a irmã da Dra. Cassandra, tinha envelhecido mal nos últimos cinco anos, como se a vida estivesse sendo sugada dela por um canudinho. Ela estava mais magra do que nunca e sua pele se enrugara de um jeito… bom melhor nem pensar a respeito.
— Depois corremos com as mensagens do arco-íris. — Declarou Tânia — A Rainha das Harpias respondeu prontamente a nosso chamado e pôs sua rede de informantes para pesquisar alguma coisa sobre isso. Mas isso já faz horas e nenhuma resposta das harpias. Ou elas não sabem…
— Ou alguém pagou mais caro para que ficassem com seus bicos calados. — A voz ressentida vinha de um rapazote que Jade não conhecia, mas a julgar pela armadura de batalha completa que usava só podia ser o vice-chefe do Chalé de Ares. Apesar de ressentida, a voz do rapaz tinha lá seu fundo de sabedoria. As harpias eram historicamente inimigas dos semideuses: a trégua quando Eric salvou a filha da rainha das Harpias das garras de Mormo já durava cinco anos e dava sinais de fraqueza aqui e ali.
— Não temos razão alguma para duvidar das boas intenções da rainha Ocípete. — Resumiu Amanda, distribuindo pães de morango recém-assados. A filha de Deméter tinha se especializado em pães muito saborosos nos últimos anos. Alguns com propriedades mágicas, e outros tão gostosos que eram trocados por dracmas de ouro. Uma de suas receitas, o pão de besouros com calda de bordo, fazia sucesso demais com as harpias. Havia quem acreditasse que eram esses pães que mantinham a trégua entre os semideuses e as harpias e não um louvável salvamento de anos atrás.
— Então não temos nada! — Desabafou o rapazote de armadura, soltando o corpo pesadamente sobre uma poltrona de couro vermelho com grossas pernas que imitavam as patas majestosas de um leão. Ele agarrou uma lata de energético e bebeu copiosamente, deixando um fio do líquido de taurina escorrer pelo queixo indo morrer na camiseta que ficava embaixo do seu peitoral da armadura. Quando ele terminou, sentiu a mão de Nathália confortá-lo.
— Calma Paulo. — Disse ela num tom firme e sereno — Já estive exatamente onde você está, e sei, por experiência própria, que não adianta mesmo se exasperar. Não dá para socar um inimigo que a gente não conhece, como não podemos montar um quebra-cabeças no escuro. Vamos esperar que a luz nos iluminar.
— Palavras bem doces… Mas que não vão nos ajudar em nada. — A voz veio do outro lado do salão. Pedro, o filho de Apolo e líder do seu chalé estava se servindo de um copo de refrigerante de uva. — Acho que precisamos consultar o Oráculo mais uma vez.
— Mas já fizemos isso e não deu em nada. — Respondeu Tânia.
— Vai ver a Dona Cassiopéia não tenha se esforçado o bastante. Ela está velha. Talvez precisemos de um novo Oráculo. Alguém mais jovem e que more nas dependências deste acampamento. — Disse o menino de cabelos encaracolados que tempos atrás Nathália se referiu como um anjo.
— Acho que podemos tentar algo diferente… — Disse Jade levantando-se da poltrona que estava e esticando as costas, fazendo o barrigão inflar um pouco mais. — Os deuses do norte têm uma deusa, Freya, que cuida das profecias. Ela nos ensinou a ler o mundo de outra forma, usando as runas. Há dois anos que eu estudo as runas nórdicas. Elas já nos deram orientação antes.
Nathália fez uma careta e antes que pudesse dizer alguma coisa foi impedida por Verônica.
— Manda brasa, Jade. Eu, como caçadora de Ártemis, já vi muita coisa nessa vida. Se puder servir para nos dar uma luz neste momento de escuridão, vá em frente.
Jade assentiu, buscando consentimento em Nathália. A amiga esboçou um sorriso titubeante. Foi o que Jade precisou.
A jovem moça foi até uma das mesas e começou a esvaziá-la. Ju e Haru correram para ajudar. Só então Nathália percebeu que as duas meninas estavam ali. Não tinham largado do lado de Jade e se mantinham como suas sombras protetoras. Jade tirou da cintura um lenço branco e estendeu com calma sobre a mesa, alisando seu tecido com muita paciência. Quando julgou que estava liso o bastante tirou uma bolsinha de couro de um dos bolsos. Eram peças feitas de biscuit, do tamanho de uma peça de dominó, com desenhos estranhos. Ela esvaziou o saco sobre a mesa, virando todas as peças para baixo.
— Odin, pai do saber… rogo que permita que tenhamos um pouco do teu conhecimento. — Dizia ela enquanto embaralhava as runas sobre a mesa. — Ela olhou para Nathália e continuou — Temos direito a três perguntas. Cada runa representa uma letra e um deus. Eles vão interferir na nossa profecia. O primeiro Aett responde sobre o nosso passado; o segundo Aett sobre o presente e o terceiro Aett sobre o futuro. Alguém tem que perguntar enquanto eu me conecto com o espírito de Freya.
Nathália olhou fixamente para Pedro, BêPê e Tânia e sentenciou:
— Pensem nas perguntas que vamos fazer. Sejam espertos e rápidos. Não temos muito tempo.
Os três se juntaram como se fossem membros de um time de futebol americano que planeja a última jogada nos segundos finais do campeonato. Jade continuava embaralhando as peças. Finalmente ela abriu os olhos:
— Estou pronta. Buscador venha a frente, diga seu nome e pleiteie sua pergunta! — Jade solenemente dividiu as peças em três grupos de de oito peças cada. Puxou o primeiro grupo de oito peças e falou. — O primeiro Aett é regido por Frey e Freyja, os irmãos gêmeos advindos da raça Vanir, Deuses da fertilidade. As primeiras oito runas do alfabeto traduzem os assuntos materiais e definem o que o buscador deve adquirir em sua jornada!
— Eu sou BêPê, filha de Atenas, a deusa da sabedoria e do conhecimento. Quero saber quem criou essa profecia e por que ela estava dentro de um touro de bronze? — Perguntou BêPê.
Jade passou os dedos pelas peças e sacou uma, virando-a em seguida. Repetiu o procedimento mais duas vezes até que tinha três runas viradas para BêPê.
— Fehu, o Gado, invertido; Ansuz, as palavras de Odin; Raidho, a Carruagem, invertida. Impasses e derrotas, um aviso de Odin, e por fim, rompimentos e fracassos.
— E o que significa? — Perguntou BêPê, ainda mais confusa. — Achei que tinha feito a pergunta de forma bastante clara.
— E fez… — Respondeu Jade. — E as runas responderam. Fehu é o gado. Representa riquezas materiais e vitórias. Isso indica que o criador da esfera era um servo dos deuses. Um Oráculo. Um filho ou filha de Apolo ou Hefesto. Mas está invertido, o que significa que ele falhou em sua missão e foi derrotado. O criador dessa esfera com certeza era um meio sangue como nós, mas que fracassou em algo importante. Ansuz é a segunda runa da profecia. Sabedoria, inspiração de Odin. Ouvir bons conselhos. Ele está nos avisando. E finalmente Rhaido, invertido. A carruagem.
— Pode significar a tal flecha de fogo, seja lá o que ela seja de verdade… — Comentou BêPê.
— Mas tem mais. Rhaido pode indicar rompimentos, e caminhos desagradáveis. Como essa peça chegou até aqui? — Perguntou Jade, olhando para Tânia.
— Eu teria que olhar os meus registros de compras. — Comentou Tânia, puxando um celular e digitando algumas coisas nele. As pessoas esperaram em silêncio enquanto ela olhava para a tela e finalmente ela comentou…- Gente, vai demorar um pouquinho…
— Podemos fazer a segunda pergunta. — Sentenciou Nathália.
— Estou pronta. Buscador venha a frente, diga seu nome e pleiteie sua pergunta! — Jade repetiu-se, puxando um segundo conjunto de oito peças. — O segundo Aett, regido pelos Deuses guardiões Heimdall e Modgud, revela os assuntos emocionais (os conflitos subjetivos), os desafios enfrentados para a sobrevivência e os caminhos para a vitória.
— Eu sou Pedro, filho da casa de Ares. Como vamos poder encontrar os semideuses para cumprir essa profecia e nos trazer a vitória?
Jade sacou mais três pedras e as virou para Pedro.
— Nauthiz invertido; Isa e Eihwaz. A Necessidade invertida: autocontrole e serenidade: o Gelo: concentração, paciência e equilíbrio; e Teixo: proteção, fim de um ciclo, começo de outro. Recomeço.
— Poderia elaborar um pouco mais? — Pediu Pedro.
— Claro. Ao que tudo indica a esfera escolherá seus campeões. Isso não cabe a nós. Veja essa runa: Isa. Eu já vi escrita no cabo de muitas espadas. Ela tem um significado de que o aço é frio e certeiro.
— Mas a pena é mais poderosa que a espada, não é mesmo? — Questionou BêPê.
— "Uma caneta não é mais poderosa que uma espada. Penas não lutam, nem espadas fazem poesia. Poderosa é a mão que sabe quando pegar a caneta, ou pegar a espada." — Respondeu Ju, interrompendo a conversa dos mais graduados, finalmente.
— A filha de Hefesto tem razão. — Comentou o líder do Chalé de Hermes. Ele se parecia com uma versão mais baixinho e gorducho do Eric, pensou Jade.
— Então, nos resta a terceira pergunta… — Comentou Jade. — O terceiro, e último Aett, regido pelas divindades ancestrais Tyr e Ziza, nos remete a assuntos da nossa natureza mental e espiritual, revelando-nos a jornada final – transitando por aquilo que nos define enquanto seres divinos – para alcançar a ascensão. As runas que compõem este Aett e nos mostram, enfim, o nosso grande objetivo na jornada de ascensão espiritual. Buscador venha a frente, diga seu nome e pleiteie sua pergunta!
— Eu sou Tânia, filha de Hefesto. A minha pergunta é: como podemos ajudar os escolhidos?
Jade sacou mais três pedras e as mostrou para Tânia, virando uma de cada vez.
— Ehwaz invertido, Mannaz e Othila. O cavalo invertido diz que devemos confiar na escolha e não interferir. Confiar e não agir. O homem nos diz que devemos ser íntegros, ter fé e clareza. E finalmente a herança nos fala de lugares distantes, de domínio e de sabedoria ancestral. Então, até onde eu posso ver, devemos confiar que os escolhidos da esfera podem cumprir a profecia a nosso favor. Não devemos interferir muito e devemos dar a eles os recursos para que realizem suas missões.
— Maravilha. E como vamos achar esses escohidos?
— Tragam todos os campistas e organizem uma fila. Cada um de nós deve tocar na esfera e revelar se sentir algo de diferente. — Ordenou Nathália.
— E para onde vamos mandar esses escolhidos?
— Eu acho que já sei… — Respondeu Tânia depois de olhar demoradamente para a tela do seu celular.
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