O Enigma de Delfos

6 Capítulo 6 - Filas e escolhas


A ideia de colocar todos os campistas em fila e pedir que segurassem a esfera por um minuto ou dois é mais fácil de planejar do que executar. Com quase 120 campistas ao todo, a fila estava demorando mais do que deveria. Jade observava curiosa e paciente as pessoas se alinharem na fila, a dois metros de distância um do outro. Assinavam um livro de presença e depois adentravam no salão comunal e sob os olhos atentos de Nathália e Verônica. As primeiras trintas pessoas foram cheias de tensão. Mas depois o que se teve foi apenas decepção: ninguém da casa de Ares tinha sido selecionado, nem da casa de Deméter. O primeiro escolhido veio da casa de Apolo.

— Ady Jussara… — Comentou solenemente Verônica quando a esfera brilhou no contato com suas mãos.

— Por que eu não fico surpresa? — Perguntou Jade, como se soubesse de alguma coisa a mais.

— Não me surpreende também. — Confessou Nathália. — Sou capaz de apostar que teremos um filho de Hefesto nessa missão também.

Dito e feito, Ju foi a única escolhida do chalé de Apolo. Durante muitos minutos ela foi o alvo de inveja dos meninos do chalé de Ares. Mas logo essa inveja deu lugar a um alívio. Uma coisa era sair em missão e outra coisa era ter o peso da existência do Olimpo depositada nas suas costas. Logo a fila continuou andando e Haru foi a única representante da casa de Hefesto. Os testes foram suspensos para que o almoço fosse servido. O salão foi separado entre testados e não testados.

— Tem certeza dessa localização, Tânia? — Perguntou BêPê, dando mais uma garfada em seu macarrão com molho bolonhesa.

— Claro. tenho tanta certeza quanto se pode ter. Veja esses números de série. Eles parecem só um monte de letras e números, certo? Pois bem: os números e letras indicam muita coisa. Esses aqui indicam a data de fabricação, esses aqui indicam a validade, esses aqui indicam o lote… mas são esses aqui que interessam: local de fabricação. DFRA2. Distrito Federal, Região Administrativa II: a cidade do Gama.

— A cidade do Gama tem um histórico de influência dos deuses. É lá que mora o professor Roberto, o filho de Hades. Lá também tem um elevador que leva direto a costa da Grécia no hotel Syros. O próprio campus da UnB tem um bolsão dimensional dentro de suas dependências. Não me espantaria se houvesse uma fábrica de autômatos lá. — Comentou Jade que comia um carré de cordeiro mal passado com uma pilha de legumes salteados na manteiga. Ela evitava o vinho, apesar de ter idade legal para beber. Em seu lugar bebericava suco de uva natural.

— Sim… você pode dizer o que quiser das harpias, mas elas são muito organizadas. Quando alguma coisa não tem um número de série ou um registro, elas o fazem e guardam. Com certos itens, como armas, eles têm uma cadeia dominial guardada, com registros que remontam a centenas de anos.

— E quanto ao resto da profecia? Conseguimos alguma coisa? — Perguntou Pedro.

— Nada. Não fosse pela leitura de runas da Jade ainda estaríamos batendo cabeça por aí. — Comentou Nathália.

Após o almoço o dia de testes seguiu o seu rumo. Pouco antes das três da tarde a esfera fez mais um escolhido: um filho de Afrodite. Pouco antes do jantar mais um escolhido: uma filha de Zeus.

— Temos filhos de Zeus no santuário? Achei que fossem raros. Os filhos dos três grandes deveriam ser raros. — Comentou Jade.

— E são… — Respondeu BêPê que tinha passado a tarde ao seu lado. Os líderes dos chalés estavam se revezando na tarefa de cuidar de Jade enquanto tocavam as suas vidas. — Enquanto que o Chalé com mais filhos é o de Hermes, temos outros com apenas dois ou três… às vezes nenhum por muito tempo, como é o caso do Chalé de Astréia e alguns que vão ser para sempre vazios, como é o caso do Chalé de Hera. Depois daquela confusão de dez anos atrás muita coisa mudou no Santuário. Muita coisa mudou para melhor.

— O que pode me dizer dos outros dois escolhidos?

— São campistas mais capacitados que as duas primeiras, com certeza. Vamos falar primeiro da casa de Afrodite. O nome dele é Saulo “Sal” e está conosco há dois anos. Não é o típico membro da casa de Afrodite.

— Como assim? — Indagou Jade.

— Ele não é exatamente bonito e nem sedutor. Mas é muito charmoso quando quer. Outra coisa: é o menos galinha da casa de Afrodite…. — Comentou BêPê baixando a voz. Não era de bom tom que uma líder de Chalé dissesse o que todo mundo já sabia ou já acreditava: que os filhos de Afrodite eram um bando de devassos desavergonhados. Jade sabia quanto dano um filho de Afrodite poderia causar… — O outro é uma filha de Zeus. A mais jovem da casa de Zeus. Seu nome é Giovanna. “Gio”. Mas ela parece mais uma filha de Atenas que de Zeus. Vive com a cara enfiada nos livros. Nenhum dos quatro viu muita ação…

Jade observava a crise do Santuário desenrolar na frente de seus olhos sem ter como ajudar ainda mais. Está certo que ela foi a responsável pela leitura das runas, mas queria fazer mais pelos meninos que iam sair em missão.

Pediu que BêPê a acompanhasse até o lago. As duas continuaram conversando até que chegaram até o lago. Era um lago artificial, feio no década de 50. Tinha um formato semicircular e na sua margem direita ficava o fundo de alguns chalés. Jade continuou seguindo a margem, ignorando a casa de Astréia. Mais de vinte minutos de caminhada até que as duas alcançaram o outro lado.

— Pode me emprestar um dracma? -Perguntou diretamente Jade.

— Claro… — Respondeu BêPê. — Sobraram algumas da minha última missão. — A filha de Atenas enfiou a mão no bolso da calça legg e sacou uma bolsinha de couro preta, com uma linda coruja desenhada de prata na sua lateral. Abriu e tirou uma linda dracma de ouro dentro, entregando a seguir para Jade.

— Obrigado… — Respondeu a jovem ao receber a moeda em mãos. Ela apertou a moeda enquanto sussurrava. Por fim, cuspiu na moeda e a arremessou na água, com força. — Njord, pai dos Vanir, aceita meu presente e confere àqueles que vão empreender perigosa missão a sua proteção.

BêPê observava tudo com um misto de espanto e curiosidade. Que coragem da amiga invocar um deus vanir ali, ainda mais com a oferenda de uma dracma de ouro. A dracma quicou duas vezes na água e quicaria uma terceira vez se uma mão recém saída da água a agarrasse. BêPê mal pode conter o grito de espanto quando a mão ergue-se das águas do lago, revelando com ele um drakkar viking.

— Salve filha de Baldur! Imagino que seja para você a bênção que busca? — A figura era diferente de tudo o que BêPê tinha visto. Apesar de estar vestida como um viking, não tinha elmo com chifres e nem barba comprida. Aliás tinha feições andróginas. Olhando bem, não tinha como saber se estava diante de um deus ou de uma deusa.

— Olá vovô… — Disse Jade enfiando os pés nas águas do lago. — Essa é a minha amiga BêPê. Alguns jovens vão empreender uma perigosa viagem e eu queria aliviar seu fardo. Como pode ver, não estou em condições de viajar e de me aventurar. Poderia me dar algo que os ajudasse?

A figura andrógina olhou a dracma dourada nas mãos e a colocou no bolso. Depois, com um sorriso largo, sacou do cinto três pedaços de osso, unidos por um barbante rosa. Ele jogou a estranha peça para Jade.

— Esses são os ossos de Snaer. Ou alguns deles, pelo menos. Enquanto estão unidos pelo cordame são inofensivos, mas uma vez separados vão congelar tudo o que tocarem e desaparecer em seguida. Um guerreiro esperto terá usos intrigantes para essa peça.

— Obrigada vovô.

— Mais uma coisa: se seus amigos perderem-se na floresta, mande que risquem a runa de Skadi numa árvore. A ajuda chegará em breve. Agora, deixe-me ir.

BêPê e Jade observaram a figura submergir no lago e puseram-se em marcha para o santuário. Poucos minutos depois, BêPê comentou:

— Quer dizer que dá para comprar favores dos deuses com ouro?

— Deus do comércio e da fertilidade, minha filha… — Respondeu Jade, rindo.

— E eu que joguei sem pay to win esse tempo todo.

Ao longe um trovão estourou. Era um aviso. Um presságio. Do pior tipo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.