O Enigma da Escola de Música
1 Prelúdio Crepuscular
Era um tranquilo fim de tarde, um daqueles momentos em que o horário de trabalho oficial ainda não havia acabado, de modo que os menos ocupados tinham um breve cenário do céu tingido no começo do crepúsculo. O céu alaranjado, o sol preparando-se para repousar depois de um pesado dia de serviço na cidade onde encontra sua noiva: nessa hora ele gostava de ir não para casa, mas, antes, para um barzinho. Um longo dia de serviço ocioso (pois o sol ficava lá, mas sem fazer nada além de focar-nos) pedia um momento de romance. E todos merecem um romance, mesmo o sol. Em um desses barzinhos de semi-desocupados estava um grupo a tagarelar alegremente.
— Eu estou dizendo! — Bradou o mais agitado do grupo. — Não adianta confiar nas pessoas!
— Não é assim, Léo! — Respondeu manhosamente, quase miando, uma jovem de cabelos ondulados. — Ele vem, sim!
— Você só diz isso porque gosta dele. — Contra-atacou Léo, impassível. — Esqueça ele e vamos ao que interessa. Ô, campeão! — chamou o garçom, assinalando com a mão esquerda, enquanto a direita se aproximava de uma terceira pessoa ao seu lado. — Traz uma cervejinha pra começar.
A garota pousou a bolsa no colo e juntou as mãos sobre a mesa onde estavam sentados, encarando com dois triângulos como sobrancelhas e uma linha reta e miúda, a somar os lábios carnosos. Eram três pessoas sentadas em torno de uma mesa à espera de saborear o amarelo do sol e da cerveja, de preferência refrescantes e com espuma. A juventude ainda em flor e brilho.
A mesa e as cadeiras eram de plástico, revezando entre cores vermelhas e amarelas, como era habitual e estratégico. O barzinho, o chamado “bar do filho da mãe”, derivado de um outro bar, da mãe do tal filho, era um antiga casa que já há vários anos havia cedido sua entrada e instalado grades no lugar da parede para que servisse de fonte de renda. Era um local bem escolhido: ficava próximo à maior universidade da cidade, e também quase ao lado de uma parada do ônibus que circulava em torno. Jovens adultos estressados após adquirir conhecimento sobre problemas de terceiro grau, o local exato para um pouso a fim de refrescar a temperatura antes de subir de volta à cidade. A universidade ficava próximo do nível do mar, em um lugar central, de modo que ficava como que em uma depressão a qual os jovens desciam e subiam de volta para a vida comum. Entre a rua principal, uma rodovia federal próxima de shoppings importantes, e a universidade, havia uma igreja, o bar e a entrada propriamente dita do campus. Estavam, portanto, nessa rua transversal conversando e aguardando a cerveja.
— Aqui, meu patrão! — disse o garçom, e depositou a garrafa na mesa, seguida de 3 copos de vidro que trazia habilmente nas mãos. Abriu ruidosamente a garrafa e recuou.
— Não tem nada bom nessa TV? — Léo referia-se ao televisor que ficava no canto do bar, presa na parede junto ao teto, visível para todas as mesas e, claro, para o guichê de atendimento. — Só estão falando dos protestos ultimamente. Está em todo lugar.
— Nem aqui dá para ter um pouco de paz? — perguntou a menina de cabelos cacheados.
— Só há vocês aqui, eu posso desligar se preferirem.
Léo acenou com a cabeça. O garçom desligou a TV. Aquela tarde estava com pouco movimento: além dessa mesa, apenas uma outra com um rapaz que tomava uma Coca-Cola enquanto mexia em um livro, concentrado.
— Então, Marcela. Não vai falar nada hoje?
Era a terceira pessoa à mesa. Ela deu um pulinho, como se tivesse sido reiniciada abruptamente, e em seguida seu rosto começou a ganhar vida. Até então estava como que uma boneca de cera, inanimada. Branquinha, as faces ruborizaram, dando-lhe um aspecto efetivamente romântico e encantador.
— E-eu… eu não bebo.
— Não faz mal, esse copo fica pro Marcos, então! — completou Léo — Ou então para algum fantasma que queira beber. Até eles bebem, sabia?
— Leonardo, não seja duro com ela!
— Mas se a graça é essa? — riu, tão cheio de vida, que a admoestadora riu junto. Marcela ruborizou um pouco mais.
A menina pálida colocou uma das mãos sobre a mesa, enquanto a outra estava sobre o colo, recatadamente. A mão tinha um anel de pureza, “Eu escolhi esperar”.
— Os dois parecem se dar muito bem…
Léo poderia jurar que sentira uma pontada de ciúmes no tom da voz da menina — voz essa, por sua vez, igualmente pálida. Não conseguiu conter um sorriso maroto.
— É… bom… — Júlia mexeu no brinco, um tanto nervosa. — Eu e o Léo nos conhecemos no curso de CET, faz pouco mais de um ano. E também ele às vezes frequenta a iniciativa de apoio a animais de que sou parte, então...
— Sim — disse a voz pálida. — Estou feliz que viemos juntos.
Quando ficava nervosa, Júlia costumava mexer no brinco. Era o que estava fazendo neste momento. Estava com um brinco simples e discreto de um lado, mas com um maior, com um apanhador de sonhos e algumas penas pequenas e coloridas no outro, no lado oposto em que jogava seus cabelos. Era desses brincos que se fazia ou comprava dos chamados “vendedores de arte na praia”, universitários ou não, que faziam um artesanato simples para complementar a renda. Júlia gostava, e comprava alguns deles. Nesse momento, mexia nele.
— Ela está nervosa porque quer falar com o Marcos — sussurrou Leonardo no ouvido de Marcela, que tremelicou automaticamente.
— Pára, Léo. Ele está atrasado, e preciso resolver um assunto com ele. Além disso… — fez menção de dizer algo enquanto olhava pros dois, vendo Leonardo com o braço cada vez mais à vontade avançando pelas costas de Marcela. — Além disso… Eu bebo. E ainda não provei uma gota hoje.
Leonardo fez as honras: despejou a cerveja primeiro no copo da amiga, depois no dele. Por fim, não esqueceu do copo da convidada.
— M-mas eu… — tentou protestar.
— Calma, é só para não fazer feio pro garçom. Ele veio até aqui nos deixar, temos que pelo menos fingir que estamos nos divertindo juntos, não acha?
— B-bom…
— Você fala bem mesmo — comentou, quase para si, Júlia, não sem seu sorriso carnudo. — Mulher, você é muito pálida — achegou-se, esticando a mão e colocando a própria comparada. — Eu sou morena clara, e, desculpe, mas sou atrevida mesmo. Mas você é incrível! Parece até exangue. Uma fantasminha – riu.
— Ei, Júlia, menos! — Defendeu Léo ensaiadamente. — Ela já está nervosa, assim você vai deixá-la mais ansiosa ainda.
Júlia riu: “mas é verdade!” Marcela era quase o oposto de Júlia: tinha o corpo magrinho, fininho, peitos pequenos, mas ainda perceptíveis por baixo de uma blusa folgada e uma calça longa também folgada. Em normal gostava de usar daquelas saias longas de mulheres que prezam pela moral e bons costumes, mas naquela manhã sabia para onde iria, então decidiu arriscar com o que para ela era uma roupa arriscadíssima. Sonhava em conhecer o varão do resto da sua vida. Carregava consigo uma bolsa rósea pequena que continha, se muito, um caderno, um livro e uma Bíblia, lápis e um ou outro apetrecho feminino a mais.
— Ela é muito mimosinha! Dá vontade de apertar as bochechas, mas ao mesmo tempo dá medo, porque podem ser de porcelana e quebrar.
— Amarelo cura, minhas amigas! Amar, elo cura! — falou Léo, diplomaticamente. Era seu lema.
Júlia riu do esboço de confusão no rosto apático de Marcela diante de seu amigo excêntrico, e tomou uns goles da cerveja. Leonardo a acompanhou. Marcela continuou à espera, sabe-se lá de quê.
— Estão falando do quê? — perguntou uma voz ofegante.
— M-Marcos! Você por aqui! Pensei que tinha desistido de aparecer.
O visitante olhou em volta e cumprimentou os dois outros presentes na mesa. Em seguida, direcionou-se de volta para Júlia.
— Eu, é... na verdade só passei aqui porque tinha prometido, mas, na verdade, queria ir na cantina. Se não for problema.
— Pra que a pressa, Marcos? — perguntou Léo, abrindo os braços, convidativo. — Está tão a fim assim de ficar a sós com a Júlia? Bebe um pouco com a gente.
Marcos direcionou-se para Leonardo, e os olhos se encontraram por um momento. Ele parecia mais branco, pensaria Marcos. Estava especialmente arrumado com sua famosa regata branca com listras azuis, calção tactel até os joelhos, cabelo loiro penteado, corrente de prata, olhos azuis penetrantes. Marcos desviou o olhar.
— Daqui a pouco eu quero ir numa aula, e... eu, bom, eu quero entrar nela, na verdade. Não é nem do meu curso.
— Assim você não avança, Marcos — admoestou Júlia. Em seguida, puxou da sua bolsa um celular Motorola V3, em que viu as horas, e logo o guardou. — Mas, então vamos.
Marcela tentou protestar, se é que ela sabia fazer tal coisa, mas Júlia e Leonardo lhe olharam com reconforto e segurança. A bonequinha de porcelana então tranquilizou-se e, em todo caso, já conhecia Leonardo há algum tempo e confiava nele.
Marcos se despediu, Júlia lançou um último olhar de amiga aos dois que permaneciam no bar. Em seguida, pegou sua bolsa, colocou-a junto ao ombro direito e acompanhou Marcos na caminhada.
— Não se esqueçam do evento de amanhã que combinamos! — gritou por sobre os ombros de Marcela o rapaz.
Começaram a descer pela rua ate que Júlia se precipitou diante do silêncio constrangido do amigo.
— Você está muito ofegante! Veio à pé, foi, menino?
— Bom, foi!
Júlia sorriu, não sem a costumeira descrença diante do amigo. Entre Leonardo e Marcos, a excentricidade os unia, mas eram opostos em personalidade: Marcos, calmo, em tudo indeciso, mas generoso dentro dos seus limites; Leonardo, mais ativo e altivo, era um realizador nato das ambições. Marcos era um bicho-preguiça; Leonardo, um tipo de leão ou onça. Tivesse nascido em outra cidade que não a sua, atacada ferozmente pelo sol, teria ele sido um desses grandes empresários ou realizadores. Seu destino o fez nascer na noiva do sol, que sofria de assédios do marido. Dizia-se que o sol tropical despertava os instintos carnais do povo — o Sol da cidade, contudo, não fosse a amenizadora brisa marítima, cozinharia a todos em banho-maria, retirando, portanto, muita da iniciativa, mesmo para o instinto.
Imperceptivelmente o sol fazia sua aparente passagem, e de chofre nascia a noite.
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