O Enigma da Escola de Música

2 II: Noturno ao Anoitecer do Campus


A lua já estava no céu há um bom tempo, mas só agora, aos poucos, perdia a timidez e começava a anunciar seu brilho madrepérola.

— Escuta – perguntou Marcos, após um tempo em que caminhavam em silêncio ofegante –, que é evento é esse mesmo de amanhã?

— Aah, sim – lembrou Júlia, mexendo de leve no pequeno brinco, branco como a lua. — É que eu faço parte de um grupo de proteção de animais, você sabe, né?

— Sim, você já me disse, mas, pensando agora, acho que nunca soube muito sobre ele.

— É que deve ser um assunto muito chato, então eu evito falar. — Júlia falou.

— Mas então…? — insistiu Marcos.

Os dois já haviam entrado no campus e se aproximavam da cantina em que frequentemente conversavam juntos antes das aulas. O vento de inspiração marítima soprava, as tardinhas e as noites eram frias no campus, as luzes ainda não haviam sido acesas. Caminhavam lado a lado, Marcos do lado da rua. Como de praxe, alguns carros circulavam dentro do campus, e devem ter visto um ou outro ônibus circular, a linha gratuita que roda pelo campus pelo caminho contrário a que vieram, e segue até a rua principal da cidade, onde retorna para a parte mais distante da universidade. Poucas pessoas faziam o percurso a pé, menos pela distância do que pelo medo dela, seja pela sua projeção imaginária, seja pelo medo de assaltos – na prática, o campus era o lugar menos arriscado da cidade nubente.

— Calma, antes de falar disso – apressou-se Júlia – olha só isto aqui – ela apontou para o terreno ao lado, extenso, cheio de gramas selvagens e algumas plantas.

— Bom, sim…?

— Ah, você não deve gostar dessas coisas, mas olha só. Está vendo esta florzinha? — Marcos reduziu um pouco a velocidade e olhou por sobre os ombros da amiga. — O nome dela é xanana. Dizem que é a flor símbolo da nossa cidade. Eu nunca tinha prestado atenção em uma de noite.

— Mas o que é que tem ela de noite? — Marcos costumava se interessar fácil por qualquer assunto.

— É que ela é uma flor do dia. Eu não sei te dizer porque escolheram ela, deve ser porque tem muitas em toda parte, mas ela é como se fosse para nós um reflexo do sol. De noite ficam apagadinhas, coitadas, mas são um charme.

— Combinam com o seu brinco.

Marcos era desajeitado, e não foi desta vez que fez atos harmônicos. Na verdade, sequer entendia por que tomaria tais decisões. Quem os visse, o tomaria como um casal de início de relacionamento, e jovens, porque apaixonados. Mas a única coisa que houve foi Marcos, por um simples impulso de curiosidade, puxando uma das flores do solo e colocando-o no lado em que Júlia tinha seu pequeno brinco, junto a seus cabelos volumosos. A jovem corou um pouco: apesar de sempre destemida, não deixava de ser o que era de fato: uma menina.

— É mesmo uma boa escolha – disfarçou – se tivesse posto no mesmo lado do brinco de penas ficaria muita informação, não acha?

Marcos riu, “eu não entendo nada dessas coisas”. Júlia percebeu que o amigo fora apenas o que sempre fora: o Marcos. E por isso mesmo não conseguiu evitar um riso, ainda que tenha tentado.

— Bom, então, não vai me contar do que se trata?

— Você é muito chato, sabia? — Júlia deixou a flor onde estava, mas mexeu um pouco nas pontas dos cabelos. — Tá bem, eu conto. É que esse grupo frequentemente se reúne. Geralmente para discutir estratégias: marcar eventos para receber doações ou vender coisas no bazar, oferecer os animaizinhos para adoção, quando podemos também tentamos castrá-los. Sabe?

— Que legal! — exclamou o rapaz.

— Então… É…

— Por que tanta cautela para contar?

Júlia desviou um pouco o rosto para não encontrar-se com a expressão inquisitiva do amigo. Mas respirou um pouco mais fundo e foi sincera.

— Bom, é que temos várias pessoas no grupo, né? A Ema, a Mariana, o Túlio, o Léo, e...

— O Léo?

— Olha lá, eu sabia. Eu sabia!

— Mas o Léo gosta de bicho?

— Eu sei que você não gosta dele – admitiu Júlia –, mas ele é muito gente boa. Ele sempre vai nos encontros, e é quem mais move as pessoas lá para se mexerem.

— Eu não conheço o grupo, mas eu não duvidaria nada se na verdade fosse você essa pessoa. Só que você gosta tanto do Léo que enxerga nele o seu papel.

— Ai não, Marcos, não, para! É sério — Júlia assim disse, mas não conseguiu evitar um certo rubor pelo elogio, sabia que se empenhava muito pelo grupo. E continuou –, mas eu falo sério, o Léo é quase a alma do grupo. Nós já conseguimos lares para muitos animais abandonados. Mas eu também estava evitando falar porque amanhã não será uma reunião séria propriamente dito: nós marcamos um bate-papo mesmo com os membros. Encontros assim são bons pra manter as relações em dia e com elas o esforço conjunto.

— A menina lá do bar também faz parte? — perguntou, apesar de só ter visto rapidamente a fantasminha. — Ela parecia meio ansiosa.

— N-não, estava tudo bem. — Afirmou Júlia, após uma breve pausa. — É que ela paga algumas disciplinas com o Léo e ele quer chamá-la para participar do grupo. Então hoje eles iam conversar sobre isso para ter certeza se ela queria ir mesmo, e amanhã nos reuniremos.

Marcos deu de ombros. Júlia sabia que esse assunto não agradaria, então não insistiu, apenas ajustou mais uma ou outra vez na flor que recebera. Os dois caminharam por mais algum tempo com certo silêncio, interrompido aqui e ali por uma ou outra observação sobre provas, o cansaço do semestre que estava no fim, alguns professores. Marcos cursava então Ciência da Computação, sua área de preferência. No ano anterior, aventurara-se a tentar o curso das engenharias, Ciência e Tecnologia, por insistência dos pais em função de um bom desempenho econômico no futuro. Marcos nunca se interessou por engenharias em si, mas Engenharia da Computação poderia ser um bom modo de manter a tranquilidade dos pais e a sua própria. Ou assim pensara: o curso não o agradou, e, na verdade, a própria Matemática o enfastiou. Não que não gostasse, mas ao se imaginar passando um curso inteiro só vendo dessas coisas, sua curiosidade natural entediou-se e ele passou o semestre seguinte pagando disciplinas em cursos diferentes antes de tomar sua decisão. O que lucrara do curso foi sua determinação, uma das poucas na vida até então, de não fazer o tal curso fosse como fosse; também, foi lá onde conheceu Júlia (e para seu desprazer, Leonardo). Das poucas coisas de que não se arrependia na vida.

— Você acha que vai ficar mesmo em Jornalismo? — perguntou o rapaz.

— É o que quase todos dizem que eu combino mais – respondeu. — Sabe, porque eu gosto de entrar nas histórias dos outros e minuciar tudo. Dizem até que meu nariz é grande por causa disso.

Júlia esboçou um leve sorriso. Marcos soltou um rápido “não acho seu nariz grande, não”, o que a reconfortou (não que fosse sua intenção). A menina mostrou que, com exceção de seus pais, que queriam certamente que ela fizesse Medicina ou algum outro grande curso de prestígio, ela não sabia bem em que poderia se encaixar.

— Eu acho que você parece com Jornalismo mesmo, mas porque você é sempre a que mais se interessa pelas coisas. Mas também, bom, também parece que talvez combinasse com Biologia ou Veterinária.

Júlia sorriu, pensou um pouco, mexeu na flor que recebera, mas balançou a cabeça negativamente.

— Não, eu conheço pessoas que fizeram Biologia, não é bom de emprego, Marcos. E Veterinária… Eu não sei, mas o que eu sei é que eu quero tomar um cafezinho, porque não bebi cerveja o bastante, mas agora preciso acordar porque a vida continua.

Marcos riu. Também adorava café, era o traço em comum que os havia aproximado de início. Andaram mais um pouco; estavam chegando à cantina do Setor de Economia, vizinha ao Setor de Direito e ao prédio do Departamento de Comunicações, onde Júlia estudava. Já era noite e a lua brilhava madrepérola.

***

— O clima está ótimo para um cafezinho mesmo – começou Júlia, após terem pego cada um uma xícara pequena de café, ela também um bolo, Marcos um pastel.

Dos espaços do Campus, a cantina do Setor de Economia era possivelmente o mais bem enfeitado. O prédio brutalista ficava rodeado, de um lado, por um pequeno terreno gramado onde dava para o dito setor; do outro, havia um caramanchão embaixo do qual bancos em semicírculo em volta de uma mesa, todos de pedra esperavam pelos alunos que passeavam em volta. O caramanchão era rodeado por uma sebe podada que dava para uma pracinha, rodeada da mesma sebe, mas, por sua vez, pouco frequentada. As luzes da universidade já estavam acesas, mas, como eram fracas, criaram uma aura feérica, sitiada pelas brisas litorâneas. Era costume de Júlia e Marcos, como de muitos outros alunos, ocuparem as mesas após comprar um cafezinho, quem sabe sem nem mesmo consumir nada, e bater um papo entre as aulas, às vezes mesmo durante os horários, se fosse bom e se estendesse. A cantina ficava próxima de uma outra pracinha, contígua ao Setor de Economia, que cruzava o caminho entre o Setor de Direito e o prédio do Núcleo de Ciências Aplicadas (ou NCA, como é mais conhecido), com a biblioteca e as salas de administração e eventos para os alunos, em especial, de ambos os setores.

Júlia sentou-se, acomodou algumas mechas de cabelo, como era seu costume, no ombro, para ficar brincando enquanto conversava, e pegou a florzinha chanana, colocando-a no centro, mas sem soltá-la. Marcos, que demorou mais para comprar o café, sentou-se em seguida, no outro banco, ficando de frente para a amiga.

— Eu realmente acho muito mimosinha esta florzinha – começou Júlia. — Não acha?

— Você… ainda tem aula hoje? — perguntou Marcos.

— Ai, Marcos! Você, hein! — queixou-se. — Mas olha só! Meu menino chegou!

Marcos surpreendeu-se. De quem ela estava falando? Olhou em volta para ver se via algum rapaz. Algumas pessoas circulavam em volta, havia algumas sentadas nas demais mesas de pedra, mas não parecia ser a nenhuma delas que Júlia se referira. De repente, pensou em baixar o olhar, mas era tarde. Sentiu um vulto e uma leve rabada na cara, que não compreendeu de pronto.

— Mas o que…!!

Júlia riu. Um pelo prateado, que brilhava sob a fraca luz do caramanchão, aos poucos ganhou forma na frente do dois. Por pouco não derrubara o café de Marcos. Por pouco não: seus movimentos eram milimetricamente calculados. O gato saltara à mesa pela diagonal e estava com a cauda erguida, dava passos furtivos e majestosos como os de um dançarino profissional. Era pedinte o bichano: aproveitava-se de quem por lá passasse para ajudá-lo a completar seu turno.

— Você conhece esse gato?

— Claro, é o Vicu.

— Vicu?

— Separe as sílabas. — propôs Júlia, em seguida riu da expressão perplexa que Marcos fez. — Eu tenho costumo de dar nomes aos gatos, e esse apareceu por razões óbvias. Você deve entender.

— Como sabe que é o mesmo gato? Tem tantos aqui no Campus.

— Não com essa cor do pêlo. — E Júlia alisou o gato de patas furtivas, que ronronou de leve, faceiro, esfregando a cabeça nas mãos de Júlia. — E também, olha só os olhos dele.

Eles ajustaram a posição da comida para evitar que Vicu derrubasse alguma coisa. Em pouco tempo, ele olhou para Marcos. Eram olhos de âmbar, muito vivos, com a pupila bem fina. Era realmente marcante, pensou Marcos.

— Ele parece ter seus próprios hábitos. Mas como não ando muito pelo campus, só sei que gosta de aparecer pela noite aqui.

Marcos olhou para o gato e olhou para Júlia. Ela parecia muito mais empolgada, e, na verdade, parecia certamente querer abraçar-se ao gato ali mesmo e ficar brincando com ele, como uma criança. Era estranho vê-la assim, mas, ao mesmo tempo, Marcos gostou, sem saber bem do que em específico. Júlia ofereceu um pedaço do bolo para o gato e Marcos viu-se na necessidade de entregar um pouco do pastel como oferenda. Não na mesa: Júlia dera um pedaço na boca do bichano e o resto jogara no chão ao lado deles; o rapaz, apesar de ver a placa bem à sua frente avisando para não alimentar os animais, jogou também o seu pedaço de comida.

— Ai! A florzinha, ele pisoteou a coitada! Safado! — gritou com o gato, dando-lhe uma palmadinha, mas este continuava a comer como se nada tivesse acontecido.

Marcos esboçou um sorriso, não pelo fato, mas pelo modo exagerado com que Júlia o enunciara, e em seguida olhou para a hora no seu Nokia 3310. Júlia perguntou-lhe as horas. Já eram quase sete.

— Você ia ver uma aula, né? — perguntou Júlia. — Na verdade eu também tinha um evento no NCA por esse horário. Você vai?

Marcos estava ansioso pela experiência da aula. Não reparou no tom com que Júlia lhe fizera a pergunta, como era de praxe. Ela ajeitou o cabelo, a bolsa no ombro e pegou a derrubada xanana. Avisou que passaria no banheiro, e então cada um seguiria seu rumo. Marcos ofereceu-se para esperar por ela e deixá-la no NCA. Júlia sorriu, e foram juntos até o Setor de Economia, depois para o NCA, onde Marcos seguiu seu caminho, sozinho, satisfeito consigo mesmo.

Marcos, que costumava andar olhando para tudo, olhou também para o céu algumas vezes. A noite estava nublada, mas a lua brilhava madrepérola. Ao redor, seu brilho parecia rasgar o escuro do céu e formar-lhe ondas de luz, que vistos com os olhos bem atentos, pareciam formar fimbrias de arco-íris. O céu noturno aguardava, impávido, enquanto Marcos caminhava pelo Campus, até, mais tarde, voltar para casa, a pé, para melhor experimentar o cheiro e a brisa daquela noite.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.