Notas iniciais
Essa história é um Universo Alternativo ao nosso universo comum de fics! Esperamos que gostem!

We could be together

Every Day together

We could sit forever

As loving waves spill over

Era início de tarde, Saga se livrava em seus aposentos das pesadas roupas de Grande Mestre a fim de se encontrar com seu irmão Kanon para atualizá-lo dos planos que a Deusa tinha para eles.Rapidamente tomou uma ducha e se vestiu com o uniforme de treino do Santuário, deixou os cabelos loiros molhados caírem displicentemente pelas costas e seguiu seu rumo para a casa de Gêmeos, atual morada de Kanon, desde que assumira de volta o posto de Grande Mestre.

Kanon estava recostado em uma das janelas da casa de Gêmeos, tinha passado o dia melancólico, mas não conseguia compreender bem o motivo.O dia estava lindo, um cheiro de alecrim tomava a casa e lhe trazia lembranças antigas, coisas que se lembrava com dificuldade.Uma voz melodiosa e uma canção de ninar conhecida vinham a sua mente. Tentava visualizar um rosto, mas em meio a sua concentração ouviu uma voz praticamente idêntica a sua.

—Vai acabar rachando a cabeça, pensando tão fundo assim... Você é o irmão loiro e burro, Kanon! Não quero ter que te levar pro templo da cura por ter tido um derrame! – Ria Saga batendo em seu ombro

—Hahaha... Muito engraçadinho o Senhor – se aproximou Kanon, retribuindo o tapa – Se veio filar bóia, pode esquecer que eu já almocei tem tempo.

—Não vim filar bóia, vim te atualizar quanto aos planos de Athena quanto a sua vida, caro Kanon – Riu Saga encostando-se à outra ponta da janela.

—Sim, claro que ela tem planos pra minha vida – Kanon revirou os olhos – Eu tinha certeza que ela não nos ressuscitaria de graça.Você é o prostituto dela, e eu... Bem... Espero que tenham um propósito melhor para mim...

—Não sou prostituto de ninguém, Kanon! Respeite-me e respeite sua deusa, ou vou te mandar pra outra dimensão! – rosnou Saga

—Uiii! Que meda! Vai, desembucha logo que combinei com o Máscara de massacrar uns aprendizes hoje a tarde.

—Tá bom – Saga balançou a cabeça e sorriu – Bem, estávamos discutindo sobre as novas gerações de Santos de Ouro...

—E então vocês decidiram liberar tudo e ter bebês?

—KANON! – Saga se irritou arrancando uma risada do irmão – Não!Discutimos as linhagens familiares dos próprios Santos de Ouro e a possibilidade de as novas gerações douradas descenderem da nossa. Nossa família, por exemplo, vem desde os tempos imemoriais servindo ao Santuário, portanto nós seriamos os primeiros a “testar” essa nova condição.

—Como assim testar, Saga? Athena quer que a gente faça igual o avôzinho postiço dela, saia emprenhando centenas de mulheres mundo a fora e, ainda por cima, botemos os fedelhos para comerem o pão que Hades amassou em um treinamento de Santo? Posso ser o "gêmeo cruel" – fez aspas no ar – mas até eu tenho meus princípios.

—NÃO KANON! Pelos Deuses... Você pode ficar quieto um minuto pra eu poder explicar tudo de uma vez? –Saga não pode deixar de rir da especulação do irmão

—Tá, fala logo... Você que é o gêmeo burro.Não sabe resumir uma porcaria de história.

—Ela apenas quer que você se case e veja se os frutos desse casamento renderão bons aprendizes e futuros Santos para tomar nossos postos, entendeu? –Finalizou Saga erguendo as mãos.

—Ela quer que EU me case? Por que não você? – Retrucou, cruzando os braços

—Porque seria complicado administrar o Santuário, manter uma família e treinar as crianças não acha? Já tenho responsabilidades demais...E também suspeito que ela não queira outro Santo com dupla personalidade! – Suspirou Saga, finalizando enfim a discussão.

—Sério? – Kanon balançou a cabeça sem acreditar no que ouvia – E eu posso casar com qualquer mulher que eu quiser?

—Sim mano! Qualquer uma que você quiser! – Riu Saga

—Posso casar com a Cindy Crawford? –Sorriu o ex-General Marina com os olhos brilhando.

—Pode casar com quem quiser! Só toma cuidado pra não cair nas graças de qualquer vagabunda como o nosso pai e ser largado.

—Ow, Ow, maninho! Agora você tocou em território sagrado, cara... Como assim não cair nas graças de qualquer vagaba como papai fez? O velho que era um ditador louco. – Kanon logo se levantou do parapeito da janela e cruzou os braços –Até eu teria ido embora se meu marido fosse um esquisitão, bebedor de rum e que escondia os filhos de todos!

—Kanon, não se engane! Ele ficou daquele jeito depois que aquela mulher desertou o Santuário e o deixou sozinho com duas crianças pequenas! – Saga também ficou na defensiva – Oque ele fez conosco é imperdoável, mas nunca vou me esquecer do fim do nosso pai, depois de tanto se embriagar por conta dela! – Saga se referia a mãe com um tom de asco.

—Eu não me enganar? Se ele realmente tivesse sido abandonado porque ela era uma qualquer, ele não se enfiaria no quarto todo santo 13 de agosto, retiraria uma caixinha de madeira da última gaveta e choraria igual criança desmamada! Um dia eu me atrevi a procurar essa caixa... Tinha um prendedor de cabelo em forma de concha e uma fotografia antiga, de uma moça loira, mas o rosto estava desfigurado por manchas de umidade... Tenho certeza que era uma imagem da nossa mãe. Por que o cara choraria pela imagem de alguém que o traiu? – Kanon virou-se e apontou o dedo para Saga – Seria a mesma coisa que falar que tu é o bonzinho, certinho e corretinho, quando tem um capeta dentro do corpo, senhor bipolaridade!

—Até parece que quem incitou essa bipolaridade não foi você, não é, Kanon? Você e sua maldita ambição, sempre querendo fazer os outros de marionete para ter poder, né? – Saga começou a gritar e deu um soco na parede – Deve ter herdado isso dela!

—Você não sabe de nada, Saga de Gêmeos! De nada! Eu fui criado como sua sombra, porque o traste cachaceiro do nosso pai quis assim! – Kanon também ergueu a voz –Você era o poderoso, o justo, o nobre, o quase deusinho Saga! Enquanto eu sempre fui a raiz de todo mal, os olhos que lembravam Serena! Era esse o nome dela, o nome que você sequer sabe!

—Ah agora a culpa é dele por você ser mau? Ah Kanon... – Saga passava as mãos na cabeça – Você deve ser igualzinho a ela! E eu sei sim o nome da minha mãe – Saga num impulso de raiva parte para cima do irmão e lhe acerta um soco na face esquerda

Sentindo o soco do irmão e o leve gosto de ferrugem na boca, Kanon apenas cospe o pouco sangue que se formou graças ao golpe. Ele facilmente poderia defender e revidar, mas achou desnecessário. Seu irmão, mais uma vez, estava fora de si. Qualquer decisão errada poderia fazê-lo ter uma recaída, então, pelo bem do Santuário, o geminiano tomou uma decisão:

—Eu vou sair Grande Mestre... – disse, prestando uma leve reverência – peço permissão para atender ao pedido de Athena e achar uma esposa. Talvez retorne dentro de algumas semanas com uma boa candidata.

Saga não respondeu ao irmão, apenas virou-se de costas e o ouviu sair.Quando o som dos passos se afastou, Saga urrou de raiva e descarregou toda sua raiva na parede, fazendo um buraco na mesma. Já Kanon caminhou pisando duro até a Ática.Não sentiu o peso da distância, pois estava com tanta raiva que não conseguia pensar. A primeira coisa que fez ao alcançar a linha do mar foi repetir o gesto de seu irmão, só que descarregou toda sua fúria na areia da praia.

Quando a nuvem de areia se dissipou, uma figura feminina é vista sentada em uma rocha. Os cabelos loiros contrastavam com a cauda cor de coral, idem aos lábios, que se abriram em um sorriso quando visualizou o irmão de Saga:

-Olá, General Dragão Marinho... Ou melhor, Kanon de Gêmeos. – sussurrou Thetis, a sereia pertencente ao exército de Poseidon –fiquei sabendo que está atrás de uma esposa...

Kanon levantou o rosto e, apesar de todo o problema que estava passando, se surpreendeu com a presença da sereia, nunca tinha visto Thetis em sua forma mitológica. Elaera ainda mais linda.Os seus cabelos loiros balançavam junto com o vento, era uma imagem digna de ser guardada.

—Oi Thetis... –Kanon deu um sorriso frouxo – Então quer dizer que as notícias já foram parar debaixo d’água?

—Sou uma criatura mitológica, queridinho.Consigo saber das coisas rapidamente... E sempre tive uma quedinha por você. Só não me aproximei antes porque você, além de general Marina... – a sereia elevou o cosmo, desaparecendo com sua cauda e ressurgindo com uma túnica grega cor de rosa – É como se fosse meu meio-irmão.

Kanon ia dar o seu melhor sorriso safado para sereia, mas quando ouviu sua declaração engasgou no meio do caminho:

—Minha meia-irmã? Isso não pode nem ser possível... Acho que a água do mar tá afetando os seus pensamentos, linda...

—Não, não... Meu eterno general. Além do pedido de casamento, vim à superfície para lhe contar uma história... Uma história de seu interesse e que, talvez, resolva tudo entre você e seu irmãozinho. – a sereia se aproximou, abraçando-o e sussurrando ternamente em seu ouvido – está disposto a me ouvir, Kanon de Gêmeos?

Kanon arrepiou com o toque da sereia, mas respirou fundo e deixou a razão falar mais alto que o desejo, até porque a moça era sua meia-irmã e, pelas ordens de Athena, provavelmente o resultado do seu desejo não ajudaria em nada. Então suspirou e respondeu:

—Conte-me tudo que sabe, Thetis. Estou cansado de tantas dúvidas quanto a minha família... – Porém a afastou de seu corpo com uma das mãos – Masa uma respeitável distância fraterna, por favor.

A loira riu, passou a mão pelos cabelos e disparou:

—Acalme-se... Nossa fraternidade é questão de mitologia e não de sangue. – A sereia sorriu – Podemos atender ao desejo de Athena de gerar filhos poderosos... Só que não posso ser mãe de garotos, ou ocorrerá comigo o mesmo que com sua mãe... – suspirou – Quer conversar aqui mesmo, de pé, ou prefere outro lugar?

Quando Kanon ouviu falar em sua mãe, toda a agitação causada pelo desejo sumiu. Sentiu um aperto no peito e, sem pensar muito, pegou a mão da sereia e se sentou na areia da praia.

—Senta aqui comigo Thetis e me conta, por favor, o que aconteceu com minha mãe – As feições de Kanon mudaram imediatamente – Eu me lembro tão pouco dela... E sinto tanto a sua falta... Só sei o seu nome: Serena.

—Ai não, meu pequeno dragãozinho do mar... – a loira pousou uma mão sobre a dele – Nem isso você sabe. Eu vou te contar tudo, tudo mesmo. Foi há mais de 30 anos... Naquela época, um dos Santuários de Poseidon era povoado por alguns marinas de má índole, como se fossem os seus Santos Negros. Aqueles desgraçados faziam qualquer coisa por dinheiro, inclusive, traficavam sereias para mercadores marítimos e até "piratas" da região. – Thetis baixou a cabeça – Um dia, eles capturaram uma linda sereia de cabelos alvos e com uma cauda rara... Tinham as mais belas escamas, de uma coloração nunca vista. Ela daria um bom dinheiro... – Inspirou profundamente e prosseguiu – Nosso poder é enfraquecido por redes de malha. Toda vez que uma sereia é presa em uma dessas, perde todo o seu poder... Mas aquela sereia teve um belo livramento. Um homem com uma armadura dourada a salvou daqueles brutamontes. Ela imediatamente pulou na água, recuperou seus poderes e agradeceu. Seu salvador se apresentou como Dante de Gêmeos e ela... Serena, a Sereia, porém esta não era sua real face...

Kanon arregalou os olhos: eram seus pais! Mas nunca soube que sua mãe era uma sereia, mal conseguia lembrar-se do rosto dela,só lembrava-se de ela subitamente ter desaparecido e de seu pai mudando, enlouquecendo e o tratando mal. Lembrava-se perfeitamente de chorar diversas vezes e buscar carinho no colo do pai e ser duramente rechaçado: “Pare de olhar pra mim como ela me olhava, Kanon! Seja um homem”.

—Qual era a real face dela,Thetis? Já estou ficando descrente de toda essa história... Minha mãe era uma mulher normal... Pelo que eu posso me lembrar

—Ela não era uma mulher normal, tampouco uma sereia qualquer... Seu verdadeiro nome, sua verdadeira face... – inspirou – Ela era Sirene, sim... Aquela mesma das escamas de Sorento. A mãe de todas as sereias... Se você quiser, podemos ver as memórias dela. Basta deixar o mar te tocar – ficou de pé e lhe estendeu a mão – Venha... Eu te guiarei

Kanon inconsciente da decisão que ia tomar e ainda absorto pelas informações que recebia da sereia sobre sua mãe se levantou e caminhou até a beira d’água, e deixou a água do mar tocar delicadamente os seus pés, fechou os olhos e uma estranha energia tomou conta de sua mente, passou a ser observador de momentos que não sabia de onde vinham.

***

O Sol naquele dia parecia escaldante na praia da Ática, e sem dó, três homens aos risos arrastavam uma moça presa dentro de uma rede de pesca, que gritava por socorro e parecia bastante assustada. A moça tinha cabelos loiros compridos e usava uma túnica branca, que se desgastava e arranhava sua pele delicada, devido ao arrastar dos homens e as tramas apertadas da rede:

—Essa daqui vai nos render dinheiro o suficiente para nos mandarmos daqui! A maldita vai servir de decoração para os ricaços da cidade! – Celebrava o primeiro

—Uma pena ela estar na forma humana, espero que a aceitem mesmo assim!

—O Senhor Poseidon os punirá severamente se continuarem com esse plano! Serão castigados por toda eternidade! – Chorava a moça tentando, inutilmente, se soltar das tramas.

—É só Jogar um pouco de água do mar que ela volta a ser peixe! – Esbravejou o terceiro – Só quero que essa maldita se cale!

O homem usou um cantil a fim de pegar um pouco da água do mar. Aproveitando a folga, a loira tentou uma fuga, mas foi tudo em vão. Extremamente irritado, o mesmo homem que fora pegar a água tenta lhe acertar um golpe no estômago, mas antes que pudesse atingi-la, é paralisado por uma grande fonte de cosmo:

—Quem ousa afrontar os soldados de Poseidon? – indagou grosseiramente – acho bom mostrar a cara.

—Soldados de Poseidon? Oras... Sempre imaginei que o senhor dos Sete Mares tinha algum critério para escolher seus soldados, mas, pelo visto, ele deve apenas resgatar marujos lançados por seus capitães ao mar...

—Insolente!

Um dos homens soltou a garota e partiu com o punho cerrado para cima do misterioso homem, que detém o golpe com apenas um dedo:

—Hm, está explicado... Estou lidando com a ralé Marina! – sorriu de canto – soltem a garota, desapareçam daqui e eu prometo poupar suas vidas.

—Poupar as nossas vidas? – falou em tom de deboche o único soldado que ainda estava em silêncio – Quem você pensa que é para nos fazer tais ameaças?

—Querem conhecer o nome do carrasco? Pois bem...

O homem acalmou a cosmo-energia, revelando um corpo másculo, revestido com uma armadura douradas, os cabelos negros e longos esvoaçavam conforme eram tocados pela brisa marítima, o maxilar quadrado, com a barba por fazer e olhos azuis profundos, tão profundos quanto aqueles mares que os soldados deveriam proteger:

—U-um... Santo de Athena?

—Não qualquer santo... Sou Dante de Gêmeos, protetor da terceira mansão do Zodíaco dourado. Um dos doze santos de ouro.

—U-umS-santo de Ouro?! – gaguejou o único homem que não havia soltado a sereia. – Caras... É melhor voltarmos para o nosso lugar.

—Largue a mão de ser maricas! É apenas um guerreiro de Athena, nem deve ser grande coisa! Agora já temos um nome para sua lápide! MorraDante de Gêmeos!

Os dois homens o atacaram, mas foi tudo em vão. Bastou um movimento para que Dante os mandasse para longe. O rapaz que segurava a sereia ainda tentou escapar, mas também fora acertado pelo golpe. Dante se aproximou da jovem presa na rede e percebeu-a quase sem sentidos. Decidiu livrá-la da "prisão" e tentar reanimá-la com alguns movimentos de RCP, porém isso não foi necessário: assim que se percebeu livre da rede, a mulher se arrastou em direção ao mar. Dante não entendeu de início, até que visualizou a parte de uma cauda roxa emergindo, que após um novo mergulho, emergiu em um tom de rosa e, na terceira emersão, um lilás bem claro, até que o busto da moça foi visto, e a mesma se sentou em uma rocha, mais próxima da areia para que ele pudesse se aproximar. Dante finalmente entendeu o que aquele grupo queria da garota:

—Muito obrigada por me salvar, nobre santo de Athena – a voz da sereia era doce, carregada de ternura e gratidão – Tenho uma dívida eterna contigo agora.

—Eu... Não precisa me dever nada! Não fiz mais que o meu dever... – Respondeu o Santo, se aproximando da jovem, com um misto de atração e curiosidade.

—Seu dever é com as criaturas terrestres. – sorriu docemente a sereia

—Não... Devemos proteger todo o planeta. Não importa se é terra, mares ou céus. – sorriu – Já que tem uma dívida comigo, posso ao menos saber seu nome?

A sereia hesitou por alguns instantes, até que respondeu em meio a um sorriso:

—Serena. Mas pode ficar tranquilo, Santo de Athena, eu não faço parte da guarda de Poseidon. Sou apenas uma errante dos sete mares. – Seus cabelos compridos e agora prateados voavam ao sabor do vento, Serena estava encantada com o belo homem que a salvara.

—És tão bela quanto teu nome. Uma pena ser uma sereia errante. Adoraria vê-la novamente. – O Jovem arriscou tocar uma das mãos da sereia, aquilo parecia ser um delírio, pensava Dante, como era possível ela ser tão bela?

—Como tenho uma dívida de vida contigo, Dante, concederei seu desejo: venha a este mesmo ponto da praia na primeira sexta-feira de lua cheia de cada mês. Agora preciso ir... Mais uma vez obrigada. – Serena sorriu com o toque do rapaz, e logo se virou para tomar o seu rumo e mergulhou novamente, desaparecendo na imensidão do mar.

O Santo ainda mirou o horizonte por um tempo, até retornar a missão que lhe foi dada.

O tempo passava lento, e Dante se sentia como um garoto que esperava que a mágica que lhe acontecera naquela manhã se repetisse logo.A ansiedade o corroía por dentro.Como uma mulher, quer dizer, sereia tomou toda sua atenção e seus pensamentos? Atrevia-se a pensar como seria beijar aqueles doces lábios que guardavam um sorriso tão lindo. Na manhã da primeira lua cheia, parecia que o dia não passava.O Santo não se concentrava em seus treinos e, muito menos, em seus servos, que passaram a estranhara postura de seu tão sério e centrado patrão.

Os outros Santos também perceberam a distração, principalmente Kravitz de Sagitário, seu grande amigo desde os tempos de treinamento:

—Sei não, hein, Dante... Isso tá me cheirando a paixão... Diz aí o nome da amazona que te deixou assim, camaradinha? – Investigava o curioso santo da décima mansão.

Dante nada dizia, apenas ria e ignorava o amigo e, quando a noite finalmente caiu, ele foi correndo a Ática, esperar a amada no lugar combinado.Estava um pouco nervoso, pois não sabia se ela cumpriria sua promessa, sabia de histórias de sereias traiçoeiras, mas ela parecia tão doce. Ao chegar à praia, pode observar por alguns minutos sua linda sereia de cabelos prateados, murmurando uma canção de costas, sentada na mesma pedra do primeiro encontro. Sorriu, ela eramais linda sob a luz do luar, quando estava distraído pelo seu canto, a voz melodiosa chamou sua atenção:

—Dante? Você veio? – Ela sorriu docemente sentada em sua pedra – Espero que não esteja muito frio...

O santo apenas sorriu e sentou ao lado da sereia, sem ao menos pedir licença. As palavras fugiam. Os únicos sons que saiam dele eram a respiração afoita e o coração acelerado. Parecia um adolescente se descobrindo, mas talvez fosse isso mesmo. A vida de um Santo de Athena era muito intensa. O tempo para amor, paixão e outros sentimento era mínimo, mas ele sentia que sua hora de amar havia finalmente chegado:

—Eu... – balbuciou – Nem sei o que falar com você, Serena. Não quero soar como umbobo.

A jovem estava um pouco corada, mas sorria, não conseguia parar de pensar nele desde o momento que o vira pela primeira vez nadavaa tanto tempo sozinha naqueles oceanos que sequer sabia muito bem como agir. Apenas inconscientemente suspirou e disse:

—Passei esses dias pensando em você... – Quando se deu conta, as palavras já tinham saído e antes que ele notasse emendou – Como é a vida no santuário? Deve ser bem difícil ter tanta responsabilidade desde tão jovem – Serena se encolheu, trazendo mais pra perto a sua cauda.

Dante ruborizou com a declaração de Serena e, após inspirar profundamente, começou a falar:

—Bom, temos nossas obrigações... Mas, como um santo dourado, eu tenho certas regalias que não são concedidas aos outros de patentes menores. Tenho servos que me ajudam aprendizes e, dificilmente, saio para missões. Apenas em ultimo caso mesmo. – Sorriu Dante, admirando a sereia ao seu lado – E a vida no mar? Fale-me como é... Poder nadar livremente, sem se prender a ninguém ou a nenhum lugar

Serena se puniu mentalmente por ter se entregado e constrangido o jovem, mas ficou feliz de ele ter lhe perguntado justamente sobre a coisa que mais amava: o mar Começou a falar animadamente sobre o quanto era rica e bela a vida marinha, e o quanto se sentia livre nadando por aí, também sobre a gentileza da companhia dos animais marinhos e da facilidade de se movimentar mundo afora por dentro do mar, e com certo pesar também falou sobre a poluição crescente nos mares, devido ao avanço das tecnologias humanas, e quantos amigos tinha perdido para esta nova vilã. Perdia-se em comentar causos e histórias, quando se deu conta, lá estavam os dois olhos azuis de Dante, a fitando com um encanto enorme. Azuis da cor do mar que tanto amava, e então, Serena aproximou o seu rosto do dele, trazendo seu corpo para mais perto.

Dante estava descrente. A bela sereia estava a milímetros dele. Sentia seu hálito quente, seu calor... Não sabia como agir, como tocá-la. Sentiu a necessidade de abraçá-la e tomar-lhe lentamente os lábios. Aproximou-se calmamente, tendo a lua como testemunha e as ondas do mar como trilha sonora. Cada vez a sentia mais perto e, em um ímpeto de coragem, passou a mão pela cintura fina e desnuda da moça, sentindo alguns fios de seus cabelos prateados em seu antebraço. Mas estava nervoso, tão nervoso que, quando os lábios de Serena finalmente tocaram os seus, ele se desequilibrou da rocha. A moça ainda tentou lhe segurar, mas foi em vão: ambos caíram na água e gargalharam por minutos. Gargalharam tão intensamente, que a moça até precisou ajudar o Santo a se recompor, trazendo-o para mais perto da areia, aonde assumiu sua forma humana, espantando o Santo de Athena por alguns instantes, já que este jamais imaginou o poder dela:

—Para alguém que não faz parte de nenhum clã guerreiro, seu cosmo é assustadoramente intenso. Tem algo a ver com o fato de ser sereia?

Serena deu um meio sorriso e tentou distraí-lo:

—Eu tenho uma aparência jovem... Mas há séculos que nado por essas águas, então... Acho que me tornei uma mocinha mais forte – Serena sorriu ecaminhou até ele, ficando na ponta dos pés, iniciando o beijo que deveria ter acontecido antes da queda.

Os lábios de Serena eram tão suaves quanto seu nome e sua voz. Quando Danteos sentiu contra sua boca, foi como se tivesse sido enviado aos Elíseos e brincasse com as ninfas nos campos floridos. Não imaginava que aquela mulher fosse tão doce. Todos tinham razão: ele estava apaixonado. Apaixonado por uma sereia, que afirmava ter centenas de anos. Ele não sabia como, mas queria a jovem para ele. Queria amá-la e cuidar dela para todo o sempre. Não sabia se a aceitariam no Santuário, portanto a remota ideia de uma "traição" já rondava sua mente. Porém não queria ter pressa, tampouco ocupar sua mente com aqueles pensamentos. O momento era para curtir Serena e era isso que ele pretendia fazer.

Seus lábios finalmente se separaram e ele olhou firmemente para ela. Ficava ainda mais linda sob a luz do luar. O som das ondas batendo nas rochas ofuscava o coração acelerado do rapaz, porém não eram capazes de encobrir o sorriso bobo que estampava seu semblante:

—Você é a mais bela obra prima dos deuses.

—Obra prima? – levou à mão a boca e deu uma risadinha – não, meu caro... Posso ser antiga, mas não chego a tanto. Espero que não tenha sido atrevimento o beijo que lhe dei... – com o rosto rubro, completou – Meio que aguardei muito tempo por isso.

Dante desacreditava naquilo. Ele deveria estar enfeitiçado. Sabia que sereias eram ardilosas e traiçoeiras. Entretanto, algo em Serena era diferente: era parecia realmente apaixonada:

Além do mais, o encanto das sereias costuma ser em forma de canto... E, tirando aquele murmuro distante, não ouvi nada desde que cheguei aqui— ele pensava, ainda observando-a sorrir para ele.

—Quer me falar algo, Dante?

—Não... Não quero parecer mais tolo do que já sou a seus olhos.

—Não, meu nobre santo. Você não parece bobo... Aos meus olhos, sempre serás o bravo guerreiro que me livrou das garras daqueles Marinas traidores. – aproximou-lhe e tocou-lhe a face direita. Suas mãos, apesar de frias, eram macias e acolhedoras – diga-me o que pensas...

—Em uma forma de fazer-lhe minha mulher... Sei que é impossível, mas...

—O impossível não existe. Talvez seja apenas um pouco complicado... Tanto para ti quanto para mim... Há regras, não há?

—No Santuário? – Ela apenas assentiu com a cabeça, enquanto ele abaixou a sua eenfiou os dedos entre seus cabelos. Pensou em uma forma, algo que pudesse usar como argumento, até que Serena tomou a palavra novamente – Fale com seu Mestre de Cerimônias, já que vossa deusa ainda não reencarnou nesta era. – ela suspirou – explique tudo, sem dizer que sou o que sou. Ele verá tudo nas estrelas... Caso este seja nosso destino, busque-me neste mesmo lugar na próxima lua cheia.

—Mas... E as suas regras? Tem a ver com a distância do mar?

Ela fez sinal de negação com a cabeça:

—Tenho uma única, porém complicada regra. Posso ficar séculos longe do mar, posso nadar tranquilamente na água doce, que minha magia não enfraquecerá, a menos que em uma rede de malha tu me amarrares...

—Apenas isso?

—Sim...

—Entendi minha bela... Volte para seu oceano agora. Logo amanhecerá. Eu retornarei ao Santuário, falarei com o Grande Mestre e virei te buscar no dia combinado.

Serena deu mais um beijo em Dante antes de pular na água. Pensou se havia feito a coisa correta:

Estou realmente apaixonada por ele e sei que é recíproco... Eu deveria revelar a verdade. Tenho certeza que ele me compreenderia— pensava enquanto deslizava por entre os cardumes de peixes. – resta agora aguardar o que dirá o patriarca do Santuário de Athena. Será que estou mesmo destinada a viver junto a este Santo de Ouro?

No Santuário, assim que cumpriu com suas obrigações de Santo, Dante subiu ao Salão do Grande Mestre.Estava ansioso para saber se poderia ou não viver com sua amada sereia, se sentia diferente, um próprio bobo apaixonado, passando pelo zodíaco dourado ouviu toda espécie de brincadeira, tanto dos amigos mais próximos, quanto daqueles outros Santos que não tinha tanta aproximação, como Erik, Santo de peixes, que estranhou a sua postura. Para ele, Dante parecia enfeitiçado.

Quando chegou a presença do Mestre de Cerimônias, Shion, antigo Santo de Áries, abordou o assunto sem rodeios, e o patriarca, por outro lado, sentia a agitação do santo de gêmeos:

—O que te traz a minha presença hoje,Dante? Alguma novidade quanto ao surgimento de aprendizes excepcionais? Pois parece agitado hoje...

—Não Senhor... – Dante levantou-se rapidamente da postura de respeito que se encontrava – Desejo tratar de um assunto de cunho pessoal...

—Pessoal? – Estranhou Shion. Dante era um dos Santos mais centrados da confraria.

—Sim Mestre, pessoal. Desejo me casar com uma jovem que conheci há algum tempo, e gostaria que se possível, o senhor visitasse Star Hill, para verificar se esta união pode ou não acontecer... Sei o quanto o destino de um santo de ouro pode ser cheio de surpresas e não desejo tomar uma decisão precipitada ou que desonre o Santuário.

Shion ficou pasmo, mas manteve o semblante calmo, Dante se casando? Mas ninguém nunca soube de qualquer relacionamento de sua parte, nem mesmo com as servas do zodíaco dourado, fato corriqueiro entre os santos de ouro que muitas vezes desgraçavam a vida de jovens servas que se encantavam com seu posto.

—Ela é uma jovem que serve a Athena,Dante? – Questionou Shion – Sabe que Santos e amazonas não podem se relacionar.

—Não! Ela não é uma habitante do santuário Grande Mestre –Dante engoliu secas as palavras que diria a seguir – É uma bela jovem comum....

—Uma jovem comum? – Shion repetiu meio incrédulo. Ele era um Santo da geração anterior. Sobrevivente de uma Guerra Santa. Sabia decifrar as pessoas sem a necessidade de consultar as estrelas – Está certo disso, Gêmeos?

—Bem excelência... – o geminiano recuou um passo e abaixou a cabeça. – Ela na verdade é uma sereia. Mas não pertence a Guarda de Poseidon, fique isso bem claro.

—Acredito em você. Poseidon não costuma ter muitas mulheres a sua guarda... Bom – o patriarca postou-se de pé, ajeitando a longa toga branca – Irei a Star Hill agora. Posso demorar um pouco, então... Sugiro que se retire para sua morada. Faço uma convocação assim que retornar

—As suas ordens, senhor.

Dante seguiu para a casa de Gêmeos aliviado, mas ao mesmo tempo temeroso. Sua índole de guerreiro não o deixava ir contra o destino das estrelas, mas ele amava Serena e faria o que fosse para ficar com ela. Quando chegou a sua morada, não conseguiu retirar a armadura e descansar. Ficou andando de um lado para o outro inquieto, até o cansaço surgir e ele enfim se livrar do traje de batalha e cair em um profundo sono.

Em Star Hill, Shion concentrou-se, recitou alguns versos glorificando a Deusa Athena para poder entrar em transe e em contato com as estrelas.Buscou a constelação de Gêmeos, podendo assim sanar a dúvida de seu Santo e a sua curiosidade, pois o Patriarca duvidava que Dante se interessasse por qualquer sereia que passasse em sua frente. A cada descoberta o Grande Mestre ficava boquiaberto. A Jovem pela qual Dante se apaixonara era uma mulher praticamente impossível, a mais antiga das Sereias, mãe de um grande legado do mar e portadora de um cosmo absurdo. Sirene tinha sido criada por Poseidon como um enfeite, enquanto povoava o mar de criaturas poderosas e mágicas, e dela se originaram todas as sereias que já nadaram naqueles mares.Poucas vezes ela se envolvera com humanos, mas todas suas crias eram mulheres. Shion ficou pesaroso, pois um Santo com a herança cósmica dela e de Dante se assemelharia a força de um Deus. Vislumbrou toda a ordem que a proibia de gerar homens e as consequências desastrosas para ela.Nem mesmo a rainha do mar escaparia daquele destino final trágico. O Mestre ariano respirou fundo, e finalmente buscou o ponto aonde aqueles dois se encontraram e até aonde aquela ligação permaneceria junta, vislumbrou um nascimento, não sabia de quem, ou do que, pois as estrelas omitiam todo o resto.

Cerca de meio-dia depois, Shion retornou ao Salão do Grande Mestre. Era informação e loucura demais.

—Dante claramente não está hipnotizado... – falou para si mesmo – É um caso raro e grave de paixão mesmo.

O Santo confiava no julgamento do Patriarca. Se não fosse assim, teria abandonado a armadura e partido para algum lugar, a fim de viver com a amada. Levando esse fato em consideração, Shion decidiu meditar um pouco antes de dar uma resposta ao jovem. Era um dos mais poderosos Santos. Perdê-lo por uma coisa tão banal seria demais.

—Soldado! – indagou o Grande Mestre com a voz firme e, logo, surgiu um dos rapazes de sua guarda pessoal, curvando-se a sua frente. – Irei meditar por um dia inteiro. Ninguém está autorizado a cruzar essas portas. Peça a alguém que leve esta informação a todos os Santos de Ouro.

—Suas ordens foram acatadas, meu Grande Mestre.

E o rapaz saiu. Nem uma hora depois, todos já sabiam do estado de meditação do Patriarca, ficando temerosos, principalmente Dante, que já se preparava para uma resposta negativa de Shion.

Passado o período de meditação, o primeiro ato do Lemuriano ao abrir as portas, foi enviar uma convocação ao Santo de Gêmeos, que correu mais do que afoito pelo caminho das 12 casas, pedindo apenas licença e desculpas, afirmando que depois parava para conversar com os companheiros. O único que não aceitou esperar foi o protetor da ultima casa, Erik de Peixes:

—Não há porque de tanta pressa, meu amigo – falou calmo o rapaz de cabelos alvos – Eu também precisava falar com nosso Grande Mestre. Posso pegar uma carona contigo?

—Que seja Erik, mas vamos logo! Tenho pressa.

—Acalme-se, só vou pegar meu elmo... A pressa é inimiga da perfeição, sabia disso, Dante?

—Não venha bancar o filósofo comigo.

Erik apenas riu e, colocando seu elmo, rumou junto ao Santo de Gêmeos para o Salão do Grande Mestre.

Lá chegando, aguardaram a anunciação para entrar. Dante entrou apressado, praticamente correndo e atirando-se em reverencia aos pés do altar onde o Patriarca encontrava-se sentado. Erik estava espantado com a atitude do companheiro, mas nada disse, apenas postou-se em reverência a seu lado:

—Dante de Gêmeos está aqui, senhor. Diga-me a qual conclusão chegou.

—Bem... Quer mesmo que eu diga na frente de seu companheiro, Gêmeos?

—Erik e eu somos igualmente Santos de Ouro, a elite da Confraria de Athena. Não tenho nada a esconder dele.

—Pois bem – Shion postou-se de pé – Eu vi um casamento, felicidade, mas também vi dores e algumas incertezas. Justamente por isso me postei em meditação. Não queria cometer uma injustiça com um Santo tão valioso e poderoso como você, Dante. – suspirou – Eu decidi que pode trazer essa mulher para o Santuário, mas com uma condição...

—Q-que condição, meu Senhor?

—Que, após o seu casamento, abandone o título de Santo de Ouro.

—M-mas... Era mais fácil o senhor pedir para que eu fosse embora daqui. Que fosse viver com Serena em outro lugar.

—Grande Mestre, posso me intrometer? – Erik tomou a palavra, vendo que o amigo estava prestes a se descontrolar – Eu não sei o que está acontecendo e nem quem é esta tal Serena, mas... Perder um guerreiro no porte de Dante é algo cruel! Já que vossa excelência não acha certo ele prosseguir como Santo de Gêmeos, porque não dá a ele algum cargo, como subcomandante ou captador de recrutas?

—Hm... – ele colocou a mão abaixo do queixo e se sentou novamente – Éuma proposta interessante... Ainda mais considerando que ajo como comandante geral desde que fui nomeado Grande Mestre pela última deusa, dois séculos atrás... Bem, Dante, o que acha de ser meu novo Subcomandante? Ficará responsável por treinar os soldados, designar seus postos e definir os melhores Santos para determinadas missões.

—Se essas são as condições para viver com minha Serena nesta terra que tanto amo, eu adoraria, meu Grande Mestre.

—Pois então, Dante... Vá buscar a sua amada. Hoje mesmo mandarei prepararem a melhor cabana para vocês. Até seu casamento, pode permanecer em Gêmeos.

—Muito obrigado, Grande Mestre

Após toda a reviravolta e o estranho apoio do Santo de Peixes, Dante seguiu até a praia para se encontrar com Serena, estava ansioso para dar as boas novas a Serena, assim que chegou a beira d’água, elevou um pouco o seu cosmos e se fez notar para ela, que havia prometido ficar pelas proximidades. Alguns minutos depois, a bela sereia se fez notar, nadando até o raso e, logo, caminhava até ele com um belo sorriso:

—Acho que, pelo sorriso,temos uma notícia boa não é?

—Sim minha amada, temos boas notícias – o Geminiano abraçou a loira e beijou sua cabeça – O Grande Mestre permitiu que você viva ao meu lado no Santuário, como minha esposa... – Sussurrou em seu ouvido – Se desejar claro.

Serena arrepiou ao ouvir o sussurro dele e se aconchegou em seus braços.O toque era menos confortável do que quando ele estava sem armadura, mas não se importou, pois pela pergunta que acabara de ouvir teria de se acostumar com os incômodos abraços de armadura.

—Sim, é claro que eu desejo viver ao seu lado. – Serena levantou o rosto, emparelhando o olhar com o de Dante – Ser sua esposa, sua mulher... Sua companheira para sempre

O Santo não a deixou concluir e a beijou e, do cálido beijo que trocaram, logo estavam deitados na areia, pela primeira vez, consumando o amor tão forte e intenso que sentiam um pelo outro, como homem e mulher.

Poucas semanas depois, no Templo de Gêmeos, Serena se arrumava sozinha em um dos quartos para um evento importante: seu próprio casamento. Tinha dado alguns toques pessoais com suas habilidades de sereia no simples vestido que ganhou para desposar seu amado Santo. Até ali, vivam as mil maravilhas.Tinha conversado com Dante quanto as suas necessidades básicas, que teria de voltar ao mar pelo menos uma vez por mês durante a lua cheia para repor suas energias e que.se assim ela procedesse, tudo ficaria bem.

Arrumava-se sem ajuda das servas,podia sentir o ciúme de algumas, pois Dante nunca havia lhes dado qualquer abertura, mas para aquela garota estranha que aparecera do nada, seu coração estava aberto. Serena observava a delicada renda de seu vestido.Tinha sido um presente do Grande Mestre ao futuro casal.Sentiu falta de brilho, brilho da sua bela cauda reluzindo nas águas do mar.Pensou um pouco e sorriu:

Talvez só um pouco funcione— Elevando seu delicado cosmo, a sereia decorava a renda com pequenos pedaços de escama branca, dando um novo brilho a seu vestido de noiva.

Ao pôr do sol, todos se encontravam no templo de Athena.Perante o Grande Mestre, os noivos, e em volta destes, os demais09Santos Dourados presentes no Santuário – já que Dohko de Libra, sobrevivente da Guerra Santa anterior junto a Shion de Áries, tinha uma missão sagrada e secreta na China – que prestigiavam as bodas do amigo. Quando iniciou a cerimônia, por um segundo os olhares de Serena e de Shion se encontraram, e nesse momento o Lemuriano teve certeza de quem ela era, e hesitou momentaneamente, mas a mãe de todas as sereias o encarou com mais seriedade, talvez mostrando que seu poder poderia fazê-lo continuar, e rapidamente celebrou o casamento. Em seu íntimo, o ariano se impressionava com o que poderia acontecer e se preocupava com o tamanho poderio que reinaria dentro do fruto daquela relação.

Como era de se esperar, alguns meses depois, uma mais pesada Serena caminhava até a porta de sua cabana, se encostando à porta para aguardar seu marido, passeando uma das mãos pelo ventre saltado, quatro meses de gravidez. Dante logo apareceu, ele nunca se demorava mais que o normal, principalmente com a gravidez de sua esposa:

—Você tem noção de como fica linda quando está assim? –Disse Dante logo beijando a fronte da loira – Queria muito saber o que se passa na sua cabeça enquanto alisa esse barrigão...

—Fico pensando em como nossa filha vai ser linda... – Serena lhe beijou de leve nos lábios, alisando o seu rosto – Acho que vai se parecer com você... Com seus encantadores olhos azuis...

—Nossa filha? –Dante a encostou em seu peito e riu – Como sabe que é UMA menina?

—Ah... Eu acho que é... Coisa de mulher, você não vai entender... – A loira riu, dando um tapinha no marido – Acha que é mais de uma?

—Coisa de mulher... Você esqueceu que é uma sereia meu amor? – Dante riu, mas logo foi repreendido por um olhar de quem não achou graça de Serena – Tá, tá bem... Mas eu gostaria que fosse um menino, ou dois, ou até um bagre me deixaria feliz!

—DANTE! – A Loira resmungou alisando sua barriga

—Mas é sério, minha rainha... Eu gostaria muito de ser pai de um moleque. Imagina nossa cria, correndo por esses campos, treinando para ser um Santo... Não ia ser lindo?

—Não ia, meu amor... Será – falou em um sorriso frouxo, quase desaparecendo.

—O que foi? Sente-se mal?

—U-um... Um pouco. Se não te incomodar, acho que vou até a Lagoa.

—Eu vou com você. – respondeu com ar de preocupação – não que tenha medo de você fugir, mas além de me preocupar com você e nossa criança, eu gosto de te ver nadar.

Serena apenas assentiu com a cabeça e acompanhou o marido até a Lagoa mais próxima. Em seu seio, um temor enfim lhe abatia: o sexo daquela criança. Ela não havia dito ao marido, mas jamais poderia gerar filhos do sexo masculino e, caso isso viesse a acontecer, consequências seríssimas recairiam sobre ela:

Mas isso não irá ocorrer— pensava, já mergulhando no fundo da lagoa cristalina, enquanto Dante a admirava totalmente embevecido –Os deuses não me castigaram de tal forma.

Os meses passavam rápido, e o misto de alegria e temor habitava o coração de Serena. Só saberia o seu destino quando a criança nascesse. Sua barriga estava enorme, dormia mal, sentia a criança se movendo dentro de si e desconfiava que não gerava apenas uma, começou inclusive a sonhar que dava a luz a um bagre como Dante havia brincado, até mesmo uma criança como ela, uma sereia. Até que em uma quente manhã de Maio, ainda deitada em sua cama, Serena sentiu uma forte pontada, achou que era mais um chute de uma de suas crianças, mas a dor aumentou e aos gritos a jovem chamou por Dante, que logo trouxe a serva que costumava fazer os partos no Santuário. Assim que a senhora adentrou no leito do casal, expulsou o geminiano do local e o fez esperar durante horas, ouvindo os gritos de sua bela esposa ao lado de seu fiel escudeiro, Kravitz de Sagitário, que acompanhava todo o processo um pouco atemorizado.

No meio da tarde, ouviu-se o primeiro choro, mas novamente Dante foi impedido de entrar em casa por uma das ajudantes da parteira:

—Mais uma criança? –Dante sorria espantado, caminhado rapidamente até Kravitz –Kravitz! Tem outro bebê!

O Santo de Sagitário abriu os braços e abraçou com força o amigo:

—Parabéns Dante! – Disse alegremente Kravitz – Gêmeos de gêmeos! Acho que você já tem seus aprendizes, amigo! Essas crianças vão fazer história no Santuário

Enquanto os amigos já celebravam o primeiro nascimento, no salão do Grande Mestre, Shion teve um arrepio incomum derrubando e espatifando uma xícara. Suas piores previsões tinham se confirmado, se sentia culpado e impotente, aonde reinava a alegria, cresceria uma erva daninha, que traria muita tristeza ao Santo de Gêmeos.

De volta a Cabana de Dante e Serena, antes mesmo que o geminiano pudesse pensar ouviu o segundo choro e logo correu de volta para dentro de casa e fora permitido,só lhe fora solicitado que aguardasse um pouco que Serena descansasse e visse os bebês.

Dentro do quarto, Serena ainda se recuperava do complicado parto das crianças e aguardava ansiosa para ver os bebês, até que uma das jovens parteiras trouxe uma das crianças embrulhadas em um cobertor:

—Parabéns Senhora Serena. Mestre Dante ficará muito feliz e espero que a senhora também.São dois lindos meninos! –Sorria a jovem enquanto oferecia um dos pacotinhos a loira

Serena respirou fundo e encarou a serva com uma expressão de terror, torcia em seu mais profundo que tivesse apenas ouvido errado, e com o pouco de força que ainda tinha, tentou confirmar:

—M-meninos?

—Sim senhora, lindos meninos, nasceram loirinhos como a senhora! – A jovem ofereceu mais uma vez o pacotinho que se movia, mas Serena só conseguiu gritar aterrorizada e começar a chorar.

Dante, ao ouvir os gritos da esposa, invadiu o quarto desesperado, assustado não entendia o que estava acontecendo. Serena chorava loucamente na cama como se tivesse visto um monstro em pânico, os bebês choravam agitados com a gritaria e as enfermeiras, em vão, tentavam acalma-la, mas não conseguiam.A situação se agravou de tal modo, que ele se desesperou pelo frágil e desesperador estado da esposa, e rapidamente com um pouco de cosmos a “apagou”, para que as parteiras se acalmassem e ele tentasse processar o que tinha acontecido. Assim que Serena desfaleceu, Dante falou:

—Alguém pode me explicar o que aconteceu? – rosnou em meio a confusão.

—Calma Mestre Dante! – Se pronunciou a parteira mais experiente – As crianças são normais, o senhor mesmo pode verificar...

Dante respirou fundo e caminhou até o cesto de palha onde as crianças recém-nascidas estavam.Pensou em seu fundo que as crianças podiam ter alguma anomalia, mas não: eram lindos bebês idênticos.Enquanto os observava, se tranquilizando e emocionando aos poucos com as crianças, seus filhos, ouviu a parteira delicadamente falar:

—Isso que aconteceu com sua senhora não é incomum. Algumas mães rejeitam os filhos em um primeiro momento, mas logo se acalmam e se apaixonam por eles – Sorriu a senhora – o que inevitavelmente acontecerá aqui. Seus filhos são perfeitos e gêmeos idênticos, mestre Dante. Inclusive amarrei um pedaço de fita na mãozinha do que nasceu primeiro, para poder diferenciá-los.

Dante atreveu-se a acariciar de leve o pezinho da criança mais velha, com um leve sorriso.

—Tenho certeza que Serena se encantará por eles assim como eu... – Suspirou o Santo – A senhora pode acalmar o Senhor Kravitz e dispensá-lo por mim? Alguém precisa cuidar desses dois enquanto ela não acorda...

A senhora saiu do quarto e fez o que lhe tinha sido ordenado. Dante observava sozinho, encantado com seus dois filhos, apesar de todo o susto de Serena, não poderia estar mais feliz. Dois filhos. Já divagava que um seguiria seus passos na confraria de Athena e que o outro poderia ser seu bravo conselheiro.Sua amada tinha lhe dado um presente sem precedentes. Algumas horas depois, a sereia acordou ainda desnorteada, procurando pelo marido, pensava ser só mais um sonho maluco, mas ao ver Dante de pé ao lado de dois cestos, automaticamente seus medos foram confirmados, e voltou a chorar, só que dessa vez, mais fraca.

—Acordou Serena? – Ao ouvir o choro Dante se apressou e se sentou ao lado dela – Não chore meu amor... Nossos filhos estão bem, nasceram com saúde...

—Filhos? –A sereia abaixou a cabeça e se desmanchava em lágrimas

—Minha rainha, não chore assim... Sei que você não esperava ter dois meninos... Sei que no fundo desejava uma filha, mas somos jovens e poderemos ter quantas crianças quisermos... – Dante acariciava seu rosto, tentando conter as lágrimas.

Serena só conseguia pensar na tamanha desgraça que a acometera.Arrependia-se profundamente de não ter comentado nada sobre ter meninos para Dante, mas naquele momento, não havia mais volta, as crianças tinham sido concebidas e pior, nascidas. Ela desejava ter forças para reagir:

—Dante me perdoa... Não sei se consigo ser mãe deles – Chorava a sereia em desespero – Se posso...

O Santo, como incentivo, levantou-se e pegou uma das crianças no colo e, enquanto acalentava sem jeito o bebê, respondeu:

—Não diga isso amor... Sequer os conheceu! – Sorriu, tentando animá-la – São muito bonitinhos.Pode até fingir que um dele é menina.

—Dante! Não estou para brincadeiras agora – Fungou a loira

—Ah... Por favor – O Jovem se sentou ao lado dela com um belo sorriso – Ele está louco pra te conhecer, deve estar morrendo de fome inclusive... –Dante ofereceu o pacotinho a esposa, e o acomodou nos braços dela – Este aqui é o Kanon.... O mais velho, chamei de Saga, o traria aqui, mas o preguiçoso está dormindo — Riu

A sereia o arrumou nos braços e o observou se mover, o bebê coçava os olhos e parecia um pouco desorientado, até que olhou para ela, e arregalou os olhinhos para a mãe:

—Oi Kanon... Eu sou sua mãe – A loira imediatamente acariciou o rosto do bebê, caindo de amores por aquela pequena e indefesa criança – Ele é lindo mesmo... Tem os seus olhos – Sorriu um pouco abobalhada Serena

Dante rapidamente se levantou e buscou o outro, que dormia tranquilamente em seus braços, sentou-se ao lado da esposa e a deixou o observar.

—São os seus olhos amor, pelo menos os do Kanon, os do Saga parecem mais com os meus, mas o preguiçoso só dorme! – Resmungou Dante desanimado.

Serena acariciou o pé do outro bebê e também se encantou pelo pequeno, talvez tivesse que lutar com todas as suas forças por sua vida, mas por aqueles três, valeria a pena. Ao observar os gêmeos durante a noite, a sereia fora tomada por um amor imenso, e ao amamentar Kanon repetiu:

—Prometo tentar ser uma boa mãe para vocês meu Kani, meu lindo Kanon... – O bebê a encarou nos olhos, como se entendesse o que a mãe dizia.

***

A visão de Kanon retornou para a praia e para a Loira Thetis, que o encarava ainda com os pés na areia:

—E então? – a Sereia questionou – Agora entendeu a sua origem?

—A minha origem sim... Mas, o que aconteceu com minha mãe? Tá, ela não podia gerar meninos, porém quais foram as consequências? Ela foi obrigada a voltar para o mar? Poseidon a transformou em rocha? Diga-me, Thetis! Apenas me diga...

De repente, Kanon sente um aperto no peito. Era o que chamavam de ligação de gêmeos: algo estava errado com Saga. Ele ainda queria ouvir a Marina, então puxou-a pela mão e saiu correndo:

—Ai! – berrou a loira, sem entender – O que aconteceu, Kanon? Algo errado com Athena?

—Não! Meu irmão precisa de mim, gatinha – disse, enquanto corria – Preciso saber o que há com ele e, como nosso papo ainda não acabou tu vem comigo.