O Encanto da Sereia
2 II - Saga
Notas iniciais

In the Garden of the sea
I see you looking over
With my wistful melody
You leap in to the water
It is no breaths sighing
This is the mermaid song
The singing of my sisters
The sea has drown for long
Depois que discutiu com o irmão mais novo, Saga decidiu trocar de roupa e saiu caminhando sem rumo por Athenas, até que se viu em um píer, próximo a praia da Ática. Lembrou-se de tudo que havia feito de ruim, aprisionou o próprio irmão, atentou contra a deusa que deveria proteger, matou diversos Santos de várias patentes... Talvez essa fosse a causa da fuga de sua mãe:
—Vai ver ela percebeu que eu era o mau elemento desde o começo... – murmurou, enquanto olhava o mar.
Decidiu beber em um quiosque convidativo que ali havia. A nota de 100 deixada no balcão resultou em uma garrafa de rum em homenagem ao pai. Lembrava que aquela era a preferida de Dante. “Uma bebida que remetia o mar, o mar que remetia Serena”. Era o que o velho geminiano sempre falava antes da primeira dose. Com isso na cabeça, decidiu beber recostado nas rochas, bem próximo ao lugar que abandonou Kanon anos antes:
—Talvez devesse ser eu preso ali – falava já alto pela bebida. – Talvez se trancassem os dois frutos podres, todas as guerras sem sentido não tivessem ocorrido. Talvez, seu meu pai tivesse nos trancado ainda crianças ali, ele ainda estivesse vivo ao lado da vadia que ele tanto amava.
—Talvez... Talvez... Há tantas dúvidas assim em seu coração, meu Vasiliás?
Saga olhou para trás e se deparou com uma figura feminina com cauda de peixe. Ótimo, agora uma sereia resolvera lhe confundir. Sabia que seu irmão gêmeo ainda tinha amigos no mar, portanto começou a suspeitar de uma pegadinha dele. Decidiu encarar a mulher de frente, reparado melhor nela. Foi quando algo lhe chamou atenção: ela não era real. Era feita de cosmo. Um cosmo poderosíssimo, antigo... Um cosmo que carregava uma grande história:
—Quem é você e porque me chama de seu rei? Não sou rei de ninguém... Sou um zero à esquerda...
—Ah, meu Saga... Realmente não me conhece? E realmente acha que sou uma vadia?
—Uma va... Não... Deve ser culpa da bebida! Minha mãe era uma mulher normal, não uma sereia fantasma!
—Nem sempre eu fui um fantasma, Saga... Você está disposto a saber toda a nossa história?
—Vai manipular minha mente?
—Jamais faria isso com você, filho...
—Eu não...
De repente, o mar ficou agitado e uma onda encobriu o atual Grande Mestre, mergulhando-o direto em uma viagem ao passado. Teve visões de como Dante conheceu Serena, da paixão avassaladora, do casamento, viu seu próprio nascimento e como foi rejeitado, mas, posteriormente, extremamente amado...
***
Com o passar do tempo, Serena só tinha olhos para seus filhos. Eles eram lindos, espertos e, pelas diversas vezes que os separou no cercadinho, também eram fortes. O amor para com seus Vasiliás e Kani – como ela particularmente os chamava – era tamanho, que ela quase não ia mais ao mar: sanava sua vontade de nadar nos diversos lagos e riachos no entorno do Santuário de Athena enquanto banhava seus garotos. O problema era que isso começou a irritar Dante. Ele sentia que a esposa não o amava mais e sentia-se obrigada a permanecer a seu lado por conta dos filhos e, o pior: começava a suspeitar que ela estava encantada por outro Santo: Erik de Peixes.
—O que você fez hoje à tarde, Serena? – o Santo questionava, enquanto a loira servia-lhe uma tigela de ensopado de coelho – Foi à lagoa?
—Não... O Grande Mestre me chamou para tomarmos chá hoje.
—E você subiu sozinha com os meninos?
—O Erik veio me buscar.
—E por que não pediu para alguém me chamar? Eu teria te ajudado.
—Ah, meu amor... Você estava ocupado nos campos de treinamento... O Grande Mestre vive dizendo que seu trabalho é muito importante.
—E precisava chamar o Erik? Justamente o Erik?
—Dante...
—Não quero que você tenha amizades com ele! – Vociferou Dante, batendo na mesa, fazendo sua tigela voar e assustando as crianças.
Serena se espantou com a reação agressiva do marido, mas rapidamente pegou as crianças no colo, as levou para o quarto, acalmou-as. Voltou algum tempo depois para a cozinha, encontrando a bagunça da briga limpa e Dante sentado na ponta da mesa, com o rosto encostado em uma das mãos.
—Tem algo pra me dizer agora? Tem algo para me falar como o homem calmo e ponderado que conheço e não como o louco que resolveu aparecer minutos atrás? – Disse a loira séria, mas tranquila.
—Hmpf— Resmungou Dante sem dar o braço a torcer. Sabia que havia errado com a esposa, mas fora tomado por um sentimento incontrolável de ódio pelas palavras daquela que tanto amava.
—Meu querido, Erik e eu compartilhamos algum tipo de ligação por conta do signo que ele protege. Apenas isso. – Serena se aproximou tranquilamente dele, levantando o seu rosto – Eu nunca faria isso com você... – sorriu charmosa
—Hm...
A loira não se fez de rogada e sentou-se no colo do marido, alisando seu rosto como forma de amolecê-lo:
—O que você deve me dizer e parar de resmungar?
—Me perdoa amor... Por desconfiar de você e assustar os meninos... – Sorriu Dante, a pegando no colo e levando para o leito. Achou-a mais leve, mas nada disse – Minha rainha...
Mas nada adiantou... O tempo ia passando e o ciúme de Dante só aumentava, porém outra coisa estranha também ocorria. Serena estava cada vez mais magra, com a aparência abatida, cansada e mais e mais fraca. Até os cabelos, que eram loiros e brilhantes, estavam opacos, quase chegando a um tom de branco. Contudo, ainda se esforçava para parecer bela perante o marido, que ficava cada vez mais louco e possessivo.
Saga e Kanon já estavam com três anos quando o pior aconteceu.Os meninos brincavam na área externa da cabana com bonecos entalhados pela mãe em madeira. Saga tinha nas mãos um minotauro, enquanto Kanon o enfrentava com uma Medusa. Serena estava sentada em uma espreguiçadeira, entalhando com muito esforço um Dragão Marinho. Erik vinha ao longe, quando a viu desfalecer. Correu o mais rápido que pode. Olhou bem para a amiga. Estava magra, abatida. Tomou-a nos braços a fim de repousá-la na cama e chamar Dante, mas não foi preciso, pois este chegava a tempo de vê-la nos braços do Santo protetor da décima segunda mansão zodiacal. Louco de raiva e tomado pela paranoia, sequer reparou na aparência cadavérica da mulher: apenas desferiu um soco no rosto do companheiro, causando espanto nele e em seus filhos:
—Eu sabia! Sabia que você estava de olho nela, seu miserável – vociferou, partindo para cima do Santo de Peixes, que não teve outra reação a não ser colocar o corpo desfalecido de Serena na espreguiçadeira de qualquer jeito – Só estava esperando uma abertura para dar o bote, né? Sempre soube que ela não prestava!
—Dante, acalme-se. Eu estava de passagem... Ia cumprimenta-la e a vi desmaiar! Não percebe que está desacordada?!
—Claro... Fingindo que desmaiou para se isentar da culpa! Estava na cara que ela era uma vagabunda! Devia ter deixado aqueles Marinas safados vende-la! Maldita hora que a salvei! Maldita hora que me apaixonei por ela!
Revoltado com as palavras do companheiro, o normalmente pacífico Erik não teve outra reação a não ser soca-lo. Ele detestava brigar por motivos fúteis, mas se vira obrigado, devido o tamanho descontrole do amigo. A briga tomou um rumo diferente quando Dante desferiu um golpe que seria fatal, caso Serena não tivesse acordado e o impedisse, criando uma barreira cósmica. Com isso, sua aparência ficou ainda mais frágil:
—Dante! Pelo amor dos deuses, pare! Esse não é o homem pelo qual me apaixonei. O homem pelo qual abandonei toda a minha vida! O homem pelo qual estou perdendo a minha vida... Eu... Preciso voltar ao mar... Caso contrario... Não sei quanto tempo irei viver.
—Voltar ao mar uma ova! Você quer fugir de mim, admita! Vocês dois já devem ter um plano! Certeza! Mas eu não vou deixar! Se você não vai ficar comigo, Serena... Também não ficará com o Erik!
Dessa vez Serena não pôde fazer nada. O corpo sem vida do sueco caiu a seus pés e diante dos olhos aterrorizados dos gêmeos. O sangue do Santo escorria, tingindo a grama e seus cabelos de vermelho. Serena estava trêmula. Levantou da cadeira e, com as mãos no rosto, não teve tempo de fazer nada, a não ser correr. Temia por ela, temia por seus filhos, mas não tinha mais tempo. Ela era rápida em terra firme, não tanto quanto era no mar, mas agora, enfraquecida, não chegava nem a velocidade de um Santo de Bronze. Dante vinha a seu encalço, com os gêmeos nos braços. Se ele não a matasse, o amor a mataria. Sim, o amor que deu aos filhos e ao marido:
—Pare, Serena! Você não tem como fugir!
—Dante, pelos deuses! – gritava, atirando pequenas rajadas de cosmo para afastá-lo – eu preciso do mar!
—Mentirosa! Por três anos você apenas nadou em água doce e está viva! Você não precisa do mar!
—Eu achei que não... Mas é diferente! Eu não podia gerar meninos.
—Como consegue ser tão ludibriadora?! Agora a culpa é dos meninos?! Volte aqui e me encare!
—Não dá...
Lágrimas peroladas se arrastavam, quando ela finalmente encontrou o mar. Parou. Dante também. Ele colocou os meninos no chão. Kanon corria para perto da mãe, que o olhava e sorria, caminhando em direção ao oceano. Quando as primeiras ondas tocaram seus pés, ela sentiu um calor. Seu corpo ficou todo iluminado e, Dante fora paralisado por seu grandioso cosmo. Ele finalmente percebeu que ela era infinitamente poderosa. Se juntassem os onze Santos de Ouro mais o Grande Mestre ainda assim, não atingiriam o mesmo potencial cósmico que a sereia. Ela sorriu mais uma vez e lágrimas foram vistas escorrendo de seus olhos:
—Desculpe... Desculpe por ocultar toda a verdade. – sussurrou – Acredite... Fiz tudo por amor. Cuide dos nossos meninos. Eles têm potencial, muito potencial. Eu te amo, Dante. Adeus...
O clarão sumiu, assim como Serena. Tudo que restou na praia foi uma concha que ela tinha presa aos cabelos. Saga e Kanon pararam ao lado do pai e ficaram encarando o Oceano. O mais novo deixava cair algumas lágrimas, murmurado pela mãe. Saga permanecia sério, mas havia tristeza em seu olhar. Dante respirou fundo, pegou o prendedor em forma de concha e enfiou na bolsinha de couro de seu uniforme, tomou os filhos nos braços e voltou ao Santuário, dirigindo-se diretamente ao Salão do Grande Mestre. Lá chegando, entrou sem ser anunciado, carregando os filhos nos braços:
—Dante! – espantou-se Shion, levantando do Trono rapidamente – Por que entrou de forma tão bruta e sem ser anunciado?
—Se não perguntou por que estou carregando as crianças é porque já sabia de tudo – disse, apenas meneando um pouco a cabeça em forma de reverência. – Perdoe-me por não ajoelhar, acabei de perder minha esposa e um amigo. Um amigo que eliminei com minhas próprias mãos, inclusive... De tão cego que estava. Então, Grande Mestre, antes de qualquer punição que eu merecidamente receba, eu quero saber toda a verdade. Quero saber tudo que vossa excelência viu em Star Hill.
O Patriarca apenas respirou fundo. Depois desceu do altar e pousou uma mão sobre o ombro do antigo Santo de Gêmeos:
—Irei pedir as servas da cozinha que preparem um chá para nós... Também pedirei a outras duas que fiquem com os meninos para que possamos conversar em paz. Aguarde um momento, sim?
E se afastou, antes que Dante pudesse responder. Minutos depois, duas jovens servas apareceram, exibindo belos sorrisos. Pediram licença a Dante e tiraram Saga e Kanon de seus braços, fazendo gracejos para os meninos, que riam terna e docemente. Fora aquele o último momento que Dante exibiu um leve sorriso, mas, assim que as garotas sumiram de sua visão, uma expressão carrancuda lhe possuiu. E não desapareceu nem com o retorno de Shion, informando que um belo chá da tarde estava servido a eles no terraço:
—Sou todo ouvidos, excelência – disparou o comandante, apenas sentado a mesa. Não tinha fome, nem mais vontade de viver.
—Bem... – o Lemuriano inspirou profundamente, retirou o elmo e a máscara, expirando devagar – Primeiramente, ela não se chamava Serena, como havia lhe dito. De fato, ela era uma sereia antiga, mas não qualquer sereia... Ela era uma criatura mitológica: a própria Sirene, mãe de todas as sereias. Criada por Poseidon para encantar marinheiros, afundar seus navios e, algumas vezes, devorar seus corpos...
Os olhos de Dante se arregalaram e, pela primeira vez, sentiu vontade de beber algo, pois sua garganta ficou instantaneamente seca. No entanto, nada disse, apenas serviu-se de um copo de água e fez sinal para que o Grande Mestre continuasse o relato:
—Então vi como vocês se conheceram, pois achei que você apenas estava enfeitiçado, para que ela lhe usasse para procriar. Eram raras as vezes que ela se envolvia com humanos, mas sempre era no único intuito de gerar suas filhas sereias. – o antigo Santo de Áries apenas passou a mão nas têmporas, tomou um gole de chá e continuou – Mas estava engando... Ela estava verdadeiramente apaixonada. E reparei isso quando ela abandonou tudo para viver a seu lado e dos meninos...
—O... O que quer dizer com isso, Grande Mestre? Como assim abandonou tudo?
—Sirene poderia viver anos em terra firme, voltando para o mar apenas de vez em quando ou simplesmente nadando em água doce, desde que não engravidasse. Caso isso ocorresse, ela deveria mergulhar apenas uma vez no mar, para que a criança fosse do sexo feminino... Uma criança que seria igual a ela, uma Sereia. Ela não podia ser mãe de meninos, nunca. Se isso ocorresse, ela perderia seus poderes... E morreria depois de um tempo.
—E o senhor sabia de tudo isso e não me alertou? Deixou que me casasse com ela? Deixou que desse a ela dois filhos homens?
—Era por isso que constantemente a chamava para tomar chá. Para convencê-la de voltar ao mar... Não porque fosse contra o amor de vocês, mas porque temia por sua vida... E por sua sanidade, Dante!
—Por minha sanidade?
—Sim... As estrelas não me mostraram tudo, pois, a partir do momento que ela parisse uma criança, você deixaria de ser o Santo protetor de Gêmeos... Estava tudo em flashs. Tudo que vi foi dor, sofrimento, angustia... E loucura. O amor de vocês foi real, teriam consequências...
—E não podemos ir contra o destino escrito nas estrelas... – completou, extremamente sério.
—Sim...
—Compreendo... – respirou fundo – Bem, e qual será minha pena por executar o Erik?
—Nenhuma... Você estava fora de si. Fora um momento de loucura e, tal como o falecido disse, você é um guerreiro excepcional. Bem, cuide desses garotos. Você é tudo que lhes resta... E, apenas ressaltando uma coisa: eles nunca serão “garotos-peixe”.
Dante apenas balançou a cabeça e se levantou:
—Se não for incomodo, vou voltar agora para a minha cabana. Pode pedir as suas servas para levarem as crianças para mim, se não for incomodo?
—Deixe-os aqui um pouco... Aproveite para descansar. Peço para que elas os deixem lá ao anoitecer.
—Muito obrigado, excelência.
O comandante caminhou de forma rápida até sua cabana. Entrou, fechou a porta e respirou fundo. A casa tinha seu aroma, um cheiro que misturava a brisa do mar com alecrim. Ele enfiou a mão no bolso e achou o prendedor em forma de concha, a única coisa que sobrou do corpo da amada e, pela primeira vez, chorou. Um choro tão forte, que chegou a soluçar. Depois que havia descarregado toda a sua dor, começou a cuidar da casa. Retirou do local todos os objetos que remetiam a sereia: livrou-se das roupas, acessórios, perfumes... As únicas coisas que restaram foram o prendedor de cabelo, uma foto e uma caixa, que Serena, ou melhor, Sirene, havia esculpido em madeira a fim de guardar suas joias. Aquele agora era o lar dele e de seus filhos. Nunca diria aos meninos o que aconteceu e nem quem ou o que era de fato a sua mãe:
—Ela será uma desgarrada, que desertou o Santuário... – respirou fundo, tirando uma garrafa de rum do fundo do armário – Assim será menos doloroso.
Na calada da noite, as Servas, escoltadas por dois soldados, lhe trouxeram de volta os filhos e estranharam o estado de Dante. Não era o mesmo homem. A face carrancuda, os olhos baixos, o cheiro de álcool exalando... Ele pegou os meninos nos braços e fechou a porta, sem ao menos dizer “obrigado e boa noite”. Colocou as crianças no cercadinho e voltou para sua garrafa de rum. Kanon o chamou, a doce e terna voz, ao olhá-lo, o susto:
—Não olhe para mim assim, Kanon! – vociferou, atirando um copo de aço em direção ao cercado, mas sem a intenção de acertar as crianças, porém as assustou a ponto de um estrondoso choro ser escutado – Não me olhe como ela me olhava! A partir de hoje, vocês serão homens! Grandes homens como seu pai.
Os anos foram passando e os últimos traços do ponderado Dante sumiram. O comandante se tornara um homem seco, louco e constantemente bêbado. Treinava com afinco os dois filhos, mas, talvez devido à bebedeira, decidiu preferir um deles de uma forma extremamente cruel. Tratava as crianças como se fossem uma só. Como Saga e Kanon eram gêmeos idênticos, apenas o próprio pai conseguia diferenciá-los, e Saga era seu preferido.
Como comandante determinava as missões para os Santos e, a cada perda de companheiro de combate, seu luto resultava em ainda mais bebedeira e agressões sobre as crianças. Muitas mulheres tentaram se aproximar e se aproveitar dele após o sumiço de Serena, porém, uma após a outra eram invariavelmente descartadas por ele. O ponto máximo para sua depressão fora uma missão na qual Kravitz de Sagitário, seu fiel companheiro, que se compadecia com a sua dor e tentava sempre persuadi-lo a desistir de tratar mal as crianças, fora designado para combater Tífon, giga da tempestade, que andava atemorizando o mar Jônico e causando muitas mortes e desgraças. Nesta missão, o Santo protetor da nona morada faleceu. Ainda teve tempo de, nesta mesma missão, encontrar o seu sucessor, um jovem garoto grego com a determinação e bom coração necessários para tornar-se um Santo de Ouro. Após a morte de Kravitz, Dante se afundou de forma tão intensa na bebedeira, que seu já desgastado fígado não resistiu mais e o nobre Santo, enegrecido pelo sofrimento, partira para o outro lado da vida, talvez ao lado de sua amada e de seus queridos companheiros.
***
Kanon chegou rapidamente ao outro lado da praia, arrastando uma bufante Thetis atrás de si. Passou o olhar rapidamente pela área e avistou seu irmão largado em cima de uma pedra, desacordado e parcialmente coberto pela água do mar e pelas ondas. Sem raciocinar, ia pular na água para tirá-lo do local antes que ele se afogasse, mas foi impedido pela loira, que se lançou ao mar e, com sua agilidade de sereia, resgatou o Grande Mestre, lançando-o de volta a praia. Kanon correu para reanima-lo, porém ao chegar perto, viu uma garrafa em suas mãos.
—Não acredito que sai desesperado atrás de você e o senhor estava entronando o caneco! – Kanon resmungou, se abaixou para pegar a garrafa, leu o rótulo – Rum? – incrédulo, atirou-a longe – Matando as saudades do velho Dante, Saga?
Saga abriu os olhos meio desnorteado e se levantou:
—Só dei três ou quatro goles naquela garrafa, Kanon! Não precisava ter jogado fora – disse vendo a sereia que se aproximava e logo se sentava nas pedras ao lado deles – Hmpf... Quem parece que quem ficou com saudades do papai foi você!
—Ah! Isso não vem ao caso agora! Como você veio parar aqui? – Resmungou de volta Kanon sob os risinhos de Thetis.
—Saí do Santuário para espairecer, comprei uma garrafa de rum, desci para ver o Cabo Sunion e vi a mamãe... – o atual Grande Mestre observouseu irmão caçula arregalar os olhos – Não a mamãe mesmo, mas sua projeção cósmica... – O gêmeo mais velho encarou o horizonte – Eu sei de tudo agora... Ela me fez entrar em suas memórias e me contou tudo...
—Tá, mas como você tá se sentindo?
—Avise a deusa que estou bem, só preciso ficar ausente por algum tempo. Preciso de um tempo sozinho para pensar... – Saga começou a caminhar entre as pedras – E depois falamos sobre isso! – Disse apontando para o irmão e para a sereia.
—Tá bem! Mas pra onde você vai Saga? Não inventa de dominar o mundo sozinho – debochou o Santo de Gêmeos.
Saga, que já estava caminhando novamente pelas pedras em direção à praia, ao ouvir a declaração do irmão, resolveu não deixar barato a piadinha:
—Bem, já que você herdou o amor do papai por mulheres pela metade – Saga pode ouvir um “ei” de protesto de Thetis – Vê se aprende com os erros dele, emprenha essa mulher, mas deixa-a voltar pro mar, compra um tanque, uma casa barco, sei lá, não me importa... Só não deixa a desgraça acontecer tá, mano?
E saiu andando, antes que Kanon pudesse responder algo ou o agredisse. Caminhou por mais um bom tempo, passou a noite admirando as estrelas em um ponto da praia e, pelo amanhecer, decidiu ir até o porto. Havia uma embarcação com direção à Ilha de Mykonos. Pensou que três ou quatro dias na ilha apenas para espairecer não seriam de todo mal – fora que poderia pedir perdão ao espirito da mãe através do mar. Não sentiu o tempo da viagem. Ficou todo o tempo admirando a vastidão azul do oceano. Agora as coisas estavam mais claras, inclusive como Kanon conseguiu influenciar Poseidon e viver por tanto tempo no Santuário Submarino, sendo ele um habitante da superfície e tendo sangue de Santo de Athena. Também entendia o porquê de ambos serem tão poderosos, a ponto de serem considerados quase deuses:
—No fim das contas... – pensava Saga, enquanto descia da embarcação – Somos meio criaturas mitológicas... Somos o resultado do amor de duas criaturas poderosíssimas. – respirou e falou em voz alta – Enfim... – Os raios de sol finalmente machucaram suas retinas – Deuses, eu deveria ter trazido óculos escuros! Mas o clima aqui está maravilhoso!
O geminiano fechou os olhos de frente para o mar, respirou fundo, sendo agraciado pela brisa. De repente, sentiu um calor, como se estivesse sendo abraçado. Sabia o que era aquilo:
—Sim, mamãe... Agora entendo porque sempre achei o mar tão atraente...
Ao virar para a vila e adentrar pelas suas ruelas, avistou na janela de uma pousada uma bela jovem de cabelos vermelhos. Os traços eram finos e delicados, a boca bem desenhada e a pele tão alva que de longe reparava que ela não pertencia aquele lugar. Saga ficou um tempo olhando-a completamente encantado até que fora notado. A jovem sorriu para ele e acenou. Quando ele retribuiu o gesto, ouviu uma voz alta em uma língua que parecia russo – confirmando a suspeita de que a jovem não era dali. A garota sorriu uma ultima vez e se demorou, como se para ela, aquele encontro não deveria findar assim, mas um novo chamado na língua estranha a fez desistir. A jovem mordiscou os lábios e sumiu de sua visão. Saga suspirou, sorriu e voltou a caminhar.
Dentro da pousada, a garota correu afoita para atender ao chamado de um de seus assessores. Estranhado sua expressão, perguntou:
—O que aconteceu contigo, Alteza?
—Não sei... – Suspirou a jovem encostando-se em uma parede – Acho que acabei de descobrir que realmente existe amor à primeira vista.
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