O Elixir da Vida

1 Uma Noite Memorável


A ópera chega a um dos momentos que mais me emociono. Apesar de ter assistido ela em sua grande estreia em Milão, já há alguns anos, a sensação de aperto no coração e empatia pelo protagonista é a mesma. Sua dor pela traição da amada com um de seus amigos mais próximos é algo que nenhum ser humano deveria sentir. E enquanto tal lamento ocorre no palco, a minha amada se encontra num sono tranquilo e sereno. Por um instante esqueço que estamos em um teatro e fixo meu olhar em sua feição. Como se ela percebesse, um singelo sorriso ilumina sua face. Meu coração se aquece ao mesmo tempo em que acelera.


Valerie é uma mulher incrível. Filha de um boticário e de uma florista. Dona de uma inteligência e bondade bem acima da média, ajuda a mãe em sua floricultura. Lembro-me bem do dia em que nos conhecemos. Era uma manhã chuvosa de quinta-feira, acabara de me mudar para a cidade. Dia do aniversário da minha mãe. Apesar de sempre estar com meu guarda chuva, estava todo molhado. Entrei na floricultura de sua mãe reclamando do clima da região em voz alta quando, como se fosse um prelúdio anunciando a chegada de um anjo, escuto risos abafados.


-Seja bem vindo, meu senhor! – Que voz angelical ela tinha. Demorei algum tempo até localizar a origem dela. Valerie estava atrás de uma estante de flores, perto das petúnias. Usava um vestido azul-celeste com estampas de pequenas flores brancas. Longos cabelos negros e cacheados presos por um lenço branco, em contraste com sua pele clara. E que olhar! Aqueles olhos castanhos e um brilho similar ao da estrela da manhã. “Será que estou sonhando?” – Pensei.


— Gostaria do seu mais lindo buquê de rosas azuis! – Não imagino de onde reuni forças para dizer aquilo.


— Aqui, cavalheiro!


— Muito obrigado, minha senhorita! – “Minha senhorita?” Não tinha algo melhor para falar? Ela apenas me respondeu com um lindo sorriso. Saí do local o mais depressa que pude, até esqueci o temporal que assolava a cidade, e que em uma das mãos estava meu guarda chuva desarmado.


E de repente sou trazido de volta ao presente pelos acordes finais da ópera. Todos da plateia se levantam para aplaudir o espetáculo. Valerie acorda e me flagra sorrindo para ela que, me retribui na mesma moeda. Felicidade igual àquela nunca havia imaginado que existia. Meu coração se enchia de tanta ansiedade.


— Quando você disse que ia me trazer para assistir o Pagliacci, achei que seria uma comédia! – Disse Valerie, ao sairmos do teatro.


— Você havia me dito que adorava ópera. Não passou pela minha cabeça que poderias dormir no início do primeiro ato.


— Sabe como fico sonolenta quando a história não se desenvolve. E então? O palhaço conseguiu ficar com a Colombina?


— Isso você irá descobrir na semana que vem, quando eu te trouxer pra assistir novamente! Mas antes pedirei ao seu pai para preparar aquele tônico energético para mantê-la acordada até o final.


Era semana de celebrações festivas na cidade. Naquela noite, na praça central, estava para acontecer o festival das luzes. Todos os moradores da cidade, cada um com sua lanterna em mãos, vão prestigiar. Mas aquela noite seria mais do que especial. Chegamos à praça enquanto Barolo, o prefeito da cidade e meu melhor amigo, discursava. Ele notou minha presença e meu coração acelerou. Localizei os pais de Valerie, Christophe e Ladine, e fomos até seu encontro.


— E agora, para o discurso de abertura das festividades, chamo ao oratório nosso querido Dr. Jean Luc Mèa! Uma salva de palmas! – Aclamou Barolo em um tom quase que frenético.


Odeio o fato de ser conhecido em toda a cidade. Mas minha profissão exige dar atenção a todos sem distinção. Barolo, ao contrário, gostava muito de se colocar em evidência, à frente de tudo e todos. Mas aquela noite não era a vez dele brilhar, nem a minha.


— Damas e cavalheiros! Peço sua licença para mudar um pouco o protocolo. Como bem sabem, moro aqui há poucos anos. E nesse período aprendi a amar essa cidade, que me acolheu de braços abertos. Também foi onde encontrei o amor da minha vida, Valerie! – Ela fica corada ao perceber que todos olhavam para ela no momento. – E Valerie, meu amor. Desde que te conheci tive a certeza de que havias surgido para ser a mulher da minha vida. Com o tempo foste-te mostrando, cada vez mais, a criatura mais doce e bela que o Criador colocou na face da terra. Cada sorriso, cada olhar seu proporcionas alegria e conforto em meu coração. Eu te amo, é este amor que me dá força e coragem para suportar o peso de todos os contratempos e adversidades do dia a dia. Quando penso em ti, revitalizo o meu espírito e renovo os meus sonhos de futuro, e tu fazes sempre parte desses sonhos. Aliás, se não fosse assim, não seriam sonhos!


— Não acredito que você está me fazendo passar por isso! – Gritou Valerie, em meio às lágrimas de felicidade. Meu coração ardia de amor por ela.


- Hoje, olho para o passado e percebo o quanto a minha vida era oca, o quanto o meu quotidiano era entediante e quanto tempo eu perdia em conversas vãs ou em outras atividades que não acrescentavam nada à minha essência. O teu amor me transformou, e hoje faz com que eu perceba o mundo e as perspectivas futuras sob uma nova ótica, uma ótica que privilegia os esforços cooperados e o desejo de conquistar para, depois, dividir. Dividir contigo, desfrutar contigo o resultado das boas colheitas. – Uma pequena pausa para tomar fôlego e coragem. – Valerie, quer se casar comigo?


- Sim, sim! É claro que sim Jean, meu amor! – Gritava ela ao correr em minha direção, enquanto eu corria ao seu encontro. E, como o combinado, Barolo fez seu papel de melhor amigo com maestria ao acender o estopim dos fogos de artifício que, iluminaram o céu acima da praça enquanto Valerie e eu celebrávamos o momento com um longo beijo apaixonado, ao som dos aplausos e assobios de todos os presentes.


Após esse momento tão intenso, deu-se inicio ao banquete tradicional sob a luz do luar. Todos estavam muito felizes. Mas o centro das atenções era Valerie. Seu sorriso era contagiante. Lá estava ela no meio das crianças da cidade que, ao som da música alegre e dançante, pulava e rodopiava seguindo ritmo das palmas. Nesse instante o tempo desacelerou. Nossos olhares se cruzaram mais uma vez. Ela estava linda como nunca. Mas a luz de seus olhos, não sabia por qual motivo, estava diminuindo de intensidade. Logo que percebi isso, levantei e fui correndo em sua direção. Não consegui chegar a tempo de segurá-la antes que caísse desmaiada.


O desespero tomou conta do meu coração. Cheguei ao lugar onde ela estava caída. Todos os que estavam próximos se mostravam atônitos. Pedi para que se afastassem. Verifiquei sua pulsação e respiração. Nada. Minha razão dizia o que meu coração se negou a ouvir. Fiquei em choque. Barolo chegou logo depois e me empurrou. Ele executou todas as manobras conhecidas de ressuscitação. E minha razão gritava o que o coração se negava a ouvir...


- É tarde demais...