O Elixir da Vida
2 Um Fio de Esperança
A chuva caia incessantemente sobre mim e a única coisa que era capaz de pensar é que poderia ter dito algo melhor àquela que havia arrebatado meu coração naquele momento. “Muito obrigado, minha senhorita!” – Ecoava em minha mente. E que sorriso tinha aquela mulher! Eu tinha que vê-la novamente! Perguntar seu nome, saber mais...
– Minha nossa! Não paguei pelas flores! – Exclamei em voz alta, chamando atenção dos que passavam por ali. Corri até a floricultura e, em todo seu esplendor, estava ela cantarolando uma canção que até então nunca tinha ouvido, enquanto confeccionava o que parecia ser uma guirlanda de flores. E sua voz angelical fazia meu coração arder em meu peito.
– Olá, cavalheiro! Veio pagar a conta? – Perguntou-me em um tom de deboche.
– Pois é, senhorita. Acho que minha memória vem pregando peças em mim por esses dias!
– Bem que notei que o cavalheiro está ligeiramente molhado. – Diz, acompanhado de risos. Olho para o meu guarda chuva enroscado em meu antebraço esquerdo.
– Só para a senhorita ter uma leve noção de como está sendo meu dia! – Ambos rimos.
– VALERIE! NÃO! – Foi inevitável tomá-la em meus braços após ver Barolo desistindo de tentar trazê-la de volta a vida. Impossível conter o choro e a revolta. Praticamente todos os moradores da cidade haviam presenciado a cena. “Valerie, por que me deixas assim?” Barolo tenta me afastar, mas não queria ficar longe dela.
– Chega, meu amigo. Ela se foi. Fizemos de tudo para que ela continuasse viva com os recursos que aqui tínhamos. – Disse Barolo, que estava ainda ajoelhado perto de onde estava. E tinha de concordar que Barolo era o melhor medico da cidade. Melhor até que eu.
– Como uma pessoa tão cheia de vida pode acabar assim? – Aos prantos, perguntei.
– Tenta se acalmar. Vou pedir para alguém te levar para casa para que descanse. Também acho que precisas de um bom calmante para poder dormir direito. Amanhã será um dia longo e difícil. Passarei minha noite tentando descobrir a causa da morte de Valerie.
– Fico muito agradecido. Tens se mostrado um excelente amigo!
Seu cocheiro me levou até minha casa. Não quis tomar o calmante pois, agora mais do que nunca, minha pesquisa teria de ser concluída o mais rápido possível. Fui até minha biblioteca atrás de alguns livros para eventuais consultas. Em seguida me tranquei em meu laboratório que fora instalado em meu porão.
Há tempos venho pesquisando sobre um dos assuntos que mais me fascinam na alquimia: O Elixir da Vida. Partindo do principio que toda lenda tem um fundo de verdade, venho executando experiências com base nos escritos que venho encontrando ao longo de minhas viagens pelo mundo. Tenho obtido excelentes resultados com plantas, peixes e alguns tipos de anfíbios. Mas agora tenho que dar um passo maior do que imaginava para o momento. Afinal, ainda existe esperança de ter minha Valerie de volta!
– Valerie! Tal flor não podia ter um nome mais formoso! – Ela ficou corada ao ouvir minhas palavras.
– Muito gentil da sua parte! E o cavalheiro, como se chama?
– Jean Luc Mèa, mas para a senhorita, apenas Jean!
– Jean! Combina com você! Volte sempre que quiser! Tenho flores recém colhidas todas as manhãs.
– Com certeza voltarei, Valerie! – Despedi-me com uma reverência e um beijo em sua mão. O que fez com que ficasse ainda mais corada. “Valerie!” Repetia esse nome infinitas vezes em minha mente. “Valerie, a flor mais linda!”
Preciso concluir essa fórmula. Quanto mais tempo eu demorar, menos eficaz será no caso de Valerie. Falhas estão completamente fora de questão. Frequentemente ouço batidas em minha porta. Mas estou muito ocupado para receber visitas. Afinal, estava muito perto de conseguir.
Todas as tentativas de contato comigo falharam, devido à minha obsessão pelo Elixir da Vida. Enquanto isso, no mundo fora do meu laboratório, toda a cidade se mobilizava para o funeral de Valerie. Ladine, a mãe, preferiu fazer algo breve. Pois Valerie sempre comentava que funerais eram uma tortura para àqueles que amavam os falecidos, e por isso durar pouco tempo.
Apesar de todos os seus esforços em proporcionar um funeral honorável para a filha, Christophe não deixou de insistir em bater à minha porta para que eu prestasse minhas últimas homenagens à falecida. Mas se eu for, significará que estarei aceitando o fato de que nunca mais a verei viva novamente. E não estava preparado para tal.
Envolto aos tubos de ensaios, vapores químicos e ruídos das cobaias vivas; perco a noção do tempo. Não ouvia mais as batidas à minha porta da frente. Estava para executar meu próximo teste, depois de incontáveis outros, em um camundongo que recém acabara de morrer, afligido por uma parada cardíaca devido a um extrato de ervas colocado na água.
Aplico a primeira solução no camundongo morto, para que reverta a morte dos tecidos. Devido à ausência de circulação sanguínea, tenho de aplicar em vários pontos do corpo. Primeira fase concluída e em poucos minutos o estado de rigor mortis é revertido. Segunda fase é iniciada ao aplicar uma outra solução para limpar os vasos sanguíneos de todo sangue coagulado e revitalizá-los. Limpos e desobstruídos os vasos, inicia-se a substituição da solução por sangue artificial produzido no laboratório, a partir de amostras de tecido do próprio camundongo. Em seguida, através de hastes de cobre, dou pequenas descargas elétricas diretamente no coração do camundongo. EUREKA! Coração em pleno funcionamento. Agora o mais importante passo. Injetar o Elixir. Não demora muito, o camundongo volta a vida e num impulso se solta do fios e cânulas sem antes que eu feche as incisões feitas. Ele cai da mesa de manipulações e corre freneticamente sem direção enquanto o sangue artificial jorra de seu corpo, até que cai morto novamente. Depois de alguns teste nele, constato que sangrara até morrer.
Não há tempo para testar em um humano. Tenho que correr para dar vida à minha amada. Percebo que são 2:59 da manhã, mas não importa, preciso ir ao cemitério. Muita coisa para carregar, por isso vou até a casa de Barolo pedir emprestada a carruagem.
– Tens ideia de que horas são, Jean? – indagou Barolo ao atender a porta, enquanto bocejava.
– Preciso de uma carruagem! Urgente!
– Mas para quê você vai precisar da carruagem?
– Para carregar meu equipamento para um experimento científico.
– Jean Luc Mèa e seus experimentos... Só que dispensei meu cocheiro hoje.
– Pode deixar, eu a conduzo!
– Tudo bem. Só não esqueças de alimentar os cavalos dessa vez!
– Muito obrigado, meu amigo! Serei eternamente grato!
Tive um pouco de trabalho para equipar os cavalos e os prender na carruagem, mas enfim estava a caminho de casa à toda velocidade que conseguia extrair dos cavalos. Chegando à porta de minha casa, estaciono a carruagem de qualquer jeito e corro para o laboratório.
Todo o equipamento necessário estava sendo colocado na carroça. Pronto, estava eu a caminho do cemitério. Não há tempo para parar e pedir para o coveiro abrir o portão, entro derrubando tudo. O barulho dos portões sendo derrubados pareceram em nada interferir na paz do local.
O mausoléu da família de Valerie não foi difícil de encontrar. Estranhei a pouca quantidade de flores. Arrombado o portão, descarrego todo o equipamento e o posiciono de forma que o corpo de Valerie fique numa disposição favorável ao procedimento. Equipamento montado e verificado várias vezes. Não há margem para erros.
Agora só faltava remover o caixão da cripta que estava selada com concreto, facilmente removido com uma pedra grande e pontuda que servia de calço para o portão. Valerie foi colocada num caixão de madeira clara, com muitos arranjos de flores entalhados. Com uma certa dificuldade consegui abrir o caixão. Um cheiro muito diferente do esperado havia exalado do corpo dela que, apesar da palidez cadavérica, estava praticamente intacto e sem sinais de decomposição, o que era ótimo.
Corpo em posição. Inicio o procedimento de reversão do rigor mortis e degeneração dos tecidos. Aparentemente tudo indo bem. Injeto a solução para desobstruir veias e artérias. E não muito depois, a substituição da solução por sangue artificial. Para evitar que Valerie tivesse algum tipo de reação parecida com a do camundongo, removi as cânulas e suturei todas as incisões. Era a hora da verdade. Só precisava gerar um impulso elétrico forte o suficiente para estimular o coração dela. Usei meu estetoscópio para monitorar qualquer batimento cardíaco. Tive que girar a manivela do meu pequeno gerador o mais rápido possível e por um bom tempo até ouvir um esboço de reação. E realmente parecia que o coração de Valerie voltara a bater de maneira muito fraca. Precisava me esforçar mais ainda. Juntei forças de onde não mais podia tirar até que eu ouvi: era o coração dela batendo cada vez mais forte.
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