O Elixir da Morte
5 Capítulo 5
No que estava pensando? – Refletia Dalila enquanto passava pelos corredores a caminho da sala de treinamento, pegar as roupas do garoto. Estava com tanta raiva de Samuel por ser tão convencido de si, desperdiçando dois dias de cuidados dela se arriscando fora do Instituto apenas para não se sentir excluído. Ele nem ao menos sabia onde estava, do que elas estavam falando, quais os riscos que ele correria... Dalila andou mais devagar ao pensar nisso. Não poderia colocar um garoto despreparado numa experiência de campo apenas por estar com raiva. Mas pensou melhor: ela poderia ir contando ao menino o que era tudo isso e caso ele resolvesse desistir, voltariam e iriam só as duas. Isso mesmo.
Outra coisa que ela mesma não entendia era o porquê de ser tão ousada perto dele. Se sentia mais viva quando era assim. Apesar da raiva ter uma boa participação na sua atitude, sabia que era algo mais. Algo que ela sentira desde que vira ele ensanguentado e desprotegido. E era algo que ela não sentia desde que viu quem seu pai era e só se permitiu ter por duas pessoas: Alma e Lily. Se sentiu esperançosa. Suspirando, Dalila descartou a hipótese.
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– Escute, eu já te vi nu, certo? Não precisa pegar o biombo. Se quiser ajuda, pode pedir, lindinho.
A voz debochada de Dalila o irritava cada vez mais. Samuel se sentia um tanto ofendido por duvidarem de suas habilidades de luta, mas resolveu se acalmar e mostrar para elas que era capaz.
Pronto. Estava vestido. Olhou para si mesmo no espelho a sua frente e... – espelho? Mas o ângulo daria para ver ele se trocando e...- Droga. – Exclamou quando percebeu o motivo do deboche de Dalila. Elas conseguiam ver ele mudando de roupa. Fora ele mesmo que colocou o biombo ali, e as meninas não o avisaram do espelho e ele não notou. Droga dupla. Respirou fundo, colocou sua máscara de indiferença e saiu ali de trás – não que fizesse muita diferença.
– Então? – disse Samuel, dando uma giradinha sarcástica.
– Razoável. Vamos ver se é tão bom com a faca quanto é irritante. – Disse Dalila, dando uma adaga prateada de aparência afiadíssima para ele.
– Certo. Já vamos partir, mas antes...
Rapidamente, Dalila sacou sua própria adaga e investiu contra ele, pegando Samuel extremamente desprevenido. Pulou para trás de susto, um pouco antes de sentir a adaga escapulindo de sua mão.
Dalila estalou a língua, girando a arma entre os dedos.
– Nada bom, nada bom... Eu acho que você terá que ficar aqui...
Só foi o tempo de a menina terminar a frase quando Samuel saltou em cima dela, pegou sua adaga, girou Dalila e posicionou a arma no pescoço da garota, seu peito pressionando as costas dela durante um milésimo de segundo, antes de ser lançado com força no chão. Dalila montou em cima dele – gerando um leve rubor de bochechas no garoto ao notar a posição – e posicionou sua faca no pescoço dele.
Os dois estavam arfando quando Dalila sorriu, se abaixou até a orelha de Samuel e sussurrou, com o hálito quente próximo da pele do garoto:
– Quer uma dica? Nunca tente me pegar desprevenida, porque voilà: você nunca conseguirá.
Alma, que estava observando a cena com um sorriso satisfeito no rosto, estendeu a mão para a amiga, puxando-a para se levantar.
Dalila sorriu para ela, se agachou mais uma vez e pegou Samuel pelas axilas, levantando-o e o surpreendendo com sua força. Entregou a faca para ele e disse: — Vamos?
Samuel balançou a cabeça com um sorrisinho torto no rosto. Dalila piscou para ele e se virou.
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O ar frio da noite recebeu as duas meninas e Samuel, que se sentia injustiçado por ter recebido apenas uma adaga de prata enquanto Dalila e Alma estavam munidas de lâminas serafim (apesar de ele não fazer ideia do que seria isso) e facas de diferentes tamanhos.
Após caminharem, já que Dalila queria tempo para explicar algumas coisas, durante alguns minutos, foi a primeira a se pronunciar:
– Então, Samuel. Penso que deve estar cheio de perguntas, né?
– Né? Que é isso?
– Isso, o que? O ''né''? Como uma abreviação carioca de não é, nunca ouviu essa expressão?
– Assim que vocês falam aqui?
Dalila lhe lançou um olhar desconfiadíssimo:
– Aqui? Quer dizer que não é do Rio?
Rio de Janeiro. Isso mesmo. Lembranças de Alaric lhe dizendo que esse seria seu destino pipocaram na mente de Samuel, enquanto tentava elaborar uma resposta. Fora ensinado a vida inteira a falar um português perfeito, mas sotaques... Mesmo assim, qualquer erro de pronúncia ou escrita lhe rendia uma punição severa, tanto para ele quanto para ela. Ela... Como será que estava? Será que Alaric a tratava bem? Ou pelo menos, com um pouco de... humanidade. Estremeceu ao pensar nesse palavra. Não. Ele a perdera faz muito tempo.
– Samuel?
A voz irritada de Dalila o acordou de seu devaneio.
– O que?
– De onde você é?
Samuel não respondeu e Dalila não insistiu. Haveria muito tempo para confrontá-lo no Instituto. Finalmente, pensou ele. Não se sentia preparado para começar com o plano. Nem um pouco.
Alma pigarreou:
– Bem, Dalila, acho melhor começarmos a explicar pro Fulaninho aqui como as coisas funcionam no nosso mundo.
A outra menina, que estava distraída, sacudiu a cabeça e fez um gesto para que sua amiga começasse a falar.
– Vamos começar com a aula, né? Uma coisa superficial; não sou uma esponja de informação como a Lilinha querida, então o básico será. — A garota respirou fundo e começou a falar como se lesse um livro — Introdução: o que são os Caçadores de Sombras? Somos Nephilins, seres metade anjo, que há mil anos atrás...
Após passarem quinze minutos caminhando, Samuel já havia se situado um pouco naquela realidade. Pelo visto as tatuagens grossas, coisa que ele só se perguntou sobre quando as garotas se desenhavam antes de sair – ele também recebeu algumas, feitas por Alma -, eram Marcas, os símbolos que conferiam poder para os Caçadores de Sombras. As parabatais — laços eternos de sangue que só se rompiam com a morte de um dos membros e eram unidos numa cerimônia em que recebiam uma Marca especial e recitavam um juramento, se lembrou. Ele bem sabia que os movimentos e gestos das amigas, ou parabatais, no caso, eram perfeitos demais, quase como uma dança involuntária, com um companheirismo e afeição que até um estranho como ele era capaz de detectar. – explicavam para Samuel que, ao sair numa situação de risco ou em uma missão, tinham que refazer algumas das Marcas para garantir-lhes coisas como força, velocidade e invisibilidade à olhos de mundanos – como chamavam os seres humanos que não eram Caçadores de Sombras — , mas algumas eram eternas, recebidas aos doze anos, geralmente.
Alma começava a explicar sobre as lâminas serafim e o armamento Nephilim quando parou abruptamente, ao ver o sinal de Dalila, que tinha um aparelho na mão, parecido com um celular, emitindo leves bipes que Samuel não notara antes, ao estar tão intrigado com sua pequena aula de história. A garota, que percebia o olhar, apontou para o objeto com a mão livre e disse:
– É um Sensor. Serve para captar atividade demoníaca, que – olhou para a parabatai – é fraca, não se preocupe. O que quer que esteve aqui, não está mais. Apesar desse cheiro.
O momento de silêncio que se seguiu, sem que nenhum dos três continuasse a caminhada, deu a Samuel um instante para observar onde se encontravam. Estavam numa rua bem iluminada e vazia, com um ponto escuro no final dela que presumiu ser um beco, de onde vinha um cheiro pútrido de lixo e morte, aliado a um fedor de rosas apodrecidas. Muito poético.
Dalila se aproximou cautelosamente, colocando o Sensor no bolso do casaco comprido e ao mesmo tempo sacando uma espada e uma espécie de pedra brilhante, marcada com os mesmos símbolos que cobriam o corpo das meninas e agora, o dele. Fez sinal para que os dois a seguissem e entrou no beco.
A cena era aterrorizante.
Um corpo humano masculino, que aparentava uns 25 anos, relativamente sem ferimentos e nu repousava deitado de bruços e de olhos fechados. O cheiro, agora mais forte, parecia vir de um frasco quebrado no chão com um pouco de líquido negro dentro. Mas nada disso foi o que arrepiou os pelos do corpo de Dalila.
Era o enorme ferimento, que parecia fresco e marcado com ferro em brasa nas costas do homem, com os escritos: Não-letal, 01.
Dalila caiu no chão.
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