Mas a audácia é grande, quando o amor é ousado.

– Victor Hugo Felipe

– Como?
Droga. Dalila se sentia cada vez mais estúpida na presença de Fulano. De Samuel. A menina bufou internamente. Nunca fora assim. O que estava acontecendo?
– Meu. Nome. É. Samuel. – disse ele, como se explicasse como os bebês são feitos à uma criança.
Ela resolveu ignorar o tom de voz debochado do garoto, estalou a língua e deu um suspiro.
– Certo. E, caro Samuel, o que exatamente faz aqui neste Instituto?
Ligeiramente desconcertado pelo modo como a menina disse seu nome, ele respondeu:
– Quero falar com sua superior.
Dalila arregalou os olhos com a audácia do menino. Será que ele não via que tinha uma adaga que cortaria uma vaca ao meio pressionada contra seu pescoço, cada vez mais forte? Mas alguns segundos depois de sua irritação passar, ela notou outra coisa.
– Como sabe que minha ‘’superior’’ é uma mulher?
Agora Samuel parecia estúpido.
– Como?
– Exatamente. Você disse ‘’sua’’. Não haveria como você saber que a diretora do Instituto é uma mulher.
Samuel abriu a boca e Dalila ainda imaginava o que ele iria responder quando a enorme porta da enfermaria se abriu e Alma apareceu, concentrada em equilibrar o suco de laranja na bandeja de comida que trazia.
– Dalila, e então, como vai o garoto? Lily pediu para lhe dizer que... – e parou.
Dalila abriu um sorriso e acariciou a testa de Samuel, surpreso com a rapidez com que a menina havia guardado a adaga e passado do modo ‘’assustadoramente agressiva e sexy’’ para ‘’inocente e sorridente’’ perto da garota.
– Veja, ele acordou. Ah, obrigada pela comida, sim? Estava só checando a temperatura de Samuel e o que...
– Samuel? – Alma franziu a testa, olhando de Dalila até o menino, desconfiada.
– É. Ele acordou, e esse é seu nome. Eu estava aqui perguntando para ele o que aconteceu quando você chegou. Posso conversar com você em particular?
–Ahmmmm... – Alma olhava confusa de Dalila ao menino deitado, completamente desconfiada. – Claro. Mas antes... – jogou uma sacola em cima de Samuel, arrancando uma exclamação exasperada de Dalila seguida de um ‘’ ele ainda está fraco’’, que Alma ignorou e completou:
– Roupas. Devem servir em você. Não sei. Nunca comprei roupas para garotos antes e as que tem aqui não devem servir em você. Suas antigas estavam todas rasgadas e ensanguentadas, então as queimamos e... Dalila? – A menina observou o rosto da amiga e notou uma mancha roxa em sua bochecha que não estava lá antes. – O que é isso no seu rosto?

Dalila passou as mãos pelo rosto e disse:

– Isso o que?

– Isso, bem aqui – Alma cutucou a bochecha dela e escutou um gemido de dor reprimido – Um hematoma. Você se machucou. Como?

Samuel ficou tenso. Era agora. Não sabia como uma agressão a outro Caçador de Sombras, ainda mais a uma Caçadora de Sombras seria punida. Desconhecia quase completamente aquele novo mundo em que se meteu, apenas para salvá-la. Toda a razão de sua existência. A única razão de sua existência. Que estava em posse de Alaric. Como o odiava. Ele não o havia informado de nada, pois ele mesmo desconhecia as posições, os cargos, o governo (será que existia um?) dos Caçadores de Sombras, mesmo que não admitisse. Ele só o informou de uma coisa: a mataria se falhasse. Ser preso contava como falhar? Não sabia. Então, se preparou quando a menina de olhos verdes abriu a boca.

– Eu caí. Você sabe como sou, desastrada fora de uma boa briga. Mas não fale muito alto, o Fulano aqui pode achar que eu sou fraquinha.

Alma riu, mas ainda encarava Dalila como se soubesse que ela estava mentindo. Samuel estava confuso e aliviado ao mesmo tempo. Ele havia socado a garota no rosto! Porque ela o defendia?

– Mas então, Dalila, a Lily...

A porta da enfermaria se abriu com um estrondo. Todos olharam para a abertura, agora ocupada pela diretora do Instituto, supôs Samuel. Era uma mulher alta, idosa e pálida, muito pálida, como se toda sua cor houvesse sido sugada e em seu lugar tivesse deixado uma casca doentia. Mas mesmo assim, seus traços cansados pelo esforço de uma correria sugeriam feições gentis.

– Meninas... – A mulher olhou para Samuel, que agora olhava-a de olhos arregalados – e você... – Ela tossiu um líquido vermelho: sangue – uma emergência... – Tossiu novamente, o que pareceu acionar algum botão em Dalila, que foi aparar a senhora.

– Lily, Lily, está me ouvindo? O que aconteceu, Lily? – Dalila pegou uma lanterninha de seu bolso e apontou-a para os olhos pratas da mulher – Certo. Alma, pegue a substância, agora. Ande.

Isso pareceu despertar a outra garota de seu torpor, que saiu correndo em direção aos armários da enfermaria, murmurando algo parecido como ‘’O quanto será que ela correu?’’.

Samuel assistia aquilo assustado com a eficiência das meninas, em tanta sincronia que era quase como uma dança. Uma dança muito sinistra de amparo a uma enferma, que tossia com mais força agora.

Alma berrou um ‘’Achei!’’, logo antes de correr para a cabeceira da cama de Samuel, encher um copo de água numa jarra que ele não havia notado antes e entregar um pó prateado para Dalila, que o despejou no copo e deu para a idosa.

Ela o bebeu inteiro, respirou fundo e disse:

– Pois bem. Obrigada, meninas. Escutem: acabei de receber um chamado de emergência. Parece que um Caçador de Sombras foi encontrado morto – Alma colocou as mãos na boca e Dalila arregalou os olhos, passando a mão na testa – Recebemos essa informação por uma carta anônima. Só havia um endereço e os escritos ‘’ Há um Caçador de Sombras morto. Investiguem.’’. Sei que é perigoso, pode ser uma emboscada, mas demônios não escrevem, e sei que vocês conseguem. Além disso, não posso simplesmente ignorar. Quem mais sabe da nossa existência? Não estamos em conflito com ninguém do Submundo, até onde sei. Talvez – uma tosse, dessa vez seca, mas que despertou mais um sobressalto coletivo, mas a mulher – Lily, ao que parecia – fez um gesto com a mão dispensando a preocupação das meninas – alguém desarmado, não sei. Não temos tempo para isso. Andem, crianças.

Após trocarem um olhar, Dalila e Alma deram as costas à diretora e começaram a sair pela porta quando ouviram uma exclamação assustada da senhora:

– Ei! Garoto! Volte para sua cama, você endoidou?!

– Não. Eu quero ir.

Dalila se virou abruptamente.

– O que?!

Samuel encarou os olhos lindos da garota e disse:

– Eu vou. Vocês não podem me impedir.

De cabeça quente de indignação, Dalila soltou um grunhido agudo, que ela mais queria que fosse um grito alto e apontou um dedo para o garoto que se levantava.

– Escute, Fulaninho querido. Eu poderia listar uns cento e sententa e nove motivos para você não ir, mas começarei com três: você está fraco e machucado, não possui nenhuma habilidade de lut... – Dalila passou a mão quase imperceptivelmente pela bochecha machucada, mas balançou a cabeça e continuou — ... de luta, é novo aqui e não sabemos se você sabe usar nossas armas ou se é capaz disso e – chegou perigosamente perto do menino, deu um beijinho irônico em seu nariz e completou, sussurrando – eu seria sim, capaz de impedi-lo, se quisesse. – A menina continuava próxima de seu rosto, o fazendo se sentir envergonhado e com o coração acelerado por aquela respiração tão próxima de seu rosto.

Dalila sorriu mais uma vez e se afastou, apenas com um leve resquício de vermelhidão em suas bochechas claras. Se virou para Lily.

– Mas, pensando bem, Lily... Eu acho que ele deveria ir.

Agora foi a vez de Alma se pronunciar:

– Como é, Dalila? Acho que você passou tempo demais com esse maluco aí. Você acabou de quase socar o garoto de indignação.

– Não, Alma. Eu falo sério. Como Lily disse, me parece ser a cena do crime; quaisquer demônio que esteve ali antes agora não está, além de não ser mais problema meu a saúde de Samuel. Minha parte foi feita cuidando dele e ele se sente bem pra sair numa... experiência de campo. Que assim seja, não é? – Olhou para o garoto, que aparentava indiferença – Vou à sala de treinamento ver se consigo alguma roupa de luta para você e lhe darei uma adaga. Veremos como se sai.

Deu as costas a todos e saiu.

Notas finais
Nossa. Sério pessoas. Eu sinto tanto por ter demorado isso tudo para postar mais um capítulo.Eu fiquei muito empacada. Mas nada temam! O próximo já está programado para daqui a 3 dias, e prometo de corpo e alma que vou continuar a escrever. As coisas vão começar a ficar... interessantes. Preparem-se ;) . Agora, agradecer: Quero agradecer à Layla, é claro, por ser meu apoio, meu incentivo, minha revisora, shippadora (rá) e acima de tudo, minha amiga. Sua palavra como uma escritora maravilhosa (siiimmm, Habita-me>>>>mundo) alimenta meu ego pra caramba. Obrigada. De verdade. Também quero agradecer à Val, por ser o empurrãozinho que faltava pra eu continuar a história. Mesmo com vocês, pessoas lindas que acompanham, sejam um grande incentivo pra mim, a palavra da Val, como uma escritora que eu admiro (sim gente, ela também escreve! Ando sempre em ótima companhia, né? Leiam: Thing for You) foi tudo o que faltava para eu continuar. Agradeço à Nande também, minha amiga adulta (pra variar), que ama TMI e TID tanto quando eu e que me faz shippar um casal da vida real. Vocês são muito especiais para mim