É pecado pensar mal dos outros, mas raramente é engano. – H. L. Mencken

Dois dias. Faziam dois dias desde que o misterioso menino – agora apelidado de Fulano por Dalila, já que ela estava cansada de referir-se a ele como garoto ou alguma outra denominação do gênero – estava dormindo.

Sua respiração era lenta, tão lenta que em vários momentos preocupou a menina, que cuidava de Fulano dia e noite, principalmente após ter aplicado aquela Marca. Alma fora até lá para trazer comida, perguntar sobre o menino e observar Dalila cuidando dele, o que enervava a garota mais nova até que sua parabatai fosse embora.

Após muitos iratzes, Dalila, no nervosismo que a atingiu no meio tempo em que a Marca foi aplicada e o momento em que Fulano não se contorceu em agonia sobre si mesmo e o símbolo continuou em sua pele, confirmando as suspeitas de Alma que ele realmente era um Caçador de Sombras, observou o rosto dele de modo um tanto fixo – o que ela mais tarde julgou um gesto horrível, devido a várias experiências negativas com homens em seu passado.

Nesse olhar, ela captou que ele tinha pele dourada e cabelos bem castanhos, quase da mesma cor da pele de Alma, que eram lisos e muito sedosos ao toque, como ela mesma comprovou ao passar a mão por eles, num gesto mais para tranquilizá-la do que para penteá-los ou fazer algo útil. Seus cílios grossos emolduravam olhos belamente amendoados e ele parecia relaxado, ali, de olhos fechados, quase como se estivesse num spa.

Fulano era lindo.

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Sentada ao lado da cama do garoto, Dalila pensava consigo mesma o que exatamente iria perguntar para ele quando acordasse. Estava se decidindo entre ir aos poucos, como o clássico ‘’Qual seu nome?’’ ou o invasivo ‘’Quem é você e porque diabo estava na porta do Instituto altas horas da madrugada completamente ensanguentado e machucado?’’ quando Fulano, que estava começando a ofegar, teve um espasmo brusco no braço e quase acertou a menina. Ela, alarmada, deu um pulo da cadeira e ficou olhando para ele, confusa, até que se deu conta de que talvez estivesse tendo um pesadelo.

Sentou-se vagarosamente na cadeira de novo e começou a passar a mão na testa suada de Fulano, cantarolando uma cantiga baixinho. Ainda estava cantando quando ele abriu os olhos, ficou olhando para o teto e por fim a encarou. O garoto estava extremamente ofegante. Ela sorriu de modo apaziguador.

– Oi, Fulano. Não ligue para o apelido, não sei seu nome e já que ‘’Fulano’’ é um termo genérico, pensei que esse poderia ser seu nome enquanto você não me diz o seu e... – Ela estava tagarelando. Meu Deus, como se sentia ridícula sob o olhar castanho do menino. Aquela cor de olhos o deixava ainda mais estonteante, apesar dele ainda parecer meio fora do ar, com o olhar embaçado e respiração entrecortada. — Está se sentindo bem? Quer uma água?

Fulano abriu a boca e a fechou novamente. A encarava de um jeito que passou de curioso a perturbador em questão de segundos. Só que nem mesmo os reflexos rápidos de Dalila foram suficientes para impedir o soco em sua bochecha esquerda.

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MINUTOS ANTES

– Você já sabe exatamente o que fazer, não é mesmo? Finja, atue, iluda. Você é um menino inocente, que não sabe como foi parar ali. A atraia, finja que ela é tudo para você e quando menos esperar... Traga-a para mim. Está entendido?

– Sim, Protetor.

– Ótimo. Muito em breve o mandarei para lá. Siga estritamente as instruções. Sabe o que aconteceria se não, certo? Agora, diga exatamente aquilo que combinamos: como se machucou?

– Um demônio que me atacou no meio da rua. Eu já havia visto coisas estranhas antes, mas só agora que elas vieram a tona e se tornaram mais claras. Não sabia o que fazer e corri muito, até chegar nesse lugar e desmaiar.

– Exatamente como lhe ensinei. Acho que eu posso dar um pouco mais de pão a ela... – Ele o encarou, com aquela face disforme e perturbadora, de olhos semicerrados – Mas não, não é mesmo? A proximidade com sua missão não deve deixar espaço para caprichos idiotas. Afinal, faltam 12 anos para que finalmente ocorra... – O homem (será que deveria ser chamado assim?) não entendia que 12 anos era muito tempo. A sua ambição não deixava espaço para pensamentos coerentes. Mesmo assim, o menino de oito anos ficou calado, encarando-o. — Treine todas as 5 horas diárias amanhã e depois teremos a aula de resistência à tortura. Ficou claro?

– Sim, Protetor.

– Pois bem. Vá.

Ensanguentado e mancando, o garoto ainda se perguntava como conseguia encarar aquele rosto e não socá-lo até que não sobrasse nada.

Fulano ofegava. Não sabia exatamente o momento em que tinha acordado, mas mesmo assim agora se situava encarando um teto de mosaico, parecido com uma capela moderna. Virou o rosto para o lado e seu sangue gelou, o deixando boquiaberto. Uma massa de machucados que sangravam uma cor negra cobria parcialmente um dos lados de seu rosto, enquanto o outro pertubadoramente deixava entrever traços humanos, com olhos da cor de uma floresta e uma bochecha mal barbeada. Era ele, o homem que povoava seus pensamentos e que dava vida à seus pesadelos. Não sabia como estava ali, mas sabia que tudo que precisava fazer era matá-lo, nem que precisasse usar suas próprias mãos para isso.

Alaric.

Desferiu um soco no rosto daquela criatura.

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Ela, surpresa de choque e dor, acabou caindo de bunda no chão, ferindo seu cóccix e sua dignidade. Mas se levantou num átimo, olhando para Fulano, que piscava olhando para a menina enquanto ela sentia o gosto de sangue na boca. Só que antes de ele piscar mais uma vez, ela já estava com sua adaga na mão, apoiada diretamente no pescoço dele, com talvez uma força excessiva para alguém que não tinha a intenção de machucar. Ainda.

– Quem é você? Por que fez isso? – Sua calma deliberada e dentes brancos alinhados, que agora estavam manchados de sangue, provavelmente dariam um sorriso lindo em outras circunstâncias, mas naquele momento assustavam muito Fulano, que a olhava – mais precisamente para sua bochecha vermelha – de olhos arregalados.

– Eu... eu... – sua voz grave e arrependida desnorteou Dalila, mas não fez com que a menina aliviasse a pressão da lâmina contra seu pescoço. – não consigo... respirar...

Dalila se sobressaltou ao ver que, inconscientemente, estava enforcando Fulano, usando sua outra mão para apertar o pescoço do garoto. Ela se arrependeu e soltou o aperto da mão, apesar de não tirar a adaga do pescoço dele. Nunca fora agressiva, intolerante ou descontrolada, mas devido a acontecimentos do passado, simplesmente não reagia bem a qualquer tipo de agressão.

– Desculpe. – Não, não deveria pedir desculpas! Aquele garoto havia acabado de socar sua cara depois de você passar dois dias cuidando do rabo dele! Vai, pressione-o novamente. Balançou a cabeça – Vou perguntar mais uma vez e você vai me responder: Quem é você e por que fez isso?

Silêncio. Ficaram os dois se encarando, se analisando. Dalila odiava o jeito que Fulano a olhava, como se não fosse ele quem estivesse com uma faca afiadíssima apertada contra o pescoço e totalmente desarmado e nu, e sim ela.

– Então? – Ela levantou uma sobrancelha, começando a perder o pouco da compostura que lhe restava. Agora ele a encarava com uma expressão... divertida? – Fale. Agora.

O menino suspirou e repassou o que deveria dizer. Apesar de não estar no seu ''roteiro’’ explicar um soco. Ele ia abrir a boca quando a menina, que ficava ainda mais linda irritada, deu um grunhido e falou:

– Escuta aqui, garoto. Se você não falar agora...

– Samuel.

– O que? – Disse ela, não esperando que ele realmente a respondesse.

– Samuel. Meu nome é Samuel.

Notas finais
Primeiramente, mil desculpas pela demora. Provas, falta de inspiração... Mas que seja. As provas acabaram e a inspiração veio. Espero que tenham gostado! Segundamente (ha ha) (sei que não existe, tá? :P ), Layla. Muito obrigada pela ajuda, por encontrar as palavras quando elas fugiam e por me incentivar. Esse capítulo não seria escrito e essa história não aconteceria sem você. Te adoro demais