O Elixir da Morte
2 Capítulo I
Notas iniciais
Dalila Bluecross acordou ofegante, suada e assustada.
Ela deu um grunhido frustrado. Não conseguiria mais dormir até que tomasse uma água, se acalmasse e limpasse os lençóis molhados de suor frio.
Era a 3ª vez que aquilo acontecia em uma semana. Dalila já estava começando a ficar irritada. Não só odiava não conseguir dormir como também estava muito confusa. Por que agora? Fazia mais de cinco anos que não tinha pesadelos, e então eles voltaram com força total.
Ela suspirou. Muitas coisas eram estranhas na sua vida, e aquela era apenas um mero detalhe.
Para começo de conversa, ela era uma Caçadora de Sombras. Isso já era um fato bastante peculiar que muitas vezes dava início a longas indagações: ela havia sido abençoada por ter nascido assim ou amaldiçoada por todos os problemas que seu sangue angelical trouxe?
Em segundo lugar, era órfã. Não que isso fosse algo estranho, mas a deixava em uma situação diferente: morava em um Instituto, junto da parabatai e de Lily, sua tutora e diretora do lugar. Ela era muito feliz ali, ao longo dos dez anos que teve para se adaptar. Sem dúvida o começo foi muito difícil, mas agora sabia que podia chamá-lo de “minha casa”.
Passou os olhos pelo quarto na penumbra, iluminado pelas luzes da calçada. Paredes cheias de livros e uma cama lotada de papéis. Nada mal. Respirou fundo, sentindo o cheiro de papel antigo e livros empoeirados, e deu início à longa caminhada até a cozinha.
Lily já havia oferecido, consciente de seu problema noturno, um quarto mais próximo da cozinha. Dalila negou. Já não bastava que a diretora fosse viciada na temida droga yin fen, que fez tantas vítimas no passado; ela agora lutava para se manter forte diante das pressões da Clave para que entregasse a diretoria do Instituto para outro Caçador. Lily tentava contornar a situação, mas era evidente que isso desgastava a senhora. Basicamente, uma jovem medrosa não poderia ser um aborrecimento no seu dia a dia.
Enquanto andava, passando por várias portas fechadas, foi cantarolando uma música para afastar o silêncio. Ela sempre estranhou o quão vazio era o Instituto a maior parte do ano, ainda por cima numa cidade tão grande como o Rio de Janeiro. Exceto, é claro, no verão, quando Caçadores de Sombras vinham de todas as partes do mundo e abusavam da hospitalidade fornecida por aquele lugar.
O lado bom era que Dalila e Alma tinham oportunidade de conversar em outros idiomas, levando as aulas teóricas de francês, inglês e espanhol para a vida real. Lily sempre observava com um sorriso no rosto enquanto as meninas se esforçavam para conjugar os verbos corretamente durantes as conversas. Fora que podiam conversar com pessoas diferentes, o que era um alívio.
Dalila achava a construção linda, como um hotel antigo, com seu piso de mármore creme, teto entalhado ao estilo barroco e belas arandelas, as quais estavam sempre acesas. Só era muito silenciosa, bloqueando todo o barulho de carros e buzinas da rua.
Soltou uma risada ao lembrar-se de Alma dançando com música alta no seu quarto para afastar o barulho ensurdecedor de todo o silêncio da ala dos dormitórios. Mas a risada logo se esvaiu quando pensou no quão tarde ela havia chegado no dia anterior. Havia outra vantagem naquele quarto: Dalila sempre ouvia quando Alma chegava. Apesar de a menina ser uma Caçadora de Sombras, delicadeza e silêncio não eram seu forte.
Dalila sabia que, um ano mais velha que ela, Alma era maior de idade agora e podia beber, coisa que fazia mais frequentemente do que Lily e ela gostariam, tornando a preocupação com o bem estar da garota algo constante. Mesmo que Dalila sempre procurasse afastar os aborrecimentos de Lily, era inevitável que ela ficasse sabendo de uma ou outra escapada noturna da garota mais velha. Dalila, por mais que se sentisse momentaneamente com raiva, não conseguia manter-se assim por muito tempo. Após nove anos sendo parabatai de Alma, deveria estar acostumada às táticas de apaziguamento dela, mas acabava cedendo. Sempre.
Alma teve seus pais mortos durante uma missão e chegara ao Instituto quando ainda era um bebê. Lily a criara como se fosse a filha que nunca teve, e as duas viviam sozinhas naquele lugar. Devia ser assustador e solitário, pensava Dalila, quando se lembrava disso. Sete anos depois, ela chegou e, um ano mais tarde, as meninas mais novas eram parabatais para todo o sempre. Uma grande família feliz. Tinham os seus problemas e cada uma lidava de maneira diferente com eles, mas eram felizes, sim.
Dalila acelerou o passo “Já chega de pensar em Alma, em Lily, em qualquer outra coisa. Concentre-se em pegar sua água”, repreendeu-se mentalmente.
Já estava chegando à cozinha e perto do final da 9ª sinfonia de Beethoven que cantarolava quando sentiu, mais do que ouviu, o ribombar grave e imponente do sino da convocação.
Dalila parou onde estava, completamente assustada, em parte pelo barulho repentino e em parte sobre o significado claro deste barulho: havia alguém lá fora. No meio da noite. Não era nada bom.
A garota nunca foi exatamente bem informada sobre as propriedades da entrada do Instituto, sabia apenas o básico: apenas alguém com sangue Caçador de Sombras podia abrir a porta e ninguém de sangue demoníaco poderia entrar ali. Mas isso não significava absolutamente nada naquele momento, já essas condições sanguíneas não faziam diferença para tocar o sino, portanto, poderia ser qualquer coisa do lado de fora.
Rapidamente cogitou a possibilidade de ter imaginado o som, qualquer coisa que a impedisse de ir à porta para verificar quem estava lá fora. Não é que tivesse medo do que poderia acontecer com ela, mas do que poderia acontecer a Lily e Alma se houvesse uma ameaça de verdade ali.
Mas não, não foi imaginado: Dalila ainda sentia a vibração no seu corpo dormente. Resignada e nervosa, a garota saiu correndo em direção a porta, sem esquecer-se de retirar a espada de uma armadura decorativa exposta na parede. Não era uma lâmina serafim, capaz de derreter a pele e entranhas dos demônios, mas servia para os propósitos dela, mesmo que tivesse sido feita grosseiramente e fosse muito, muito pesada.
Tentando não arrastar a espada no chão, Dalila chegou aos grandes pedaços de madeira maciça negra e abençoada, a porta do Instituto.
Respirou fundo, pegou a chave pendurada no prego ao lado e abriu a porta.
O ar frio da madrugada invadiu o recinto, fazendo a garota tremer em seus pijamas finos. Dalila vacilou. Ela, de espada em punho, encarou a entrada vazia.
Até que olhou para baixo.
O tilintar alto de metal sobre pedra quando ela deixou a espada cair não foi a única coisa que fez a Caçadora de Sombras soltar um palavrão alto: ali, na entrada do Instituto, havia uma poça de sangue. Nessa poça, estava um garoto desacordado.
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