Quando o mundo de Órion ainda era apenas uma pequena mancha perdida na imensidão do universo, o jovem deus Jayden tomou uma de suas próprias madeixas louras e a transformou em um poderoso cajado.


Com ele, começou a desenhar.


Traçou as primeiras linhas no vazio, como um jovem pintor diante de uma tela infinita. Cada movimento de seu cajado fazia nascer uma nova parte daquele mundo. Não havia tinta, nem papel, apenas a magia primordial de um deus criando algo que jamais havia existido.


Jayden começou pelo céu.


Desenhou nuvens brancas que vagavam lentamente pela imensidão azulada. Criou estrelas, luas e constelações. Espalhou poesias pelo firmamento, como se cada estrela carregasse uma história esperando para ser contada.


E, ao observar sua criação crescer diante de seus olhos, sorriu.Estava emocionado.

Órion não era apenas um mundo.

Era seu sonho.


Aos poucos, seus irmãos, os deuses primordiais, também passaram a contribuir para aquela criação.

Quillon, seu irmão do meio, ergueu as florestas, abriu os rios e cobriu vastas regiões com uma natureza exuberante. Por sua obra, recebeu o título de Deus da Natureza.

Adarka, a mais jovem entre eles, utilizou seus poderes para erguer os primeiros reinos de Órion. Criou cidades, muralhas, castelos e territórios que seriam habitados pelas futuras gerações.


E assim, Órion começou a prosperar.

Os humanos surgiram e os reinos cresceram. E, durante algum tempo, os deuses acreditaram que haviam criado um mundo perfeito. Mas nem todos estavam satisfeitos.

Entre os deuses primordiais havia um que observava tudo aquilo com crescente impaciência.


Daggenbell.


Temido até mesmo por seus irmãos, ele acreditava que os humanos estavam recebendo privilégios demais. Para ele, prosperidade sem sofrimento não produzia força.


Durante a celebração do Eclipse Dourado, o momento em que os reinos de Órion alcançaram seu período de maior prosperidade, Daggenbell finalmente revelou seus pensamentos.


- Não vamos perder nosso tempo com criações e elogios — declarou, enquanto os demais deuses celebravam. — Precisamos descobrir do que os humanos realmente são capazes.


O salão ficou em silêncio.


Daggenbell continuou:


- Quero ver sua força sendo testada. Quero guerras. Quero que lutem por poder, por território, por vingança. Quero descobrir até onde estão dispostos a ir quando o medo e o ódio tomarem conta de seus corações.


Jayden permaneceu em silêncio.


Eucarin, o deus responsável pelo submundo e considerado o segundo mais temido entre os primordiais, aproximou-se do irmão.


- Meu irmão, esqueça isso — disse ele. — Hoje devemos comemorar. Estamos ficando cada vez mais poderosos. Isso já é uma dádiva.


Daggenbell soltou uma risada amarga.


- Eu não quero dádivas.


Seus olhos se voltaram para Jayden.


- Quero poder.


O salão inteiro pareceu estremecer.


- Quero ser o mais poderoso entre os deuses.


Daggenbell apontou diretamente para Jayden.


- Até mesmo mais poderoso do que você jamais foi.


Jayden se levantou de seu trono.


Naquele instante, ninguém sabia que aquelas palavras seriam o início de uma guerra que atravessaria séculos.


Seiscentos anos depois...


A guerra entre Jayden e Daggenbell havia transformado Órion.


Durante seiscentos anos, os exércitos dos dois deuses se enfrentaram em diferentes partes do universo. Reinos foram destruídos. Reis foram derrubados. Povos inteiros desapareceram.


Daggenbell alimentava a ambição dos homens.


Jayden tentava proteger aquilo que havia criado.


Nenhum dos dois conseguia obter uma vitória definitiva.


Era uma batalha entre criação e destruição.


Entre esperança e ódio.


Entre dois irmãos que um dia haviam compartilhado o mesmo céu.


Até que, finalmente, chegou o dia decisivo.


No coração de uma tempestade cósmica, Jayden enfrentou Daggenbell pela última vez.


Os dois lutaram durante horas.


O céu de Órion se abriu.


As estrelas desapareceram.


E os próprios deuses observaram, em silêncio, enquanto o destino de seu mundo era decidido.


No último golpe, Jayden conseguiu derrotar o irmão.


Daggenbell caiu.


Mas Jayden não o matou.


Em vez disso, ergueu seu cajado e abriu uma fenda no espaço.


- Você não pertence mais a este mundo.


Daggenbell tentou resistir, mas as correntes mágicas começaram a envolver seu corpo.


Jayden fechou os olhos.


Havia raiva em seu coração.


Mas também havia tristeza.


- Eu o banirei para além das estrelas. Lá permanecerá preso até que o próprio sangue de nossa linhagem o encontre.


Daggenbell gritou enquanto era arrastado para dentro da escuridão.


Jayden então pronunciou sua sentença:


- Somente será libertado quando um herdeiro de nosso sangue o convocar durante o Eclipse Vermelho.


A prisão se fechou.


O universo voltou ao silêncio.


E Daggenbell desapareceu.


Para sempre.


Ou assim todos acreditaram.


Jayden permaneceu diante da prisão cósmica durante alguns instantes, segurando seu cajado com força.


Uma lágrima escorreu por seu rosto.


Ele havia vencido.


Mas, pela primeira vez desde a criação de Órion, Jayden percebeu que algumas coisas não poderiam ser simplesmente desenhadas novamente.


O mal que Daggenbell havia colocado no mundo continuaria existindo.


Escondido.


Adormecido.


Esperando.


E, em algum momento no futuro, um descendente da linhagem dos deuses encontraria o caminho até aquela prisão.


Quando o Eclipse Vermelho surgisse novamente no céu...


Daggenbell retornaria.


E Órion jamais seria o mesmo.