O Eclipse Vermelho
5 Capitulo 4
Octavius e Damien estavam montados em dois cavalos, estavam encapuzados na entrada do império de Carmésia, agora governado por Norman, o irmão mais novo de Octavius e preferido por Octavius I, o pai deles, pois segundo ele, Norman tinha mais carisma e poder.
— Estou com medo. — Octavius estava com medo de ser descoberto, afinal a partir do momento em que ele fosse descoberto pelos soldados de Norman, ele seria executado imediatamente, pois ele havia sido banido para sempre.
— Normal sentir medo, eu no seu lugar, sentiria pavor. — Damien falou por baixo do capuz, ele estava sorrindo, o jovem príncipe que estava ao seu lado, tinha o total direito de governar, o mundo seria mais justo para todos se isso realmente acontecesse.
— Você não está com medo? — Octavius questionou Damien, o elfo não parecia estar sentindo medo afinal de contas.
— Você não está com medo? — Octavius questionou Damien. O elfo não parecia estar sentindo medo, afinal de contas.
Damien soltou uma breve risada.
— Claro que estou. Só que aprendi há muito tempo que medo e coragem caminham juntos. Quem não sente medo é um tolo. Quem age apesar dele, esse sim é corajoso.
Octavius permaneceu em silêncio. Seus olhos estavam fixos nos imensos portões de Carmesia. Mesmo encobertos pela névoa da manhã, ele reconheceria aquelas muralhas em qualquer lugar. Havia crescido atrás delas. Havia corrido por aqueles jardins. Havia treinado naqueles pátios.
E havia sido expulso dali como um criminoso.
No alto das torres, as bandeiras vermelhas e douradas de Carmesia balançavam ao vento. Antigamente, aquilo lhe trazia orgulho. Agora, apenas despertava amargura.
— Norman era apenas uma criança quando eu saí. — Sua voz saiu baixa. — Eu o carregava nos ombros durante os festivais. Ele ria de tudo.
— As pessoas mudam.
— Ou revelam quem realmente são.
Damien observou o príncipe por alguns segundos.
— Ainda há tempo para desistir.
Octavius virou o rosto.
— Depois de tudo o que aconteceu?
— Sim.
— Depois de anos fugindo?
— Sim.
— Depois de ver meu pai destruir minha reputação e entregar meu lugar a Norman?
— Sim.
Damien ergueu os ombros.
— Porque se cruzarmos aqueles portões, não haverá volta.
O silêncio voltou a se instalar entre os dois.
Ao longe, uma patrulha passava próximo às muralhas. Os soldados usavam armaduras negras com o brasão do novo imperador estampado no peito: um leão dourado cercado por chamas.
O símbolo de Norman.
Octavius sentiu o estômago revirar.
Seu irmão governava o império que deveria ter sido seu.
Mas o que mais o atormentava não era a perda do trono.
Era a dúvida.
Durante anos ele havia se perguntado se seu pai realmente acreditava que Norman seria um governante melhor... ou se existia algum segredo que jamais lhe contaram.
Damien puxou as rédeas do cavalo.
— Está na hora.
— Certo.
Os dois avançaram lentamente.
Cada passo dos cavalos parecia mais pesado que o anterior.
Quando se aproximaram dos portões, um dos guardas ergueu a mão.
— Parem aí!
Outros três soldados imediatamente se aproximaram.
— Nomes e propósito da visita.
Damien respondeu antes que Octavius pudesse dizer qualquer coisa.
— Mercadores vindos do Norte. Buscamos abrigo e permissão para negociar.
O guarda os observou atentamente.
— Mostrem os rostos.
Octavius sentiu o coração disparar.
Se retirasse o capuz, tudo terminaria ali.
Execução imediata.
Talvez até pior.
Damien pareceu perceber sua tensão.
Por um breve instante, o elfo levou discretamente a mão ao cabo da espada.
Os soldados não perceberam.
Mas Octavius percebeu.
Se fossem descobertos, Damien estava disposto a lutar.
Mesmo contra dezenas.
O guarda deu um passo à frente.
— Eu disse para mostrarem os rostos.
A mão de Octavius tremia.
Então uma voz ecoou do alto das muralhas.
— Esperem!
Todos olharam para cima.
Uma mulher vestida com a armadura prateada da Guarda Imperial observava a cena.
Seus cabelos negros dançavam ao vento.
Ela encarou Octavius por alguns segundos.
Longos e desconfortáveis segundos.
Então seus olhos se arregalaram.
Como se tivesse reconhecido alguém que julgava morto.
Octavius sentiu um frio percorrer sua espinha.
Porque ele também a reconheceu.
— A capitã Frost. — Octavius falou, ele sentiu que tudo o que estava perdido, Frost era a principal arma viva de Norman, uma guerreira de habilidades incríveis.
Damien olhou para ela.
— Eu tenho um truque na manga, só espero que o Véu da Noite não me decepcione dessa vez.
— Véu da Noite? O navio? — falou Octavius, surpreso.
Damien concordou.
— O capitão Johnny McGallagher Green é o meu aliado e está disposto a te ajudar. — Damien sorriu, o capitão Green era muito mais do que um aliado, era um amor de outras vidas, além de ser um dos piratas mais temidos de Órion, ele era o capitão do navio Véu da Noite, um navio de velas pretas e parecia navegar sob o oceano como um véu vestido pela deusa da noite.
Octavius ainda surpreso sorriu.
Octavius ainda surpreso sorriu.
Por anos, parecera que todos os deuses de Órion haviam voltado as costas para ele. Agora, pela primeira vez em muito tempo, sentia que a sorte talvez estivesse começando a mudar.
— Então não estamos sozinhos. — disse ele.
— Nunca estivemos. — respondeu Damien. — Apenas tínhamos que encontrar as pessoas certas.
No alto da muralha, a capitã Frost continuava observando os dois cavaleiros. Seu olhar era tão afiado quanto uma lâmina recém-forjada.
Os guardas aguardavam uma ordem.
— Capitã? — perguntou um deles.
Frost permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Seu olhar estava fixo em Octavius.
Ela o reconheceu.
Disso não havia dúvidas.
A questão era o que faria com aquela informação.
Por fim, a capitã ergueu a voz.
— Deixem-nos entrar.
Os guardas se entreolharam.
— Mas, capitã...
— Isso foi uma ordem.
Imediatamente os enormes portões de Carmesia começaram a se abrir.
As correntes rangeram.
A madeira reforçada deslizou lentamente.
Octavius sentiu o coração acelerar.
Aquilo não fazia sentido.
— Ela sabe quem eu sou. — Murmurou.
— Eu também percebi. — respondeu Damien.
— Então por que nos deixou entrar?
— Talvez queira capturar você longe dos olhos da população.
— Isso não me tranquiliza.
Damien sorriu.
— Não era para tranquilizar.
Os dois cavalgaram para dentro do império.
Nada parecia igual.
As ruas estavam mais cheias.
Os mercados mais ricos.
Novas estátuas haviam sido erguidas.
E todas homenageavam Norman.
Octavius sentiu uma pontada de raiva.
Seu pai fizera questão de apagar sua existência.
Era como se o antigo príncipe jamais tivesse existido.
Enquanto avançavam pelas avenidas principais, dezenas de soldados podiam ser vistos patrulhando.
Frost observava tudo do alto da muralha.
Quando teve certeza de que os viajantes já estavam longe dos portões, virou-se para um dos seus tenentes.
— Não conte a ninguém o que viu.
— Capitã?
— Ninguém.
— Mas se era realmente ele...
— Não me faça repetir.
O tenente engoliu seco.
— Sim, senhora.
Frost caminhou até sua sala na torre principal.
Assim que entrou, abriu uma gaveta antiga.
No fundo dela havia um retrato.
Um retrato de três crianças.
Octavius.
Norman.
E ela.
Durante um instante, seus olhos perderam a dureza habitual.
— Idiota... — sussurrou. — Por que voltou?
Ela fechou a gaveta.
Mas não antes de revelar algo escondido sob o retrato.
Um antigo medalhão dourado.
O símbolo da antiga Casa Imperial.
O símbolo legítimo de Octavius.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, uma figura observava Carmesia a partir do mar.
O Véu da Noite.
As velas negras pareciam absorver a luz do sol.
Piratas corriam pelo convés preparando canhões e cordas.
Na proa estava o capitão Johnny McGallagher Green.
Alto, elegante e perigoso.
Seu longo casaco negro dançava com o vento.
Um marinheiro se aproximou.
— Capitão, recebemos o sinal.
Johnny sorriu.
— Então Damien conseguiu.
— Devemos nos aproximar?
— Ainda não.
— O que faremos?
Johnny observou as muralhas da capital.
— Esperaremos.
— Esperar por quê?
O capitão abriu um sorriso confiante.
— Pelo momento exato em que o inferno vai começar.
De volta a Carmésia, Octavius e Damien seguiam pelas ruas sem perceber que dezenas de olhos já os observavam das sombras.
Nem todos eram leais a Norman.
Nem todos haviam esquecido o príncipe banido.
E naquela mesma noite, rumores começaram a se espalhar pelos becos da cidade.
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