O ECO DO SOL
5 O Grito do Sangue e do Silêncio
Notas iniciais
Capítulo 5: O Grito do Sangue e do Silêncio
O range esporádico do vinil do sofá-cama denunciava a inquietação física de Renée, mas sua mente operava em uma frequência muito mais fluida, alheia ao desconforto do hospital. Seus olhos castanhos, ainda fixos na minha imobilidade fingida ao lado do leito de Bella, suavizaram-se com uma nova onda de devaneios. A culpa que a sufocara momentos antes foi temporariamente empurrada para o fundo de sua consciência por uma projeção detalhada e quase lúdica de um futuro distante. Ela voltou a desenhar em sua mente a linhagem que nasceria daquele amor adolescente que ela tanto idolatrava. Renée imaginou crianças, duas ou três, correndo por um gramado ensolarado que definitivamente não ficava em Forks. Em suas visões, essas crianças herdavam uma combinação genética perfeitamente poética: os cabelos acobreados e rebeldes que ela via em mim, mas os olhos castanhos, profundos e expressivos de Bella.
Uma pontada de autocrítica bem-humorada, misturada à sua típica leveza volúvel, cruzou os pensamentos de Renée enquanto ela se imaginava no papel de avó. Ela fez uma observação mental que me arrancou um quase imperceptível esgar de ironia na penumbra: Renée tinha a certeza absoluta de que a avó favorita daquelas crianças seria Esme Cullen. Ela conseguia ver Esme como a matriarca perfeita, doce, organizada, assando biscoitos e mantendo uma casa impecável onde os netos teriam tudo sob controle. Já ela própria... Renée se visualizou como aquela avó excêntrica e distante, que ligaria de algum lugar tropical no meio da semana para falar sobre astrologia ou seu novo curso de pintura em cerâmica, fazendo com que as crianças rolassem os olhos em um misto de afeto e impaciência enquanto seguravam o telefone. Ela aceitava esse papel com uma resignação quase infantil; sabia que nunca seria a âncora de ninguém, nem mesmo dos netos.
Essa aceitação de sua própria incapacidade de ser o porto seguro agiu como a correnteza final que a puxou de volta para o dia em que sua maior responsabilidade viera ao mundo. A mente de Renée mergulhou sem barreiras no dia treze de setembro de mil novecentos e oitenta e sete.
O calor de Phoenix e os bipes do hospital desapareceram por completo. Fui tragado para uma sala de parto fria, iluminada por lâmpadas fluorescentes que zumbiam de forma irritante no Hospital Geral de Port Angeles. Através do sistema nervoso e emocional de Renée, eu experimentei o turbilhão avassalador da carne humana. A dor do parto era um monstro físico, uma onda de contrações que parecia rasgar sua estrutura pálida e pequena de dentro para fora, mas o que realmente me impressionou foi a magnitude do amor que vinha atrelado àquela agonia. Não era o amor calculado de um imortal; era um sentimento visceral, sangrento, uma urgência mamífera de proteger a vida que lutava para emergir.
Charlie estava lá. Na memória de Renée, a mão grande e áspera do jovem policial segurava os dedos dela com tanta força que os nós dos dedos dele estavam brancos. O rosto de Charlie estava banhado em suor e pânico, os mesmos olhos castanhos que Bella herdaria fixos em Renée com uma devoção que beirava o desespero.
— Você consegue, meu amor... Você é forte, a nossa menininha está quase aqui... — a voz de Charlie ecoou no passado, trêmula, rouca, desprovida de qualquer uma de suas habituais reservas masculinas. Ele beijava a testa ardente de Renée entre cada empurrão, oferecendo seu próprio corpo como apoio.
Quando o último esforço físico se desfez em um alívio cortante, o som que preencheu a sala de parto não foi o barulho da chuva lá fora, mas o primeiro choro agudo, forte e insistente de Bella. No instante em que os médicos colocaram aquele pequeno embrulho de pele avermelhada e cabelos escuros contra o peito de Renée, eu senti o impacto na alma daquela mulher. Era um amor imaturo, sim, mas era total. Renée chorava alto, os dedos trêmulos acariciando a cabecinha úmida do bebê, maravilhada com a perfeição daquela criatura que ela e Charlie haviam criado.
No entanto, o inverno de Forks não dava tréguas. A transição da memória saltou rapidamente para os meses seguintes, e a atmosfera dourada do nascimento foi engolida por uma escuridão densa, sufocante e silenciosa. A casinha na floresta tornou-se o cenário de um tormento que ninguém ao redor de Renée foi capaz de decifrar na época. O Edward observador, com duas graduações medicina, munido de conhecimentos que os humanos negligenciavam, diagnosticou a realidade imediatamente: Renée caíra nas garras de uma depressão pós-parto severa, uma névoa química e psicológica que transformava cada dia em um pesadelo de exaustão.
O bebê chorava no berço e a chuva... a chuva simplesmente não parava. O barulho constante das gotas d'água batendo contra as vidraças da janela parecia um tique-taque mental, uma contagem regressiva para a sua própria extinção espiritual. Renée olhava para os lençóis lavados, para as mamadeiras empilhadas e para o céu cinzento que parecia ter descido até a copa das árvores, e sentia que estava murchando. Sua pele estava empalidecida, as olheiras profundas marcavam seu rosto jovem e o entusiasmo que outrora a definia fora substituído por um vazio apático.
Charlie trabalhava turnos duplos para pagar as contas do hospital e passava as poucas horas de folga cuidando dos pais muito idosos e doentes. Ele entrava em casa exausto, cheirando a lama e café frio, e embora olhasse para Renée com o mesmo amor de sempre, ele simplesmente não tinha a capacidade de enxergar o abismo onde ela estava afundando. Ele achava que era apenas o cansaço normal de uma mãe de primeira viagem. Ninguém percebeu. Ninguém estendeu a mão para retirá-la daquela parálise.
A mente de Renée reviveu o momento doloroso, em meados de mil novecentos e oitenta e oito, em que a decisão de partir se cristalizou em seu peito como uma questão de sobrevivência. Ela percebeu, com uma clareza aterrorizante, que se ficasse em Forks por mais um inverno, ela desapareceria por completo; ela se tornaria uma casca vazia e amargurada, exatamente como sua mãe Marie. A fuga não era um capricho egoísta aos seus olhos; era um instinto desesperado de preservação pelo bem de Bella, para que a filha não crescesse sendo criada por um fantasma deprimido.
A cena da ruptura final desdobrou-se na sala de estar da casinha. As malas de papelão de Renée já estavam empilhadas perto da porta. Bella, com pouco mais de seis meses, estava aninhada em seu bebê-conforto, alheia à tragédia que se desenhava acima de sua cabeça. Charlie estava de pé no centro da sala, ainda usando o uniforme de policial, o chapéu seguro entre as mãos que tremiam visivelmente. Seu rosto exibia a expressão de um homem que acabara de ver o próprio mundo ser implodido sem aviso prévio.
— Por favor, Renée... não faz isso com a gente... — a voz de Charlie era um sussurro quebrado, uma súplica que cortou o peito de Renée na memória com a força de uma lâmina afiada. Havia lágrimas descendo livremente por suas bochechas rudes. — Eu sei que é difícil. Eu sei que eu não tenho estado tão presente, mas eu posso mudar. Eu peço transferência, eu faço qualquer coisa... Só não leva a nossa filha embora. Não me deixa aqui sozinho nesse escuro.
A dor de Renée ao ouvir aquele apelo foi quase insuportável de testemunhar. Ela avançou, segurando os braços de Charlie, os olhos castanhos transbordando com a certeza de que estava cometendo um ato de crueldade necessário, mas imperdoável.
— Eu preciso ir, Charlie... Se eu ficar aqui, eu vou morrer por dentro, e a Bella não merece uma mãe morta — ela soluçou contra o peito dele, sentindo o calor daquele homem que ela ainda amava, mas de quem precisava fugir. — Não é você, nunca foi você. Sou eu. Eu não caibo nesse lugar...Eu não posso ficar presa aqui para sempre. Me desculpa... por favor, me desculpa.
O divórcio saiu em março de mil novecentos e oitenta e oito. Ao reviver o momento em que cruzou os limites da cidade de Forks na caminhonete velha, deixando para trás um Charlie Swan devastado na varanda da cabana, a Renée real, no presente do hospital, soltou um gemido baixo de sofrimento contido, apertando os olhos para estancar as lágrimas. A culpa residual por ter "quebrado" o homem mais gentil do mundo ainda era o seu maior fantasma.
Eu recuei mentalmente daquela invasão, sentindo o ar-condicionado do hospital voltar a congelar minha pele de mármore. Eu olhei para o rosto de Bella e compreendi, com uma profundidade que me assustou, que a fragilidade e a força da minha garota eram o resultado direto dessa fratura original. O amor destruíra o pai dela, e a culpa moldara a mãe. O mosaico estava completo, e as memórias de Renée começavam a se acalmar, assentando-se como poeira após a tempestade enquanto ela adormecia no sofá-cama, deixando-me sozinho na escuridão com o eco do sol que ela perdera.
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