O ECO DO SOL
4 A Semente sob a Névoa
Notas iniciais
Capítulo 4: A Semente sob a Névoa
O peso da exaustão humana finalmente cobrou seu preço. Renée soltou um suspiro longo, os ombros caindo enquanto ela se afastava lentamente do leito de Bella. Com passos arrastados, ela caminhou até o sofá-cama de acompanhante estofado em vinil azul-escuro, que rangeu sob o seu peso quando ela se sentou. Suas costas se apoiaram no encosto rígido, mas seus olhos castanhos não se desviaram da imagem que formávamos do outro lado do quarto. Sob a perspectiva de sua mente romântica e eternamente esperançosa, a visão de nós dois, a filha desacordada e o namorado misteriosamente devoto, estático na escuridão enquanto segurava sua mão, era a definição viva de um quadro trágico, porém perfeito.
Renée começou a projetar um futuro idílico para nós. Em seus pensamentos, ela via uma casa ampla e iluminada, com janelas enormes que deixavam o sol entrar, muito diferente da cabana sombria de Charlie em Forks. Ela imaginava Bella rindo na cozinha, cercada por crianças de cabelos castanhos e olhos expressivos, seus futuros netos. Uma certeza absoluta inundou a mente de Renée: Bella seria uma mãe maravilhosa, absolutamente perfeita. Havia uma ironia melancólica nessa constatação, um eco de autodepreciação que me atingiu em cheio. Renée sabia, no fundo de sua alma fragmentada, que Bella aprendera a ser perfeita porque passara a vida inteira invertendo os papéis dentro de casa. Desde muito pequena, Bella cuidara de Renée, remendando seus esquecimentos, pagando as contas e agindo como a verdadeira mãe da relação. A gratidão de Renée pela maturidade da filha se misturava ao desejo de que, nos meus braços, Bella pudesse finalmente ser cuidada com a mesma intensidade com que cuidara dos outros.
Essa linha de pensamento sobre maternidade, responsabilidade e o peso de Forks agiu como o gancho que a puxou de volta para o abismo de suas próprias recordações. O quarto de hospital desbotou mais uma vez na mente de Renée, e eu me vi forçado a caminhar ao seu lado pelas ruas da cidade que eu mesmo habitava no presente, mas sob uma ótica completamente invertida.
A transição foi fria e úmida. De repente, eu estava experimentando Forks através dos sentidos de uma criatura solar, e a sensação era puramente claustrofóbica. Para mim e minha família, o céu constantemente coberto por uma camada espessa de nuvens cinzentas era uma bênção, um escudo protetor que nos permitia andar entre os humanos sem revelar nossa natureza cintilante. Mas, através da mente de Renée, aquele mesmo céu de chumbo parecia uma prensa hidráulica invisível, esmagando seu peito dia após dia. O cheiro constante de terra molhada, musgo e pinheiros encharcados não era reconfortante; era o aroma do confinamento.
Eu a vi em sua rotina diária no outono de 1986. A novidade de "brincar de casinha" havia se desgastado com a velocidade de uma pintura barata lavada pela enxurrada. Renée trabalhava como garçonete em um pequeno restaurante local, o balcão de madeira escura cheirando a café queimado e gordura. No início, ela se entusiasmara, usando seu dom natural de persuasão para encantar os lenhadores e pescadores locais, rindo com os clientes e tentando transformar o ambiente em algo vibrante. Mas a realidade de Forks sempre vencia. Os rostos eram sempre os mesmos, as conversas giravam eternamente em torno do clima ou da temporada de caça, e o inverno começou a se instalar como um monstro cinzento que nunca ia embora.
Charlie saía cedo para o trabalho, dividindo seu tempo entre o quartel e os cuidados cada vez mais necessários com seus pais idosos. Renée ficava sozinha na casinha da floresta. Eu sentia a depressão dela, uma névoa mental que combinava perfeitamente com a neblina que lambia as janelas de vidro. Ela tentava mudar os hobbies ,tricotava meias que nunca terminava, pintava quadros abstratos com cores berrantes que pareciam gritar contra as paredes de madeira, mas a sensação de estagnação a sufocava. O amor por Charlie ainda estava lá, mas já não era uma aventura; tornara-se uma âncora pesada demais para uma garota que só sabia voar.
Foi no meio desse inverno isolado que a mente de Renée foi atingida por uma faísca de luz dourada. O gatilho foi a descoberta da gravidez.
O turbilhão emocional que experimentei através dela naquele momento foi quase violento em sua pureza. Ao ver o teste positivo, todo o desespero de Forks foi temporariamente varrido por uma onda de amor imaturo, mas genuíno e avassalador. Renée queria aquela filha mais do que qualquer outra coisa no universo. Ela se ajoelhou no chão do banheiro de linóleo gasto, chorando e rindo ao mesmo tempo, as mãos espalmadas contra o ventre ainda plano. Naquele instante, a semente de Bella tornou-se o seu novo sol.
Uma onda de idealismo tomou conta de seus pensamentos nos meses seguintes. Renée passava horas sentada na poltrona da sala, sentindo o vento uivar lá fora, enquanto sua mente desenhava cada detalhe do rostinho do bebê. Ela imaginava os olhos, o formato do nariz, a maciez da pele. Ela queria ser uma mãe impecável, uma mãe perfeita. Em seu íntimo, havia uma promessa solene e desesperada: ela daria àquela criança todo o amor, toda a ternura e toda a validação que ela própria nunca recebera de Marie em Downey. Ela quebraria o ciclo da amargura.
Embalada por esse sentimento de renovação, Renée escreveu uma carta longa para a mãe, engolindo o orgulho e estendendo uma bandeira de trégua. Semanas depois, o correio de Forks entregou um pacote volumoso. Através das mãos trêmulas de Renée, eu senti o impacto de abrir aquela caixa de papelão. Dentro, envolta em papel pardo, estava uma colcha feita à mão. Marie não enviara uma carta de resposta, mas o presente falava por si: a colcha fora costurada pela própria mãe de Marie, a bisavó de Bella, uma relíquia de retalhos lavados e firmes. Renée abraçou o tecido contra o peito, chorando copiosamente no silêncio da casa, sentindo que, através daquela colcha, sua mãe estava finalmente lhe dando uma permissão silenciosa para tentar ser feliz.
No entanto, o Edward observador, analisando a estrutura psicológica daquela memória com a precisão de um cirurgião, percebeu a trágica falha de caráter que Renée não conseguia enxergar. O amor dela pela semente de Bella era real, mas era o amor de uma criança por uma boneca nova. Renée estava apaixonada pela ideia da maternidade, pela estética de um quarto decorado com bichinhos de pelúcia e mantas tricotadas à mão. Ela não compreendia que um bebê exigiria a solidez e a constância que ela passara a vida inteira rejeitando.
A ironia dolorosa se desdobrou no quarto de hospital no presente, enquanto a Renée real continuava sentada no sofá-cama, olhando para nós. Eu conseguia sentir o remorso crônico que a queimava por dentro. Ela queria ter sido uma boa mãe. Ela tentara, com todas as suas forças limitadas, ser o oposto de Marie. Mas, no fim das contas, sua inconstância crônica falhara com Bella de uma forma diferente, mas igualmente dolorosa. Ao se recusar a crescer e a enfrentar o cinza da realidade, Renée forçara Bella a assumir o papel de adulta, privando a própria filha da infância que ela tanto jurara proteger.
A colcha de retalhos na memória começou a perder o calor, empalidecendo conforme os meses de gestação avançavam e o peso da monotonia de Forks voltava a cobrar seu preço. A mente de Renée começou a se preparar para o clímax daquela jornada mental: o dia treze de setembro de mil novecentos e oitenta e sete. O dia em que o choro de Bella ecoaria pela primeira vez na cidade sombria, iniciando a contagem regressiva para a ruptura inevitável daquela família.
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