O ECO DO SOL
2 A Rota do Pacífico e o Pescador de Forks
Notas iniciais
Capítulo 2: A Rota do Pacífico e o Pescador de Forks
No presente do quarto de hospital, o calor abafado que subia do asfalto de Phoenix tentava, sem sucesso, invadir o ambiente através das frestas do vidro temperado. No entanto, o sistema de ar-condicionado central da ala médica vencia a disputa, soprando uma corrente de ar gélido e artificial que arrepiava a pele exposta. Eu continuei imóvel, uma sombra esculpida no canto mais escuro do quarto, observando Renée. Ela havia interrompido seu lamento teatral por alguns instantes. Seus dedos trêmulos, adornados com anéis de prata e pedras coloridas que não combinavam com a sobriedade daquele lugar, estenderam-se para acariciar a testa pálida de Bella. O toque de Renée era suave, quase assustado, como se ela temesse que a filha pudesse se quebrar sob suas mãos. Ela afastou uma mecha dos cabelos castanhos de Bella, deslizando os nós dos dedos pela linha reta de sua mandíbula e pelo contorno sutil de suas sobrancelhas.
Na mente de Renée, um nó doloroso de culpa se apertou quando ela olhou para as feições da filha adormecida. Ela não estava vendo apenas a Bella ali. Naquele rosto jovem e machucado, Renée enxergou os traços indeléveis de Charlie Swan. Era a mesma inclinação teimosa do queixo, a mesma simetria silenciosa e firme que ela conhecera tantos anos atrás. O contraste entre o calor sufocante da cidade lá fora e o frio cortante daquele quarto de hospital agiu como um catalisador em seu subconsciente. A sensação térmica a jogou de volta para uma praia nublada, onde o vento gelado do oceano batia contra o rosto de uma jovem de dezenove anos, enquanto o calor de um fogo de acampamento tentava aquecê-la. O abismo de suas lembranças se abriu novamente, e eu me deixei arrastar para o fundo daquela torrente, ansioso por compreender a origem daquele amor que havia gerado a minha Bella.
A avalanche de sentimentos que me atingiu foi de uma intensidade avassaladora. Ao contrário do que eu sempre presumira, baseando-me nos pensamentos calmos, quase anestesiados, que o Charlie do presente carregava em Forks, a história deles não havia sido um erro burocrático ou um capricho juvenil. Através do peito de Renée, eu senti o peso de uma verdade devastadora: Charlie Swan fora o grande amor de sua vida. O eco daquela paixão ainda vibrava nas profundezas de sua alma, uma ferida aberta e purulenta que ela tentava cobrir com camadas de entusiasmo forçado e hobbies passageiros. Ela ainda o amava. Mas era um amor eivado pela consciência tardia de sua própria natureza destrutiva; ela sabia que o havia quebrado, que havia dilacerado o coração do homem mais bondoso que já conhecera, e a certeza de que aquilo era irreparável a assombrava todas as noites.
A escuridão do hospital desapareceu, substituída pela imensidão cinzenta e majestosa da First Beach, em La Push. Eu estava lá, mas não como o monstro imortal que patrulhava aquelas florestas no presente; eu era os olhos de Renée, sentindo a areia escura e grossa sob os pés descalços e o salitre do mar que ardia levemente em suas narinas. O vento do Pacífico açoitava seus cabelos, e ela estava encolhida dentro de um casaco de lã grande demais, uma garota assustada da Califórnia que havia fugido de Downey sem ter a menor ideia de onde moraria na semana seguinte. Sua mente era um turbilhão de pânico velado, o medo de ser sem-teto, o peso do pessimismo de sua mãe Marie sussurrando em seus ouvidos que ela fracassaria.
E então, através da névoa úmida da praia, ele surgiu.
O impacto de ver o jovem Charlie Swan através dos olhos de Renée fez com que minha mente imortal vacilasse por um microssegundo. O homem que eu conhecia em Forks era uma figura curvada pelo peso do dever, calado, envolto em uma aura de solidão crônica e paciência resignada. Mas o Charlie de dezenove anos que caminhava em direção a Renée naquela praia era uma criatura completamente diferente. Ele era alto, de ombros largos e postura firme, exalando uma masculinidade rústica e segura que não precisava de palavras para se impor. Seus cabelos castanhos eram densos e desalinhados pelo vento, e seus olhos, os mesmos olhos de Bella, brilhavam com uma vivacidade fascinante. Não havia o cansaço que o tempo lhe imporia mais tarde; havia apenas uma força tranquila, um porto seguro e inabalável que parecia desafiar a própria tempestade que se armava no horizonte.
— Você parece estar prestes a congelar ou a sair correndo, garota da Califórnia — disse o jovem Charlie, aproximando-se com um sorriso de canto que iluminou instantaneamente suas feições rudes. Ele segurava uma caneca de metal fumegante, e sua voz tinha um timbre profundo, mas inesperadamente caloroso, desprovido de qualquer hesitação. — Pensei que o pessoal do sul fosse mais resistente ao vento do norte. Segura isso antes que seus dedos caiam.
Quando as mãos de Renée tocaram a caneca e, consequentemente, os dedos grandes e quentes de Charlie, eu experimentei a sensação física das "borboletas no estômago" que ela sentira. Foi uma descarga elétrica de alívio e atração. Charlie era o oposto absoluto de tudo o que ela conhecera em Downey. Ele não era amargurado como Marie; ele não era volúvel ou egoísta como os namorados anteriores que ela tivera na escola. Havia uma solidez nele que a envolveu como um cobertor pesado em uma noite de inverno.
Nos dias que se seguiram naquela praia, eu assisti, fascinado e chocado, a uma versão de Charlie Swan que eu nunca imaginei que existisse. Ele era divertido, dono de um humor seco e inteligente que fazia Renée gargalhar até perder o fôlego. Ele a levava para caminhar pelas pedras escorregadias da costa, desafiando as ondas violentas que batiam contra os penhascos, rindo do perigo com uma audácia jovem e apaixonada. Charlie não tinha medo de nada quando estava com ela. Ele subia nas árvores caídas, colhia flores silvestres que cresciam na umidade da floresta e as prendia nos cabelos loiros de Renée, operando milagres diários apenas para ver o brilho de entusiasmo nos olhos dela. Ele era capaz de qualquer coisa para fazê-la feliz, para mantê-la segura contra o mundo que ela tanto temia.
À medida que eu avançava por aquelas memórias, uma percepção impressionante começou a se desenhar na minha mente, fazendo-me traçar um paralelo inevitável e doloroso com a minha própria existência. A forma como o jovem Charlie Swan orbitava ao redor de Renée era... idêntica à forma como eu orbitava ao redor de Bella. Não era apenas paixão; era uma devoção absoluta, uma entrega total que beirava a adoração. Para Charlie, Renée não era apenas uma namorada de verão; ela se tornara, no instante em que pisara naquela areia, o seu oxigênio. Eu conseguia ler isso na intensidade dos seus olhares guardados na memória de Renée, na maneira como ele se posicionava sempre entre ela e o vento frio, na forma como seus braços a envolviam à noite diante da fogueira, como se estivesse protegendo a joia mais preciosa e frágil do universo.
Charlie olhava para Renée com a mesma urgência faminta e protetora com que eu olhava para Bella. Ele era um humano comum, um simples policial em treinamento, mas o amor que ele nutria por aquela mulher tinha a mesma magnitude mítica do amor de um imortal. Ele a colocara no centro de seu universo, abdicando de qualquer outra prioridade para garantir que o sorriso dela não desaparecesse. Na mente de Renée, a lembrança de um diálogo específico na última noite antes de sua partida planejada brilhou com a nitidez de um diamante sob o sol. Eles estavam sentados na caçamba da caminhonete velha de Charlie, observando as estrelas que tentavam romper as nuvens de Forks.
— Eu não quero que você vá embora, Renée... — disse Charlie, a voz subitamente baixa, despida de qualquer artifício, os olhos fixos nela com uma intensidade que quase me fez recuar no quarto de hospital. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, o calor de sua pele contrastando com o frio da noite. — Eu sei que esta cidade é pequena, eu sei que o céu aqui é escuro, mas se você ficar... eu juro por Deus que passo o resto da minha vida construindo um sol para você. Eu faço qualquer coisa. Só não me deixa aqui sozinho na escuridão.
Naquele momento da memória, o coração de Renée disparara com uma mistura de terror e êxtase. A proposta de casamento que viria logo depois parecera o desfecho perfeito para aquela aventura cinematográfica. Ela aceitara porque estava embriagada pela sensação de ser amada daquela forma tão avassaladora, porque o amor de Charlie era o escudo definitivo contra a frieza de sua mãe Marie.
No entanto, no presente do hospital, enquanto a Renée real continuava a acariciar os cabelos de Bella, o peso daquela lembrança trouxe consigo uma onda de melancolia tão densa que quase obscureceu as cores de sua mente. O amor não mudara a sua natureza. A aventura do romance relâmpago se transformara na rotina sufocante de uma cidadezinha onde a chuva nunca parava, e a promessa de Charlie de construir um sol não fora suficiente para vencer o trauma que Renée carregava desde Downey. Ela fugira. Ela o abandonara, levando a filha deles e deixando para trás um homem destruído, uma casca vazia que nunca mais aprenderia a amar outra pessoa daquela forma.
Eu recuei um passo na penumbra do quarto, sentindo o peso daquela revelação esmagar meu peito de pedra. Eu olhei para Bella, depois para Renée, e uma linha invisível conectou todas as pontas daquela tragédia familiar. Charlie Swan amara tanto que fora destruído pelo próprio amor. E agora, décadas depois, eu estava ali, um monstro congelado no tempo, cometendo o mesmo erro com a filha dele. Eu transformara Bella no meu oxigênio, assim como Charlie fizera com Renée. Mas o destino daquele amor humano fora a solidão e a ruína. O que seria, então, do meu amor imortal por Bella?
O monitor cardíaco continuou seu canto mecânico, Bip. Bip. Bip., enquanto a mente de Renée, exausta pelo peso do passado, começava a deslizar para a próxima fase de seu martírio: os dias cinzentos em Forks e o nascimento da pequena criatura que herdaria os olhos do pai e o silêncio do mundo.
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