O Duque que me Amou
1 Prólogo
Notas iniciais


Bretanha, França
1775
❆❆❆
Trébeurden era uma das cidades situadas na Bretanha, ao norte da França. Ainda era madrugada quando Katniss Everdeen afastava os cobertores de si e acendia uma vela solitária, que usara na noite passada. Caminhou na ponta dos pés, para não acordar o pai que dormia no quarto ao lado. Sem fazer sequer o mínimo de barulho, abriu o guarda-roupas e retirou seu vestido verde oliva e seu casado de pele de carneiro que ganhara de seu pai naquele ano. Mesmo que o inverno tivesse ido embora há algumas semanas, por ser madrugada, o frio se fazia presente.
Ela não se preocupou em apertar o espartilho, sempre odiou aquilo, mas como sua mãe sempre lhe dizia...
— É indecente uma dama não o usar, e se, não quer que tudo caia, é melhor colocá-lo.
Parecia uma boa desculpa e podia até ser verdade, contudo, a jovem não ligava muito para certos detalhes. Rapidamente se vestiu e pegou sua bolsa de couro para sair do quarto. Desceu os lances de madeira, da antiga escada, com cuidado tendo em sua mão direita a vela ainda acesa.
Ao se aproximar da cozinha pôde escutar os graves murmúrios dos marmanjos que nunca conseguiam fazer silêncio, mesmo que quisessem.
— Olá rapazes. – Não titubeou ao cumprimenta-los.
— O que está fazendo acordada a essa hora? – Cato sempre fora o que implicava. Ele era o segundo irmão com vinte e dois anos de idade.
— Eu irei até a floresta com vocês – afirmou ela, com a mesma graciosidade de sempre e o sorriso sapeca.
— Ah, não vai mesmo – reclamou, Cato “o intrometido” como Katniss sempre dizia.
— Mas... – Ela ia fazendo o mesmo semblante de desespero, até Gale, seu irmão mais velho de vinte e quatro anos, interver.
— Deixe-a ir. Ela não nos atrapalha em nada. Muito pelo contrário, enquanto eu e você caçamos alguns porcos selvagens. Finnick e Katniss pode abater alguns esquilos, coelhos e aves – disse, o moreno firmemente para Cato que apenas bufou revirando os olhos como o de costume. Porque sempre fora assim, quando Katniss queria caçar com os irmãos, Cato se opunha enquanto Gale a defendia.
— Não ligue Catnip, ele só está com inveja, porque você atira flechas melhor. – Finnick, o irmão de apenas vinte anos, falou em tom zombeteiro. O que resultou em um peteleco na nuca oferecido por Cato que se ofendera com aquilo.
— Cheguem de brincadeira. Nossos cavalos estão selados e prontos para partirmos. – Gale recolheu os lanches que havia preparado e guardou em sua bolsa couro.
— Selou um cavalo para mim, irmão? – A moça perguntou esperançosa.
— Claro, eu sabia que você acordaria. – Por ser bem mais alto que ela, Gale passou a mão sobre o topo de sua cabeça bagunçando-o todo. — É, melhor vestir a capa, pois está garoando e não queremos que a Sra. Ripper, lhe faça beber toda aquela gororoba outra vez, certo?
Katniss sorriu pegando sua capa no suporte – atrás da porta dos fundos da cozinha – e logo a vestiu enquanto caminhava ligeiramente até ao estábulo para alcançar seus irmãos que eram bem rápidos nas passadas.
Katniss e seus irmãos mais velhos eram órfãos de mãe há cinco anos e o Sr. Everdeen não pensara em se casar novamente. Para ele era impossível pensar em outra, dormindo ao lado direito da cama sobre o jogo de cama bordado à mão por sua amada Lenore. Todavia, sabia que sua preciosa Katniss precisava de uma figura materna e feminina. Afinal, em seus dezoito anos e convivendo não com três, mas quatro homens na casa só a levaria ao desastre diante da alta sociedade. Ripper, criada da família, a conhecia desde que o casal Everdeen iniciara sua prole. Ainda assim, o que poderia ensinar à jovem, senão as tarefas domésticas e a cozinhar? Katniss detestava tudo isso. No entanto, há não muito tempo o Sr. Everdeen recebera a inesperada ou esperada visita da irmã de sua falecida esposa. Segundo Celestine, iria ensinar bons modos à sobrinha. Em menos de um mês, Katniss aprontara as piores travessuras com sua tia rabugenta. Quem um dia imaginara uma jovem de sua idade aprontando assim?
— Essa menina nunca se portará como uma dama, Haymitch! Minha irmã deve estar se contorcendo no túmulo – dissera com o tom da voz ácida.
— Minha Katniss se portará bem, diante da sociedade na hora certa – respondera ele em seu tom orgulhoso de pai.
Celestine regressara à sua conterrânea cidade e nem sequer enviara uma carta aos Everdeen e com toda certeza nenhum deles sentiria sua falta.
❆❆❆
— Darius, não tenho o dia todo! – gritou o rapaz e rapidamente seu cavalariço veio puxando as rédeas do mais belo puro sangue negro.
— Vossa graça, vista isso antes de sair. – No mesmo instante, o mordomo se materializou com a capa de seu senhor estendida nas mãos. Ajudou-o a vestir enquanto o rapaz revirava os olhos.
— Não sei porque vestir isso. O sol está despontando.
— As manhãs daqui são frias, milorde. Não queremos que o senhor fique doente.
— Que seja. Os cavalos estão prontos?
— Sim, milorde – respondeu Darius.
— Então vamos.
O novo duque de Bro Waroch era um homem de poucas palavras. A criadagem o recebera com um jantar de boas-vindas pra lá de especial. Fazia exatamente uma semana que havia chegado ao castelo Edenbrooke. Ele achou o lugar um tanto sem vida, mas pudera seu falecido pai nunca se importou com tal detalhe desde a morte da esposa. O jovem duque era apenas uma criança de pouca idade quando fora levado dali e só se mudara, novamente para o castelo, por conta do advogado da família que lhe procurara. Eles tinham muitas terras, muitos inquilinos que não podiam ficar à mercê da própria sorte. Com isso, o jovem teve de deixar sua vida em Paris e regressar ao seu lugar natal, o qual repudiava só em ouvir falar. Entretanto, assim que o advogado lera o testamento de seu pai, onde lhe passava tudo, o jovem se contentou em ficar por um tempo ali. Ainda assim, o falecido duque fora bem específico em quais condições que todas as propriedades seriam passadas ao seu único herdeiro. O jovem não ficara nada satisfeito com a tal condição, afinal, ele era um jovem “livre” que sempre adorou viver suas mais loucas aventuras como alguns em sua idade.
A cavalgada até a floresta Breizh Izel fora sua ideia. Após passar tardes e mais tardes na biblioteca Nougier – em seu castelo – lendo alguns livros de lendas celtas, despertaram-lhe sua curiosidade. O jovem Mellark, sempre fora muito curioso para os fatos mais inexplicáveis. Achou algo peculiar em suas pesquisas. Um povo que seguia a religião druídica. Lera que alguns eventos místicos, aconteciam em lugares sagrados e que haviam animais mágicos na floresta. Podiam ser lendas, mas queria descobrir por si mesmo e assim conhecer o local que iria viver dali em diante.
Durante a cavalgada ele admirou alguns pássaros de raras espécies. Seus olhos azuis olhavam compenetrados cada detalhe daquele lugar. Percebera as diferentes árvores e suas frondosas folhagens e outras nem tanto.
O jovem duque fez um estalar com a língua entre os dentes em sinal para que seu cavalo aumentasse as galopadas. Darius também teve de aumentar o passo ou não alcançaria seu senhor.
❆❆❆
Finnick tinha o arco posicionado e assim que o momento oportuno surgiu ele soltou a flecha que atingiu certeiramente o alvo.
— O que achou, irmã? – Ele já caminhava até sua caça abatida.
— Nada mal, mas saiba que faisões são até fáceis de acertar nesta época do ano. Parecem que pedem para serem caçados – desdenhou ela. — Agora, quero ver você acertar um esquilo apenas em um dos olhos.
— Oh, jamais me atreveria. Deixo isso para a melhor. – Em cortesia fez uma reverência à irmã que lhe deu um sorriso faceiro.
— Finn... shhh... – Ela fez um sinal para o irmão, que no mesmo instante, olhou na direção a qual mostrara.
— Está pensando em abate-lo? – sussurrou o rapaz.
— Me passe a flecha dupla. – Seus irmãos fabricavam as próprias armas de caçada e Gale havia projetado um arco e flechas mais resistentes para abaterem animais de porte grande. O certo era que os dois irmãos mais velhos, abateriam tais seres, mas a sorte lhe sorriu naquele momento. Assim que ela posicionou seu arco e mirava diretamente no cervo a alguns metros de distância, algo fez com que o animal se assustasse e percebesse que era um alvo.
— Mas que droga! – praguejou em diversos dialetos locais, que somente homens que viviam se embebedando em tavernas diriam. No mesmo instante, saltou do local onde ela e o irmão estavam à espreita e deu de cara com dois cavaleiros. Um deles, o ruivo, já havia visto poucas vezes, entretanto, o que estava vestido em trajes mais nobres nunca vira tão intrometido. — Quem você pensa que é, pra chegar assim assombrando minha presa? – cuspiu ela raivosa.
— M-mademoiselle ... – gaguejou o cavalariço, ao tentar explicar para a moça enraivecida quem decerto era aquele nobre rapaz.
— Mademoiselle, coisa nenhuma! Esse maldito espantou o servo que estava na mira.
O jovem duque habilmente desmontou de seu cavalo e parou frente a moça que lhe encarava como se chamas ardessem seus olhos.
— Nunca conheci uma jovem com um linguajar tão peculiar como o seu – observou ele, atentamente cada traço da jovem. A pele em um tom pouco bronzeada, talvez pelo sol, as sardas pintavam-lhe as bochechas aqui e ali, mas não no rosto todo. Ele quase teve vontade de afastar uma mecha do castanho cabelo que caía na lateral de seu ombro numa trança. Então, encarou os olhos da jovem e ali ficou paralisado por um tempo. Eram de uma tonalidade que ele nunca vira em outra – e ele conhecera muitas jovens –, mas os olhos daquela, tinham uma peculiaridade tão tempestuosa quanto sua personalidade. — Perdoe-me a minha ousadia, mas acredito que a mademoiselle não é dona da floresta, é? – questionou ele, em um tom zombeteiro.
A jovem preparava sua melhor resposta, mas seu irmão interviu com medo de algo pior lhes acontecerem.
— Perdoe-nos monsieur, apenas estamos abatendo alguns animais para o consumo de nossa família. Não queremos atrapalhar a cavalgada de ninguém. – Finnick franziu o rosto ao rir sem graça.
— Sábias palavras rapaz. – O duque sem dizer mais nada, apenas voltou a montar seu cavalo e fez um sinal para que Darius o seguisse mata a dentro.
Katniss acabara por dar um tapa na nuca de seu irmão e soltara mais insultos a ele.
— Quem são essas pessoas, Darius? Você os conhece? – O duque Mellark instigava, querendo saber mais detalhes sobre aqueles dois jovens.
— Sim, eu os conheço, vossa graça. São filhos de um viúvo camponês, o Sr. Haymitch Everdeen.
— E são inquilinos das terras de meu pai?
— Sim, milorde.
— Bem, preciso conhece-los melhor.
— Como desejar.
O jovem duque já arquitetava uma estratégia dentro das condições que o tal Dalton Koechlin, o advogado, lera no testamento.
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