O Duque que me Amou
7 Olhos de Tempestade
Notas iniciais


O duque de Bro Waroch — Peeta Mellark — estava imerso em suas anotações diárias, a pena deslizava com paciência sobre o papel, o som suave ecoando pela vasta biblioteca de Edenbrooke. O mesmo ritual que mantinha desde os tempos em que estudara em Paris. Sobre a mesa de carvalho repousavam livros abertos, cadernos encadernados em couro e uma lamparina de vidro âmbar, cuja chama tremulava e projetava sombras dançantes nas paredes cobertas por fileiras e mais fileiras de volumes antigos.
Havia algo de sagrado naquele silêncio — um refúgio onde as vozes do mundo cessavam e só restava o ruído do papel e o murmúrio dos próprios pensamentos. Mas, naquele fim de tarde, nem mesmo o silêncio parecia bastar para aquietar a mente do duque.
Peeta escrevera sobre tudo: as colheitas nas terras, o progresso dos inquilinos, os relatórios financeiros. Contudo, a cada linha que traçava, via-se interrompido por pensamentos que fugiam à lógica e se tornavam poesia involuntária.
“Por que os olhos dela me perseguem até quando fecho os meus?”
Suspirou, pousando a pena. O papel, outrora preenchido por cifras e registros, agora exibia, sem que ele mesmo notasse, o contorno suave de um rosto feminino.
Os traços surgiram como se tivessem vontade própria — o arco das sobrancelhas, o desenho obstinado da boca, os olhos... ah, os olhos. Ele passou o polegar sobre o traço, esfumando-o levemente, como se quisesse dar vida àquela figura.
Era inútil negar.
Katniss Everdeen não deixava de habitá-lo — mesmo quando a razão tentava bani-la.
O estalar da porta o arrancou de seus devaneios.
— Vossa Graça, perdoe a interrupção — disse Darius, o fiel mordomo, inclinando-se levemente. — Acaba de chegar uma correspondência... de Paris.
Peeta ergueu os olhos, e uma ruga de inquietação formou-se entre suas sobrancelhas.
— De Paris? De quem?
— O selo é do conde Latier, milorde. Acredito tratar-se de um assunto de alta importância.
Darius aproximou-se, depositando o envelope selado sobre a mesa. O lacre de cera ostentava o brasão real: o lírio da monarquia francesa.
Peeta pegou a carta com cuidado. O papel tinha o perfume discreto de pergaminho caro — o tipo usado apenas em missivas da corte. Rompeu o selo e leu em silêncio.
A cada linha, o cenho se fechava mais.
“Sua ausência prolongada desperta comentários na corte. O rei Coriolanus Snow XVI pretende reunir todos os duques de linhagem antiga para um conselho em Versalhes. As tensões com as colônias aumentam e há rumores de que Sua Graça Bro Waroch possa ser nomeado conselheiro especial. Espera-se que aceite o convite e retorne a Paris com brevidade.”
Peeta deixou a carta repousar sobre o tampo da mesa e recostou-se na cadeira.
Versalhes.
A palavra soava mais como uma lembrança do que uma promessa.
Lá, ele deixara tudo — sua juventude, suas imprudências, e... alguns fantasmas que preferia não reencontrar.
O duque passou a mão pelos cabelos loiros, agora levemente desalinhados. Voltou a olhar para o papel e percebeu o desenho.
O rosto dela o observava em silêncio.
E, por um instante, as intrigas de Paris, o rei, os títulos e as obrigações — tudo desapareceu.
Restou apenas a lembrança daquela voz impetuosa e daquele olhar tempestuoso, capaz de incendiar até o mais gelado dos corações.
Sorriu de leve, apesar de si mesmo.
— A senhorita Everdeen está se tornando um hábito perigoso — murmurou.
O relógio de pêndulo tilintou, marcando a hora vespertina. A brisa da tarde entrou pelas altas janelas, fazendo balançar as cortinas e espalhando o cheiro de tinta e pergaminho.
Peeta mergulhou novamente a pena no tinteiro e, sem pensar, começou a traçar novas linhas. Mas, desta vez, não eram números, nem observações.
Eram versos.
“Ela veio como o vento que desafia a razão.
Trouxe em seus olhos a fúria e a doçura do mar.
E eu, tolo navegante, esqueci-me de voltar.”
Fechou o diário devagar, respirando fundo.
Em breve, teria de tomar uma decisão: atender ao chamado de Paris ou permanecer ali — onde, pela primeira vez em muito tempo, sentia o coração bater de forma diferente.
Mas antes que a noite caísse, ele já sabia o que precisava fazer.
Não seria a corte, nem o rei, que ditariam seus próximos passos.
Seria ela.
E, ao soprar a chama da lamparina, Peeta Mellark teve a nítida sensação de que, mesmo na escuridão, os olhos dela continuavam a fitá-lo.
❆❆❆
Já haviam se passado algumas semanas desde que o duque recebera a carta de Paris, e, embora respondesse às missivas da corte com a cortesia exigida, não dera um passo sequer em direção à cidade.
O motivo de sua hesitação tinha nome, voz e olhos de tempestade.
Katniss Everdeen.
Desde o início de suas lições de esgrima, Peeta perdera o domínio do próprio coração. E agora, após tantos dias sem vê-la, sentia-se como um homem exilado da própria alma.
Naquela manhã, o duque deixou Edenbrooke sem avisar a ninguém, montando sozinho em seu cavalo castanho. O vento frio da primavera tardia açoitou-lhe o rosto enquanto atravessava os campos que separavam sua propriedade das terras dos Everdeen. O cheiro de lavanda e erva-cidreira trazido pela brisa lhe lembrava os dias em que ela o desafiava com aquele olhar altivo — e, de alguma forma, ele sentia falta até das farpas que ela lhe lançava.
Quando chegou à fazenda, avistou Gale próximo ao celeiro, empilhando fardos de feno com força e destreza. O rapaz limpou o suor da testa com o antebraço e, ao ver a figura elegante do duque desmontar, curvou-se educadamente.
— Vossa Graça — cumprimentou, contido, mas respeitoso. — Não esperávamos sua visita hoje.
— Nem eu planejava vir — respondeu Peeta, com um leve sorriso. — Às vezes, os melhores caminhos são os que não planejamos.
Gale ergueu uma sobrancelha, sem saber o que dizer diante de tamanha sutileza aristocrática.
— Está procurando minha irmã, imagino.
— De fato. — Peeta desviou o olhar, como quem tenta disfarçar a própria impaciência. — A mademoiselle Everdeen se encontra em casa?
— Está no campo, milorde — contou o rapaz, apontando na direção do prado florido. — Provavelmente debaixo do salgueiro. Costuma sentar-se lá pra ler quando quer ficar sozinha.
Peeta agradeceu com um leve aceno e seguiu a passos firmes. O caminho era ladeado por flores silvestres e o ar estava impregnado do perfume doce do capim recém-cortado. À medida que se aproximava do salgueiro, o som do vento entre as folhas criava uma melodia branda, quase melancólica.
Então, ele a viu.
Katniss estava sentada na relva, as costas apoiadas no tronco do velho salgueiro, os cabelos soltos caindo sobre os ombros. Um raio de sol filtrava-se entre as folhas, banhando-lhe o rosto em uma luz dourada. Tinha o livro aberto no colo, e seus dedos, longos e delicados, deslizavam sobre as páginas amareladas com uma concentração tão pura que ele quase hesitou em interrompê-la.
Peeta permaneceu a alguns passos de distância, observando-a em silêncio, até que o som de seus passos fez com que ela erguesse o olhar.
— Vossa Graça — disse ela, surpresa, mas não sem um leve toque de ironia. — Não imaginava encontrá-lo por estas bandas.
— E eu, tampouco, esperava encontrar tamanha paz num campo tão modesto — respondeu ele, com um sorriso tênue. — Posso saber que romance ocupa a atenção da mademoiselle desta vez?
Katniss fechou o livro lentamente, fitando-o com serenidade.
— Não é um romance, milorde — respondeu com calma. — É um compêndio sobre a cultura celta e suas antigas tradições espirituais.
Peeta arqueou as sobrancelhas, surpreso — e, por um instante, a lembrança de Finnick lhe atravessou a mente.
— Ah, claro... — murmurou, com um leve brilho no olhar. — Agora me recordo. Seu irmão Finnick mencionou algo parecido... sobre o fascínio que a senhorita tem por esse povo misterioso.
— Mistério é o que mais há no mundo, milorde — replicou ela, desviando os olhos para o horizonte. — Os celtas acreditavam que cada árvore tinha uma alma, e que a terra nos escuta, mesmo quando permanecemos em silêncio. — Tocou o tronco do salgueiro com suavidade. — Gosto de pensar que há verdade nisso.
Peeta ficou alguns segundos em silêncio, contemplando-a.
A simplicidade com que ela falava transformava o campo em templo e o vento em confissão.
— Ah, me esqueci... — constatou ele, com um meio sorriso e o tom levemente provocador. — A mademoiselle não é uma jovem convencional.
Katniss ergueu o queixo, com o brilho de desafio acendendo-se em seus olhos.
— Se por “convencional” quer dizer alguém que lê sobre príncipes e donzelas em apuros, temo decepcioná-lo, vossa graça. — Ela sorriu de canto. — Prefiro os livros que ensinam a entender o mundo... e a mim mesma.
— Filosofia, história, geografia... — completou ele, num tom quase reverente. — Virtudes raras numa dama da nossa época.
— Ou defeitos, dependendo de quem observa — retrucou, brincando com a lombada do livro.
— Para mim... — depôs Peeta, dando um passo à frente — São qualidades que a tornam única.
O silêncio que se seguiu era espesso, quase palpável. O duque a fitava com uma mistura de admiração e ternura contida. Katniss desviou o olhar, voltando ao livro, mas suas mãos tremiam levemente.
— O senhor veio apenas para falar de livros, vossa graça? — perguntou, tentando soar indiferente.
Peeta respirou fundo.
— Vim porque o tempo passou... e percebi que os dias em Edenbrooke se tornaram longos demais sem ouvir sua voz.
Ela não respondeu de imediato. O vento soprou mais forte, fazendo com que algumas folhas caíssem entre eles. Katniss as observou flutuar antes de dizer, quase num sussurro:
— Às vezes, o silêncio também fala, milorde. Basta saber escutá-lo.
Peeta a observou por um instante, encantado pela forma como cada palavra dela parecia carregar um significado oculto. Então, sem ousar quebrar o momento, inclinou a cabeça num gesto de respeito.
— Então, permita-me escutar.
E, por alguns instantes, nenhum dos dois disse palavra.
O som do vento nas folhas, o canto distante de um pássaro e o leve farfalhar das páginas do livro eram a única música necessária.
O duque sentou-se na relva, a uma distância segura, e pela primeira vez, ambos partilharam o mesmo silêncio — não como adversários, mas como dois mundos que, enfim, começavam a se entender.
O vento soprou mais suave, balançando as folhas do velho salgueiro que os abrigava. A luz filtrada entre os galhos desenhava sobre o rosto dela pequenos fragmentos de sol e sombra — e Peeta, observando-a, pensou que nenhuma pintura seria capaz de reproduzir aquele contraste tão vivo.
Katniss folheava o livro distraidamente, até pousar o olhar sobre ele.
— Vossa Graça, o senhor sempre fala tão bem das letras, mas raramente menciona o que lê. Que tipo de livros o encantam?
Peeta esboçou um sorriso leve, como quem reconhece uma armadilha travestida de curiosidade.
— Ah, depende do estado de espírito, mademoiselle. Quando jovem, lia filosofia para entender o mundo. Hoje, leio poesia... para tentar suportá-lo.
Katniss arqueou uma sobrancelha, divertida.
— Que curioso... pensei que os homens práticos, como o senhor, preferissem relatórios e decretos, não versos e metáforas.
— Engana-se — retrucou ele, com doçura. — Um duque governa melhor quando aprende a ouvir a alma dos poetas. Eles ensinam o que a política não explica.
— Ou disfarçam o que a realidade impõe — contrapôs ela, num tom perspicaz. — Os poetas falam do amor como se fosse sempre nobre e puro. Esquecem-se de que o amor também pode ser uma fraqueza.
Peeta inclinou-se um pouco, fitando-a com interesse genuíno.
— E crê que o amor seja uma fraqueza, mademoiselle Everdeen?
— Creio que o amor é... perigoso — respondeu sem hesitar. — Faz as pessoas abrirem mão da razão, e quando a razão se perde, o mundo desaba. — Ela virou uma página do livro. — Os celtas chamavam isso de anwyn, o fogo que consome o coração.
O duque a observou em silêncio por um instante.
— Então temo que este fogo já tenha me alcançado.
Katniss levantou o olhar, surpresa com a franqueza.
Peeta desviou o olhar para o horizonte, como quem busca refúgio nas nuvens.
— Recebi uma carta de Paris há algumas semanas. — Começou, a voz agora grave. — O conde Latier escreveu em nome do próprio rei, convidando-me a regressar a Versalhes. Há rumores de conflito nas colônias e o trono deseja reunir todos os duques de linhagem antiga.
Ela manteve o livro aberto no colo, mas não o lia mais.
— E o senhor irá?
— Por hora, não — respondeu, firme, sem rodeios. — Há assuntos... mais urgentes aqui. — Seus olhos encontraram os dela, e não havia mistério algum sobre a quem ele se referia.
Katniss desviou o olhar, disfarçando um leve rubor.
— O rei Coriolanus XVI não costuma esperar — disse, tentando mudar o rumo da conversa. — Talvez seja perigoso contrariá-lo.
— Talvez — admitiu Peeta, sorrindo. — Mas há riscos que valem ser corridos.
O silêncio pairou entre os dois por um instante. O som distante das cigarras e o murmúrio do vento entre as folhas preenchiam o espaço.
Foi Katniss quem quebrou a quietude.
— Faz três semanas que Cato partiu para as Colônias — falou, num tom baixo, quase um desabafo. — Desde então, não recebemos carta alguma. Meu pai tenta parecer calmo, mas... — Ela respirou fundo. — Sei que está preocupado.
Peeta a observou com atenção.
— É natural — respondeu com suavidade. — As viagens são longas. O mar é caprichoso, mademoiselle. — Deu um meio sorriso, tentando amenizar. — Um navio leva seis, às vezes oito semanas para alcançar as Américas. E mais duas de cavalo até os postos militares. Seu irmão não teria como escrever antes.
Ela assentiu lentamente, mas a sombra da preocupação não desapareceu.
— Mesmo assim, as noites parecem mais longas desde que ele partiu — murmurou. — Tenho medo de que algo aconteça e meu pai fique inconsolável.
Peeta se aproximou um passo, respeitoso, mas com o olhar terno.
— Ele é um homem valente, como todo Everdeen — comentou. — E, se me permite a ousadia... — Abaixou levemente a voz. — Não está sozinha nesta espera.
Katniss ergueu os olhos, surpresos, mas não respondeu.
Havia em suas feições uma luta silenciosa entre a cautela e o conforto que aquelas palavras lhe traziam.
— Às vezes — contou ele, pousando a mão sobre o tronco do salgueiro. — As raízes mais fortes são aquelas que crescem no escuro. Seu irmão encontrará o caminho de volta, mademoiselle. Assim como todos que têm algo ou alguém por quem voltar.
Ela sorriu, um sorriso breve, quase tímido, mas sincero.
— O senhor fala como um homem que já esperou muito tempo.
— Esperei... e talvez ainda espere — confessou, olhando-a com ternura contida.
O vento soprou novamente, fazendo as folhas do salgueiro sussurrarem, como se a própria natureza aprovasse aquele instante de entrega e vulnerabilidade.
Katniss apertou o livro contra o peito, hesitante.
— Então, milorde, espero que o que quer que o senhor esteja esperando... valha o tempo que gasta sonhando.
Peeta inclinou-se levemente, sem tirar os olhos dela.
— Valerá, mademoiselle — disse, em um sussurro. — Eu não tenho dúvidas.
O duque e a jovem camponesa permaneceram em silêncio — dois mundos diferentes unidos por um instante de compreensão.
Nem a brisa ousou separar o que o destino, silenciosamente, começava a unir.
❆❆❆
Os dias seguintes passaram como folhas arrastadas pelo vento. Trébeurden, por um breve instante, parecia repousar em uma falsa tranquilidade. Mas Peeta percebia — em olhares de comerciantes, cochichos de criados e bilhetes que chegavam sem assinatura — que algo se movia à sombra das fronteiras de suas terras.
Saqueadores.
Primeiro, apenas boatos: um porco furtado aqui, uma carroça virada ali. Mas em seguida vieram relatos mais sombrios — homens encapuzados rondando casas isoladas, ruídos na mata ao cair da noite, pegadas que não pertenciam a camponeses locais.
E, embora ninguém soubesse ainda, o rastro tinha um cheiro familiar.
Peeta não o percebia — não ainda — mas a ameaça tinha o mesmo timbre de crueldade, a mesma ousadia que certa noite avançara contra Katniss no terraço do teatro.
O capitão Bligth, aquele que não era de desistir. Peeta o andou investigando e descobriu muitas indiscrições do homem.
Aquele homem não era de esquecer.
Nem de perdoar humilhações públicas.
Durante o dia, o duque dividia-se entre vigílias pelas estradas, conversas com intendentes e cartas para o rei que juntavam poeira sobre sua mesa. Mas era inútil, a mente dele traía suas obrigações sempre no mesmo ponto.
Katniss.
Por mais que tentasse manter a compostura, seus dedos acabavam sempre percorrendo páginas brancas, desenhando — quase sem perceber — a curva do perfil dela, os olhos tempestuosos, as mechas de cabelo que teimavam em escapar da trança…
Era ridículo.
Era impróprio.
Era inevitável.
Ele suspirava, fechando o diário como quem tenta fechar o próprio coração — sem sucesso algum.
Naquela tarde, o céu tomara um tom dourado suave, prenúncio de um entardecer morno. O duque observou a luz atravessar os vitrais da biblioteca e, num impulso que não tentou reprimir, levantou-se.
Sobre a mesa repousava um volume de capa azul-escura: “Tratado das Religiões Célticas e seus Mitos Fundadores”, uma obra rara, encadernada em Paris anos antes.
A primeira vez que vira Katniss lendo sobre os celtas sob o salgueiro, soubera imediatamente que aquele livro era… perfeito para ela.
Sem permitir que a razão discutisse com o desejo, Peeta saiu de Edenbrooke.
Haymitch Everdeen estava na varanda quando avistou a figura elegante do duque aproximar-se.
— Vossa Graça! — saudou, tirando o chapéu. — Os meninos não me disseram que viria hoje.
— Nem eu esperava vir — respondeu Peeta, sorrindo. — Mas trouxe algo para sua filha.
Gale e Finnick estavam próximo ao poço, limpando ferramentas. Aproximaram-se para cumprimentá-lo, ambos surpresos, porém polidos.
Peeta percebia, a desconfiança deles permanecia.
A proteção à irmã era clara, sólida, quase feroz — e isso só aumentava o respeito que o duque nutria pelos Everdeen.
— Entre, milorde — ofereceu Haymitch, abrindo espaço e indo até uma pequena estante. — Tenho guardado um whisky especial… reserva que mantenho para ocasiões raras.
Peeta inclinou a cabeça num gesto cortês.
— Aceitarei com gratidão.
Haymitch serviu duas doses generosas. O aroma forte e defumado preenchia a sala modesta, mas acolhedora.
— A mademoiselle Everdeen está no campo? — perguntou Peeta, com naturalidade estudada, como quem tenta disfarçar a ansiedade.
— Sim — respondeu Gale, limpando as mãos no pano. — Saiu depois do almoço. Disse que ia até o salgueiro.
Peeta apertou levemente o livro entre os dedos.
Eles conversaram por alguns minutos sobre a colheita, sobre o clima, sobre o aumento das patrulhas nas estradas. Mas com o passar do tempo, a inquietação cresceu.
Haymitch olhou pela janela, franzindo o cenho.
— Estranho… já deveria ter voltado. Nunca fica fora tão tarde.
Finnick endireitou a postura, atento.
— Quer que eu vá procurá-la, pai?
Peeta colocou o copo sobre a mesa, devagar, como se sua decisão nascesse daquele gesto.
— Irei também.
Ninguém discutiu.
O campo estava tingido por tons rosados. O ar ainda quente segurava o perfume das flores silvestres. Os três caminharam lado a lado, mas Peeta logo se adiantou, guiado por algo mais forte que lógica.
O salgueiro se erguia ao longe — grande, familiar.
Mas havia algo errado.
Muito errado.
O coração dele acelerou, pesado como chumbo.
O vento balançava os galhos, mas não havia figura sentada na sombra.
Não havia trança solta caindo sobre os ombros.
Não havia movimento algum… apenas silêncio.
Peeta acelerou o passo. Depois correu.
E quando chegou, sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
O livro estava lá.
Aberto.
Caído sem cuidado, como se tivesse sido arrancado das mãos.
As páginas agitavam-se com o vento, o cenário contava uma história depressa, de luta, de interrupção abrupta.
— Katniss? — chamou ele, a voz sufocada, quase implorando.
Som algum respondeu.
Finnick e Gale chegaram logo depois, ambos empalidecendo ao ver o livro jogado.
O silêncio que caiu sobre os três era cortante.
Peeta se ajoelhou devagar, tocando o volume caído. Os dedos encontraram uma marca no chão — uma leve ranhura, como se uma bota tivesse arrastado terra fresca.
Sangue gelou em suas veias.
Os saqueadores?
Ou a sombra crescente.
Bligth.
Todos os fios soltos daquelas semanas… entrelaçavam-se, finalmente, em um nó terrível.
Ele ergueu o rosto, os olhos agora de tempestade.
— Ela não foi embora por vontade própria — constatou, a voz baixa, grave, determinada. — Katniss foi levada.
Gale apertou os punhos.
Finnick praguejou baixinho.
E ali, sob o salgueiro que antes fora refúgio, agora apenas um espectro do que havia sido, Peeta Mellark tomou a primeira respiração de um homem que estava prestes a mover céus, terras e infernos.
Porque a jovem que ele amava — mesmo que ainda não ousasse nomear esse amor — estava desaparecida.
E ele iria encontrá-la.
Nem que precisasse declarar guerra ao próprio mundo.
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