Notas iniciais
Boa noite queridas consegui voltar com mais um capítulo, espero que gostem eu amo esse enredo... obrigada pelo carinho, já, já, respondo os comentários, amo os comentários de vcs ❤️

O duque de Bro Waroch — Peeta Mellark — estava imerso em suas anotações diárias, a pena deslizava com paciência sobre o papel, o som suave ecoando pela vasta biblioteca de Edenbrooke. O mesmo ritual que mantinha desde os tempos em que estudara em Paris. Sobre a mesa de carvalho repousavam livros abertos, cadernos encadernados em couro e uma lamparina de vidro âmbar, cuja chama tremulava e projetava sombras dançantes nas paredes cobertas por fileiras e mais fileiras de volumes antigos.

Havia algo de sagrado naquele silêncio — um refúgio onde as vozes do mundo cessavam e só restava o ruído do papel e o murmúrio dos próprios pensamentos. Mas, naquele fim de tarde, nem mesmo o silêncio parecia bastar para aquietar a mente do duque.

Peeta escrevera sobre tudo: as colheitas nas terras, o progresso dos inquilinos, os relatórios financeiros. Contudo, a cada linha que traçava, via-se interrompido por pensamentos que fugiam à lógica e se tornavam poesia involuntária.

“Por que os olhos dela me perseguem até quando fecho os meus?”

Suspirou, pousando a pena. O papel, outrora preenchido por cifras e registros, agora exibia, sem que ele mesmo notasse, o contorno suave de um rosto feminino.

Os traços surgiram como se tivessem vontade própria — o arco das sobrancelhas, o desenho obstinado da boca, os olhos... ah, os olhos. Ele passou o polegar sobre o traço, esfumando-o levemente, como se quisesse dar vida àquela figura.

Era inútil negar.

Katniss Everdeen não deixava de habitá-lo — mesmo quando a razão tentava bani-la.

O estalar da porta o arrancou de seus devaneios.

— Vossa Graça, perdoe a interrupção — disse Darius, o fiel mordomo, inclinando-se levemente. — Acaba de chegar uma correspondência... de Paris.

Peeta ergueu os olhos, e uma ruga de inquietação formou-se entre suas sobrancelhas.

— De Paris? De quem?

— O selo é do conde Latier, milorde. Acredito tratar-se de um assunto de alta importância.

Darius aproximou-se, depositando o envelope selado sobre a mesa. O lacre de cera ostentava o brasão real: o lírio da monarquia francesa.

Peeta pegou a carta com cuidado. O papel tinha o perfume discreto de pergaminho caro — o tipo usado apenas em missivas da corte. Rompeu o selo e leu em silêncio.

A cada linha, o cenho se fechava mais.

“Sua ausência prolongada desperta comentários na corte. O rei Coriolanus Snow XVI pretende reunir todos os duques de linhagem antiga para um conselho em Versalhes. As tensões com as colônias aumentam e há rumores de que Sua Graça Bro Waroch possa ser nomeado conselheiro especial. Espera-se que aceite o convite e retorne a Paris com brevidade.”

Peeta deixou a carta repousar sobre o tampo da mesa e recostou-se na cadeira.

Versalhes.

A palavra soava mais como uma lembrança do que uma promessa.

Lá, ele deixara tudo — sua juventude, suas imprudências, e... alguns fantasmas que preferia não reencontrar.

O duque passou a mão pelos cabelos loiros, agora levemente desalinhados. Voltou a olhar para o papel e percebeu o desenho.

O rosto dela o observava em silêncio.

E, por um instante, as intrigas de Paris, o rei, os títulos e as obrigações — tudo desapareceu.

Restou apenas a lembrança daquela voz impetuosa e daquele olhar tempestuoso, capaz de incendiar até o mais gelado dos corações.

Sorriu de leve, apesar de si mesmo.

— A senhorita Everdeen está se tornando um hábito perigoso — murmurou.

O relógio de pêndulo tilintou, marcando a hora vespertina. A brisa da tarde entrou pelas altas janelas, fazendo balançar as cortinas e espalhando o cheiro de tinta e pergaminho.

Peeta mergulhou novamente a pena no tinteiro e, sem pensar, começou a traçar novas linhas. Mas, desta vez, não eram números, nem observações.

Eram versos.

“Ela veio como o vento que desafia a razão.

Trouxe em seus olhos a fúria e a doçura do mar.

E eu, tolo navegante, esqueci-me de voltar.”

Fechou o diário devagar, respirando fundo.

Em breve, teria de tomar uma decisão: atender ao chamado de Paris ou permanecer ali — onde, pela primeira vez em muito tempo, sentia o coração bater de forma diferente.

Mas antes que a noite caísse, ele já sabia o que precisava fazer.

Não seria a corte, nem o rei, que ditariam seus próximos passos.

Seria ela.

E, ao soprar a chama da lamparina, Peeta Mellark teve a nítida sensação de que, mesmo na escuridão, os olhos dela continuavam a fitá-lo.

❆❆❆

Já haviam se passado algumas semanas desde que o duque recebera a carta de Paris, e, embora respondesse às missivas da corte com a cortesia exigida, não dera um passo sequer em direção à cidade.

O motivo de sua hesitação tinha nome, voz e olhos de tempestade.

Katniss Everdeen.

Desde o início de suas lições de esgrima, Peeta perdera o domínio do próprio coração. E agora, após tantos dias sem vê-la, sentia-se como um homem exilado da própria alma.

Naquela manhã, o duque deixou Edenbrooke sem avisar a ninguém, montando sozinho em seu cavalo castanho. O vento frio da primavera tardia açoitou-lhe o rosto enquanto atravessava os campos que separavam sua propriedade das terras dos Everdeen. O cheiro de lavanda e erva-cidreira trazido pela brisa lhe lembrava os dias em que ela o desafiava com aquele olhar altivo — e, de alguma forma, ele sentia falta até das farpas que ela lhe lançava.

Quando chegou à fazenda, avistou Gale próximo ao celeiro, empilhando fardos de feno com força e destreza. O rapaz limpou o suor da testa com o antebraço e, ao ver a figura elegante do duque desmontar, curvou-se educadamente.

— Vossa Graça — cumprimentou, contido, mas respeitoso. — Não esperávamos sua visita hoje.

— Nem eu planejava vir — respondeu Peeta, com um leve sorriso. — Às vezes, os melhores caminhos são os que não planejamos.

Gale ergueu uma sobrancelha, sem saber o que dizer diante de tamanha sutileza aristocrática.

— Está procurando minha irmã, imagino.

— De fato. — Peeta desviou o olhar, como quem tenta disfarçar a própria impaciência. — A mademoiselle Everdeen se encontra em casa?

— Está no campo, milorde — contou o rapaz, apontando na direção do prado florido. — Provavelmente debaixo do salgueiro. Costuma sentar-se lá pra ler quando quer ficar sozinha.

Peeta agradeceu com um leve aceno e seguiu a passos firmes. O caminho era ladeado por flores silvestres e o ar estava impregnado do perfume doce do capim recém-cortado. À medida que se aproximava do salgueiro, o som do vento entre as folhas criava uma melodia branda, quase melancólica.

Então, ele a viu.

Katniss estava sentada na relva, as costas apoiadas no tronco do velho salgueiro, os cabelos soltos caindo sobre os ombros. Um raio de sol filtrava-se entre as folhas, banhando-lhe o rosto em uma luz dourada. Tinha o livro aberto no colo, e seus dedos, longos e delicados, deslizavam sobre as páginas amareladas com uma concentração tão pura que ele quase hesitou em interrompê-la.

Peeta permaneceu a alguns passos de distância, observando-a em silêncio, até que o som de seus passos fez com que ela erguesse o olhar.

— Vossa Graça — disse ela, surpresa, mas não sem um leve toque de ironia. — Não imaginava encontrá-lo por estas bandas.

— E eu, tampouco, esperava encontrar tamanha paz num campo tão modesto — respondeu ele, com um sorriso tênue. — Posso saber que romance ocupa a atenção da mademoiselle desta vez?

Katniss fechou o livro lentamente, fitando-o com serenidade.

— Não é um romance, milorde — respondeu com calma. — É um compêndio sobre a cultura celta e suas antigas tradições espirituais.

Peeta arqueou as sobrancelhas, surpreso — e, por um instante, a lembrança de Finnick lhe atravessou a mente.

— Ah, claro... — murmurou, com um leve brilho no olhar. — Agora me recordo. Seu irmão Finnick mencionou algo parecido... sobre o fascínio que a senhorita tem por esse povo misterioso.

— Mistério é o que mais há no mundo, milorde — replicou ela, desviando os olhos para o horizonte. — Os celtas acreditavam que cada árvore tinha uma alma, e que a terra nos escuta, mesmo quando permanecemos em silêncio. — Tocou o tronco do salgueiro com suavidade. — Gosto de pensar que há verdade nisso.

Peeta ficou alguns segundos em silêncio, contemplando-a.

A simplicidade com que ela falava transformava o campo em templo e o vento em confissão.

— Ah, me esqueci... — constatou ele, com um meio sorriso e o tom levemente provocador. — A mademoiselle não é uma jovem convencional.

Katniss ergueu o queixo, com o brilho de desafio acendendo-se em seus olhos.

— Se por “convencional” quer dizer alguém que lê sobre príncipes e donzelas em apuros, temo decepcioná-lo, vossa graça. — Ela sorriu de canto. — Prefiro os livros que ensinam a entender o mundo... e a mim mesma.

— Filosofia, história, geografia... — completou ele, num tom quase reverente. — Virtudes raras numa dama da nossa época.

— Ou defeitos, dependendo de quem observa — retrucou, brincando com a lombada do livro.

— Para mim... — depôs Peeta, dando um passo à frente — São qualidades que a tornam única.

O silêncio que se seguiu era espesso, quase palpável. O duque a fitava com uma mistura de admiração e ternura contida. Katniss desviou o olhar, voltando ao livro, mas suas mãos tremiam levemente.

— O senhor veio apenas para falar de livros, vossa graça? — perguntou, tentando soar indiferente.

Peeta respirou fundo.

— Vim porque o tempo passou... e percebi que os dias em Edenbrooke se tornaram longos demais sem ouvir sua voz.

Ela não respondeu de imediato. O vento soprou mais forte, fazendo com que algumas folhas caíssem entre eles. Katniss as observou flutuar antes de dizer, quase num sussurro:

— Às vezes, o silêncio também fala, milorde. Basta saber escutá-lo.

Peeta a observou por um instante, encantado pela forma como cada palavra dela parecia carregar um significado oculto. Então, sem ousar quebrar o momento, inclinou a cabeça num gesto de respeito.

— Então, permita-me escutar.

E, por alguns instantes, nenhum dos dois disse palavra.

O som do vento nas folhas, o canto distante de um pássaro e o leve farfalhar das páginas do livro eram a única música necessária.

O duque sentou-se na relva, a uma distância segura, e pela primeira vez, ambos partilharam o mesmo silêncio — não como adversários, mas como dois mundos que, enfim, começavam a se entender.

O vento soprou mais suave, balançando as folhas do velho salgueiro que os abrigava. A luz filtrada entre os galhos desenhava sobre o rosto dela pequenos fragmentos de sol e sombra — e Peeta, observando-a, pensou que nenhuma pintura seria capaz de reproduzir aquele contraste tão vivo.

Katniss folheava o livro distraidamente, até pousar o olhar sobre ele.

— Vossa Graça, o senhor sempre fala tão bem das letras, mas raramente menciona o que lê. Que tipo de livros o encantam?

Peeta esboçou um sorriso leve, como quem reconhece uma armadilha travestida de curiosidade.

— Ah, depende do estado de espírito, mademoiselle. Quando jovem, lia filosofia para entender o mundo. Hoje, leio poesia... para tentar suportá-lo.

Katniss arqueou uma sobrancelha, divertida.

— Que curioso... pensei que os homens práticos, como o senhor, preferissem relatórios e decretos, não versos e metáforas.

— Engana-se — retrucou ele, com doçura. — Um duque governa melhor quando aprende a ouvir a alma dos poetas. Eles ensinam o que a política não explica.

— Ou disfarçam o que a realidade impõe — contrapôs ela, num tom perspicaz. — Os poetas falam do amor como se fosse sempre nobre e puro. Esquecem-se de que o amor também pode ser uma fraqueza.

Peeta inclinou-se um pouco, fitando-a com interesse genuíno.

— E crê que o amor seja uma fraqueza, mademoiselle Everdeen?

— Creio que o amor é... perigoso — respondeu sem hesitar. — Faz as pessoas abrirem mão da razão, e quando a razão se perde, o mundo desaba. — Ela virou uma página do livro. — Os celtas chamavam isso de anwyn, o fogo que consome o coração.

O duque a observou em silêncio por um instante.

— Então temo que este fogo já tenha me alcançado.

Katniss levantou o olhar, surpresa com a franqueza.

Peeta desviou o olhar para o horizonte, como quem busca refúgio nas nuvens.

— Recebi uma carta de Paris há algumas semanas. — Começou, a voz agora grave. — O conde Latier escreveu em nome do próprio rei, convidando-me a regressar a Versalhes. Há rumores de conflito nas colônias e o trono deseja reunir todos os duques de linhagem antiga.

Ela manteve o livro aberto no colo, mas não o lia mais.

— E o senhor irá?

— Por hora, não — respondeu, firme, sem rodeios. — Há assuntos... mais urgentes aqui. — Seus olhos encontraram os dela, e não havia mistério algum sobre a quem ele se referia.

Katniss desviou o olhar, disfarçando um leve rubor.

— O rei Coriolanus XVI não costuma esperar — disse, tentando mudar o rumo da conversa. — Talvez seja perigoso contrariá-lo.

— Talvez — admitiu Peeta, sorrindo. — Mas há riscos que valem ser corridos.

O silêncio pairou entre os dois por um instante. O som distante das cigarras e o murmúrio do vento entre as folhas preenchiam o espaço.

Foi Katniss quem quebrou a quietude.

— Faz três semanas que Cato partiu para as Colônias — falou, num tom baixo, quase um desabafo. — Desde então, não recebemos carta alguma. Meu pai tenta parecer calmo, mas... — Ela respirou fundo. — Sei que está preocupado.

Peeta a observou com atenção.

— É natural — respondeu com suavidade. — As viagens são longas. O mar é caprichoso, mademoiselle. — Deu um meio sorriso, tentando amenizar. — Um navio leva seis, às vezes oito semanas para alcançar as Américas. E mais duas de cavalo até os postos militares. Seu irmão não teria como escrever antes.

Ela assentiu lentamente, mas a sombra da preocupação não desapareceu.

— Mesmo assim, as noites parecem mais longas desde que ele partiu — murmurou. — Tenho medo de que algo aconteça e meu pai fique inconsolável.

Peeta se aproximou um passo, respeitoso, mas com o olhar terno.

— Ele é um homem valente, como todo Everdeen — comentou. — E, se me permite a ousadia... — Abaixou levemente a voz. — Não está sozinha nesta espera.

Katniss ergueu os olhos, surpresos, mas não respondeu.

Havia em suas feições uma luta silenciosa entre a cautela e o conforto que aquelas palavras lhe traziam.

— Às vezes — contou ele, pousando a mão sobre o tronco do salgueiro. — As raízes mais fortes são aquelas que crescem no escuro. Seu irmão encontrará o caminho de volta, mademoiselle. Assim como todos que têm algo ou alguém por quem voltar.

Ela sorriu, um sorriso breve, quase tímido, mas sincero.

— O senhor fala como um homem que já esperou muito tempo.

— Esperei... e talvez ainda espere — confessou, olhando-a com ternura contida.

O vento soprou novamente, fazendo as folhas do salgueiro sussurrarem, como se a própria natureza aprovasse aquele instante de entrega e vulnerabilidade.

Katniss apertou o livro contra o peito, hesitante.

— Então, milorde, espero que o que quer que o senhor esteja esperando... valha o tempo que gasta sonhando.

Peeta inclinou-se levemente, sem tirar os olhos dela.

— Valerá, mademoiselle — disse, em um sussurro. — Eu não tenho dúvidas.

O duque e a jovem camponesa permaneceram em silêncio — dois mundos diferentes unidos por um instante de compreensão.

Nem a brisa ousou separar o que o destino, silenciosamente, começava a unir.

❆❆❆

Os dias seguintes passaram como folhas arrastadas pelo vento. Trébeurden, por um breve instante, parecia repousar em uma falsa tranquilidade. Mas Peeta percebia — em olhares de comerciantes, cochichos de criados e bilhetes que chegavam sem assinatura — que algo se movia à sombra das fronteiras de suas terras.

Saqueadores.

Primeiro, apenas boatos: um porco furtado aqui, uma carroça virada ali. Mas em seguida vieram relatos mais sombrios — homens encapuzados rondando casas isoladas, ruídos na mata ao cair da noite, pegadas que não pertenciam a camponeses locais.

E, embora ninguém soubesse ainda, o rastro tinha um cheiro familiar.

Peeta não o percebia — não ainda — mas a ameaça tinha o mesmo timbre de crueldade, a mesma ousadia que certa noite avançara contra Katniss no terraço do teatro.

O capitão Bligth, aquele que não era de desistir. Peeta o andou investigando e descobriu muitas indiscrições do homem.

Aquele homem não era de esquecer.

Nem de perdoar humilhações públicas.

Durante o dia, o duque dividia-se entre vigílias pelas estradas, conversas com intendentes e cartas para o rei que juntavam poeira sobre sua mesa. Mas era inútil, a mente dele traía suas obrigações sempre no mesmo ponto.

Katniss.

Por mais que tentasse manter a compostura, seus dedos acabavam sempre percorrendo páginas brancas, desenhando — quase sem perceber — a curva do perfil dela, os olhos tempestuosos, as mechas de cabelo que teimavam em escapar da trança…

Era ridículo.

Era impróprio.

Era inevitável.

Ele suspirava, fechando o diário como quem tenta fechar o próprio coração — sem sucesso algum.

Naquela tarde, o céu tomara um tom dourado suave, prenúncio de um entardecer morno. O duque observou a luz atravessar os vitrais da biblioteca e, num impulso que não tentou reprimir, levantou-se.

Sobre a mesa repousava um volume de capa azul-escura: “Tratado das Religiões Célticas e seus Mitos Fundadores”, uma obra rara, encadernada em Paris anos antes.

A primeira vez que vira Katniss lendo sobre os celtas sob o salgueiro, soubera imediatamente que aquele livro era… perfeito para ela.

Sem permitir que a razão discutisse com o desejo, Peeta saiu de Edenbrooke.

Haymitch Everdeen estava na varanda quando avistou a figura elegante do duque aproximar-se.

— Vossa Graça! — saudou, tirando o chapéu. — Os meninos não me disseram que viria hoje.

— Nem eu esperava vir — respondeu Peeta, sorrindo. — Mas trouxe algo para sua filha.

Gale e Finnick estavam próximo ao poço, limpando ferramentas. Aproximaram-se para cumprimentá-lo, ambos surpresos, porém polidos.

Peeta percebia, a desconfiança deles permanecia.

A proteção à irmã era clara, sólida, quase feroz — e isso só aumentava o respeito que o duque nutria pelos Everdeen.

— Entre, milorde — ofereceu Haymitch, abrindo espaço e indo até uma pequena estante. — Tenho guardado um whisky especial… reserva que mantenho para ocasiões raras.

Peeta inclinou a cabeça num gesto cortês.

— Aceitarei com gratidão.

Haymitch serviu duas doses generosas. O aroma forte e defumado preenchia a sala modesta, mas acolhedora.

— A mademoiselle Everdeen está no campo? — perguntou Peeta, com naturalidade estudada, como quem tenta disfarçar a ansiedade.

— Sim — respondeu Gale, limpando as mãos no pano. — Saiu depois do almoço. Disse que ia até o salgueiro.

Peeta apertou levemente o livro entre os dedos.

Eles conversaram por alguns minutos sobre a colheita, sobre o clima, sobre o aumento das patrulhas nas estradas. Mas com o passar do tempo, a inquietação cresceu.

Haymitch olhou pela janela, franzindo o cenho.

— Estranho… já deveria ter voltado. Nunca fica fora tão tarde.

Finnick endireitou a postura, atento.

— Quer que eu vá procurá-la, pai?

Peeta colocou o copo sobre a mesa, devagar, como se sua decisão nascesse daquele gesto.

— Irei também.

Ninguém discutiu.

O campo estava tingido por tons rosados. O ar ainda quente segurava o perfume das flores silvestres. Os três caminharam lado a lado, mas Peeta logo se adiantou, guiado por algo mais forte que lógica.

O salgueiro se erguia ao longe — grande, familiar.

Mas havia algo errado.

Muito errado.

O coração dele acelerou, pesado como chumbo.

O vento balançava os galhos, mas não havia figura sentada na sombra.

Não havia trança solta caindo sobre os ombros.

Não havia movimento algum… apenas silêncio.

Peeta acelerou o passo. Depois correu.

E quando chegou, sentiu o chão desaparecer sob seus pés.

O livro estava lá.

Aberto.

Caído sem cuidado, como se tivesse sido arrancado das mãos.

As páginas agitavam-se com o vento, o cenário contava uma história depressa, de luta, de interrupção abrupta.

— Katniss? — chamou ele, a voz sufocada, quase implorando.

Som algum respondeu.

Finnick e Gale chegaram logo depois, ambos empalidecendo ao ver o livro jogado.

O silêncio que caiu sobre os três era cortante.

Peeta se ajoelhou devagar, tocando o volume caído. Os dedos encontraram uma marca no chão — uma leve ranhura, como se uma bota tivesse arrastado terra fresca.

Sangue gelou em suas veias.

Os saqueadores?

Ou a sombra crescente.

Bligth.

Todos os fios soltos daquelas semanas… entrelaçavam-se, finalmente, em um nó terrível.

Ele ergueu o rosto, os olhos agora de tempestade.

— Ela não foi embora por vontade própria — constatou, a voz baixa, grave, determinada. — Katniss foi levada.

Gale apertou os punhos.

Finnick praguejou baixinho.

E ali, sob o salgueiro que antes fora refúgio, agora apenas um espectro do que havia sido, Peeta Mellark tomou a primeira respiração de um homem que estava prestes a mover céus, terras e infernos.

Porque a jovem que ele amava — mesmo que ainda não ousasse nomear esse amor — estava desaparecida.

E ele iria encontrá-la.

Nem que precisasse declarar guerra ao próprio mundo.


Notas finais
Até outro dia meus amores...