O Duque que me Amou
8 No Olho da Tempestade
Notas iniciais

Peeta não lembrava de ter sentido pânico daquela forma antes.
A porta da estrebaria quase saiu das dobradiças quando ele a empurrou, atravessando o pátio do castelo Edenbrooke com passos ferozes. Darius correu atrás dele, ainda ajeitando o casaco.
— Vossa graça, o que aconteceu?!
— A mademoiselle Everdeen foi levada. — A voz de Peeta saiu tão fria e afiada que Darius empalideceu.
O duque virou-se para os homens ali presentes — cavalariços, guardas, dois rastreadores locais que tinham vindo áquela manhã atrás de trabalho.
— ARMEM-SE. TODOS. AGORA.
Os homens pararam por apenas um segundo — Peeta Mellark nunca levantava a voz daquela forma — e então começaram a se mover como um enxame organizado.
— Quero seis cavalos selados. — Ele apontou para os rastreadores. — Vocês dois, comigo. Vamos vasculhar a floresta, as estradas secundárias e o caminho para o porto.
— Sim, milorde!
— Darius, mande mensageiros aos vizinhos. Qualquer cavaleiro voluntário, qualquer homem capaz de segurar uma espada ou arma... eu aceito todos. — Peeta respirava rápido. — E diga que não é um pedido. É uma ordem do duque de Bro Waroch.
Finnick e Gale surgiram correndo do portão da casa Everdeen, os rostos pálidos, ofegantes.
— Não acredito que Bligth levou minha irmã — disse Gale com a voz firme, mas os olhos queimando de medo.
— Eu sei. — Peeta puxou as rédeas de seu cavalo negro e montou. — Nós vamos encontrá-la.
Finnick apertou o punho.
— Pelo amor de Deus, então vamos logo.
Peeta olhou para os dois.
E a expressão dele — dura, sombria, assassina — fez até os irmãos Everdeen ficarem em silêncio.
— Eu vou trazê-la de volta. Nem que eu precise atravessar o inferno inteiro para isso.
E com um estalo de rédea, partiu.
❆❆❆
A primeira coisa que Katniss sentiu foi o gosto de sangue na boca. Depois, o chão duro arrastando sob seus pés enquanto era empurrada, quase carregada, por dois homens corpulentos. A mordaça amarrada grosseiramente entre seus lábios não abafava seus grunhidos de revolta — apenas os tornava mais desesperados.
Ela lutava.
Lutava como uma fera encurralada.
— Segura essa desgraçada! — Rosnou um deles, prendendo seus braços amarrados atrás das costas.
Katniss se debateu, acertando o joelho de um deles, levando-o a reclamar um palavrão.
— Aí está ela... a pequena joia que o capitão quer tanto de volta. — O outro riu, puxando-a mais forte.
A menção ao nome fez seu coração gelar.
Blighth.
O maldito Bligth.
— Cale essa boca e anda! O capitão não quer que a garota esteja toda marcada... ainda — murmurou um dos homens, achando graça.
Eles atravessaram um caminho de terra lamacenta, chegando a um galpão abandonado, velho e escuro. As telhas quebradas deixavam feixes de luz atravessarem o interior poeirento como lâminas.
Os homens a jogaram no chão.
A tampa de madeira rangeu atrás deles.
Silêncio.
Depois, passos lentos, calculados.
Katniss ergueu o rosto, a respiração presa. A figura que emergiu das sombras tinha a elegância e o cinismo de um predador satisfeito com a própria armadilha.
— Eu realmente achei que nunca teria minha recompensa, mademoiselle Everdeen — murmurou Bligth, o sorriso torto se abrindo.
Ele se aproximou, agachando-se diante dela.
— Mas veja só... o destino me presenteou novamente. Soube que seu querido irmãozinho Cato foi convocado para as Colônias. Tsc-tsc... que pena. Agora você está ainda mais desprotegida, não? – Seus dedos frios deslizaram pela linha do queixo dela. — E eu não deixo dívidas pendentes. Jamais!
Katniss virou o rosto, enojada.
Bligth riu.
— Ainda tem fogo nos olhos. Eu gosto disso.
Sem aviso, ele agarrou seus braços amarrados, puxando-a de pé com brutalidade.
— Solte-me! — Ela conseguiu gritar, a voz abafada pela mordaça.
— Ah, eu vou soltar, minha querida. Mas só quando estiver onde quero.
Ele afastou a mordaça com um puxão e a mão dele veio rápido, tentando agarrar seu rosto.
Katniss aproveitou a abertura.
E mordeu.
Com toda a força.
O sangue invadiu sua boca.
Bligth gritou.
— Sua... danadinha. — Ele gargalhou entre dor e excitação sombria. — Issso só me excita mais.
O tapa veio forte, estalando em sua bochecha.
Ela tombou no chão, zonza.
Bligth puxou seu vestido, para cima, seus dedos ásperos tocando sua coxa.
Foi quando um estrondo do lado de fora fez todos congelarem.
Gritos.
Metal contra metal.
Hoofs.
— O que inferno é isso?! — gritou um dos capangas.
A porta foi arremessada para trás como se um touro tivesse atravessado.
E ali, emoldurado pela luz do fim da tarde, com a respiração pesada, os olhos azuis incendiados e a roupa de cavalgada coberta de poeira e lama — Peeta Mellark.
Atrás dele, armados, ferozes, determinados:
Gale e Finnick.
Peeta entrou sem hesitar.
— TIRA AS MÃOS DELA! — Sua voz retumbou como trovão.
Bligth virou-se, rapidamente puxando um punhal.
— O duque de Bro Waroch... que honra — zombou, erguendo a lâmina.
Peeta avançou.
Os dois se chocaram com violência, o punhal raspando o braço de Peeta num corte superficial, finíssimo, mas ardente.
Ele ignorou.
Peeta agarrou Bligth pelo colarinho e o esmurrava como se cada golpe fosse a promessa feita a si mesmo de protegê-la.
Gale e Finnick lutavam do lado de fora, derrubando e afugentando os demais homens, o som de espadas e gritos ecoando pelo galpão.
Bligth caiu, atordoado, cuspindo sangue.
Peeta se virou para Katniss.
— Katniss! — A voz dele quebrou um pouco.
Ele correu até ela, puxando um pequeno punhal da cintura e cortando as cordas que prendiam seus pulsos.
Ela mal conseguiu ficar de pé.
Peeta não esperou.
Ele a ergueu nos braços, como se ela pesasse menos que uma folha, jogando-a sobre o ombro com urgência.
— SEGURA! — ordenou.
Katniss juntou toda a força que tinha para segurar o tecido da camisa dele.
Lá fora, Finnick e Gale já montavam.
— VAMOS! — gritou Gale, segurando o cavalo de Peeta pelas rédeas.
Peeta montou com Katniss no colo, a acomodando à sua frente, protegendo-a com o corpo, com o braço machucado pressionado contra ela.
— Segure-se em mim — murmurou.
Ela obedeceu, enterrando o rosto no peito dele, tremendo.
Os cavalos dispararam.
Cascalho voou.
Uma chuva torrencial iniciara, o vento cortava o rosto.
O coração de Katniss martelava contra o peito do duque.
Só quando estavam longe — muito longe — Peeta puxou as rédeas, parando próximo a um moinho abandonado, escondido pela vegetação densa.
Finnick e Gale desmontaram rapidamente.
Peeta desceu com Katniss nos braços, como se ela fosse desintegrar se ele afrouxasse os dedos.
— Está tudo bem. Já passou... já passou — repetia ele, mas sua própria voz tremia.
Ele a colocou sobre uma manta improvisada, ajoelhando-se diante dela.
Com o punhal, cortou de vez as últimas fibras das cordas.
Quando o pulso dela ficou livre, Katniss desabou.
Finalmente.
As lágrimas caíram como chuva que caía lá fora.
Seus ombros estremeceram.
Peeta tentou tocá-la, mas Katniss não conseguia respirar corretamente, o pavor ainda latejando.
Finnick se aproximou rapidamente e a puxou para ele, envolvendo-a num abraço forte, protetor, fraternal.
— Shhh... Catnip... está tudo bem... — Sua voz embargou.
Peeta ficou ali, ajoelhado ao lado, ofegante, com o sangue escorrendo do corte no braço, a mão tremendo pela adrenalina.
Os olhos dele estavam fixos nela.
Não com pena.
Não com culpa.
Mas com um amor feroz, desesperado, silencioso.
Que ele ainda não ousava dizer em voz alta.
O céu estava escurecendo; a chuva só aumentava, tudo parecia suspenso entre alívio e terror.
Katniss ainda nos braços de Finnick estava tremendo violentamente, o rosto molhado de lágrimas silenciosas.
— Gale, pegue água — ordenou Finnick, a voz firme apesar do susto. — Katniss... está tudo bem — murmurou, tocando o rosto dela com a ponta dos dedos, relutante em soltar a irmã , como se temesse que, caso a afastasse um centímetro, ela pudesse desaparecer novamente.
Ela não respondeu — apenas soluçou abafado, o peito subindo e descendo em espasmos curtos.
Gale voltou com o cantil e se ajoelhou ao lado da irmã.
— Catnip... bebe um pouco. — Ele inclinou a água com cuidado contra os lábios dela.
Katniss segurou o punho dele com força, como se ancorasse ali sua última gota de segurança. Engoliu a água aos poucos, os olhos fechados, tentando recuperar o ar.
Gale, até então calado, aproximou-se por trás do duque — e viu.
O corte.
— Vossa graça... o seu braço. — A voz dele não era de preocupação educada. Era de alerta real.
Peeta olhou rapidamente para o ferimento — uma linha longa, fina, aberta e sangrando — e ignorou.
— Estou bem.
— Não está, não — insistiu Gale, já tirando o pano extra de sua bolsa. Sem pedir permissão, envolveu o braço do duque com firmeza. — Isso precisa ser limpo ou vai infeccionar.
Peeta sequer olhou para ele.
Os olhos estavam presos em Katniss.
Como se só ela existisse.
— Depois. — Ele rosnou. — Isso não importa agora.
Gale ergueu o rosto, encontrando o olhar fixo, febril e possessivo do duque.
— Importa sim, se quiser manter-se vivo para continuar ajudando ela — sussurrou, apertando o pano até estancar o sangramento.
Peeta finalmente respirou.
Fundo.
— Ele vai voltar — disse Finnick, rompendo o silêncio pesado. — Bligth não desiste. Nunca desiste.
Gale completou, a voz baixa, sombria:
— Ele vai querer revanche. E da próxima vez... ele virá com mais homens.
Katniss estremeceu.
Peeta ergueu o rosto com uma determinação letal, os olhos azuis se tornando gelo.
— Não — afirmou ele, cada palavra carregada de promessa e perigo. — Ele não tocará nela de novo. Nem chegará perto.
— Como pretende impedir? — rebateu Gale, não por insolência, mas por desespero. — Somos só nós três. Ele tem recursos, contatos no porto, armas...
— E um interesse doentio pela Katniss. — admitiu Finnick. — Sem proteção formal... ele vai continuar alegando que tem algum direito sobre o que Cato apostou. — O olhar dele caiu, amargo. — E a cidade inteira vai saber.
Peeta inspirou lentamente.
E naquele instante, tudo se alinhou em sua mente — como uma espada encontrando seu encaixe final.
— Então vamos impedir que ele tenha qualquer pretexto.
Gale franziu o cenho.
Finnick encarou-o, entendendo antes de todos.
Katniss — mesmo abalada — ergueu os olhos úmidos para o duque.
Peeta segurou o queixo dela com extremo cuidado, como se ela fosse feita de cristal que pudesse se quebrar a qualquer momento.
— Katniss Everdeen... — Sua voz saiu baixa, profunda, trêmula de emoção e fúria suprimida. — Bligth só tem poder sobre você porque você está desprotegida pela lei. Ele aposta na sua vulnerabilidade. Mas eu juro que isso termina hoje.
Os irmãos ficaram tensos.
Katniss engoliu seco.
— Vossa Graça... — sussurrou ela, exausta.
Mas ele continuou, firme.
— Eu vou garantir que ele nunca possa tocá-la novamente. Nem reivindicar nada. Nem tentar levá-la. Nem se aproximar.
A respiração dela vacilou.
Peeta sentiu.
E, sem rodeios, deixou escapar a primeira forma da decisão que o consumia:
— Eu vou protegê-la. Com tudo que tenho. Mesmo que você me odeie por isso.
Gale e Finnick trocaram um olhar silencioso.
Eles entenderam.
A proposta estava vindo.
O destino estava marcado.
E Katniss... sentiu o mundo girar.
❆❆❆
O silêncio dentro do moinho parecia amedrontar mais que os últimos eventos.
Katniss ainda tremia, a respiração curta, enquanto Peeta mantinha o olhar fixo nela — intenso, decidido, incansável. Havia algo sombrio e inabalável em sua postura… algo que ela ainda não entendia, mas sentia que estava prestes a engoli-la inteira.
Peeta inclinou-se um pouco mais, o rosto marcado pela poeira, sangue seco e uma dor no braço que ele ignorava por completo.
— Katniss… — A voz dele veio grave, firme como aço. — Você precisa ser protegida pela lei. De forma definitiva.
Ela fechou os olhos, sentindo o coração bater descompassado.
Não.
Não.
Não.
— Não pode ser… — sussurrou ela.
Mas era.
Peeta respirou fundo e disse o impossível:
— Katniss Everdeen… eu proponho casamento. Agora.
Ela ficou imóvel.
Finnick empalideceu.
Gale praguejou baixinho.
Por um segundo, Katniss achou que não tinha ouvido direito. Depois sentiu a realidade bater nela como uma onda gelada.
— O QUÊ?! — Ela explodiu, a voz quebrando entre raiva, medo e repulsa.
Peeta sustentou o olhar dela sem desviar.
— Bligth não poderá reivindicar nada contra uma mulher casada com um duque. Você estará sob minha proteção… sob meu título… e o rei receberá um documento oficial denunciando Bligth. Isso coloca um fim em tudo.
— Eu NÃO vou me casar com você! — gritou ela, tentando se afastar, mas suas pernas fraquejaram.
Finnick a segurou pelos ombros, gentilmente.
— Calma, Katniss…
— NÃO ME PEÇA CALMA! — Ela o afastou. Seus olhos estavam selvagens. — É disso que ele estava esperando desde o começo! Ele quer me trancar! Me controlar! Me… me possuir como se eu fosse um animal!
Peeta fechou os olhos por um instante, engolindo seco.
— Eu não quero te possuir — disse ele, mais baixo. — Eu quero te salvar.
— EU NÃO PRECISO DE VOCÊ! — Ela cuspiu as palavras como veneno.
Gale interveio, a voz tensa.
— Katniss… toda Trébeurden saberá que você foi sequestrada. As pessoas falam. Sempre falam. E Bligth é influente no porto. Ele vai distorcer a história. Vai espalhar que você era “dele”. Vai dizer que Cato te apostou. Isso vai virar um escândalo.
Katniss arregalou os olhos, o peito subindo e descendo rápido demais.
Finnick prosseguiu, dolorosamente racional.
— Nosso pai ficará desolado. Isso pode arruinar você. Ele. Todos nós. Mas se você casar com Peeta… Bligth perde o poder que pensa ter.
Ela levou as mãos à cabeça. As lágrimas voltaram com força.
— Não… não… não…
Peeta deu um passo à frente.
Ela recuou outro.
— Fique longe de mim! — gritou ela, engasgada.
Ele parou. Mas não desistiu.
— Eu faria qualquer coisa para garantir sua segurança — disse, num sussurro trêmulo. — Seja odiado por você… seja rejeitado pelo mundo… seja ferido ou morto… eu faço. Mas eu não vou permitir que aquele desonrado coloque a mão em você outra vez.
Os olhos de Katniss faiscaram.
— Você não tem esse direito! — gritou ela. — Não pode tomar decisões por mim! Não pode usar meu medo para me arrastar para o seu lado!
— Não é sobre mim — Peeta tentou dizer.
— É SÓ sobre você! — retrucou ela, o rosto vermelho, o choro misturado ao ódio. — Sobre seu maldito título, sua proteção, sua arrogância de achar que pode resolver tudo com um maldito casamento!
Gale segurou o braço dela para que não avançasse nele.
Finnick tentou, outra vez, apaziguar.
— Maninha… nós só queremos você viva.
Mas Katniss estava além da razão.
Os olhos dela encontraram os de Peeta — azuis, intensos, brilhando de algo que ela não queria reconhecer.
E então ela rosnou, entre dentes, com toda a dor e fúria acumulada:
— Eu odeio você.
Peeta ficou imóvel.
Nenhuma piscada.
Nenhuma reação.
A frase atravessou o peito dele como uma lâmina.
Gale soltou um suspiro pesado.
Finnick desviou o olhar.
Katniss, porém, não parou — os tremores tomaram conta de todo o corpo, e ela caiu de joelhos, esgotada, chorando com uma raiva que também era medo, e com um medo que também era profunda impotência.
Peeta deu um passo instintivo em direção a ela.
Finnick levantou a mão como uma barreira.
— Não. — A voz dele foi baixa, porém firme. — Dê tempo a ela.
Peeta parou.
Respirou fundo.
Olhou Katniss como se ela fosse o golpe fatal… e ao mesmo tempo a razão de continuar de pé.
E então, com a voz embargada, mas resoluta disse:
— Você pode me odiar. Pode me repudiar. Pode me ferir com todas as palavras que quiser. — A respiração dele vacilou. — Mas enquanto eu respirar, Katniss… não deixarei Bligth encostar em você.
A viagem de volta foi silenciosa.
Um silêncio pesado, denso, quase palpável.
Katniss estava sentada junto de Finnick no mesmo cavalo, Gale montado em outro cavalo ao lado para protegê-la. Ela mantinha os braços cruzados, o olhar perdido na escuridão da floresta, completamente exausta. A chuva já tinha dado trégua.
Peeta vinha mais atrás, montado com dificuldade, o corte no braço pulsando sob a bandagem improvisada. Ele olhava para Katniss o tempo todo — mas dessa vez, sem se aproximar.
Ele não ousaria.
Não depois das palavras que ela dissera.
E ainda assim… cada vez que ela tremia, o corpo dele inteiro reagia, como se essa única visão fosse suficiente para fazê-lo esquecer a dor física.
❆❆❆
Na entrada da propriedade dos Everdeen
As lanternas penduradas no varal jogavam luz amarelada sobre o pátio. Ripper e Dolores correram para fora quando ouviram os cascos.
— Meu Deus, o que aconteceu?! — Ripper levou as mãos à boca ao ver o estado da jovem.
— Traga água quente e panos limpos. — ordenou Gale, sem rodeios.
Katniss desceu do cavalo com a ajuda de Finnick. Suas pernas vacilaram, mas ela ficou de pé.
O pai, Haymitch Everdeen, surgiu na porta. O rosto endurecido derreteu em puro terror.
— Cherry… — sussurrou ele, indo até ela com passos trôpegos.
Katniss se jogou em seus braços, o choro voltando com força, mas agora sem gritos. Apenas um soluçar contido, cansado, ferido.
— Papai… eu… eu tentei… — Ela não conseguia terminar.
— Você está viva. — Ele a apertou. — Isso é o que importa.
Peeta saiu do cavalo devagar, mantendo distância. Gale segurou o braço do pai, chamando sua atenção.
— Nós encontramos ela. Bligth…
— Eu sei quem é Bligth. — O pai respondeu com uma voz carregada de ódio contido. — Tanto que avisei para o Cato nem se aproximar de alguma taverna próximo ao porto. Ele nunca me deu ouvidos.
Katniss se afastou apenas o suficiente para enxugar o rosto.
E então ela percebeu o duque — encostado à cerca, a camisa rasgada, o braço ensanguentado, o rosto transtornado.
Seu peito apertou, mas ela virou o rosto.
Ainda não conseguia olhá-lo.
Haymitch levou a filha para dentro. Finnick e Gale o seguiram. Peeta ficou de fora, respirando com dificuldade.
A dor física finalmente estava vencendo.
Dentro da casa, Katniss sentou-se no sofá da sala principal enquanto o pai e os irmãos falavam no corredor, baixinho, mas alto o suficiente para que ela escutasse.
— Isso vai destruir ela. — Gale murmurou. — Bligth vai usar isso contra nós.
— Ele já está usando. — Finnick rebateu. — A cidade inteira vai saber.
— E o que querem que eu diga? Que minha filha vai se casar com um duque só para fugir de um canalha?! — Haymitch rosnou.
Finnick esfregou a nuca.
— Pai… isso não é “só para fugir”. É a única forma de ele não ter mais nenhum argumento contra ela. Bligth apostou… e as pessoas vão acreditar nele. Um casamento com o duque corta a raiz do problema. Ele nunca mais poderá reivindicar nada.
Haymitch encostou a mão no batente, como se de repente tivesse envelhecido dez anos.
— Ela vai me odiar por compactuar com isso.
Gale respirou fundo.
— E se não fizermos nada… ela pode não sobreviver para nos odiar.
Silêncio.
Katniss aproximou-se da porta, apertando o tecido do vestido entre os dedos. O coração martelava.
Ela não via nenhuma saída.
Nenhuma.
E era isso que mais a aterrorizava.
Ela abriu a porta.
Todos se viraram.
— Eu não quero me casar. — Sua voz estava baixa, mas firme. — Nunca passou pela minha cabeça me casar. Muito menos… perder minha liberdade assim. — Finnick deu um passo em sua direção, mas ela recuou um pouco. — Mas… eu sei o que acontece se eu não fizer isso. — Ela respirou fundo até o peito doer. — Sei o que a cidade vai dizer. Sei que Bligth não vai parar. Sei que vocês estarão em risco. E sei… que o papai não vai aguentar outro golpe desses.
Ela ergueu o rosto.
Os olhos brilhavam de dor.
— Então eu aceito — disse num fio de voz. — Mas não é porque eu quero. É porque não me deixaram escolha.
Gale fechou os olhos por um instante.
Finnick abaixou a cabeça.
Haymitch segurou o peito, sentindo o peso da culpa cair sobre ele.
E lá fora…
Peeta ouviu tudo.
O silêncio dele denunciava que cada palavra atravessava seu peito como uma flecha.
Finnick abriu a porta para o duque entrar.
Peeta parou no limiar, tentando manter alguma compostura. O pano em seu braço estava encharcado de sangue.
Katniss desviou imediatamente o olhar.
Haymitch encarou o duque.
— Minha filha… aceitou. Mas saiba que ela está fazendo isso pelo bem dela e da família. E eu só… só peço que cuide dela como se sua vida dependesse disso.
Peeta, completamente destruído pela frase “Eu odeio você” que ainda ecoava em sua mente, respondeu:
— Minha vida já depende disso.
O silêncio se instalou.
Dolores trouxe uma bacia com água quente.
Finnick se aproximou do duque, com o cenho franzido.
— Senta — disse num tom que não permitia discussão.
Peeta se sentou, pela primeira vez desde o resgate, o corpo inteiro finalmente cedendo. Haymitch estendeu um copo bem generoso com whisky e o duque bebeu quase em um gole só.
Finnick começou a limpar o ferimento. Peeta não fez um som, mas apertou a mão contra a coxa ao lembrar da maneira como Katniss o olhou no moinho…
Com puro ódio.
Katniss mantinha distância, observando a cena com uma espécie de conflito interno — raiva, culpa, gratidão indesejada… tudo misturado como veneno.
Gale foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Precisamos decidir; anunciamos ou não? Se vamos fazer isso… tem que ser rápido. Antes que Bligth espalhe a versão dele.
Finnick concordou.
— Se esperarmos demais, toda a vila já terá ouvido outra história. E ela não terá defesa.
Todos olharam para Katniss.
Ela hesitou.
E depois, num sussurro tenso:
— Anunciem.
Peeta ergueu o rosto.
Os olhos dele encontraram os dela.
E dessa vez Katniss não desviou.
— Mas não pense — disse ela, cada palavra como lâmina. — Que eu faço isso por você.
Peeta inspirou profundamente, engolindo a verdade dura.
— Eu sei — respondeu com calma. — Mas ainda assim… eu vou honrar isso como se fosse.
Ela mordeu o lábio, furiosa com a serenidade dele.
Gale suspirou.
Finnick passou a mão no rosto.
Haymitch se sentou, derrotado.
E naquele momento, o futuro deles estava selado.
Não por amor.
Mas por sobrevivência.
E, ironicamente…
Era assim que as maiores histórias de amor começavam.
❆❆❆
Na manhã seguinte, a praça principal de Trébeurden fervilhava como um caldeirão.
Tendeiros cochichavam entre si, senhoras seguravam as cestas de pão com as mãos trêmulas de curiosidade, e jovens da aldeia se acotovelavam para ver o que estava prestes a acontecer.
O alvoroço começou quando um coche elegante parou diante do pelourinho. Darius, impecavelmente vestido, ergueu um pergaminho selado pelo brasão do ducado.
— Atenção, cidadãos de Trébeurden! — anunciou com voz firme.
Todos silenciaram.
— Por ordem de Sua Graça, o duque de Bro Waroch, Peeta Mellark…
A multidão prendeu a respiração.
— Fica declarado o noivado oficial entre Sua Graça e Mademoiselle Katniss Everdeen.
Um murmúrio tomou a praça como um vendaval.
Algumas jovens da alta sociedade — com vestidos floridos, fitas coloridas e expectativas frágeis — ficaram paralisadas.
E então veio a reação inevitável.
— Ele escolheu… ela?
— Uma Everdeen? Mas… eles são camponeses!
— E as filhas do barão de Kimper? As garotas Ansell? As Bourdeaux?
Madame Lavinia Boucher apertou sua sombrinha com tanta força que um dos arames internos se soltou.
Senhora Ansell desmaiou teatralmente nos braços do marido.
Senhoras de posição social mais elevada comentavam:
— Um duque deveria escolher uma jovem de família apropriada…
— Isso é um ultraje…
— Inaceitável… onde já se viu?
E, ao mesmo tempo…
Entre as pessoas comuns, o clima era diferente.
Muitas mulheres sorriam, comentando:
— Katniss tem coragem… vai colocar esse duque no eixo.
— Ela merece um homem que a proteja.
— Ele podia ter escolhido qualquer uma… mas escolheu uma mulher forte.
Já outros murmuravam:
— Se ele está se casando com ela, é porque algo grave aconteceu…
— Deus os proteja.
Efeito imediato — Trébeurden estava dividida.
E o nome Everdeen agora estava na boca de todos.
No escritório em Edenbrooke, Peeta sentou-se à escrivaninha e mergulhou a pena no tinteiro.
Cada letra era firme, elegante, calculada.
Meu estimado Conde Latier,
Agradeço por sua última carta e informo que, após resolver questões urgentes em minha província, retomo minhas obrigações para com a corte.
Pretendo viajar a Paris em breve, logo após meu matrimônio com Mademoiselle Everdeen.
Peço que informe aos demais membros da corte que estarei presente na próxima reunião, levando também assuntos importantes sobre segurança e comércio no litoral da Bretanha.
Com estima,
Peeta Ryan Edvard Lavoisier Mellark , Duque de Bro Waroch
O duque selou a carta.
E então mandou chamarem Dalton Koechlin, seu advogado.
Dalton chegou apressado, os óculos quase caindo do nariz.
— Vossa graça pediu urgência?
— Sim. — Peeta levantou-se, entregando ao homem uma pilha de anotações. — Preciso que redija imediatamente um documento oficial, para ser enviado ao intendente real e ao general Tread.
— Sobre o quê, milorde?
Peeta apoiou as mãos na mesa.
A voz baixa, porém carregada de veneno.
— Jordan Bligth. Quero que conste ali os crimes cometidos contra a família Everdeen, minha propriedade, e o sequestro de minha noiva Katniss Everdeen Inclua também as informações sobre suas transações ilegais no porto de Trébeurden — contrabando, suborno, transporte não declarado e sonegação de impostos.
Dalton arregalou os olhos.
— Isso poderá levar Bligth à forca.
— Esse é exatamente o objetivo, Dalton.
O advogado engoliu seco.
— Como desejar, Vossa Graça.
Depois do anúncio, Katniss subiu para seu quarto e não saiu pelo resto do dia.
Ela encarava as mãos, nervosas.
O quarto parecia pequeno demais. As paredes pareciam se fechar em torno dela.
“Eu vou me casar.”
A frase ecoava como um eco sufocante.
Ela se sentou na beirada da cama, abraçando os próprios joelhos.
Sua cabeça estava um caos.
Ela não pensou jamais… nunca… em renunciar sua liberdade. Muito menos por casamento. Muito menos por ele.
Mas… cada vez que tentava afastar Peeta da mente…
Ele voltava.
A forma como a segurou quando a encontrou.
A fúria estampada nos olhos dele olhando Bligth.
A suavidade ao dizer que faria qualquer coisa para protegê-la.
E antes disso…
A imagem de Bligth a segurando, erguendo seu vestido…
Ela começou a tremer.
E os tremores se transformaram em um grito.
No meio da noite, Katniss acordou com um sobressalto.
— NÃO! NÃO TOCA EM MIM! — gritou ela, empurrando o ar.
A porta foi aberta num estrondo.
Finnick correu até ela, sentando-se na cama e envolvendo-a nos braços num abraço forte.
— Shhh, Catnip… sou eu… você está segura. Sou eu…
Ela agarrou a camisa dele com força, o rosto enterrado no peito do irmão.
— Ele… ele… — Ela soluçou. — Ele me segurou… eu… eu não conseguia…
— Ele não vai te tocar nunca mais. Eu juro. — Finnick beijou o topo da cabeça dela. — Eu mato esse desgraçado antes disso. Você está segura aqui. Comigo. Com o Gale. Com o papai.
Ela respirou fundo, tentando se acalmar.
O abraço de Finnick foi o único lugar seguro naquela noite.
Mas…
Do lado de fora, no corredor, parado na sombra…
Peeta observava a porta entreaberta. Desde o anúncio do noivado passava horas e vigílias na residência dos Everdeen.
E ali, o coração rasgado ao escutar o choro dela.
Ele levou a mão ao peito, como se tentasse conter algo que o sufocava.
E deu um passo para trás.
Não seria bem-vindo ali.
Ainda não.
Talvez nunca.
Alguns dias depois...
No fim de uma manhã, Madge Undersee chegou com uma cesta de flores e pães recém-assados.
— Dolores, eu vim ver a Katniss. Ouvi o que aconteceu… e ouvi sobre o noivado.
Dolores hesitou, depois conduziu Madge até o quarto.
Katniss estava sentada à mesa, penteando o cabelo com movimentos lentos.
— Katniss… — Madge sorriu, mas seus olhos estavam marejados. — Parabéns… eu acho?
Katniss respirou fundo.
— Não precisa fingir. Sei que toda vila está um caos.
Madge assentiu.
— Está. Mas… eu estou feliz por você estar viva.
Ela então abraçou Katniss com força.
Katniss demorou alguns segundos para corresponder.
Madge afastou-se só o suficiente para olhar nos olhos da amiga.
— E… você está bem com isso? Com… ele?
Katniss virou o rosto.
Respirou fundo, tentando controlar o tremor dos dedos.
— Eu não sei — sussurrou. — Nada disso era o que eu queria.
— Às vezes… as coisas que não queremos são as que mudam tudo. — Madge segurou sua mão. — Talvez se casar não seja tão ruim quanto parece.
Katniss apertou os lábios.
— Eu odeio que ele venha à minha mente a cada momento.
Madge sorriu, compreensiva.
— Isso não é ódio, Katniss. Isso é o começo de algo que você ainda não quer admitir.
A jovem Everdeen não respondeu.
Mas o rubor discreto em suas bochechas denunciou que a frase havia encontrado um alvo preciso.
Entretanto, jamais admitiria outro sentimento pelo duque senão repulsa total.

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