O Duque que me Amou
9 Fuga para Aliviar a Mente
Notas iniciais

Os preparativos para o casamento eram o assunto mais comentado em toda Trébeurden.
As mulheres cochichavam nas janelas; as jovens suspiravam, imaginando como seria ser cortejada por um duque; os homens discutiam sobre cavalos, terras e o impacto que aquela união teria sobre as famílias da região. A vila inteira se encontrava empolgorosa — menos uma pessoa.
Katniss Everdeen.
A jovem Everdeen parecia uma chama presa em uma redoma de vidro, sufocada, prestes a apagar ou explodir. A responsabilidade vinha pesando mais a cada dia, mas nada se comparava àquele momento específico da semana: quando um alfaiate de renome internacional atravessou o portão dos Everdeen com três carruagens carregadas de tecidos e costureiras.
— Vim especialmente de Paris para criar um vestido de noiva digno de uma duquesa… e, claro, suas vestes de núpcias — anunciara Cinna, estufando o peito como um pavão orgulhoso.
As bochechas de Katniss empalideceram na mesma hora.
O pai e os irmãos, percebendo seu constrangimento, recuaram imediatamente, dando total privacidade à equipe do alfaiate. Medidas foram tiradas, tecidos comparados à pele da jovem, rendas testadas, ideias sussurradas entre as costureiras como se estruturassem o traje de uma rainha.
E, para Katniss, aquilo não era sonho.
Era prisão.
Naquele final de madrugada, enquanto todos dormiam, Katniss vestiu suas botas, vestiu um casaco, selou Tornado e partiu floresta adentro. O ar frio cortava-lhe o rosto; a neblina da manhã grudava em sua pele. Cada galopada era uma tentativa de afastar o nó que apertava seu peito.
Quando finalmente chegou à aldeia celta, desmontou exausta.
Seu corpo tremia mais de ansiedade do que de frio.
Encontrou Annie na pequena cabana ao lado do riacho, preparando uma mistura de ervas que exalava um aroma forte e adocicado.
— Você está pálida — comentou a ruiva, olhando-a de cima a baixo. — Aconteceu alguma coisa?
Katniss sentou-se pesadamente sobre uma cadeira. O cansaço e a frustração escorriam de seus ombros como água.
— Aconteceu tudo — confessou, a voz embargada. — Os preparativos… o vestido… aquele alfaiate maldito saiu espalhando encanto como se eu fosse uma princesa. Eu… eu sinto que estou amarrada. Perdi o ar, Annie… senti como se estivesse ficando menor, como se alguém estivesse me apertando por dentro.
Annie colocou uma das ervas de lado e cruzou os braços.
— Mas você sabia que isso aconteceria. Você aceitou, Katniss.
— Aceitei? — Ela disparou, levantando-se abruptamente. — Eu não aceitei nada! Apenas… fui sendo arrastada. Um passo de cada vez. Incentivos daqui, pressões dali… um sequestro e de repente eu tenho um vestido de noiva sendo moldado no meu corpo e costuras tão finas quanto a minha sanidade!
Annie deu um meio sorriso, compreensivo.
— Veja pelo lado bom, não terá que se preocupar com o Bligth… nem com o futuro. Terá tudo à sua disposição.
— Eu não quero ter tudo à minha disposição! — Katniss disparou com força. — E quanto ao Bligth… aaai… que droga!
Ela andou de um lado para o outro dentro da pequena cabana, como uma loba enjaulada.
— O pomposo duque de Bro Waroch pensa que pode resolver tudo com charme, presentes e… aquele sorriso idiota — continuou, bufando. — E todo mundo acha que eu deveria agradecer por isso! Como se fosse uma honra ser o acessório de um duque!
Annie arqueou as sobrancelhas.
— Você está com raiva… mas não sei se é só dele.
Katniss parou.
Virou o rosto devagar.
— Do que está falando?
— De você mesma. Do que está sentindo. Do que está evitando sentir.
— Ah, não comece. — Ela revirou os olhos, tentando fugir do assunto.
Annie, porém, tinha aquela serenidade irritante de quem enxerga além das máscaras.
— Katniss… você está lutando contra um rio. E nenhum rio perde para quem tenta nadar contra ele.
— Pois eu não vou perder! — declarou Katniss, cruzando os braços com firmeza infantil. — Eu me recuso a me apaixonar por ele.
— Não estou dizendo que está apaixonada — corrigiu Annie com gentileza. — Só que… está com medo. E quando se tem medo, é porque algo realmente importa.
Katniss sentiu o estômago revirar.
Porque era verdade.
E ela odiava isso.
— Eu só… não sei se consigo viver essa vida. Ser duquesa… regras… vestidos… os olhares da sociedade… — respirou ela fundo. — Eu tenho medo de sumir dentro de tudo isso. De deixar de ser eu mesma.
Annie segurou suas mãos.
— Todo mundo muda de alguma forma quando cresce, Katniss. Mas você nunca vai deixar de ser quem é. Nem o céu cairia na sua cabeça sem você brigar de volta.
Katniss soltou uma risada breve e cansada.
— Eu preferia lutar contra o céu do que lidar com alfaiates parisienses.
— Ah, isso eu acredito.
O silêncio caiu.
Um silêncio cheio de pensamentos perigosos — especialmente quando a imagem de Peeta surgiu involuntária na mente de Katniss, com seus olhos azuis como o mar e aquele jeito exasperante de sempre aparecer quando ela menos queria… e mais precisava.
Ela sacudiu a cabeça, irritada consigo mesma.
— O que eu vou fazer, Annie?
A ruiva sorriu, com uma calma quase provocadora.
— O que sempre faz: sobreviver.
E, claro… gritar com todo mundo até as coisas se ajeitarem.
Katniss suspirou e, finalmente, sentou-se outra vez, vencida.
— Eu só queria um único momento de paz.
— Então comece respirando — orientou Annie, servindo-lhe um chá quente. — E pare de fugir do que sente. Mesmo que seja raiva, medo… ou algo pior.
— Pior?
— Sim. — Annie piscou. — Amor.
Katniss quase caiu da cadeira.
— Annie!
— O quê? Eu só disse a verdade. E você sabe que morde, mas não mata.
Katniss bufou, mas seus lábios não resistiram a um pequeno sorriso.
Porém, a jovem tomou uma decisão silenciosa — não de rendição, mas de batalha.
Nada mudaria quem ela era. Nada a tornaria fraca. Nada a faria aceitar um destino imposto.
E se o mundo insistisse em colocar Peeta Mellark em seu caminho…
Então ela aprenderia a lutar contra isso também.
Mesmo que, no fundo, algo dentro dela já soubesse que essa seria a guerra mais difícil de todas.
Annie ajeitou algumas ervas secas no topo de uma prateleira e respirou fundo antes de voltar-se para Katniss, que continuava inquieta como uma tempestade prestes a romper.
— Há algo que ainda não te contei — disse a ruiva, cruzando as mãos diante do avental. — Uma velha profecia celta. As mulheres mais velhas do clã sempre a repetiam nas noites de lua cheia.
Katniss ergueu uma sobrancelha, semicerrando os olhos.
— Outra parábola para tentar me fazer aceitar meu destino?
— Não. — Annie sorriu, mas seus olhos estavam brilhando com uma profundidade misteriosa. — É sobre ele.
Katniss sentiu o coração bater no estômago.
— Ele quem?
— O homem de olhos de safira.
A ruiva caminhou até a janela da cabana. A luz filtrava-se entre as folhas e iluminava seus cabelos vermelhos como fogo.
— A profecia diz que toda quarta mulher da família nascida sob a lua de primavera encontrará seu destino no homem de olhos da cor das pedras sagradas. A pedra que representa coragem, esperança… e perdição.
Katniss quase riu — quase.
— Pedras sagradas e destino… Annie, por favor.
— Há mais... — Continuou a ruiva, ignorando o sarcasmo. — O texto diz que essa união é forte demais para ser negada, mas perigosa demais para ser ignorada. Você é… marcada para ele, Katniss.
A jovem rolou os olhos dramaticamente.
— Ah, ótimo. Então agora além de casamento arranjado e um alfaiate intrometido, tenho uma maldita profecia dizendo que o duque é meu destino?
— Não é maldição — corrigiu Annie com doçura. — É aviso.
Katniss bufou.
— Bem, eu adoraria ouvir profecias místicas por horas, mas será que você não tem algo mais forte do que chá?
Annie a encarou com um olhar de advertência.
— Katniss…
— Não sou uma criança — retrucou a morena, já vasculhando as prateleiras da cabana. — Preciso de algo que… silencie minha mente.
Annie tentou impedir, mas Katniss foi mais rápida e encontrou uma pequena garrafa âmbar.
— Isso não — avisou Annie, arrancando o pano que a cobria. — É para uso medicinal! Uma dose minúscula resolve inflamações…
Katniss já havia destampado a garrafa.
— Que cheiro ruim.
— Katniss!
Ela bebeu como se fosse água.
— NÃO! — gritou Annie, tarde demais.
Katniss fez uma careta profunda.
— Nossa… isso… isso é forte.
Annie colocou as duas mãos na cabeça.
— Você acabou de beber algo mais potente do que qualquer bebida no vilarejo inteiro!
— Annie… — Katniss apoiou-se na mesa. — Acho que o chão… se mexeu…
— O chão está parado, você que está balançando!
Mas já era tarde. Katniss desabou na cama de palha com um suspiro pesado e segundos depois começou a roncar levemente.
A ruiva suspirou.
— Maravilha. Vou ter que lidar com isso.
❆❆❆
Mais tarde, por volta da hora do almoço…
Peeta estava irritado — o tipo de irritação silenciosa que deixava a criadagem do castelo inteira apavorada. O duque caminhava de um lado para o outro enquanto Darius observava, aflito.
— Ela saiu no amanhecer? — repetiu Peeta, a voz baixa e tensa.
— Sim, vossa graça — respondeu Gale, tentando não revelar preocupação. — Minha irmã… é assim mesmo.
Peeta estreitou os olhos.
Finnick tentou intervir, com naturalidade exagerada:
— Ela só… foi dar uma volta.
— A cavalo? Sem escolta? — Peeta rebateu, incrédulo. — Depois do que aquele desgraçado do Bligth fez?
Gale e Finnick se encararam por um milésimo de segundo. Estavam perdidos.
Peeta percebeu.
— Onde ela está?
— Hã… — Finnick coçou a nuca. — Não sabemos ao certo.
Peeta o encarou com uma calma tão afiada que parecia uma lâmina.
— Finnick...
O rapaz suspirou, derrotado.
— Ela está na aldeia… com Annie.
Peeta não perdeu um único segundo.
— Sela meu cavalo.
O duque galopou como se o próprio inferno o perseguisse. Finnick, resmungando baixinho, foi atrás dele.
Ao chegarem à aldeia celta, a música suave de flautas e o cheiro de ervas queimadas pareciam não combinar com a urgência no semblante do duque.
Annie estava plantando ervas próximas à cabana quando levantou os olhos.
— Estávamos esperando vocês — disse suavemente.
Finnick sorriu ao vê-la e apertou sua mão discretamente. No entanto, Peeta não teve paciência para cumprimentos.
— Onde está ela?
Annie apenas apontou para dentro da cabana.
Peeta entrou… e parou.
Katniss estava dormindo profundamente, deitada de lado, com os cabelos soltos e completamente bagunçados. A boca levemente aberta, os lençóis embolados em suas pernas.
Uma mecha rebelde caía sobre sua bochecha sardenta.
Peeta sentiu o mundo parar.
Algo dentro de seu peito — algo que ele evitava nomear — finalmente ganhou forma.
Apaixonado.
Ele estava, sem sombra de dúvida… apaixonado por aquela mulher impossível.
Annie tocou o braço de Finnick e com um gesto silencioso o conduziu para fora, deixando-os a sós.
No canto da clareira, a ruiva se aproximou mais do jovem Everdeen, seus dedos roçando os dele.
— Você veio mesmo — sussurrou ela.
Finnick passou a mão pela cintura dela, puxando-a para perto.
— Eu iria até o fim do mundo por você — confessou, encostando a testa na dela. — Quero você… quero tudo com você. Não me importa o que os outros digam.
Annie fechou os olhos, emocionada.
— Mas somos de mundos tão diferentes…
— Então construiremos um só para nós dois — murmurou Finnick antes de beijá-la com paixão contida por semanas.
Dentro da cabana, Katniss começou a despertar.
Primeiro mexeu os dedos. Depois franziu o nariz. Então abriu os olhos… e encontrou um par de safiras profundas a centímetros de seu rosto.
— Ah, não… — resmungou ela. — Será que não posso ter um único momento de paz?
Peeta cruzou os braços, tentando manter a calma. Mas seu alívio era tão grande que quase doía.
— Por que quer deixar todos preocupados?
Ela piscou, confusa, a voz ainda sonolenta e carregada pelo álcool.
— Eu deixei um bilhete para Finnick… hique… — soluçou. — Um bilhete bem explicadinho…
Peeta fechou os olhos, buscando paciência.
— Katniss, você sabe que desde Bligth… eu não durmo direito. Acordo no meio da noite achando que ele vai te levar novamente.
Ela fez uma careta teimosa.
— Não ouse me chamar de indefesa — disse, apontando o dedo na direção dele. Ou tentando, seu dedo estava torto no ar. — Eu… hique… sou mais forte do que pareço.
Peeta se inclinou, tentando manter a compostura diante daquela versão perigosamente adorável dela.
— Apesar de Bligth não ter sido visto desde nosso embate, é perigoso você sair por aí…
— Eu não sou um bebê. — Katniss ergueu o queixo. — E vossa graça não vai ficar me perseguindo sempre que eu quiser ficar sozinha, vai?
A expressão dele suavizou apesar de si mesmo.
O jeito como ela dizia “vossa graça”…
Como seu sotaque arrastava a palavra…
Como a teimosia tingia cada sílaba…
Ele estava perdido.
Apenas perdeu.
— O castelo Edenbrooke é bem grande — respondeu ele, tentando ser racional. — Você terá vários jardins para se esconder sem se colocar em perigo.
Ela riu, sem humor.
— Ah, maravilhoso. Vou viver em uma prisão emproada.
— Não é prisão — afirmou ele, firme. — Você será minha duquesa. E terá minha proteção.
— E quem disse que preciso de proteção? — protestou ela, levantando-se abruptamente.
O mundo girou.
Ela tombou para frente — e Peeta a segurou pelos braços, impedindo-a de desabar. O rosto dos dois ficou perigosamente próximo. Eles podiam sentir a respiração um do outro, quente, irregular.
Por um segundo — apenas um — algo brilhou no olhar dela.
Mas então...
— FIQUE BEM LONGE DE MIM! — vociferou Katniss, empurrando-o e tropeçando para trás.
Peeta respirou fundo.
E pela primeira vez… sorriu.
Porque agora tinha certeza absoluta.
Amava aquela mulher. Completamente. E seria sua ruína — ou sua redenção.
Katniss cambaleou para longe dele, tentando parecer no controle da situação — em vão.
Seu coque já havia se desmontado pela metade e algumas mechas caíam sobre o rosto. Os olhos semicerrados denunciavam a forte bebida que consumira.
Peeta avaliou-a como um general avaliando um campo de batalha.
— Você está completamente embriagada — declarou ele, mostrando um pequeno frasco âmbar. — Annie preparou este tônico. Vai ajudar com a… situação.
Katniss cruzou os braços (ou tentou, seus braços não se encontraram no lugar certo).
— Eu não vou beber nada feito por você.
O tom era de teimosia pura.
— Não fui eu que fiz — corrigiu Peeta pacientemente. — Foi a Annie. E você vai beber.
— Não vou.
— Vai.
— Não vou.
— Vai.
— NÃO VOOOOU! — gritou ela, colocando as mãos na cintura como se desafiasse um urso.
Annie, do lado de fora da cabana, murmurou baixinho para Finnick:
— Ela sempre foi assim?
— Desde que nasceu — respondeu ele, orgulhoso.
Peeta respirou fundo, ergueu o frasco e tentou novamente.
— Katniss… por favor.
Ela apertou os olhos, desconfiada como um gato selvagem.
— Isso aí é veneno.
— Se fosse veneno, você já teria morrido com o que bebeu da minha prateleira — disse Annie, entrando por um segundo com um olhar julgador.
— ANNNIIIEEEE! — Katniss olhou para ela indignada. — Por que você deixa coisas tão fortes assim ao alcance das pessoas?
— Porque ninguém deveria beber direto da garrafa — respondeu a ruiva, travando o sorriso.
Peeta então aproximou o frasco dos lábios dela.
— Abra a boca.
— Vossa Graça, eu não sou uma galinha pra você alimentar! — reclamou.
— Katniss.
A forma como ele disse seu nome — grave, autoritária, suave — fez até Annie piscar.
Katniss bufou teatralmente, abriu um espaço mínimo nos lábios e Peeta despejou meia dose.
Ela engoliu.
E fez uma careta horrorosa.
— Isso tem gosto de cavalo morto!
— É um tônico para ressaca — explicou Annie. — Não é para ser agradável.
Katniss empurrou o frasco de volta para Peeta com uma seriedade desequilibrada:
— Nunca mais faça isso comigo.
Ele sorriu, vitorioso.
Annie serviu uma sopa quente, pão fresco e mel. Finnick sentou-se ao lado dela, com um sorriso bobo que não escondia.
Peeta posicionou-se perto de Katniss, pronto para impedir que ela caísse da cadeira.
Katniss apoiou o rosto nas mãos.
— Vocês estão todos me encarando…
— Estamos preocupados — disse Annie gentilmente.
— Eu estou mais… intrigado — murmurou Peeta.
Katniss virou-se para ele com dificuldade.
— E eu estou enjoada.
Finnick quase engasgou de tanto segurar o riso.
Peeta levantou-se em um salto.
— Vamos levá-la de volta. Ela precisa descansar.
— Eu consigo andar — proclamou Katniss, levantando-se.
A mesa inteira assistiu ela dar um passo para a esquerda, um para a direita… e depois tropeçar na própria sombra.
Peeta segurou-a antes que caísse.
— Não consegue — afirmou ele.
— Nããão me toque… — resmungou ela. — Eu consigo andar em linha reta se… se o chão parar de mexer.
— O chão não está mexendo — disse Annie.
— É uma conspiração.
Peeta suspirou, mas seu coração derretia a cada palavra dela.
Sem pedir permissão, a pegou nos braços.
— Ei! — protestou ela, batendo no peito dele com a força de um filhote de coelho. — Eu sou independente! Coloque-me no chão!
— Se eu colocar, você vai beijar o chão.
— E daí?! — rebateu ela indignada.
Ele sorriu, vencido pela ternura.
— Annie, Finnick… agradeço pelo cuidado. Levarei-a para casa antes que ela decida fugir para outra floresta.
Peeta cavalgava com Katniss no colo, ainda segurando-a como se fosse feita de vidro.
Finnick seguia ao lado, guiando o cavalo dela e tentando não rir alto toda vez que a irmã soluçava um “hique”.
Katniss encostou a testa no peito do duque, murmurando:
— Você fede a emplasto para ferida aberta.
— Obrigado pelo elogio.
— Não foi elogio.
— Imagino.
Quando chegaram à propriedade Everdeen, Gale estava na porta, braços cruzados.
Haymitch apareceu segundos depois, pálido.
— Onde ela estava? Vocês estão tentando me matar do coração?!
Katniss ergueu o dedo.
— Eu deixei um bilhete, papai.
— Um bilhete — repetiu Haymitch, massageando as têmporas. — Um bilhete que dizia apenas: Fui pegar ar. Katniss, minha filha, você vai me matar antes do tempo.
Ele abriu espaço para Peeta entrar com ela nos braços.
— Suba, vossa graça. O quarto dela é o segundo à direita.
Peeta subiu a escada com cuidado, o coração batendo tão forte que parecia querer atravessar o peito.
No quarto, pousou Katniss suavemente na cama.
Quando tentou se afastar…
Ela segurou sua mão.
Peeta congelou.
O toque era suave, quente, quase suplicante.
E isso o destruiu por dentro.
— Katniss… — sussurrou ele.
Os olhos dela estavam semicerrados, embriagados pelo cansaço.
— Jamais quis casar… — murmurou.
As palavras entraram nele como uma flecha.
Mas o rosto dela estava tão sereno, tão inocente naquela confissão bêbada, que foi impossível para Peeta se sentir ferido.
Ele se inclinou.
Com a ponta dos dedos, afastou delicadamente uma mecha rebelde de seu rosto.
Ela suspirou ao toque, um som suave que fez a espinha dele estremecer.
Peeta se aproximou mais…
Beijou sua têmpora com a reverência de um homem que encontrou seu altar.
E se afastou antes que o desejo falasse mais alto.
Saiu do quarto devagar, fechando a porta com um cuidado.
Haymitch estava no pé da escada, braços cruzados.
— Ela te deu trabalho? — perguntou o pai, cansado.
Peeta inspirou fundo.
— Eu enfrentaria mil batalhas… se fosse para tirá-la de perigo.
Haymitch o mediu com os olhos.
— Pois prepare-se, duque. A vida ao lado da minha filha é uma batalha por dia.
Peeta sorriu — um sorriso que dizia que ele não tinha intenção de fugir.
— Eu sei.
E, de certa forma, ele estava preparado para todas.

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