O Duque (Sendo Reescrita)
26 Cosette
Notas iniciais
COSETTE
PARTE 1
A garotinha me olhava com medo. Era a primeira vez que alguém me olhava daquele jeito.
— Me desculpe — pediu novamente, com os olhos marejados. Céus, eu detestava ver crianças chorando.
Levantei-me e fui até ela, vendo-a dar alguns passinhos para trás nervosa.
— Shiii... Tudo bem — murmurei. — Não precisa ter medo. Qual é o seu nome?
Ela olhava para baixo e puxava o cachorro para mais perto.
— Pode me dizer? — pedi.
— Co-Cosette — respondeu num tom surpreendentemente baixo.
Eu sorri.
— É um belo nome, Cosette — falei.
Olhei bem para ela e vi o quanto era magra. A pele era morena e os cabelos cacheados num tom castanho mais escuro que os meus, seus olhos tinham cores distintas, um era como uma esmeralda brilhante e o outro âmbar, como um pedaço de ouro reluzente.
— Está com fome? — perguntei.
Ela mordeu o lábio inferior, olhando-me ainda desconfiada e, por fim, fez que sim com a cabeça.
— Vem comigo — disse eu, estendendo a mão para ela.
Demorou um pouco até que ela a pegasse.
Andávamos pela Bond Street atraindo o olhar de várias pessoas. Eu não me importava, a opinião das pessoas nunca foi algo relevante para mim. Assim que viramos uma esquina, encontrei Draco conversando com Blásio Zabini. Eu não o via há muito tempo...
— Querida — disse Blásio sorrindo. — E quem...?
— Olá Blásio — respondi. — Essa é a Cosette — falei vendo-o olhar para Cosette.
Ele sorriu.
— Ela é linda — disse ele, inclinando-se para passar a mão sobre seus cabelos, mas Cosette escondeu-se atrás de mim assustada.
— Está tudo bem — murmurei para ela.
Ela olhou para mim e vi em seus olhos o medo que ela sentia.
— Draco, poderia comprar algo para Cosette comer? — perguntei.
— Claro — respondeu ele, passando as mãos pelos cabelos. — Vamos Blás.
— Er... Vamos.
Assim que se distanciaram, agachei-me em frente à Cosette.
— O que foi? — perguntei. — Você ficou com medo do Blásio?
Ela apertava as mãozinhas e mordia o lábio nervosa.
— Homens são maus — respondeu temerosa.
Não soube o que lhe dizer. Era apenas uma criança, não queria imaginar no porquê de ela pensar isso.
Logo Draco voltou com uma cesta de maçãs.
— Aqui — disse me entregando.
Os olhinhos brilhantes me encaravam num misto de curiosidade e medo. Com cuidado, aproximei-me, e lhe entrei uma maça recém-comprada por Draco. E, após um curto momento de indecisão, resolveu pegá-la de minha mão. Ela a mordeu com cuidado e logo em seguida sorriu.
— Está gostosa? — perguntou Draco.
Cosette olhou para mim antes de responder. Sorri, encorajando-a.
— Está sim — respondeu baixinho.
Draco sorriu.
— Draco — chamei-o. Ele olhou para mim. — Poderia chamar uma carruagem para mim? Quero ir para casa.
— Mas...?
— Poderia avisar a elas por mim? Não quero voltar à loja agora.
— Claro. Espere apenas um pou...
— Minha carruagem está a poucas quadras daqui — disse Blásio, interrompendo-o. — Posso levá-la se quiser.
— Será ótimo Blás. — Olhei para Cosette, que ainda comia a maçã. — Cosette, quer vir para casa comigo?
Ela me olhou surpresa, tão surpresa quanto Draco e Blásio. E, por fim, fez que sim com a cabeça.
— Mas e o Morris? — perguntou, olhando o cachorro atrás de nós.
— Ele pode vir conosco, não é Blás?
— Mas é claro. — disse ele.
— Então vamos — falei, pegando sua mão.
Draco foi conosco até a carruagem de Blás, que realmente não estava muito longe de onde estávamos.
O caminho de volta pareceu durar menos tempo que a ida. Blásio mantinha-se em silêncio, e, de vez em quando, Cosette fazia alguma pergunta.
— Qual o seu nome? — perguntou com extrema curiosidade, logo após a carruagem começar a andar.
— Hermione — respondi, sorrindo por perceber que não temia mais a mim.
Ela me perguntou sobre como era minha casa e se eu era casada. E claro, perguntou por que eu havia a trazido junto comigo. E eu a respondi sinceramente, dizendo que havia gostado muito dela.
Conforme nos aproximávamos, as enormes árvores davam espaço à imagem da casa de meus pais. Os olhos de Cosette brilhavam.
— É tão lindo — disse ela.
Eu me sentia tão bem a vendo sorrir daquela forma.
Blásio foi embora logo após nos deixar em frente à casa, apesar de meus pedidos para que ele ficasse um pouco mais, com a desculpa de que tinha um compromisso marcado com alguns amigos.
Cosette apertava minha mão com força quando descemos da carruagem. Eu sentia seu nervosismo.
— É tão grande... — murmurou.
— Essa é a casa dos meus pais — falei.
— Você não mora aqui? — perguntou olhando-me curiosa.
— Não. — respondi. — Moro com meu... marido em outro lugar. Você irá gostar de lá — disse eu. — Vamos. Você ainda deve estar com fome, não?
Ela fez que sim com a cabeça, então entramos.
Para minha surpresa, Luna, junto com Julie, estava no hall e logo vieram até mim assim que atravessei a porta. Claro, elas logo pararam ao notar Cosette ao meu lado.
— Quem é essa garotinha? — perguntou Julie, aproximando-se dela.
— Essa é Cosette — falei. — Ela vai morar comigo a partir de hoje.
***
Cosette estava linda.
A pele morena contrastava perfeitamente com o vestido de musseline branco que me pertenceu quando eu era criança.
— Ficou perfeita — disse a ela.
Seus cabelos estavam presos em uma trança perfeita feita por Luna, deixando seu rosto mais amostra e destacando-lhe os olhos.
Ouvi batidas na porta e, em seguida, Luna abriu a porta entrando de cabeça baixa, o que não era comum para ela.
— O almoço está servido — murmurou baixinho.
Olhei por um momento. Alguma coisa está errada.
— O que houve Luna? — perguntei.
Ela brincava com a ponta do avental.
— Luna?
— Seus pais estavam discutindo agora a pouco... — disse ela.
— Discutindo? Mas... Foi por minha causa? — Eu não precisava de uma resposta. É claro que fora por minha causa. — Bem... Vamos Cosette. — Estendi minha mão para ela.
Enquanto descíamos as escadas, eu sentia o quanto ela tremia. Eu não a culpava, admito que também estava um pouco assustada e ansiosa. Entretanto, quanto mais me aproximava da sala de jantar, havia apenas o silêncio. Nenhum sussurro sequer.
Cosette mantinha-se atrás de mim quando Luna abriu as portas para nós. Meus pais e os Malfoys estavam sentados em completo silêncio, mas era notável a qualquer um o clima pesado que pairava sobre eles. Meu pai tinha a face avermelhada, como sempre ficava após uma discussão. Eu não o vira muitas vezes daquela forma... Ele tentava olhar para Cosette, assim como todos ali.
— Sente-se querida — murmurou minha mãe, em uma tentativa de amenizar o clima.
— Venha Cosette — falei, pegando-a pela mão e a colocando a minha frente. — Não precisa ter medo.
Aquele foi o almoço mais silencioso ao qual já estive.
***
— Julie, poderia levar a menina para um passeio? — pediu minha mãe. — Queríamos conversar com Hermione.
— Sim Senhor — respondeu olhando para Cosette. — Vamos pequenina?
Claro que Cosette olhou para mim.
— Pode ir com ela — falei.
Assim que ficamos sozinhos, meu pai me perguntou o porquê de eu ter simplesmente pegado uma criança da rua e a ter levado para casa. Percebi que ele não falara isso de forma preconceituosa, e sim com certa curiosidade. Eu sabia que isso não era normal, e foi isso que lhes disse. Eu sabia que não ficaria bem comigo mesma se simplesmente ignorasse Cosette e a deixasse voltar para rua... Em apenas um segundo eu me apegara a ela.
— E seu marido aceitará uma criança que ele sequer sabe de onde veio? — perguntou meu pai, assim que lhe disse que eu tinha intenções de adotar Cosette legalmente.
— Hermione, minha filha, você tem certeza do que está fazendo? — perguntou minha mãe.
— Sim mamãe — respondi com firmeza. — Cosette viverá comigo a partir de hoje.
Papai suspirou, passando as mãos em meus cabelos.
— Sabe que sempre estaremos aqui caso precise de nós, não é minha filha? — Sua voz era apenas um sussurro.
— Sim, papai. Eu sei.
Olhei para mamãe e vi que ela sorria. Seus olhos estavam marejados, mas o brilho de felicidade era visível ali.
Ambos ainda me fizeram mais algumas perguntas antes que déssemos o assunto por encerrado. E, logo que terminamos, fui atrás de Cosette encontrando-a com Julie na biblioteca. As duas estavam sentadas em frente à lareira com um livro de ilustrações aberto a frente delas. Eu me lembrava daquele livro, quando era criança passava horas vendo-o com Julie exatamente da mesma forma que ela via agora com Cosette. Quem as olhasse, juraria que Julie a conhecia desde que nascera...
Poucos minutos depois de minha chegada, Cosette olhou pela primeira vez em minha direção.
— Hermione! — disse ela sorrindo. Levantara-se e viera correndo até mim, abraçando-me pela cintura. — Você demorou — murmurou, com a voz abafada pelo tecido de meu vestido.
— Mas agora eu estou aqui, não estou? — falei. — E vocês, se divertiram na minha ausência?
— Uma garotinha muito inteligente ela, menina — disse Julie. — Lembra-me muito você quando tinha essa idade... Ah, que belos tempos eram aqueles...
***
— Seis dias depois —
Apesar do pouco tempo, era como se Cosette já fizesse parte da família. Claro, no começo alguns empregados e até mesmo meus pais e os Malfoy’s estranhavam a presença dela, mas logo Cosette conseguiu conquistar a todos, até mesmo ao frio Lucius Malfoy. É verdade que, a princípio, o que a deixara curioso a respeito de Cosette foram seus olhos bicolores. Fora isso que atraíra a todos.
No terceiro dia de Cosette conosco, papai mandou chamar um médico para examiná-la, dizendo que isso poderia ser alguma doença. Essa foi a primeira vez que ele realmente se preocupou com ela. Por fim, felizmente o que Cosette tinha não era uma doença. Ao que parecia, era algo genético. Não entendi muito bem, apenas sabia que não faria mal algum a ela, era apenas algo raro. Papai ficou bem mais aliviado depois de ouvir isso de um médico. Sua aparência, embora ainda fosse um pouco abatida, parecia melhor com o passar dos dias. Ele parecia sorrir mais, até brincar mais...
— Você é uma garotinha linda — ouvi a voz de meu pai vindo do jardim, certo dia, enquanto passeava com minha mãe e a Sra. Malfoy ali por perto. Tinha um tom feliz, que eu não ouvia há muito tempo.
— Ao que parece ela já conquistou o coração de seu pai. — Ouvi minha mãe falar atrás e mim, e nem precisei olhá-la para saber que estava sorrindo.
— Não apenas dele, mas de Lucius também — comentou a Sra. Malfoy.
E eu esperava que ela também pudesse conquistar Severus da mesma forma.
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