Robert Baratheon liderava. Não era esperado dele qualquer outra coisa. Seu carisma até mesmo com os rivais já virara lenda. Seu carisma com seus aliados era causador de uma atração quase magnética. Com as mulheres, sua fama vinha desde antes da rebelião. Sua força era fenomenal, e enquanto lutava, era um animal de proporções limitadas apenas pela sua fúria. Era a personificação do lema da sua família, e se orgulhava disso, mas nada descrevia com exatidão sua presença no campo de batalha. No momento em que ele se portava na frente de seu exército, ele adquiria a forma violenta e incontrolável que virara quase um mito com a difusão rebelde. Do momento onde ele começava a gritar, até o momento onde o seu martelo explodia contra o primeiro rival, até o último rival. Todos se curvavam perante o líder rebelde; todos diriam que ele vivia pela excitação, sendo do sexo, da guerra ou da vitória. Mas só Robert e seus amigos mais próximos podiam refutar essa teoria. Do momento em que o primogênito Baratheon começava a gritar em diante, ele só conseguia pensar em uma coisa. Com sangue nos olhos, nas roupas e nas armas, ele pensava em Lyanna.
Robert via a sua amada como na primeira em que a vira. Uma beleza selvagem e inegável, mas acima de tudo, a beleza que ele procurava. Sua Lyanna, sua prometida, raptada pelo príncipe. Depois do torneio em Harrenhal, ele devia ter percebido que alguma coisa não estava certa, mas ele não podia prever que o príncipe, casado, se poria a raptar sua prometida, a única mulher que ele realmente amara. A sua Lyanna. O Rei Louco assassinara a família de seu melhor amigo, isso valeu o apoio nortenho e das terras fluviais. Mas que os Deuses o perdoassem, Robert apenas sonhava com o momento onde ele retomaria Lyanna nos braços. E com o momento onde faria o inconsequente Targaryen se lamentar por ter, um dia, olhado para a donzela errada.

Rhaegar cavalgava, uma flâmula Targaryen esvoaçando atrás de si. O primeiro bloco do exército Targaryen estava chegando ao encontro dos rebeldes. Os primeiros homens, aqueles soldados mal armados, mal alimentados e cansados estavam quase se degladiando, quando as armadas melhor treinadas e mais organizadas arrancavam. Os arqueiros começavam a disparar, e as tropas reais se davam melhor nesse quesito. Príncipe Rhaegar não conseguia ver o primeiro embate do alto de seu cavalo, nem encontrar o rebelde Baratheon. Ele cavalgava lateralmente, passando pelo meio da infantaria. Um sussurro perguntando "Onde está você?" ecoava em sua mente, sem parar. O sussuro era um mantra repetido à exaustão pelo seu subconsciente. Ele tentava esquecer o Baratheon, se concentrar na guerra na qual entraria em breve. Mas era impossível. Quando a mente se apossa de uma ideia, não há nada que as desuna. Uma ideia pode ser tão repetida que ela se apossa da mente que antes apossara-se dela. E então o Príncipe Dragão se rendeu. Ele devia encontrar o Baratheon para terminar com aquilo o mais rápido possível.

Robert ergueu o seu martelo de guerra. Um grito gutural, saído das profundezas de sua garganta, exclamou "Nossa é a fúria" enquanto abaixava sua arma com força descomunal. A peça de aço tinha quase uma cabeça de volume, e uma haste de um braço e meio. Tinha nove protuberâncias na frente, para um estrago mais eficiente. Era todo feito de aço e tinha um desenho da insígnia Baratheon, um veado, na lateral. Robert não limpava o seu martelo desde o começo da guerra, e não fosse as chuvas e tempestades, seu martelo ainda teria as manchas de suas primeiras batalhas. Ele tinha mais de um martelo, alguns mais leves, alguns mais destrutivos. Aquele era o martelo perfeito, com mais balanço e com uma pancada arrasadora. O martelo definitivo para o combate que poderia terminar a guerra. Até seu cabo tinha uma proteção mais resistente do que a dos outros, o que tornava-o muito pesado, mas ainda possível de ser manejado com uma mão. A destruição causada por ele era bem exemplificada pela sua primeira vítima. O guerreiro leal ao Trono de Ferro mal conseguira levantar a espada antes do golpe, e terminou deitado no chão, com a boca escancarada em horror, metade da cabeça amassada dentro de si própria. Nem o elmo fora capaz de impedir a brutal petulância do martelo. Quando o corpo tocou o chão, parte do elmo desprendeu-se e caiu no chão, parte ficou boiando dentro da cabeça esmagada, que drenava seus fluídos cerebrais e sangue para o chão. O retrato do poderio Baratheon naquelas batalhas.
Robert não desceu do cavalo e penetrou na infantaria Targaryen, fugindo dos lanceiros e procurando os alvos mais fáceis. Uma formação de defesa protegia o líder, com quatro arqueiros e cinco cavaleiros livres armados de lanças. Ainda assim era arriscado, mas tudo que Robert queria era expor sua força. E pelos Deuses, era o que ele melhor fazia.
Sua segunda vítima foi derrubada do cavalo por um cavaleiro com uma lança. O golpe do martelo atingiu-o por trás, assim que ele levantou, espirrando pedaços do seu crânio por uma larga área. Robert jurou que viu os olhos se desprendendo e voando até cair ao chão. Segurou seu escudo pintado com o veado negro em fundo amarelo na frente do corpo, e defendeu a estocada de um lanceiro Tyrell. Um dos cavaleiros que marchavam junto de Robert cortou-o por trás, e pelo menos duas flechas terminaram fincadas no ousado guerreiro. A formação liderada pelo Baratheon causava uma ruptura no exército Targaryen, onde todos tentavam dar meia volta para evitar o grupo rebelde. Enquanto todos gritavam por "Robert", apenas o próprio berrava um nome diferente. Enquanto ele guinava para a esquerda, para clamar novo sangue, seus berros chamavam por "Rhaegar".

O príncipe logo viu a ruptura na sua infantaria e vanguarda. Ele soube que era o homem que ele procurava de imediato. Mas metade de seu exército estava no caminho. Ele teria que abrir o caminho pelos meios que fossem necessários. Rhaegar cavalgou para a sua esquerda, com a espada em punho. Um rebelde acuado jogou-se no chão para fugir do golpe, mas foi pisoteado pelo cavalo real e pelos cinco cavalos seguintes. Outro tentou sua glória desferindo um golpe contra a montaria do príncipe, mas um arqueiro conseguiu impedi-lo. Os exércitos se degladiavam sem muita noção tática. Era uma batalha brutal, com cada homem buscando a maior quantidade de mortes possível. As forças rebeldes tinham mais qualidade, e depois da vitória inicial, estavam em maior número, embora em condições físicas piores. O primeiro contato daquele ato era melhor para os realistas, que penetravam na infantaria rebelde facilmente. Mas assim que a principal força nortenha entrou na batalha, cobrindo principalmente o flanco direito, os trinta mil defensores do reinado de Aerys II foram sendo dizimados e acuados. Logo, Rhaegar ouviu os gritos de Connington e Selmy tentando organizar a defesa, sob ordens e comandos gritados simultaneamente. Mas ele só conseguia correr e dançar com sua espada, derrubando aqueles corajosos o suficiente para encará-lo.

Robert urrava a cada golpe. Ora gritava por Lyanna, ora por Rhaegar, e às vezes encaixava uma sequência de quatro golpes sincronizados com o seu lema familiar "Nossa é a fúria". A única certeza era a de que ele gritava e amassava crânios. Do grupo que o acompanhava, um cavaleiro livre ainda estava vivo, assim como um arqueiro. Um outro cavaleiro tentava acompanhá-los, mas ficava para trás e parecia estar perdendo muito sangue. Outros rebeldes iam chegando, mas todos pereciam. Assistiu enquanto uma flecha pousava no pescoço de um rival que se aproximava, e defendeu os golpes de outro. Desviou de um golpe de espada que passou à sua esquerda, mas conseguiu acertar um contragolpe nas costas do seu atacante, que tombou de seu cavalo pouco depois, a placa em migalhas, incrustada no grande buraco aberto nas costas que ela deveria estar defendendo. Robert sentia que sua defesa estava começando a ficar ineficiente, e começou a marchar de volta por onde veio, para encontrar outro grupo que se dispusesse a marchar pelo exército inimigo com ele.
Quando virou, viu que a guerra avançava em dois frontes: No centro, onde as forças reais avançavam com vigor e pareciam conquistar espaço e no seu flanco esquerdo, onde os homens de Roose Bolton penetravam com força na retaguarda real. O flanco direito estava sendo tomado pelos Tyrell, passando por cima dos restos da derrota Martell, e parecia uma batalha mais igual. Ainda assim, Robert só conseguia pensar em Rhaegar. "Não importa qual exército estiver mais bem armado, mais forte e tiver mais sucesso. Se eu matar Rhaegar, vencemos."
Desistiu de retornar ao seu exército e procurou um lugar mais alto para procurar por seu inimigo. Encontrou uma colina que deveria servir, e convocou os homens que seguiam com ele. Dois cavaleiros e um arqueiro se juntaram ao grupo, ao passo que o cavaleiro ferido já não lutava mais por aquele plano etéreo. Robert não o via, mas via seu cavalo branco manchado de sangue pisoteando os homens caídos e soube de imediato que seu companheiro estava deitado no chão, em algum lugar, morto.
Eram seis homens contra milhares de Targaryen, e Robert sabia que poderia matar milhões antes de se cansar.

Rhaegar encontrou Robert Baratheon subindo uma colina. Levantou a viseira do elmo e gritou. Connington gritou junto, impelindo todo o exército real a fazer um barulho que poderia ser facilmente confundido com a sonoplastia do inferno. Seu cavalo espancava a terra com seus cascos e marchava diretamente sobre Robert. Gritava "Ele é meu! Ele é meu!". Assistiu enquanto Robert dispersava seus seguidores e erguia seu martelo. Ele estava parado, no topo de uma pequena colina, alguns metros acima do nível de Rhaegar. Quando Rhaegar começou a se aproximar, ele gritou e se pôs em marcha.
"Ele é meu!", berrava Rhaegar. "Minha é a fúria", gritara Robert.

Robert podia ver os realistas gritando, por entre estandartes do Vale, da Campina e das Terras da Coroa. As casas das Terras Fluviais leais ao Rei haviam sofrido bastante nas batalhas anteriores, e pouquíssimas compareciam com forças consideráveis, mas seus estandartes também estavam lá. Ele sabia que eles gritavam, ele sabia que os cavalos faziam seus barulhos ao pisar contra o chão, ele sabia que seus rivais e seus partidários gritavam com a mesma intensidade. Ele sabia o que estavam gritando, mas simplesmente não conseguia ouvi-los. Sua cabeça estava pesada e sua visão era turva para qualquer coisa que não fosse o príncipe. Sua consciência bloqueava qualquer elemento externo. Seu sangue fervia e sua boca espumava. Arrancou a parte da frente de seu elmo, ficando face a face com Rhaegar Targaryen, filho de Aerys II, herdeiro do cobiçado Trono de Ferro. Cobiçado por alguém que não era Robert porém, que só via a oportunidade de destruir aquele homem e de tomar sua donzela para si, de novo.
O silêncio em sua mente era ocupado por sua própria fúria, e logo preencheu-o com um berro vindo das suas profundezas. Depois, começou a marchar, qualquer sensatez abandonada.
"Minha é a fúria!" Robert gritara. E fúria era o que o movia. Logo seu cavalo sentiu os terrenos alagados onde pisava. Estava chegando em um vale por onde passava um vau, algo um pouco mais relevante que um córrego, mas que não chegava a ser um rio. O Vau do Tridente. Que depois do embate daqueles dois, estaria cravado com sangue, aço e fogo na história de Westeros.