O Dragão, o Demônio e o Tridente
5 James Baguett
James Baguett não era lorde de um castelo. Não era habilidoso o suficiente para ser um cavaleiro ou jovem e prestativo para ser um escudeiro. Tinha seus 25 anos, cabelos claros desgrenhados e sardas no rosto. Não era um fidalgo, mas também não era um dos milhares de miseráveis que viviam por Westeros. Ele era filho único e não pensava em se casar. Se gerasse filhos para carregarem seu genoma, um favor ele os faria: não os daria a penitência de carregar o sobrenome Baguett. Seus genes poderiam ser perpetuados, mas seu nome era uma vergonha que morria com ele.
Fora desertado pela família quando garoto, enviado para ser escudeiro. Serviu um pouco menos de meio ano em Portonegro, mas voltou para Dorne, para passar três meses em Lançassolar e seis meses em Paloferro. Mas fora pego furtando em ambas as últimas ocasiões, e graças apenas à compreensão de velhos meistres não fora destinado a um castigo sério. Salvo por tão pouco por duas vezes, muitas pessoas desistiriam do perigo, ou continuariam nele por necessidade. Mas existem pessoas que simplesmente nascem com uma inclinação para o errado, para o proibido. E James, ostentando o seu sobrenome Baguett, permaneceu furtando não só porque precisava, mas porque queria encontrar uma coisa na qual ele fosse realmente bom. Ele cometia pequenos furtos, ele se deliciava com as pequenas mentiras. Uma declaração de amor por uma companhia privada e uma aventura vespertina. Uma história qualquer, para construir um personagem do qual ele gostava mais do que de si mesmo. Origens obscuras, aventuras extraordinárias, realizações inacreditáveis. Mentiras, as mais diversas delas, pelo que ele conseguisse tirar dos incautos que nele acreditavam. Uma moeda, um favor, uma gentileza. A experiência. Ele podia até justificar que roubava por necessidade, mas mentia por capricho. E logo ele começou a se envererdar por esse caminho, pelo caminho mais curto para tudo. Começou a fazer da diversão, trabalho. Trabalhou desde cedo para um mercador, viajando de porto em porto. Cada lugar, uma história fantasiosa diferente. E um punhado de ouro ilegal a mais. Com o tempo, sua lábia se aperfeiçoou, e não precisava mais roubar. Clientes, mulheres, qualquer um que lhe cruzasse o caminho. Conseguiu pôr seu chefe em problemas com os guardas de uma pequena fortaleza e fugir com o navio. Virou um mercador conhecido, mas continuava cometendo seus crimes, mesmo que pela pura megalomania de saber que poderia cometê-los. Aos 25, tinha uma pequena fortuna, construída sobre as fundações mais sujas possíveis. Até que a justiça foi feita. Pego, preso e encarcerado, a morte era seu destino certo. E seria, não fosse a guerra. Em uma bela manhã cinza, James recebeu a visita de um septão que ofereceu o perdão dos Deuses ao jovem dornense, desde que ele se dispusesse a lutar pelo Rei Aerys II. Ele respondeu que sabia trabalhar com uma lança. Um mês depois, era parte dos dez mil dorneses na batalha do Tridente. Um dos milhares de massacrados no primeiro momento da batalha. Toda sua esperança de redenção destruída. Todas essas memórias e todas suas decepções e frustrações e até suas esperanças se misturavam naquele momento. Até que ele abriu os olhos. Vestia uma armadura dornense, leve e de alta mobilidade. Sua lança jazia ao seu lado, quebrada ao meio. Sua perna estava dormente e sua cabeça latejava em um ponto sobre a têmpora esquerda. Dois cavalos estavam mortos ao seu lado, apenas o braço de um dornense por debaixo de um deles. Os cavalos, velozes e incansáveis, ruminantes cuja aplicação física não encontrava precedentes por todo o resto do continente, eram fantásticos animais, mas não eram feitos para a guerra do norte. E o mesmo poderia ser dito dos seus guerreiros. Dorne é um lugar ermo e diferente do resto de Westeros. Por seus desertos extensos e longos desfiladeiros, a guerra sempre foi vista de forma diferente pelos estrategistas de lá. Não havia espaço para o embate entre grandes exércitos. Não havia como ter um grande exército em uma região tão pouco populosa, também. Então os dorneses eram treinados diferentemente. O calor era um símbolo de Dorne, e seus guerreiros tiveram que adaptar sua luta ao clima. Sem armaduras pesadas e abafadas, com lanças e armas longas. Era favorecida a mobilidade, a velocidade e a técnica pessoal. Mas no norte, exércitos eram máquinas de varrer pessoas, que avançavam com potência e baseados na ideia de "esmagar, esmagar, esmagar". Aquela armada dornesa, mal motivada, porcamente treinada para as condições que enfrentaria, foi uma presa fácil para os rebeldes. James sacudiu a cabeça e desprendeu a armadura. Ele respirou com força, e se surpreendeu com o fato de que nada parecia estar quebrado. Limpou o rosto, que estava coberto por lama. Passou as mãos pelo corpo, procurando algum ferimento que ele não conseguisse identificar pela razão que fosse. Nada. Excelente, pensou. Virou-se. O cheiro de morte era nauseante. Respirou pela boca e ignorou, não era o lugar mais inóspito onde ele já tinha se encontrado. Tirou o elmo e buscou uma lança que ainda estivesse inteira, rastejando por entre os mortos. O campo de batalha já estava vazio, infestado apenas por cadáveres e moscas. A batalha voltava a se desenvolver, mas longe dali. James encontrou uma peça curiosa, uma lança longa, com uma ponta talhada com cuidado para ser mortal de todas as formas possíveis de se golpear. Só havia visto uma arma daquelas quando fora escudeiro em Lançassolar. Era linda. Tomou-a para si. E então ouviu o trote.
Atrás de si, vinha um cavaleiro do norte. Um cavaleiro armado, com uma espada longa e uma armadura completa, marchando com toda a velocidade que tinha para cima do único homem em pé em milhas de distância. "Maldito batedor", James praguejava, enquanto recuava pateticamente. Postou sua lança em posição de guerra, quase se lembrava de como deveria ser feito. Quando o cavaleiro começou a se aproximar e a levantar sua própria arma, porém, o Baguett usou nada mais do que seus próprios instintos de sobrevivência. "Caçar ou ser caçado. A vida é feita de escolhas e de momentos, onde o somatório de suas possibilidades constituem sua trajetória. Você pode escolher ser o caçador ou você pode aceitar ser a caça. A vida sempre te dá, pelo menos, duas escolhas. Você sempre pode escolher, e você nunca pode escolher ser a caça" As palavras ecoaram como um velho mantra em sua cabeça. E seu sangue ferveu, suas pernas fraquejaram enquanto se arqueavam, seu braço esquerdo pesou, sua cabeça sentiu mais uma vez a dor do golpe que o derrubara de seu cavalo. Mas ainda assim ele fez sua escolha, mesmo contra tudo que o impelia para a morte certa. James escolheu viver. Soltou sua lança e pegou outra, no chão, mais leve. Aquela lança se quebraria com o impacto, de tão leve, mas ainda era o suficiente. De fato, o que ele mais queria era manter-se longe do impacto com o guerreiro. Lançou a lança de arremesso, que se fincou no cavalo do westerosi. Ele perdeu o equilíbrio quando o cavalo pisou em falso e tombou. Cavalo e homem, jogados ao chão. James avançou com nada mais do que a própria fúria em mãos. Chutou o cavaleiro na cabeça, retirou a espada de perto do corpo e agarrou a garganta do homem como um pedinte faminto se agarra a um pão. Como uma criança de colo se agarra à mãe. Como um homem com nada a perder se agarra à sua única oportunidade. Apertou aquela traqueia até ouvir o estalo, e nem quando o ouviu, soltou. Depois de um longo período, soltou o homem e desatou a chorar. Aquele homem teria tantas expectativas quanto ele? Quais sonhos, quais esperanças? Ele tinha filhos, alguém para receber o seu sobrenome? Uma mulher, uma mãe que o fosse. Infinitas possibilidades, e todas assustadoramente reais. O que ele destruíra, enfim? Um inocente? Secou as lágrimas e engoliu a vergonha. Naquele momento, James descobri que o ego da guerra não permite inocentes. Observou o exército real. Da posição dele dava para ver com perfeição os homens que fugiam em debandada. O exército parecia menor e mais acuado do que o rebelde, uma massa de homens furiosos e unidos. Em uma decisão rápida, James despiu o rebelde morto. E sob os guinchos de dor do cavalo abatido, despiu-se também. A armadura tinha uma macha vermelha enorme sobre o peito, o sangue do cavaleiro morto. O elmo possuía um amassado, de quando caíra do cavalo. Mas a armadura estava impecável, na sua função de defesa corporal. Segurou a espada de uma mão do homem na mão direita, e ela se movimentou conforme o esperado. Não conseguira vestir a armadura por completo, mas encaixou-a de forma que conseguisse chegar até o acampamento rebelde. E assim o fez. No acampamento, esforçou-se para reproduzir o melhor sotaque do norte que conhecia, o que era algo que esperaria de um servo de um Dondarrion. Com a história de que era um mercador das Terras da Tempestade que navegava por todo o continente, enganou um jovem escudeiro com sotaque do norte. Nem precisava de uma história bem elaborada, aquele garoto nem devia ser capaz de reconhecer o sotaque de qualquer lugar abaixo das Terras da Coroa. Mas ele fechou a armadura nas costas e refez o trabalho malfeito por James. Depois, arranjou um cavalo negro para James voltar para a batalha. O refugiado Baguett tentou explicar que não era do interesse dele volar para o campo de batalha, mas o garoto só olhou feio pra ele e gritou um nome complicado. Respondeu um homem alto e com uma espada cujo fio parecia cortar a dezenas de passos de distância, que dirigiu um olhar duro a James. E ele estaria de volta à batalha, mais uma vez. O gradalhão se pôs ao seu lado direito, forçando-o a encarar a batalha de frente, mas ele se recusava a encará-la como sua última aventura. Ninguém trocaria de lado no meio de uma batalha como aquela para ser negado a se gabar dessa história depois. Uma coisa que um sacerdote que ele conhecera chamava de Desejo de Deus, ou Destino. Esperava que fosse verdade. Era a única coisa que ele tinha para se agarrar enquanto esporeava sua montaria e avançava contra seus antigos companheiros. Estava receoso em atacar, mas todo movimento suspeito estava em evidência. James sentia o peso da armadura nortenha, estranhava a lentidão do cavalo e embora soubesse usar uma espada, não era um movimento natural. Não queria atacar seus conterrâneos, mas posto que era isso ou sua morte, a escolha não pesava. Mas só quando o primeiro chegou perto dele que ele percebeu algo que, até então, era estranho a ele. Vinha um piqueiro vestido de vermelho e negro. Posicionou seu cavalo como se partisse para uma justa e ajeitou seu escudo no braço esquerdo, defendendo o peito, mas deixando o braço esquerdo à mostra. O homem tentou enfiar o pique nesse espaço descoberto, mas com surpreendente agilidade, James abriu o braço e deixou a lança com ponta de ferro passar por entre seu braço e seu tronco. Guinou o cavalo para a esquerda, apertou o cabo do pique na sua axila e girou o corpo, quebrando a madeira frágil. Tudo isso enquanto girava a espada nas costas do guerreiro realista, com um grito de fúria e alívio. Mas seu golpe não fora o suficiente para partir a armadura, seu cavalo não fora rápido o suficiente e nem seu movimento com o braço. Foi arrancado de seu cavalo negro, caindo no chão juntamente do guerreiro Targaryen. No chão, porém, ele tinha sua espada e a vantagem de não estar completamente atordoado. Apenas deslizou o aço de sua espada por entre o elmo e a placa peitoral do sujeito, fazendo o sangue esguichar e pintando uma careta rubra na face do inimigo. E só assim James percebeu. Era tudo carne e sangue. Viviam diferentemente, mas todos morriam igual. Lembrou-se de um bravoosi que repetia uma mesma frase que traduzia como "Todo homem deve morrer". Talvez fosse verdade. Subiu sobre a montaria do inimigo caído, e voltou-a contra o exército real. Se deu ao luxo de se entregar aos gritos de "Robert! Robert!". Ouviu os gritos se intensificando, e então um longo brado de "Nossa é a fúria." Sempre conhecera o lema Baratheon, mas nunca ele soara tão adequado, tão perfeito. Quando olhou para o lado, um cavaleiro vestido de armadura prateada, usando um elmo cornado e portando um martelo de guerra impressionante, passou. Meia dúzia de homens o seguia, em um avante arriscado contra o exército do Rei. Contra homens como Jon Connington, Rhaegar Targaryen, Sor Barristan Selmy e Sor Jonothor Darry. Os gritos do guerreiro Robert Baratheon inflamavam os outros cavaleiros rebeldes e proscreviam o aparente absurdo do fato de que marchavam para uma morte certa. James pôs seu cavalo roubado em galope, marchando atrás de Robert, o vento em seu rosto e apenas a glória à sua frente. Ele marchou na direção de um lanceiro, e dessa vez usou um golpe ligeiramente diferente. Com a mesma estratégia, travou a lança, mas jogou o cavalo sobre o rival um pouco antes, conseguindo a distância necessária para enfiar a espada no pescoço do rival. A lança não se partiu durante a ação, fora perfeitamente desarmada. Mesmo sem acreditar no golpe que acabara de desferir, James continuou galopando. Mesmo enquanto gargalhava de emoção, ele continuou marchando e gritando com os outros. O enorme cavaleiro que o escoltava tbm estava no grupo, bem à frente e o assistiu enquanto rasgava a garganta de um oponente. James segurou a lança, em posição de ataque. Comparada com as lanças que ele manuseava quando escudeiro em Dorne, aquela era quase primitiva. Sentiu raiva por ter deixado aquela lança comprida e bem trabalhada no chão, em detrimento de uma espada do norte. Guardou a espada na bainha de sua armadura, e se permitiu usar apenas a sua arma de preferência. Avançou sobre o primeiro e acertou uma estocada bem no centro da placa peitoral, derrubando o cavaleiro. Vieram o segundo e o terceiro, os gritos irados e as expressões de ódio. Com a destreza de um homem que vivera toda uma vida apenas para viver aquele momento, desviou o golpe do primeiro com a ponta da lança e bateu no pescoço do outro com a outra ponta. Ambos foram finalizados com flechadas de um arqueiro que corria para alcançá-lo. James e o arqueiro anônimo gritaram o nome de Robert juntos, levados pelo êxtase do momento. O fogo da batalha que consome tudo que não é o instante. E então um ataque Targaryen.
Uma multidão avançara de lado, contra o grupo rebelde, pegando a maioria desprevinidos. James conseguiu ajeitar o cavalo e se defender dos dois primeiros com a lança. Um ataque do segundo, porém, destruiu a arma. Um arqueiro o salvou do terceiro, pouco antes de ser atingido por uma flecha, também, provando do próprio veneno. James puxou sua espada, e teve um pequeno duelo com um cavaleiro Tyrell. Defendeu dois golpes e contra atacou com força, desferindo três golpes pungentes. O som do aço vibrou com a sua moral, e o fez mais forte. Jogou seu cavalo sobre o inimigo, desiquilibrando-o. A espada cruzou-lhe a jugular, em um golpe simples e rápido, o sangue voou em um único jato, antes dele cair do cavalo. Apenas quando marchou sobre o próximo, James viu que o sangue o cobria. O cheiro ferroso do sangue não o enjoava mais, mas o atordoou por um momento. Um momento onde ele se questionou, um momento onde ele teve um lapso de consciência. E uma espada cruzou sua barriga, de trás pra fora. Sentiu sua força vital sendo drenada de si. Pode ver a expressão horrorizada que fez enquanto o seu assassino retirava a espada e partia para o próximo. Sentiu o aço arranhando contra uma costela. Sentiu-se esvaindo, podia ver algo escuro crescendo dentro de si. Agarrou-se ao cavalo, e cuspindo sangue pelo ferimento nas costas, esporeou o cavalo com toda a sua força restante. Pensou em se jogar do cavalo, pensou em usar a espada para terminar o serviço. Mas ao invés disso, ouviu um brado. Um berro furioso e oportuno. Robert gritava por Rhaegar. E, dessa vez, Rhaegar respondia. Todo o exército parou. Alguns duelos continuavam acontecendo, quando guerreiros se encontravam no alcance um dos outros. Mas ninguém mais ousou andar muito. James foi derrubado de seu cavalo branco e sentiu o baque feroz no chão manchado de vermelho. Sentiu algo molhado a seus pés. Arrastou-se para molhar o rosto no pequeno córrego que passava ali. Não era um córrego, aliás. Era um pouco mais largo, como um rio, só que raso. James não sabia que aquilo era chamado um vau, e realmente, não esperava-se que ele soubesse. Mas depois daquele dia, ninguém naquele continente nunca mais cometeria o mesmo erro. Porque James jogou a água lamacenta cheia de sangue sobre o próprio rosto juntamente de um estridente brado de "Minha é a fúria". Ele poderia até morrer ali, mas ele tinha que assistir aquela luta. Agarrou-se em tufos de grama e se alçou para a frente até que sua visão alcançasse o embate dos dois. E deitou na borda do vau, deixou a água corrente refrescá-lo, e se deliciou. O primeiro embate dos dois foi marcado por um golpe feroz e de potência esmagadora de Robert, que passou delicadamente sobre a cabeça de Rhaegar. Ambos deram meia volta e partiram para um golpe ainda mais violento. Dessa vez, Rhaegar também ergueu sua espada e martelo e espada colidiram com um estrondo metálico insuportável e delicioso. No terceiro, um golpe do martelo passou no vão entre eles e o escudo pintado com o veado recebeu um arranhão profundo da espada de aço valiriano que o Último Dragão brandia. No quarto, ambos desistiram do golpe antes de desferi-los. E, em silêncio, desceram de suas montarias. E esse duelo não teve tantos gritos, ou berros estridentes. Mas também não foi feito silenciosamente. James diria, inclusive, como o único que estava perto o suficiente para ouvir, que os golpes mais pungentes não foram os que produziam hematomas. Robert correu na direção do Targaryen, que escondeu-se atrás do escudo e de um sorriso desafiador. Desferiu um de seus mais potentes golpes de martelo, do qual Rhaegar desviou-se com a ajuda do escudo negro. Robert cuspia com ira e girava o machado por onde a sombra negra corria, mas encontrava apenas o estampido metálico. A peça negra de Rhegar já exibia seus arranhões e amassados quando o príncipe começou a encaixar os contragolpes. Sempre usando a força desenfreada do Baratheon a seu favor, ele saía do seu alcance e girava a espada com a mão esquerda, buscando as costas do rival. O som agudo e estridente do aço cortou o ar, paralisando os rebeldes por algumas vezes. A multidão ao redor dele não estava estática, mas a luta era disputada em câmera lenta. Era como se o ar fosse mais denso no resto do campo de batalha do que no vau. Por mais que a batalha tivesse continuado, ela terminou no primeiro encontro de suas figuras principais. Robert o encarou, frente a frente, sem avançar na sua direção, pela primeira vez. Rhaegar abaixou a espada em um movimento graciosamente desafiador. E o Último Dragão falou enquanto o rival tentava controlar a própria cabeça, que latejava. – Você luta com fúria, e eu vejo o porquê. Você é incapaz de raciocinar. Se não fosse sua força, você teria sido destruído na sua primeira batalha. Robert, porém, era inteligente o suficiente para saber que ele não ganharia do príncipe, reconhecido e até caçoado largamente pela sua intelectualidade. Avançou com o martelo de guerra em punho, mas atacou o corpo do príncipe com o escudo, destruindo o contragolpe dele antes mesmo do seu primeiro ataque. E então desferiu o golpe que, se não tivesse Rhaegar abaixado naquele instante, teria mudado toda a história dos Sete Reinos. O mais importante dessa luta não foi o vencedor, foi a forma com que essa vitória foi dada. Rhaegar se afastou e retomou a provocação:– Talvez, se algo além de sede por sangue ecoasse dentro da sua cabeça, ela teria olhado pra você — Ele sorriu, enquanto Robert espumava. — com metade do desejo com o qual ela olhou pra mim. – Você a roubou de mim! Você vai pagar! — E outro golpe seguiu a ameaça. Rhaegar fugiu do golpe e deixou a espada explodindo contra a armadura do antebraço direito do rebelde. Robert continuou marchando contra ele, gritando — Você vai pagar! — e golpeando sem sucesso. Tais golpes eram infrutíferos apenas por mérito do príncipe, que desviava-se e desviava os golpes com o escudo e a espada. Rhaegar viu a oportunidade de encaixar uma finta e um contragolpe e a aproveitou, fincando sua espada no escudo pintado com o veado. Frente a frente, a menos de vinte centímetros um do outro, foi o realista quem falou.– Se eu a roubei, ela permitiu. Ou pelo menos não reclamou. Nenhuma das vezes. — Robert soltou o escudo e desferiu seu punho livre no rosto do príncipe. Ainda cuspiu no rival, antes de empurrá-lo. – Você a roubou de mim e da família dela, de todos que você ainda não matou! — Rhaegar se levantou, soltando seu escudo, também. – Você pode dizer o que quiser para si mesmo. Só há uma verdade, e nela, sua ignorância me diverte. Você realmente acha que eu a roubei? Robert armou um golpe com seu martelo e correu, desferindo-o sobre o rival com mais fúria do que nunca. Rhaegar se defendeu com a espada, segurando-a com as duas mãos; uma no cabo e outra na ponta da lâmina; assim se defendeu pelos golpes seguintes. O último dessa sequência o fez pisar no vau enquanto recuava. Logo mudou a direção do corpo. Sabia que se entrasse em terreno alagado, perderia sua mobilidade e estaria fadado à derrota. Não deixaria isso acontecer. Rhaegar atacou-o, e o martelo defendeu dois golpes que poucos escudos conseguiriam parar. Um terceiro, porém, foi mais rápido, e atingiu a cabeça de Robert com tanta violência que partiu um dos chifres que enfeitava seu elmo. O rebelde tombou e caiu no vau, fazendo uma marola que chegou a James, que ainda se fingia de morto. Naquele momento, porém, não seria exagero dizer que o próprio James esquecera de sua própria existência. Rhaegar ergueu-se sobre o rebelde e tirou o martelo de seu alcance. Lutou com Robert para retirar seu elmo e deixá-lo de rosto desprotegido, enquanto falava, em um tom tão baixo e tão solene que apenas James poderia escutá-lo. Ele falou:– Eu roubei ela de você. Mas eu não o fiz fora do consentimento dela. Você amava aquela mulher. Mas eu exerci meu direito de futuro Rei sobre a mulher que eu quero e ela não contestou. Vale ressaltar: mais de uma vez. — Quando ele finalmente conseguiu, socou o rosto do rebelde com força. Ele não teve forças para cuspir os próprios dentes que flutuavam dentro de sua boca, em meio à sangue e saliva. Mas teve forças para perguntar:– Do que você está falando?– Você acha que eu a raptei porque eu sabia o desperdício que seria deixar uma mulher como ela nas mãos de um como você? Ou que eu não tinha algum uso para tamanha beleza e perfeição? – Você não...– E mais de uma vez. — Rhaegar empurrou o rosto atordoado do rebelde para dentro da água. — Você morrerá antes que eu possa descrevê-la. A flor mais bela dos Sete Reinos. E ela desabrochou para mim. A face de Robert foi submersa. Enquanto a água cobria seus olhos e enchia sua boca, ele erguia a mão em completo desespero. Rhaegar falava baixo, e todo um exército urrava junto. Os rebeldes gritavam de dor, da única e feroz dor da perda. Da instantânea dor que recobria o luto. A água invadia os pulmões de Robert, e logo, ela o encheria por completo. Robert Baratheon estava morto, e pareceu que todo seu exército morreu com ele.
Notas finais
A história é efêmera. Se isso ainda não foi dito, saiba que a história é pouco mais que uma palavra em um livro, que muda conforme a mão que o redige.
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