Jon Connington marchava, sem palavras. O grito ainda estagnado dentro de sua garganta. O vulto gracioso de Rhaegar se erguia sobre o cadáver do Baratheon. A respiração estava condenada a pequenos suspiros involuntários e a falta de oxigenação começava a mostrar seus sinais. Sacudiu a cabeça e inspirou o suficiente para recobrar a totalidade de seus sentidos. Podia ouvir os gritos dos sobreviventes realistas respondendo o silêncio mortuário dos rebeldes. Boa parte do exército rival começava a debandada, mas um vulto seguia o caminho contrário, na direção do Príncipe Dragão e do seu líder morto. Logo o distinguiu como Jon Arryn, lorde do Vale, o homem que criara Robert e Eddard Stark. Este último, provavelmente também estava morto. Connington se compadeceu do patrono Arryn, que nunca tivera filhos, mas criara ambos garotos como se fossem seus próprios, seus protegidos. Não os preparara apenas para aquela batalha, mas para o mundo. Devia ser uma sensação vazia e desesperadora, a de que você falhara na única coisa que exigia ter feito com absoluto sucesso. Mas toda sensação de compreensão extinguiu-se ao olhar o sorriso de Rhaegar, de vitória e sucesso, mas de loucura também. Talvez alguns homens não devessem experimentar tantas vitórias, nem tamanho sucesso. Viu a face ensandecida de Aerys Targaryen refletida ali, e teve medo do que se seguiria.
Jon Connington viu um homem boiando no vau, sem armadura. O cabelo molhado grudado no rosto e uma expressão de penúria na face. As sardas e o colete de tecido laranja revelavam sua procedência, e Connington o assistiu levantando-se. Havia muito sangue ao seu redor, mas ele estava se sentando. "Pelo menos um dornês lutou com honra, hoje" pensou Jon. Ele passou pelo dornense com a expressão ainda altiva e logo alcançou Rhaegar, um pouco antes de lord Arryn. Desceu do cavalo e embainhou a espada, enquanto caminhava até o ponto do vau onde Rhaegar estava, em pé, com as duas pernas em volta do corpo flutuante e inanimado de Robert Baratheon. Connington o encarou, ainda incrédulo, mas Rhaegar gargalhou enquanto gritava:
– Sim! Eu o destrui! Eu o destrui, Jon! — As gargalhadas perpetuavam-se pelas colinas e pelas planíces que cercavam o vau. Jon Arryn chegou, desmontou e correu até seu antigo protegido. Apesar da idade, Arryn era um homem de ombros largos e plena forma física, e conseguiu chegar até o corpo de seu antigo protegido com rapidez. Rhaegar saiu de cima do rebelde, chutando-o em um último ato de desrespeito. Ele pegou o martelo de guerra de Robert, levantando-o em um último ato de glória. Arryn arrastava o corpo do líder para a margem com a ajuda da pouca resistência da água. Assim que o fez, jogou-se sobre ele e desatou a chorar. Connington e Rhaegar ficaram parados, observando a lamúria de Jon Arryn. O choro foi tão alto que o estampido de um exército vencedor extinguiu-se. Apenas o choro cortava o ar naquele início de noite. O vento frio descia as colinas e deslizava sobre as planíces, trazendo a escuridão da noite e as nuvens cinzentas para cobrir o turquesa que reinara no céu enquanto a esperança ainda era uma realidade.
Rhaegar soltou a sua espada da bainha, mas continuou carregando o martelo enquanto caminhava de volta até a margem onde o último Arryn de sua linhagem velava seu maior legado. Ao chegar perto o suficiente, tocou o peito do guerreiro rebelde com a ponta de sua espada, arranhando levemente a placa peitoral com o aço valiriano.
– Levante-se. — Falou entre dentes. Nenhum dos Jon fazia ideia do que ele queria.
Jon Arryn levantou-se, deixou que Rhaegar o guiasse com a ponta da sua espada. Foram até um espaço aberto e alto, de onde quase todos os homens conseguissem vê-lo, e de onde todos o ouviriam. Rhaegar ditou no ouvido de Jon Arryn o que ele devia falar, e o homem repetiu exatamente o que ouvia, para todo seu exército ouvir também.
– Robert Baratheon está morto. A batalha está terminada. Entregue seus líderes e ninguém mais deve morrer hoje. — Arryn engoliu em seco antes de repetir a lista de nomes com a voz rouca e chorosa. — Hoster Tully. Walder Frey. Roose Bolton. Lyn Corbray and father. — Um último nome ele se recusou a pronunciar, mas acabou gritando em sequência — Eddard Stark.
Rhaegar gritou, em algum lugar entre a diversão pelos méritos da própria vitória e a expectativa de destruir qualquer restícios da rebelião que pudessem ainda existir:
– Venham, e venham rápido! Eu tenho um pronunciamento a fazer! Não contrariem o dragão!
Jon Connington aproximou-se, com a própria espada na mão, sem saber o que fazer ou como agir. Mas Rhaegar olhou para ele, e seu riso colérico era tão encantador quanto assustador. Mas ele já servia a um Rei duas vezes mais insano e dez vezes mais incapaz. Qualquer coisa que pudesse advir de Rhaegar ainda era mais do que Aerys poderia oferecer.
Três cavalos eram vistos, ao longe. Um vinha do flanco direito, com um homem esfolado em um estandarte. Outro vinha acompanhado de um jovem escudeiro a pé, e parecia bem abatido. O terceiro não precisava de um estandarte para ser identificado como Hoster Tully. Assim que chegaram, o escudeiro pôs-se a recitar:
– Lord Corbray estava seriamente ferido e seu filho, Lyn, morrera durante a batalha.
Rhaegar olhou feio para o garoto, mas seguiu para o próximo lorde.
– Sou lord Hoster Tully, senhor de Correrrio, Vossa Alteza
– Onde está Walder Frey, rebelde? — Perguntou Jon Connington.
– Não juntou seus homens a nossas forças, senhor Mão. — Mesmo naquela situação, Hoster não perdia sua altivez e seus modos polidos.
– Inteligente, esse Frey. E você? — Perguntou ironicamente ao Bolton.
– Roose. Bolton. De Forte do Pavor. — Falou entre dentes, de sobrancelhas cerradas.
– Desmontem, todos vocês.
– Mas senhor, lord Corbray está ferido... — Começou o escudeiro.
– SEU REI MANDOU DESMONTAR! — Gritou com todo o folego que tinha, enquanto marchava furiosamente sobre o garoto, que caiu de joelhos, chorando. — E é melhor que minha vontade seja feita! — Ele continuou gritando e abaixou para chegar ainda mais próximo do garoto, jogando seu elmo enegrecido com fúria no chão, próximo ao garoto. Enquanto ajeitava seus longos cabelos prateados e retomava a posição altiva, viu o garoto chorar e molhar suas calças, antes de correr de volta para a multidão, chorando. O sibilo de uma flecha calou o choro do garoto, que tombou em meio a cavaleiros e homens até 40 anos mais velhos e alguns até recobertos de títulos e honrarias. Depois daquela flecha, era apenas mais um punhado de carne inanimada, sacrificada pelo capricho de dois loucos.
Corbray caiu de sua montaria, e com a ajuda de Hoster Tully, ficou em pé.
– E Eddard Stark?
– Morto. — As palavras saíram secas da boca de Hoster, seu sogro.
– Bom. Melhor assim. Vocês me são suficientes. Agora virem de frente para seu exército.
Jon Connington ainda estava trêmulo com a ideia de Rhaegar se proclamando Rei, ali, no campo de batalha. Por um momento, não soube o que se passava na cabeça de seu melhor amigo, e temeu. Não por ele, nem pelo Príncipe, mas pelos Sete Reinos.
– Essa é uma proclamação oficial! — Começou Rhaegar, ambos espada e martelo nas mãos. — Robert está morto e eu declaro essa batalha terminada. E em poucos dias, também serei proclamado Rei. Tomarei o trono de meu pai, utilizando-me das glórias nessa batalha, onde eu poderei reinar longe das pessoas que me impediam de realizar meus sonhos. Eu e Lyanna, juntos. Ajoelhem-se perante o seu novo Rei e assistam à destituição de seus lordes. — Com passadas largas e energéticas, largou a espada dentro de sua bainha. Armou o martelo, o martelo de seu rival e ordenou:
– Corbray! Ajoelhe-se! — O velho lorde o fez, e foi atingido com uma única pancada, nas costas de sua cabeça. Alheio aos protestos, Rhaegar seguiu em frente: — Hoster! Ajoelhe-se!
– Os Deuses o perseguirão por isso, jovem. Os velhos e os novos. — E o som molhado e ecoante ressoou, enquanto o corpo do grande senhor das Terras Fluviais tombava, seus fluídos e conteúdo craniano vazaram para o chão, pelo buraco causado pela pancada do martelo.
– Bolton. Ajoelhe-se.
– Não. Nós não nos ajoelhamos. — Roose encarou o príncipe, que tinha os olhos violeta em chamas. Uma poderosa pancada explodiu contra o joelho do lorde, que caiu, de quatro, no chão. Rhaegar ergueu o martelo sobre sua própria cabeça antes de descê-lo sobre a nuca do Bolton, deixando apenas uma fina poeira de sangue no ar.
Assim que Rhaegar terminou, todo o exército rebelde começou, de imediato, uma profunda reverência. Mas nem aquilo era o suficiente para Rhaegar. Ele teve que soltar o martelo e erguer sua própria espada, rebatizando-a no ato, com um nome que ficaria marcado para sempre na história de Westeros.
– Ajoelhem-se perante seu Rei! Ajoelhem-se perante a Fúria do Dragão!
Fale com o autor