Lord Hoster, da casa Tully, admirava os cavaleiros que brandiram seus

estandartes na primeira fase da batalha. Muitos homens tiravam suas armaduras,

em urros longuíssimos que retratavam uma última instância de vida. Acompanhantes

de acampamento corriam os campos, com unções e frascos na mão, exalando um

cheiro natural de sabedoria antiga. Ah, as nortenhas. Ele as conhecia bem. Ainda era

um homem vigoroso, ainda se portava junto dos mais novos em batalha. Ainda

recebia sua cota de ofertas. Uma noite acompanhado, no calor de uma batalha,

sempre é uma oferta agradável. Quase compreendia os dois jovens que lideravam

tal exército. O vistoso e vigoroso Robert Baratheon, líder dos rebeldes, e seu amigo,

quase irmão, Eddard Stark.

Podia vê-los marchando em frente aos homens que avançariam no

momento seguinte da batalha, o encontro das maiores forças rebeldes com o

remanescente das forças reais. Lord Hoster tinha acabado de motivar e organizar

seus comandados para formar a retaguarda do ataque, e agora observava Robert,

brandindo seu magnífico martelo de guerra, enquanto gesticulava e berrava para

seus comandados. Seus comandados, homens do Vale, das Terras da Tempestade

e do Norte. Lord Eddard cavalgava ao lado dele, complacente, nem um décimo tão

enérgico quanto. Mas era um homem honrado e bondoso. Seus olhos eram frios e

não era tão belo ou forte quanto seu irmão Brandon, mas ainda assim seria um bom

lorde, se sobrevivesse. Esperava que fosse, dito que estava casado à sua filha mais

velha, Catelyn. Lord Hoster seguiu-o com os olhos, em busca de alguma atitude que

pudesse confirmar suas boas impressões. Sua mente foi divagando lentamente até

parar em um ponto ainda mais atrás na história deles, onde havia prometido sua filha

ao irmão mais velho de Lord Eddard, Brandon Stark. Mas uma fatalidade destruiu os

planos das duas famílias, até que o jovem Ned fosse oferecido para desposá-la no

lugar do irmão. O Rei Louco. Mas não era hora de pensar nele.

E então as primeiras trombetas soaram. O chamado furioso para a

batalha. Dois exércitos em euforia começavam a marchar, um contra o outro. O som

dos trotes e das caminhadas dos cavalos eram substituídos por sons mais vorazes,

mais perpetuados por gritos. Logo, os sons do exército inimigo começavam a lutas

com os seus. O primeiro ato de todo embate era o duelo feroz entre a sonoplastia da

iminência da morte protagonizado pelas duas armadas sem medo. As vanguardas

aceleravam suas montarias e mostravam suas lanças e espadas. Os arqueiros

desinibiam-se e começavam a disparar, também. Bandeiras Tully eram içadas. A

vanguarda Baratheon, os flancos nortenhos, todos levavam seus estandartes para a

batalha, seja em bandeiras ou em flâmulas amarradas na armadura. Os cavaleiros

mais renomados tinham o símbolo de sua casa na place de peito, mas eram poucos.

As forças de cerca de quarenta mil homens empunhavam suas bandeiras, mas

gritavam por Robert.

Lord Tully esporeou seu cavalo, e seus comandados seguiram atrás, sob

gritos de "Tully", "Terras Fluviais" e "Robert". Um tímido ruído por "Baratheon" cessou

antes de se confirmar. Os céus, longos e pintados de um azul turquesa brilhante, com

sombras cinzentas e escorregadias se formando ao longe. O sol ardia sem

complacência.

Lord Hoster sentia um desconforto na região lombar, onde um golpe havia

acertado-o durante a Batalha dos Sinos. A mão do Rei, Lord Jon Connington, havia

acertado-o durante um duelo, penetrando a espada pela lateral da placa de peito,

mas Lord Hoster se defendeu com vigor e rebateu as investidas seguintes do

enérgico guerreiro. Sabia que, talvez, não tivesse aguentado mais algumas séries

de golpes bem desferidos. Definitivamente não conseguiria encaixar um ataque

firme, e Connington era habilidoso o suficiente para controlar uma luta como aquela,

cercando e acuando o patrono Tully com sua força desenfreada aliada a uma técnica

apurada. A salvação viera com Robert, que convocou-o com fúria para um duelo

violento nas escadas do septo. Tamanha a ferocidade dos ataques do jovem

Baratheon rebelde, Connington quase foi assassinado ali mesmo, não houvesse

fugido. Tal desconforto o deixava mais lento, e tinha feito o lorde optar pela

retaguarda. Deixou parte de seu exército ultrapassá-lo, a placa roçando a ferida com

aspereza. Mas não deixaria de brandir sua espada, nem de cantar junto de seus

homens. Não poderia mostrar fraqueza. Não poderia mostrar fragilidade.

Homens lutavam, e não reclamavam. Esperava que Eddard Stark

sobrevivesse, mas que ele fizesse por merecer. A sua honra e a honra do jovem

rebelde eram a honra de sua filha. Não poderia mostrar fraqueza, nem ele nem o

Stark. Não saberia o que fazer se alguma mácula caísse sobre sua filha.

E com pensamentos absortos cruzando sua mente dispersa, o primeiro

contato entre os exércitos aconteceu. As planíces verdes se tornaram vermelhas e

sangraram o sangue de seus cavaleiros.