O Dragão, o Demônio e o Tridente

3 Jon Connington, A Mão do Rei


Lord Jon Connington esporeou seu cavalo, junto ao mensageiro que vinha na direção contrária ao restante do exército. Homens de armas esguias e armaduras brilhantes estavam cobertos por sangue seco. As forças realistas tinham dois problemas: a força rebelde, cada vez mais poderosa, à sua frente; e os próprios realistas acuados. A primeira derrota fora impactante para alguns soldados menos convictos, que batiam em retirada. Fenômeno parecido acontecia com os sobreviventes do exército Martell dizimado, onde menos de um quarto voltava para compor as outras forças Targaryen ou Tyrell. A maioria era vista com o sangue cobrindo a armadura, o tronco do corpo jogado sobre os velozes cavalos dornenses, em desesperada e desordenada retirada. Poucos demonstravam lealdade a qualquer coisa acima deles próprios.

Mas Connington não era um desses, embora corresse na mesma direção que muitos. Escortaria o mensageiro até o príncipe e rapidamente fugiram do miolo do exército real, e marcharam em alta velocidade até a tenda do príncipe. A tenda tinha paredes de tecido vermelho e detalhes negros, e uma porta guardada por dois cavaleiros. "Eles poderiam estar sendo de bom uso na batalha", pensou. A situação dos guerreiros realistas não era boa a ponto de abidicar de dois cavaleiros, mas ninguém ousaria contrariar uma ordem do Príncipe Dragão. Jon Conningon entrou na tenda, levando o mensageiro junto de si. Rhaegar estava lá dentro, deve-se dizer que ele estava maravilhoso. Um jovem escudeiro ajudava-o a vestir sua armadura, mas parecia estar tendo um trabalho para acertá-la. O Último Dragão estava sem a cota de malha, com uma flâmula Targaryen jogada sobre o ombro.

Jon mordeu os lábios rapidamente. Sua voz sumiu e se reencontrou quando o príncipe jogou seus cabelos prateados para o lado e olhou para ele. Connington franziu as sobrancelhas e encarou os olhos violeta incrustados pelo cansaço. Mas ainda assim não conseguiu falar. Sua voz esvaiu-se ao tentar atravessar a garganta, e seu estômago embargou. O príncipe, de educados modos e aparência gentil, demonstrou uma certa surpresa ao vê-lo, mas sorriu enquanto perguntava:

– O que você está fazendo aqui? — Olhou para o escudeiro, um jovem com cerca de 13 anos, nervoso e atrapalhado. — Estou me vestindo.

– Quer uma ajuda, vossa graça? — Jon se viu perguntando, automaticamente.

– Eu ainda não posso ser chamado de "vossa graça", Jon. Mas acho que eu devia desistir da sua compreensão nesse quesito, não é? Vá, prepare minha armadura. Tygon, deixe o homem. Vá vestir-se e prepare-se para me acompanhar. Vais conhecer uma batalha de verdade, hoje. — O jovem apressou-se a sair da tenda, o mesmo sorriso honrado e nervoso.

Jon pegou a armadura de rubis. Toda sua pressa esvaíra-se como fumaça, tentar recobrá-lo de suas funções seria como tentar capturar essa fumaça com as mãos. Ele tinha seus movimentos limitados, mas ainda assim conseguiu preparar a armadura mais famosa dos Sete Reinos. Deixou o dedo correr graciosamente por um dos rubis. O dragão cuidadosamente grafado no aço parecia rugir sob o toque. Um dragão de três cabeças. Sentiu um arrepio vulgar percorrendo-lhe os intestinos. O príncipe vestiu a cota de malha, e se preparou para receber a armadura. Olhou de relance para o mensageiro, sem comentários. Quando Jon colocou a bela peça de aço sobre o corpo delgado e musculoso do sucessor do Trono de Ferro, ele sentiu outro arrepio, esse mais forte e mais demorado. Deixou sua mão escorrer pelo braço do príncipe, antes de pegar os protetores para os braços e as ombreiras. O jovem já tinha voltado, e atabalhoava-se com as peças para as pernas.

Mas isso não importunava Rhaegar. Rhaegar, das composições tristes, dos livros e da harpa. Rhaegar, da armadura valiosa e dos golpes precisos e habilidosos. Do Rhaegar melancólico ao intempestuoso, Connington não tinha dúvidas de que ele seria um rei milhares de vezes melhor que seu pai. O Rei Louco, como já era chamado Aerys II. Se alguma coisa pudesse acalmar os rebeldes e conquistar o povo depois de um reinado tenebroso, era o carisma do jovem príncipe. Depois de atos inconsequentes como o assassinato dos Stark, o Rei merecia o momento de instabilidade em que vivia. O reino se consumia em insatisfação, e a fagulha da rebelião já era uma labareda crescente, já se tornava um incêndio. Mas o fogo não podia matar um dragão, como o próprio príncipe sempre repetia. Toda essa metáfora da chama era de autoria dele, inclusive. Connington se limitava a ouvir.

– O que ele está fazendo aqui, Connington? — Seu sobrenome havia sido proferido com tanta frieza que Jon demorou para assimilar o comando ao seu amigo. Mas assim que sentiu as duas pedras duras e frias cor-de-violeta encarando-o, apressou-se a responder.

– É um batedor. Ele traz uma mensagem para vossa realeza. Ele diz que Robert Baratheon o convoca para a batalha. Diz que Robert prometeu esmagar todos que entrarem na sua frente até encontrá-lo. Ouviu o próprio Robert berrando isso para seu exército.

– Achas que devo ir? — Jon congelou, a respiração funda mexendo nas longas madeixas prateadas do príncipe.

– Como assim?

– A rebelião pode ser resolvida assim que eu sair dessa tenda. Você acha que devo fazê-lo? Eu posso voltar do duelo, eu posso não voltar. — O jovem sorriu, como se brincasse com um absurdo improvável, não com uma possibilidade real. Era palpável que o fazia para provocar seu amigo e antigo escudeiro. Seu medo era, se existente, escondido com todas as suas forças.

– Você teria que prometer que voltaria pra mim. — Jon tentou brincar, mas sentiu sua frase pesando no ambiente.

– Você acha que eu não o faria? — O príncipe deixou sua mão correr pelo rosto do amigo, que fechou os olhos. Uma bola de fogo consumia todo pensamento que corria por sua cabeça. Era como se milhares de formigas em chamas percorressem seu corpo. Era como se um meteoro estivesse implodindo dentro de si. E de todas as formas de descrever a sensação que lhe tomou com hirsuta voracidade, nenhuma não passava pelo calor de seu toque, o toque de um verdadeiro dragão. O último.

– Você deveria destrui-lo o quanto antes. Aquele rebelde morrerá com fogo nos olhos.

– Eu o destruiria? — O príncipe quase murmurou. Ele segurou o elmo de aço enegrecido nas mãos e acariciou as asas negras que saiam do aço, da parte que ficaria sobre as orelhas. Era uma peça mais ornamental do que de proteção. Para Jon Connington, era linda.

– Você o destruiria.

– Eu o destruiria?

Um mumúrio nervoso trouxe Connington de volta à realidade, e suas palavras pesaram dessa vez como não pesaram antes.

– Você o destruiria.

Rhaegar vestiu o elmo sozinho e saiu da tenda. Sua espada era carregada pelo escudeiro, mas foi Connington que entregou-a para o herdeiro Targaryen, quando ele subiu no cavalo.

– Eu o destruirei.

Notas finais
Se você veio aqui pela batalha e pela ação, não se vá tão rápido. No próximo update, a batalha em seu máximo esplendor, narrados por personagens que a história nunca esquecerá e por personagens que a história fez o favor de nunca reconhecer.