"Um momento de fraquejo. Um golpe mal defendido, um ataque que eu deixei penetrar. Eu poderia ter sido o campeão, mas eu deixei com que o Príncipe me derrubasse. Se eu tivesse derrubado-o, o que aconteceria de diferente? Um homem mais inteligente poderia dizer que a história sempre se corrige, que se mudássemos alguma coisa em um passado distante, pouco seria alterado no presente. Mas essas são só palavras que eu decorei, pronunciadas por um septão cujo nome nunca me fora revelado. Enquanto buscava forças nos Sete, minha aptidão às artes intelectuais foram testadas e falharam. Eu sempre fui um guerreiro, um homem prático, ferrenho ao momento. Mas há momentos onde, simplesmente, eu não poderia ser negado a imaginar o que poderia acontecer."

Sor Barristan Selmy envergava sua armadura de escamas brancas esmaltadas da Guarda Real e seu escudo do mesmo branco. Sua espada longa vinha pendurada no cinto de couro branco e tilintando contra uma fivela da correia de seu cavalo, mas ele vinha com a mão no seu cabo. Ele cavalgava com alguns de seus irmãos juramentados, mas a Guarda Real havia recebido ordens de se dividir logo no começo da batalha. Da sua posição, pode assistir a derrota do flanco esquerdo. Vira enquanto Lewyn Martell se feria, enquanto o exército de dez mil dorneses não era capaz de resistir à investida rebelde. Sor Barristan retirou sua espada do cinto, segurando-a com seu braço fatigado; o sangue seco incrustado nas arestas da lâmina com o cabo e ainda escorrendo e pingando da ponta do aço. Ele assistira enquanto Sor Lyn Corbray liderava o ataque que desmontaria a armada dornense, galgando seu caminho com movimentos ágeis e habilidosos de espada. Assistira enquanto o príncipe Martell era derrubado de seu cavalo por Sor Lyn, embebido em seu próprio sangue. Talvez se ele não tivesse com a cabeça na sua sobrinha durante todo o duelo final, ele tivesse sobrevivido, pensou Sor Barristan, no calor do momento. Elia Martell era mantida como uma refém do Rei Louco, para lembrar o comandante dornense de seus deveres. Mas se chegou a pensá-lo, sabia que pela mesma linha de pensamento, ele era o culpado pela morte do seu irmão juramentado, assim como pela morte de todos, desde o começo da rebelião. Quão fundo um pensamento poderia machucar?

Ele se lembrava de como Elia Martell estava bela, naquele dia. As paredes de Harrenhal, em blocos de pedra em escala gigantesca, cresciam sobre o solo preparado para o torneio. As torres, gigantescas, tortas e arruinadas pelo tempo e pela fúria esfumaçante de dragões, convergiam como se estivessem destinadas a cair, embora obras daquela magnitude também aparentassem nunca serem demovidas de sua grandeza. Um pensamento parecido era dirigido ao príncipe Rhaegar, em sua armadura famigeradamente incrustada por rubis. Embora Rhaegar já tivesse sido derrubado pelo próprio sor Barristan, o cavaleiro da Guarda Real curvou-se diante a visão do príncipe, belo e poderoso, antes dos dois serem postos frente à frente. Antes do duelo, Sor Barristan fantasiara com a ideia de vencer. Ao vencedor, seria dado o privilégio de nomear uma das donzelas presentes como a Rainha do Amor e da Beleza, e o velho cavaleiro da Guarda Real, casto por juramento, sonhava com tal prêmio para honrar a donzela que havia o deixado apaixonado, a senhora Ashara Dayne, irmã do seu irmão juramentado Sor Arthur Dayne, a Espada da Manhã.

Mas a história fora cruel, Barristan fora derrubado, e a incumbência de nomear sua esposa com o cobiçado título foi dada a ele. Barristan sonhara, em devaneios lúcidos, que se ele tivesse tido a chance de nomeá-la, ela teria olhado para ele, e não para Brandon Stark. Mas ao Príncipe Rhaegar foi dado o privilégio. Selmy lembrava-se de como Elia estava radiante com o título que em breve ela poderia usar. Mas Rhaegar Targaryen se voltou à beleza selvagem de Lyanna Stark, pálida e de cabelos negros contornando o rosto longo, a presenteando não só com o título como com uma coroa de rosas azuis de inverno, suas preferidas. A partir daí, a história dos Sete Reinos seguiria um caminho sem volta e entraria em um ponto onde a inevitabilidade de uma guerra era estampada em cada olhar, em cada ação.

E ali estavam, no campo da inevitabilidade, com o som de homens morrendo permeando a planíce verde. Sor Barristan Selmy avançava, brandindo o aço como uma extensão de seu corpo. Decepava o que cruzasse o seu caminho, banhava-se em sangue. E enquanto cavalgava, martirizava-se com a ideia de que, se ele não tivera sido o causador, ele poderia ao menos ter evitado tudo isso.

Nenhum martírio adocicava o som do aço rasgandoa carne humana.