Quando Eddard Stark chegou na Fortaleza Vermelha, algo estranho cobria o ar. O movimento do lado de fora da cidade estava silencioso, embora ele tivesse saído da Estrada Real e entrado por um caminho mais escondido. Todo o propósito dessa rota alternativa que Jon lhe ensinara era fugir dos olhos dos plebeus, mas nada devia escondê-lo de seus sons. Ao chegar na passagem secreta que o levaria pra dentro da fortaleza, ele começou a ouvir os sons da cidade, e aquilo o aterrorizou. A cidade tinha uma sonoplastia parecida com a do campo de batalha; gritos lamuriosos cobriam o ar, junto do som de cavaleiros marchando.

Quando Ned cruzou a portinhola secreta, e conseguiu sair dos esgotos da cidade, livre de sua montaria e armadura, ele olhou para o céu, e viu que a batalha que deveria ter terminado a guerra parecia muito bem ter criado outra. Pilhas de fumaça saíam das casas de pau a pique de Porto Real, as ruas cheias de pessoas correndo desesperadas. Armaduras de bronze carregavam espadas e punhais. Ned observou vinte segundos daquela selva até abaixar-se, os olhos arregalados e a boca escancarada. Atordoado, atravessou um pátio vazio e um corredor enfeitado com armaduras históricas da dinastia Targaryen. Ned caminhava rápido e com a cabeça baixa, com os ecos da batalha ainda voltando em seu peito. Seu melhor amigo morrera nas mãos do príncipe. Só os Deuses sabem o que foi feito do homem que o criara como seu próprio filho e que o enviara nessa missão e de seu sogro. Provavelmente também estavam mortos. Seu irmão e seu pai, assassinados pelo Rei Louco, Aerys Targaryen. Ele era um homem abandonado, deixado para sofrer o martírio de viver enquanto todos que ele amara e defendera estavam mortos, assassinados. Quase todos, aliás. Se havia uma razão para ele estar vivo, era Lyanna. Lord Jon Arryn enviara Eddard para Porto Real para que ele salvasse sua irmã e depois fugisse com ela. Para o Norte ou para o outro lado do Mar Estreito, pouco importava. Talvez usasse a ajuda de seu irmão Benjen e se escondesse no extremo Norte. Para isso, Eddard tinha apenas um nome, uma pessoa pela qual apelar. Embora não muito conhecido por aquelas terras, mas que já abria as portas mais inesperadas da Capital. Gravado em sua memória como se a ferro e fogo, o nome era Petyr Baelish.

Eddard tinha uma adaga à mão, a espada escondida nas costas e vestia-se com os trapos que tinha em baixo da armadura. Estava vestido de forma simplória o suficiente para ser impedido de circular pela fortaleza, mas ainda tinha o emblema Stark que o impediria de circular por entre a plebe. Teoricamente, ele não tinha como circular por qualquer área da capital, mas havia algo no ar que deixava bem claro que aquele dia escapava à toda lógica teórica.

Ao entrar nos corredores extensos mais próximos ao salão central da Fortaleza Vermelha, um nobre passou correndo por ele. Mal se deu ao trabalho de virar seu rosto vermelho para o estranho, e virou à direita, adentrando um dos pátios floridos da ala leste. Ned prosseguiu com mais calma, pensando mais devagar, dessa vez. Os raios do sol matinal invadiam a galeria com um brilho puído, por entre os feixes de fumaça. Ele se lembrava de Robert preguejando que Lyanna vinha sendo escondida nos aposentos de um dos amigos de Rhaegar. O nome, e o nome presente nos xingamentos de Robert, era Jon Connington. Eddard tomou o caminho que levava à Torre da Mão, com os passos trêmulos e a consciência fervendo. Subiu todos os degraus sem nenhuma resistência, e apesar da vontade de desistir no meio da ação, ele continuou até o quarto vazio. Chutou as paredes em cólera e virou a mobília em fúria. O calculista, paciente e calmo Ned Stark explodia em frustação e desespero, mobilizado pela própria incompetência de salvar seus entes queridos. Seus próximos passos atropelavam-se uns aos outros, em um turbilhão inconsciente, e ele caiu de joelhos, apertando um travesseiro de plumas a seu alcance, até que o mesmo se rasgasse. Até que ouviu um grito, um apelo diferente. E o som de um corpo flácido em queda livre se explodindo contra o chão. Ned se levantou, e só então percebeu que chorava. Já havia chorado bastante durante a cavalgada à noite, mas ele entendia que um sentimento que exige lágrimas em resposta não se extingue da noite pro dia. Vestiu-se com uma roupa de Connington e desceu, a espada já na mão, a lendária Gelo, o sangue pulsando e pronto para ebulição.

Ao chegar na Sala do Trono, escondeu a arma. Entrou na Sala, porém, de boca escancarada e toda descrição abandonada. Seus olhos vermelhos simplesmente não aceitavam a cena que presenciava. Em vez de um cenário onde Rhaegar aparecesse às suas costas, com todo seu exército exigindo sua cabeça, ou onde encontrasse o Rei Louco sedento para completar uma vitória pessoal e enterrar os três lordes de Winterfell consecutivos, fora entregue àquilo.

Guardas Lannister guardavam o trono, em vez de membros da Guarda Real. O Rei não estava sentado no trono, tampouco. Aerys Targaryen estava retorcido, com sangue saindo de sua orelha, nariz e de um corte no alto de sua cabeça. Uma ferida maior ainda pulsava o sangue, vermelho, do meio de suas costas. Metade de suas pernas ainda estavam sobre o princípio da escadaria do trono.

O trono — peça essa que causava fascínio absoluto e imediato, uma monstruosidade de milhares de espadas retorcidas, derretidas uma contra a outra, uma enorme obra de pontas retorcidas e afiadas, com degraus de ferro frio íngremes e tortuosos, uma peça que, se não era bela, compensava em autoridade — estava sendo ocupado por um ocupante menos ilustre. Um garoto de cabelos loiros e uma armadura branca da Guarda Real, com olhos perdidos e uma boca entreaberta. Sor Jaime Lannister também tinha uma espada no colo, uma espada suja de sangue Real. Assim que viu Eddard Stark, ele se levantou, impedindo os seus guardas de avançarem sobre o invasor. Ao invés de dar uma ordem, ele olhou para baixo, para o corpo de Aerys, para o sangue que manchava os degraus pelos quais o Rei caíra antes de chegar ao chão. E com um olhar marejado pela súplica e voz temerosa, exclamou:

– Você sabe onde meu pai está?

– Lyanna. Onde está minha irmã?

– Eu... Eu... Eu não sei, ela não está aqui... — Balbuciou o jovem. O rosto belo e os olhos receosos e assustados se contradiziam em sua beleza e intempestividade. Sor Jaime, o cavaleiro mais jovem a entrar na Guarda Real, designado para proteção pessoal do Rei. E a partir daquele dia, um reigicida. Eddard o estudou com um olhar fixo. Era uma criança, apesar de todos os seus feitos. Não devia ter nem 20 anos, mas seus olhos eram a inocência que se esvaía para sempre. Eddard, por um momento, poderia ter se compadecido. Mas uma voz cruzou o salão inesperadamente, tirando ambos os homens de suas divagações.

– Eddard Stark. Você deveria estar morto.

– Pai? — Exclamou Jaime.

Ned virou-se, para encarar o lorde Lannister de frente. Uma capa de fios de ouro caía sobre sua armadura rubra com um leão dourado grafado no meio da placa peitoral. A figura era alta e imponente, apesar da avançada idade e do corpo delgado, com cabelos e suíças douradas cobrindo o rosto e olhos verdes ferozes. Atrás dele um cavaleiro que não devia ter mais de dezessete anos, mas que passava facilmente dos dois metros de altura e parecia pesar o dobro de Ned, de massa quase estritamente muscular. Três cãos negros enfeitavam sua placa peitoral, uma casa que Eddard não reconhecera.

– Eu vim pela minha irmã, senhor. — A mão flertou com o cabo da Gelo, mas com o animal atrás de Tywin brandindo uma espada de dois metros com uma única mão, teria sido uma ameaça fútil.

– Lyanna Stark. Ela não está mais aqui. Ela foi levada, sob ordens do Príncipe, para a Torre da Alegria.

– Por quê?

– Para que ela sobrevivesse ao dia de hoje, supostamente.

– O que está acontecendo, Lorde Tywin?

– A destituição de um Rei que nunca deveria ter reinado. Um favor aos Reinos.

– O Rei está morto — Murmurou Eddard.

– O Rei está morto — Confirmou Tywin. — E a Rainha. E seus filhos. — Eddard olhou assustado para o patrono Lannister, e viu o cavaleiro atrás dele sorrindo. — E você será mantido prisioneiro, até que Rhaegar volte, e ele decidirá o que fazer com você.

Ned começou a compreender. Robert sempre acreditara no amor de Lyanna, mas as suspeitas mais sombrias de Ned começavam a fazer sentido. Rhaegar ordenara aquele massacre em Porto Real. Seu pai, sua mulher e seus filhos. Tudo para que ele pudesse reinar ao lado de Lyanna. Os dias calados de Lyanna que antecederam a captura. Ela andava diferente desde que recebera aquela maldita coroa em Harrenhal, ele devia ter compreendido.

Tywin marchou na direção de Eddard, e movido apenas pelo desespero o jovem Stark falou:

– Rhaegar ordenou tudo isso, não é? Ele arquitetou a morte de quase toda a realeza atual, para que ele reinstaurasse sua própria dinastia, aos seus moldes.

– Um Dragão quer o que ele quer. — Respondeu secamente Tywin Lannister.

– Mesmo se isso envolve genocídio? Era para ele ser melhor que seu pai, não começar o seu reinado da mesma forma que Aerys viveu o dele.

– Um Dragão quer o que ele quer — Limitou-se a responder.

– Não. Ele não terá minha irmã.

– Perfeito — As palvras eram desprovidas de qualquer emoção.

– Como assim?

– Perfeito. Você o deseja, vá buscá-la. Leve-a para bem longe e nunca volte.

– Você me deixaria fazê-lo? Sem... nada?

– Suponho que é mais simples do que eu tinha em mente. Mandar Lyanna para Dorne, um dia antes de tropas nortenhas assassinarem a mais distinta filha de Dorne, Elia Martell? Como você acha que o irmão dela, Príncipe Oberyn, reagiria? Nós estamos enviando sua irmã à morte certa. Se você quiser salvá-la, tem minha permissão para tentar fazê-lo, mas só se a levasse para longe e nunca mais voltasse.

– Você planejou matar minha irmã? — Ned gritou. Mesmo um jovem furioso não deveria agir com tanta falta de tato. Para sua sorte, Tywin Lannister achou graça.

– Eu tenho uma filha. Uma beldade. Cersei, seu nome. E o cargo de Rainha é repleto de inúmeros privilégios. Mas se você quiser buscar sua irmã, vá logo. O tempo é curto, a viagem é longa e as tropas da Víbora Vermelha ouvirão em breve sobre como um soldado rebelde estuprou e matou sua irmã e seus sobrinhos. Parta sozinho, só não tente fazer nada estúpido. Eu te desacreditaria e te degolaria, sem o menor esforço. Eu comando esses Reinos, agora.

Eddard abaixou a cabeça quando passou pelo lorde Protetor do Leste, e evitou o contato visual com o mesmo. Talvez não conseguisse chegar lá a tempo, mas tinha que tentar. A armadilha montada por Tywin poderia ser usada contra o próprio Ned, do modo que entrar naquelas terras seria um perigo para ele também. Lembrou-se do nome, Petyr Baelish. Poderia encontrar um barco, e fazer a viagem bem mais rápida. Decidiu-se por procurar o prostíbulo onde deveria encontrar Petyr. Mas antes de sair da sala do trono, uma voz o gritou. Era a voz de Jaime Lannister.

Eddard Stark ouvira seu sobrenome diversas vezes, sendo carregado por vários significados. Como se usá-lo fosse uma honra e como se fosse um fardo. Como se fosse um peso nas suas costas e como se fosse uma força motivadora. Com carinho, com aspereza, com servidão, com luxúria, com afeição. Na batalha, ouvira seu nome como um cântico. Mas ali, ouvia seu nome como uma sentença.

Assim que sentiu o aço rasgando sua carne pelas costas, Ned gritou. Não por causa da dor que o consumia, pelo menos não pela dor física. Mas por saber que estava se juntando de seu amado pai, Rickard Stark; de seu irmão, Brandon Stark; e de seu melhor amigo, Robert Baratheon. Como que em um arrepio, soube que também conheceram o mesmo destino seu sogro e seu tutor, lordes Hoster Tully e Jon Arryn. E um terceiro vulto, ainda indeciso, ainda indefinido. Sentiu, como um vento gelado em seus ossos, que Lyanna encontraria sua morte em Dorne e viria para ocupar a forma daquele terceiro vulto. Tal percepção doeu mais em sua alma que sua própria morte.