Seu Reinado estava sendo de paz. Pelo menos considerando-se como os Reinos estavam em completos frangalhos quando assumira o cargo. Tirando o problema com os Greyjoy das Ilhas de Ferro, nove anos antes, ele não tivera maiores problemas para administrar a paz. A Coroa estava afogada em dívidas, mas as aparências de fartura continuavam. Ele aprendera que o poder advinha mais das aparências do que do próprio fato, e não poderia fazer com que seu reinado parecesse fraco.

Treze anos atrás, a batalha tivera o final por ele calculado, mas os dias que se seguiram foram imprevisíveis. Ao chegar em Porto Real, manteve seu amigo como Mão do Rei, e até reconhecia seus esforços em controlar os seus destemperos e excentricidades: Connington fora uma ajuda por muitos anos, mas nunca pode ser a solução que Rhaegar procurava. A solução, a única solução, o único atídoto possível para tudo que o angustiava. E quem mais a seria, senão ela?

Lyanna fora assassinada assim que cruzou as fronteiras de Dorne. A fúria que tomou conta de Rhaegar quase o fez marchar sozinho contra Dorne, mas Connington e Tywin o acalmaram e o aconselharam. Nem Aegon e seus dragões conseguiram tomar Dorne, falaram. Não entrar em outra guerra imediatamente fora um conselho sábio, mas só o conselho não seria suficiente. Sorte que Rhaegar tinha Connington, seu melhor amigo, o homem que melhor o entendia nos Sete Reinos, e foi apenas quando anunciada seca e cortante pela voz dele que a verdade se tornou clara. Tywin Lannister negociou a paz com Doran Martell, e o acordo terminou com a exclusão política de Dorne dos Sete Reinos, agora chamado apenas de "Os Reinos".

Rhaegar lidou com a frustação de sua forma peculiar. Reclusão e isolamento, longas jornadas em Solarestival, pouca exposição pública. Embora ausente na cotidiano da plebe, as mentiras e o saque de Porto Real brilhantemente creditado a guerreiros liderados por Eddard Stark o manteve com o apoio público, mesmo enauseando-se sempre que via o rosto apodrecido de Eddard em sua muralha.

Seu casamento era um fracasso, em todos os aspectos possíveis, menos no aparente. A vontade e a influência de Tywin Lannister prevaleceu, e ele desposou Cersei Lannister no mesmo ano. Na noite de núpcias, entrou nela com desinteresse e sem proferir uma palavra sequer, apenas cumprindo com seu dever. Nunca conseguira imaginar um começo de casamento pior. Tinham dois filhos, Rhaerys, de nove anos, e Myrcella, de quatro. Incontáveis abortos depois, dois filhos. Pouco importava se nenhum tinha seu cabelo prateado ou seus olhos violetas, também pouco se importava para os boatos.

No norte, Robb Stark, filho de Ned e sobrinho de Lyanna, recebeu o perdão do Rei pela participação de sua família na rebelião. O fez, para descontentamento de Tywin, pensando em Lyanna e em como ela o odiaria se Winterfell fosse governada por alguém que não um verdadeiro Stark. E ele se mostrava um bom garoto, seus aliados esperavam dele uma administração justa. Assim que completasse 13 anos, obviamente. Por enquanto, as terras eram administradas por um Baelish, casado à Catelyn Tully no ano anterior. Situação curiosa era a de Petyr, que de Mestre da Moeda, ascendeu a um casamento com Lady Lysa Tully, e com a morte de Edmure e da própria, tornou-se o único herdeiro de Correrrio. Dois ou três anos depois, estava casado com Catelyn, assumindo o controle das Terras Fluviais e do Norte ao mesmo tempo. Um homem curioso, de fato. Mas penas os Deuses sabem o quanto houve de sorte em seu caminho, ouvia Varys sussurrar.

Sor Barristan Selmy sobrevivera à batalha e fora promovido à condição de Senhor Comandante da Guarda Real, depois da morte de Sor Arthur Dayne, assassinado em um duelo com Oberyn, antes que Lyanna fosse capturada.

Aos Connington, foi dado o posto de grande suserana das Terras da Tempestade, depois que os Baratheon restantes fossem devidamente caçados e executados ou foragidos para o continente de Essos. Aos Tarly, o Ninho, no Vale.

Ao Rei, ao grande senhor de seis reinos e a principal figura de Westeros, foi dado o miserável martírio de viver. E com a sua participação determinante destruindo a Rebelião de Robert, idolatrado pelo povo. Incapaz de abandonar sua espada depois da cena memorável no vau do Tridente, ele passara a mantê-la sempre perto, um espinho sempre a morder-lhe a consciência, sempre a intranquilizar seu sono. A Fúria do Dragão, que assistiu seu dono murchar por dentro e perder toda a Fúria que um dia teve. Se um dia fora um Dragão, e fez milhares se ajoelharem e jurarem lealdade, ele não mostrava resquícios. Um homem taciturno, desinteressado, desapaixonado. Um morto que caminhava pelos Seis Reinos, que governava com o pesar de quem caminha para a sua execução, de quem tem, em cada passo, sua condenação.

Mas ele ainda era um homem sábio, um Rei sábio. Dono de uma mente devota das artes do intelecto e de uma linha filosófica interessante. Com o mesmo silêncio com que carregava seu martírio, abraçava-se à ideia de que a história seria a mesma, tivesse ele perdido ou vencido a batalha do Tridente. Que alguns nomes poderiam ser alterados, mas que a história sempre dá um jeito de se corrigir e de se reescrever com palavras diferentes, mas sempre resultando no mesmo final.

Ainda assim, mesmo com toda a certeza que provinha de sua filosofia, ele não podia se deixar negar a sua própria imaginação. Rhaegar se dava ao direito de sonhar com um desfecho alternativo que não envolvesse sua derrota nem a morte de sua amada. E todo dia, ele pensava nela.

E todo dia ele via o seu rosto à noite. E todo dia ele ouvia sua voz, à noite.

E todo maldito dia, pelo resto de sua vida, ele a amou, como se ela estivesse ao seu lado.

Pois ele sempre sentia sua presença. Sempre. E a saudade, alívio da dor.

À noite, às vezes, podia-se ouvir o choro do Último Dragão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.