O Dragão Negro

5 Capítulo 4


Estava andando descalço pelas matas, de cidade em cidade, torcendo para que não o reconhecessem. Furtou uma camisa numa loja qualquer com a promessa para si mesmo de pagar algum dia e deixou um bilhete de desculpas. Não gostava da ideia, mas era necessário para sobreviver um pouco por ali. Pegou também uma jaqueta de moletom velha com um capuz que poderia cobrir o rosto e um par de sapatos numa troca por um punhado de peixe. Pescar alguma coisa foi fácil para Gransys. Estendia uma mão e peixes começavam a boiar.

Fazia frio nesses dias e era como qualquer dia do verão em Yedraan: chuva e frio nas áreas úmidas. Nesse reino poderia ver um clima tropical em várias partes, mas nas províncias do Norte era um clima totalmente fora do normal e fora de lógica, afinal, era situado no centro do reino Yedraan, que se estende do topo da América Central ao sul da América.

A respeito da geopolítica do mundo as seguintes informações são boas para serem lembradas para informações futuras sobre ações que ocorrem em toda parte. Diversos atentados políticos ocorreram até que se formaram reinos inteiros da maneira como são encontrados hoje.

A Ásia inteira é o Reino Akashio, que significa "a maré vermelha" para representar todo o sangue derramado na guerra ao conquistar todo aquele imenso território, fardo que eles teriam que carregar pela eternidade. Os que não são residentes do continente o chamam assim especialmente pela proeza de tomar a Rússia. Foi um ato que deixou os EUA sem dormir por muito tempo e um pesadelo para Hitler e Napoleão.

A Europa foi tomada pelo clero da Igreja católica com seu pequeno exército de dez mil homens. Apenas se defendiam dos ataques dos terroristas que atacavam tentando demolir o que foi construído por anos e anos na civilização ocidental, mas agora Roma se tornou facilmente um império, salvando milhões de pessoas. Quando falam em "pequeno exército" não iria imaginar que seria o menor e melhor exército do mundo. Recrutaram novos soldados para defenderem as fronteiras na guerra, mas no fim acabaram se juntando à Aliança para acabarem com o terrorismo e mais algumas ameaças. Eles formam agora o Divina Regnum.

A África está em um império, mas pelo visto ela melhorou muito em relação às chuvas, porém piorou em questão social. O imperador da África, Molag Yashor, ainda faz escravos para seus próprios fins de tráfico e isso, unido à ditadura, faz com que o reino esteja em constante guerra civil.

A Oceania ajudou muito durante a guerra liderando as expedições contra piratas, navios de escravos e trocas humanas e de armas terroristas, mas ainda não é bem um reino. Foi, relativamente, pacífica na guerra, fornecendo ajuda aos feridos quando vinham.

Atualmente cinco reinos dominam o mundo pós-guerra. Em certas partes, aparentemente, estão em paz; e apenas aparentemente. Mas, voltando à realidade atual...

Henry andou sem rumo, se encharcando com a chuva que, ao menos, lhe refrescava. Pessoas o olhavam de canto como se ele fosse mau, e ele odiava a sensação de estar sendo o centro das atenções. Era desconfortável, fosse positivo ou negativo.

Ao menos não era um reino em que havia alguma sanguessuga assassina, como as criaturas mamíferas que habitavam o recém-descoberto arquipélago de Oyearol, pois com essas criaturas voadoras com asas de morcegos e corpos de raposas, lobos ou quaisquer mamíferos matariam Henry na primeira noite. Os únicos perigos eram os humanos, mais cruéis que os animais por natureza.

Entre os dias, Henry passou por duas cidades em que parecia que iriam expulsá-lo por olharem-no com caras desconfiadas. Nunca o viram antes ou ali; poderiam pensar que ele fosse algum delinquente prestes a assaltá-los ou remanescente terrorista. Passou rápido pela cidade para não causar confusão com os moradores.

Logo após meia hora encontrou uma estrada esquecida que saía da cidade onde veículos de entrega ou pessoais passavam. Eram muito poucos saindo daquela cidadezinha e iam para a cidade grande por aquele caminho; portanto, o centro da rua podia ser uma pista de caminhada.

A estrada pavimentada e escura seguia para uma divisão onde ele escolheu virar à esquerda, pois pela direita haveria obviamente a cidade grande. As placas apontavam isso e os prédios vistos de longe ressaltavam a informação.

Mais alguns quilômetros andados e, finalmente, chegou ao meio do nada, em um lugar chamado Nada, com muitos nadas para se fazer, exceto, por um casarão. Única construção visível. Henry respirou fundo antes de poder analisá-la. Olhou em volta, não queria ser confundido com um ladrão ou invasor de propriedades.

Uma casa feita com tijolos, muito bem feita, pintada de um marrom avermelhado. Podia ver uma torre estendendo-se a quinze metros acima da mansão na qual estava colada e uma janela aberta com uma luneta apontada para o céu, que em breve estaria estrelado.

— Alguém mora aqui? Ou morreu aqui? Eu não deixaria a janela aberta com tempo de chuva. — Pensou alto consigo mesmo sem vergonha nenhuma. Estava sozinho.

Henry olhou em volta para ver se havia alguém ali. Caminhou duas vezes ao redor da casa observando as janelas, as paredes, o mato descuidado, o rio limpo. Viu uma estrada a quarenta metros dali, onde apenas dois ou três veículos passavam, e poderia usá-la para ir mais rápido à cidade grande e, até mesmo, usar a casa como base para pesquisar sobre os dragões brancos, já que estava certo de acabar com eles. Enchia-se de esperança ao pensar nos sonhos utópicos. A barriga ainda doía, é claro. Esperança não mata fome.

Após terminar de olhar em volta, foi pela trilha de pedras até a porta principal. Entrou na casa, vendo que não era tudo aquilo que viu pelo lado de fora. Poeira se acumulava pelos cantos, teias de aranha estavam construídas pelas paredes, de forma que poderia encontrar algum ser baixinho e furtivo levando um anel a uma terra misteriosa e perigosa. Uma estatueta de certo "ser baixinho" estava, ironicamente, embalada na teia. Uma TV caída, porém ainda inteira, um sofá preto infestado pelas criaturas, uma pequena mesa à frente e uma lareira. Se alguém morava ali, por que deixaria tudo naquele estado? Se fosse morar ali, precisaria limpar a casa; mas como limparia? A vassoura estava empoeirada e o aspirador sem utilidades. O único jeito cansativo seria pegar a água do rio com um balde mas, de qualquer forma, até de madrugada teria uma sala limpa.

— Droga... — Resmungou desanimado. — Será que os animais me ajudariam? Ou me matariam? Não sei assobiar... E não sou uma princesa...

Ele estava certo que nunca chegaria a qualquer lugar desse jeito. Henry reuniu toda a coragem, determinação e restos de forças que a falta de alimentação havia proporcionado e seguiu com o objetivo.

Pegou alguns baldes imundos, objetos de limpeza sujos e os lavou bem lavados no rio sentindo o peso no peito de ter que sujar aquela água. Encontrou produtos de limpeza variados dentro de um cômodo da casa e logo começou o trabalho com a limpeza de panos sujos para ficarem perfeitos para se encontrarem com os cômodos.

As horas foram passando, com algumas falhas de sensação de fraqueza e quedas acidentais de intervalos longos de minutos em minutos sem energia, mas com os poderes que tinha, metade dos cômodos foi inteiramente limpado de madrugada.

Entrou no quarto limpo, totalmente satisfeito por seu trabalho ali, com dor de cabeça e no corpo e saltou na cama de colchão recente. Estranhou ser macia, pois se acostumou com as camas de pedra ou as ruas frias, e quase não sentia mais dores no corpo por dormir de mau jeito. Sentia como se fosse afundar ali. Era perfeita!

Acordou sem precisar de ninguém lhe espancando, depois de uma noite com diversos pesadelos sobre sua vida anterior e vários saltos da cama, chamuscando as pontas do lençol com extrema ansiedade. Por vezes, acordava apenas para chorar no travesseiro, pois sentia estar num mundo onde ninguém que conhecia ou amava poderia estar vivo, e voltava a dormir de tão cansado que estava, apesar da dor não deixar e acordar ainda mais vezes para escutar os sons de passos pela casa e, sem forças, não conseguir se levantar. Quando foi de manhã, sentiu-se melhor. Era um novo dia, o sol estava brilhando, seus sentimentos ruins ficaram num canto bem fundo do peito, mas ainda existiam.

Na cozinha armários estavam cheios da única coisa que seu corpo ansiava e suplicava: comida boa. Por algum milagre incrível estava tudo perfeito. O coração de Henry quase pulou para fora. Várias daquelas coisas que não lembrava estavam ali. Pegou todos os pacotes e começou a comer tudo o que encontrava pela frente. Abria caixas, metia a mão dentro delas e a tirava cheia de cereal, se encontrando com vontade com sua boca.

As primeiras comidas a entrarem em sua boca o obrigaram a largar tudo e correr para o banheiro para vomitar mas, ainda assim, retornou para comer de tudo um pouco.

Na geladeira as latas de chantilly o esperavam. Misturou diversas coisas e engoliu de vez.

Estava sendo o melhor dia da vida de Henry, mas tinha mais uma coisa que podia acontecer para melhorar. Não tinha visto a torre ainda.

A torre tinha uma aparência misteriosa e um pouco sombria, mas nada que fosse tirar o seu sono. A passagem para ela estava em uma sala, numa porta feita de madeira escura; e ao passar o objeto rangendo, observou uma escadaria circular ao topo. Suspendeu e retomou a respiração.

— Nossa! — Exclamou pasmo ao olhar para cima, onde via uma porta que dava para a área superior.

Sua curiosidade parecia falar mais alto que seu senso de perigo e, praticamente, não pensou: "algo esquisito pode aparecer lá de cima e me atacar", porém, a ideia foi logo dita como ridícula.

Tocou com a mão esquerda o frio corrimão de metal que subia em espiral junto à escadaria de pedras polidas cheias de musgo, com o cuidado necessário para não escorregar e ser vítima de um acidente fatal. Algumas plantas e flores começavam a crescer nas rachaduras úmidas como se fosse um habitat natural.

Ao chegar ao topo viu tudo o que a torre tinha para mostrar: uma biblioteca com estantes e milhares de livros, uma enorme mesa de madeira com desenhos entalhados nos lados, parecidos com símbolos mitológicos com heróis enfrentando dragões e o que pareciam ser humanos no meio das criaturas do lado oposto dos homens. Dois lobos estavam nas laterais da mesa, um para cada lado, com perfeitos detalhes em seus rostos, com dentes à mostra como se rosnassem e olhos fitos nas duas paredes opostas. Eram como gárgulas.

A cadeira era mais parecida com um trono antigo, como se fosse uma edição de colecionador de um fã de fantasia medieval, com couro escuro e um dragão que erguia seu pescoço, colocando a cabeça meio metro acima do assento e as asas acolchoadas, cobrindo os lados dos braços da cadeira. Seus olhos de rubi encaravam Henry de modo que poderia ver o seu reflexo neles. Uma verdadeira arte.

A parte superior da mesa estava com um aparelho que emitia um globo azul por holograma, que parecia ser o mapa do mundo ultratecnológico, que Henry duvidava que alguém veria em uma escola normal. Vários papéis com desenhos de estrelas, suas posições no céu e textos sobre elas. Havia textos falando sobre o mistério do aparecimento de novas estrelas, o que era para ser impossível, mas como Henry poderia dizer algo se não via o céu noturno há anos? De qualquer forma, aquele estudo todo o encantou de várias maneiras. Todas aquelas coisas na biblioteca da casa lhe causava admiração.

Sentou-se na cadeira com empolgação vendo-se envolto pelas asas escamosas da criatura. Não era a cadeira mais confortável, mas era muito bonita.

Viu do outro lado da sala um relógio digital e uma luneta apontando para o céu com outros desenhos de constelações em volta espalhados no chão.

Levantou-se indo ver os livros que estavam ali naquelas estantes e, em seguida, muitos dos que viu não se mostravam comuns em seus temas. Causavam a sensação de que estava em área de ficção científica.

— O Mundo de Dragões, Guerra dos Dragões, Antes da Pré-história. Parecem títulos interessantes de... Fantasia? — Henry pegou um dos livros em que na capa estava desenhado um círculo dentro de outro círculo com um ponto dentro e entre os dois círculos havia runas antigas escritas. — O sol... Ou centro de todo o conhecimento. Princípio das magias.

Enquanto seus olhos focavam o livro sentiu uma coisa incomum no local. O ar estava ficando mais gelado e ele nada fez além de se sentir assustado. Soltou um suspiro forte e viu seu próprio hálito formar uma névoa.

— Não são livros de fantasia, garoto. — Falou um homem encapuzado, fechando a porta atrás de si.

Henry ficou calado e paralisado, sentindo um frio arrepiante percorrendo sua espinha e largou o livro, soltando um estrondo ao atingir o chão.

O homem olhou para o livro caído com dor e voltou-se para Henry tentando não sentir raiva do rapaz.

— O que faz aqui, garoto? — perguntou se aproximando para se ajoelhar e pegar o livro caído. Henry se afastou. Pensava que ele era alguém perigoso. — Não se preocupe, não vou fazer nada com você — disse limpando a capa e o devolvendo ao seu lugar nas prateleiras empoeiradas. — Eu devo agradecer a você por ter limpado a minha casa.

— Sua casa? — Disse sem mais nenhum medo do homem.

— Sim, essa é a minha casa. Normalmente eu gosto de viver isolado em um só cômodo e saio de vez em quando. — Guardou o livro.

— Parece eu antes da Forja. — brincou.

— Forja? — perguntou sem tirar os olhos dos livros que arrumava endireitando-os em suas prateleiras.

— Sim, a prisão. Forja do Dragão. Você conhece?

O homem tirou o capuz, revelando os curtos cabelos castanhos e barba curta, seus olhos eram azuis, claros demais como orbes de gelo.

— Um dos campos de concentração do Dragão Branco? — perguntou desesperadamente. — Eles ainda fazem isso? Esta eu não conhecia.

— Como assim ainda? — Perguntou Henry sem entender o que o homem dizia. Apresentou ansiedade pela resposta.

O homem conseguiu notar a pressa do Gransys, então disse:

— Primeiro as apresentações. — O homem sentou-se na cadeira do dragão negro, onde se sentiu confortável, provavelmente mais que Henry tinha se sentido, então entrelaçou os dedos e logo perguntou pelo nome do garoto.

— Henry D. Gransys. — respondeu.

— Gransys — mencionou o nome como se fosse algo importante em sua memória. Arregalou os olhos e voltou ao normal como um susto. — Eu sou Thrim, chamado por alguns de Criotitã. — Transformou metade de seu corpo em gelo e, desta metade, uma fumaça fria saía enquanto a outra era tão calorosa quanto um humano normal.

— O nome faz muito sentido com o seu poder. — comentou Henry.

Thrim olhou ao garoto com dúvida e desfez seus poderes. Se era mesmo quem dizia ser teria que provar... ou treiná-lo.

— Pela sua aura você tem um poder imenso.

— Eletricidade. — Mostrou a mão direita com pequenos raios saltando entre os dedos.

— Não foi isso que eu quis dizer. O seu tipo de eletricidade é mais forte que o de verdade. Eu diria que você é como um usuário de alguma radiação que tem a ver com mitologias, como Thor, Zeus. Algo assim. Algum dragão de tempestade ou outra criatura mitológica, mas seja o que for, você é forte.

O homem começou a prestar atenção na mão de Henry, que ainda estava com a eletricidade, e quando tirou os olhos da mão do menino e olhou para ele, o moreno puxou ar assustado por causa do olhar de Thrim, apesar de não ter transmitido a sensação fria.

— O que faz aqui? — perguntou curiosamente.

— Eu quero acabar com o Dragão Branco. Destruí-lo por completo.

— Destruir a maior organização do mundo? E quanto ao seu sonho? Há alguma coisa dentro dessa sua cabeça?

— Eu vou encontrar todos os tesouros lendários do mundo! — exclamou convicto, se perguntando depois por que estava confiando nele, porém, sobre seu sonho, os tesouros lendários são impossíveis de serem encontrados, especialmente porque ninguém se preocupou em buscá-los, mas agora eles apresentam detalhes da antiguidade e da humanidade. — Eu serei o primeiro a tê-los.

— Então você gosta de História. — notou Thrim. — Vários destes livros lhe interessarão. — falou apontando para as estantes.

Thrim colocou os pés sobre a mesa, começando a folhear um jornal do dia que Henry nem mesmo tinha visto com ele antes. Não parecia haver nada que o interessasse, mas continuou lendo-o mesmo assim, deixando que o hóspede fizesse o que quisesse por ali com seus livros, e pelo que viu no rapaz, ele não iria destruir sua coleção.

Henry andava de um lado para o outro procurando por livros que o interessasse, terminando com uma pilha deles em mãos e os colocou sobre a mesa, sentou-se e começou a ler um livro sobre encantamentos, onde na capa havia um ponto no centro de um círculo. Os livros de encantamentos estavam divididos entre seus símbolos, como o círculo e o ponto dentro; o segundo com duas colunas, o terceiro com um triângulo, o quarto com uma coluna e um V, o quinto com um pentagrama e o sexto com um hexagrama. Mostravam todos os símbolos e runas que haviam. Runas da mitologia nórdica como o parecido com um F, mesas de trabalho, várias serventias para os encantamentos, etc.

Parecia algo saído de livros de fantasia, mas o mundo já era estranho demais desde há muito tempo; claro que isso poderia existir.

Thrim observava através do jornal a curiosidade do garoto por diversos assuntos. O fitou como se tentasse notar semelhanças com alguém nele.

— Henry, que tal a gente dar uma saída hoje? — perguntou por fim.

Henry olhou para o jornal e leu na capa "maluco com espadas de fogo causa tumulto em assalto da organização mafiosa denominada Capuz Negro". Na imagem em alta definição em cores do jornal, em movimentos como um GIF, um rapaz ruivo atacava uma rua. Thrim se atentou aos olhos do rapaz.

— Conheço esse garoto. Tem a mesma idade que você.

— Quantos anos acha que eu tenho?

— Dezessete? Talvez dezoito... Ah, tanto faz.

Colocou o jornal na mesa e levantou-se, mas algo pareceu ter chamado sua atenção. Olhou desconfiadamente para o chão onde pareceu ver algo que Henry não via.

— Tem alguém aqui. — falou Thrim com toda a certeza do mundo. — Está sentindo isso?

— Isso o quê?

— A presença de alguém com base no seu calor ou na falta dele.

— Mas sabe exatamente o que é?

Thrim não prestou atenção nele. Encostou-se à parede atrás da cadeira onde gelo se formou.

— Oiii! — uma voz chamou. — Alguém aí?

Gransys olhou para o homem como se reconhecesse a voz. Sentiu alívio por possivelmente ser quem pensava ser, embora não acreditasse muito que ele também teria encontrado aquela casa.

Henry correu descendo as escadas com quase quedas, com tropeços pelos degraus e soube que estava certo quando viu Dustin ali. Estava com as mesmas roupas da prisão, mais esfarrapadas e sujas, pelo que Henry pôde ver, Dustin teve de lutar um pouco nesses últimos dias, pois estava sujo, cansado e com ferimentos leves.

— Dustin! — exclamou surpreso.

— E aí? — Dustin cumprimentou.

— O que está fazendo aqui? — Perguntou Henry. Somente depois percebeu que a pergunta que acabou de fazer soou algo mal educado, mas antes que pudesse se desculpar Dustin o interrompeu.

— Passei todos os dias procurando por você. Não há lugar para ir, então eu vou ficar com... Ok. Iria sair algo estranho agora.

— Tipo... Oh, esqueça. Mas por que exatamente me procurava?

— Argh... O que era mesmo? — Disse coçando a cabeça, se esforçando para sua memória voltar ao normal. — Ah sim, eu tinha que contar a você que encontrei uns aliados do Dragão Branco! Eu até soquei um deles.

— E isso significa que você matou uns deles?

— Não, eu não mato pessoas, só quebro os ossos, no máximo. Acho que é impossível controlar a minha força. Ou eles eram fracos? — Se perguntou olhando com dúvida para seus punhos cerrados.

— Espere! Como esses caras se chamavam? — perguntou Thrim terminando de descer as escadas e atravessando a porta para a torre.

— Capuz Negro. Parece que é deles que conseguem recursos e ainda assim agem como apenas uma gangue de rua. — respondeu Dustin.

Henry viu a expressão de surpresa em Thrim, junto ao medo e mais uma mistura de emoções. Talvez ele estivesse com essa mesma expressão sem saber.

— O que vamos fazer, Thrim? — perguntou Henry desesperado.

— Não se preocupe. Vamos pegá-los agora que temos uma informação útil. — entendeu o que disse segundos depois e voltou a dizer antes de qualquer hipótese ser dita. — E vocês não vão fazer nada por enquanto! Na verdade nunca! São apenas jovens que vieram para cá em busca de ajuda. Não vou levá-los para a guerra!

Thrim andou de um lado ao outro da sala e saiu pelo salão principal. Não sabia para onde ir naquela casa, nem sabia se iria a algum lugar. Gostaria muito de pegá-los e se quisesse isso teria que agir, com ou sem informações, mas também não podia colocar os dois no meio mesmo que soubessem de algo. Sempre tomou cuidado para que não o descobrissem, cobria seus rastros quando passava por qualquer lugar, mas sua reputação o impedia de manter o anonimato a todo tempo. Sempre tinha alguém que reconheceria o "Grande Herói de Guerra".

— Thrim. — Henry colocou a mão sobre seu ombro. Isto o forçou a parar de andar repetidamente. — Vamos acabar com eles.

— Não! Eu vou, vocês não vão a lugar nenhum!

Thrim o olhou com um olhar de tristeza por lembrar-se de seu passado porque de alguma forma via seu filho ali. Via como se Henry o fosse.

"Eu não consegui salvá-los." pensou Thrim. "Elyz e Pedro morreram na minha frente... Não. Não é hora de se lamentar."

— Não adianta ser um herói quando não se tem mais nada. — Thrim disse ao ver seu passado num intervalo de segundos. Henry fez isto de algum jeito. Uma leve onda elétrica trouxe suas memórias, porém como aconteceu? Tinha vontade de chorar, mas não faria ali, preferia num canto onde estivesse sozinho e silencioso.

— Você ajudou o Henry. Eu apareci aqui agora. A única coisa que podemos fazer para compensar é ajudar nisto. — Dustin se aproximou dos dois. — E se ajudou o Henry já ganha minha confiança.