O Dia Da Caça
12 XII - Jamais me Esqueça, Irmãzinha
Notas iniciais
A cidade era um pouco diferente do que Ametista pensava. Estava esperando uma cidade tranquila, porém, apesar de pequena, era bastante movimentada. A casa onde Lita ficaria era grande o suficiente para mais uma pessoa, sendo essa uma criança.
Gary e Amanda, as pessoas que ficariam com a menina, pareciam um tanto diferentes. Amanda, que mostrava a casa para Lita, havia um ar de severidade e seriedade. Possuía os cabelos curtos, negros, em um chanel assimétrico. Parecia muito atenta a tudo como um gato, apesar de prestar atenção nas palavras da pequena.
Gary, que havia ficado com Ametista na sala, parecia bem descontraído fazendo perguntas a mestiça que às vezes nem sempre respondia o que lhe era indagado. Este possuía os cabelos loiros avermelhado, num corte militar.
Instante depois Amanda trazia Lita de volta para sala e a pequena não hesitou em abraçar Ametista e lhe contar, em detalhes, como era o quarto que agora seria dela.
–Bem creio que agora está tudo certo. — Amanda falou referindo-se a Lita.
–Tem razão. — Ametista respondeu agachando para olhar nos olhos de Lita. — Agora é hora de ir, Lita. Obedeça Amanda e ao Gary, aqui será sua nova casa. — E então bagunçou a franja da menina.
Lita ficou um longo tempo em silêncio, olhando para o chão. Após um suspiro, finalmente falou:
–Você vai vir me visitar?
Ametista sorriu.
–Claro! Eu, Zero e a Lady.
–E o tio da loja.
A mestiça não deixou de rir sabendo que o tal "tio" era Dante.
–Sim, o tio da loja também.
–Promete?
–Prometo. — Mentiu. Sabia que talvez não veria mais a pequena garota. E estava ciente que seria melhor assim.
Saiu da casa sem olhar para trás, se o fizesse não conseguiria deixar Lita. Porém ouviu a garotinha a chamar. E quando se virou a pequena lhe entregou o pingente que carregava dizendo que seu pai uma vez havia falado que era pra dar para alguém que julgasse importante. De primeira Ametista hesitou, mas aceitou o presente. É melhor cortar todos os laços demoníacos, pensou, despedindo mais uma vez da garotinha.
Respirou fundo. Dessa vez não olharia para trás.
Assim que se viu longe o suficiente da casa, ligou para Zero avisando que estava tudo certo e que logo estaria em casa. Contudo a próxima ligação a deixou um tanto apreensiva. Teria que ligar para a Devil May Cry e ela não saberia dizer se Dante estaria ofendido com ela por conta da mesma ter avançado nele como um cão raivoso. Ele parecia bem normal hoje, lembrou, discando o telefone do local. Ouviu tocar duas, três, quatro vezes até uma voz sonolenta atender. Mordeu o lábio inferior. Explicou então que havia entregado Lita.
Houve um longo bocejo e um resmungo desinteressado antes de ouvir a voz do caçador:
–Você não poderia deixar pra depois?
Ametista arregalou os olhos e quase tirou o celular da orelha para olhá-lo com incredulidade.
–Er... Você estava dormindo de verdade? — Ela perguntou.
–O que você acha?
–Bem, vai saber? — A mestiça deu um sorrisinho. — Você sempre parece estar dormindo. De qualquer forma mais tarde passo por ai. Acho que precisamos conversar.
–Precisamos? — Dante perguntou após outro bocejo.
–Precisamos, Dante, precisamos. — Suspirou.
–Tá legal. Traga então um sundae e a gente conversa. – Falou. Ametista teve certeza que ele estava meio irritado por ter seu sono interrompido.
–O que diabos... — A mestiça nem completou a frase, pois a ligação terminou por ali. Bufou. — Delicadeza para que, né Dante?
Ametista guardou o celular resmungando. Sabia que Dante não era a pessoa mais sutil do mundo, mas se irritar por ser acordado... Ele dorme e toma sundae o tempo todo. Ele vai conseguir sobreviver.
Andou até a estação de trem onde comprou a passagem de volta. Sentou-se em um banco por ali para esperar o trem que logo chegaria. Alguns minutos depois, estava dentro do trem, sentada e confortável. Pensou em até tirar uma soneca.
Logo estarei em casa, pensou segurando o pingente que era de Lita. Indagava se foi mesmo certo deixar a menina. Bem, onde ela ficaria? Em casa? Perigoso. Seria melhor para ela ficar com Gary e Amanda, constatou.
Estava tão absorvida com os pensamentos que mal viu alguém parado ao seu lado.
–Finalmente te achei, irmãzinha.
Ela poderia ter escutado errado, mas aquele que a chamou de irmãzinha havia dito na língua demoníaca. Analisou por alguns segundos notando a máscara totalmente branca e simples que cobria seu rosto, deixando amostra apenas seus olhos claros. Olhos nada amistosos, por sinal. Usava uma calça jeans aparentemente surrada e uma blusa preta com capuz que escondia seus cabelos, entretanto, ela também notou a franja clara repicada caída de forma displicente sobre a máscara.
Notou também a moça que estava sentada ao seu lado, na janela, o olhar com curiosidade, talvez se perguntando o motivo de tanto mistério para ter que esconder seu rosto. Decidiu levantar-se quebrando o contato visual entre os dois e ouviu um resmungo indignado por parte da moça. O qual foi ignorado.
–Quem...
–Não se preocupe irmãzinha. — A cortou, falando ainda em sua língua materna. — Tenho certeza que iremos nos divertir.
Ela tinha certeza que por debaixo daquela máscara um sorriso medonho se formava, mas não teve tempo de processar o que viria em seguida. O rapaz a sua frente estendeu o braço invocando uma longa lança. Parecia pesada o suficiente para qualquer pessoa carregar, mas ele o manejou como se estivesse carregando uma pluma. Em um ataque horizontal os vidros do trem foram cortados e Ametista só não sofreu o ataque porque seu instinto foi tão rápido para fazê-la abaixar levando a moça que estava atrás de si.
Houve um alvoroço. A moça que estava protegida por Ametista berrou tão alto que por um segundo pensou que ficaria surda.
–Quem diabos é você?! — Ametista berrou em meio a tantos outros gritos.
–Eu sou aquele que irá tirar tudo o que é mais precioso, irmãzinha. Começando por aqui.
A mestiça pode sentir a lâmina fria da lança roçar em seu pescoço, porém o alvo era moça que protegia a atingindo na garganta. Logo, aquele que a chamava de irmã não se limitou apenas a ela e sim aos outros passageiros acuados.
–Essas pessoas são preciosas para você? Eu irei destruir todas. Todas aquelas que lhe forem preciosas.
–Seu desgraçado! — Gritou, levantando, contudo sentiu algo lhe segurar o braço.
A moça, ainda viva, a segurava assustada. Seu pescoço estava tomado pelo vermelho vivo, do qual tentava estancar de alguma forma com a outra mão. Ametista engoliu a seco. Eu já vi isso antes, não vi?
Encolheu-se sentindo sua cabeça latejar. Por um momento viu outra imagem. O ar parecia não ser o suficiente para encher seus pulmões e seu corpo começou a tremer. Virou-se para ver o mascarado, o capuz caído, revelando seus cabelos de cor cinza escura e travou os dentes.
–Desgraçado, desgraçado, desgraçado!
Avançou, porém não avançou como Ametista.
***
Zero acordou na mesa da sala de jantar. Não se lembrava exatamente como fora parar lá, talvez a espera por Ametista o fez adormecer por ali.
Entretanto, o que o deixou surpreendido foi ver Aurus parado a sua frente. Ele o olhava como se o estivesse analisando. Havia também um brilho estranho em seu olhar. Pela primeira vez, Zero temeu que algo acontecesse.
–Você não irá durar muito aqui dentro.
–O que...
–Eu não estava falando com você, humano. — Aurus o interrompeu.
Quando o demônio saiu da casa, Zero levantou-se olhando em volta de forma preocupada. Poderia Aurus estar vendo algo que seus olhos humanos não conseguiam ver?
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