O Dia Da Caça
13 Epílogo
Notas iniciais
Meu corpo dói e estou exausta. O longo caminho de volta parecia eterno e quase não acredito quando passo pelo portão de casa. É madrugada e o céu está nublado por conta da chuva que havia caído umas horas antes.
Estou aos farrapos. Minha blusa verde está rasgada e manchada de sangue, assim como meus cabelos e minha calça jeans. Também estou com as roupas úmidas pela chuva que peguei no caminho. Esperei que Zero viesse me ajudar, mas eu estava engada. Sentado nos degraus da varanda de casa, eis que está Aurus com sua típica roupa branca. Algo me diz que isso é algum tipo de brincadeira da parte dele. Seus cabelos longos e brancos estão presos em um rabo de cavalo alto, o que lhe deu, certamente, um ar mais jovial e altivo.
Não que ele aparente ser muito velho, é claro. Como um demônio Aurus mantém sua aparência estagnada no tempo, mas depois de sua volta ao Mundo Humano ele sempre pareceu um pouco deprimido e zangado, talvez por ter tido seus poderes bloqueados. Mas as coisas estão diferentes agora. Há um brilho em seu olhar, quase igual o brilho que ele tinha quando nos resolveu me arrastar para o inferno. Meu corpo inteiro fica em alerta, recebendo aquele olhar como sinal de perigo. O estranho é que não sinto a energia demoníaca dele, porém sei que ele consegue ocultá-la quando quer. Será que seus poderes voltaram?
Engulo a seco, enquanto o encaro pensando nessa possibilidade. Não pode ser verdade não é? Não depois de tudo que eu passei...
–Onde está Zero? — Pergunto, mas minha voz não sai como eu havia planejado. Quase gaguejo, o que faz Aurus se permitir dar um pequeno sorriso.
–Seu humano se cansou.
O deboche na voz de Aurus não me fez recuar, muito pelo contrario.
–O que você fez com o Zero? — Pergunto mais uma vez. Imagino se tenho energia o suficiente pra uma segunda rodada na forma demoníaca...
–Ora eu já disse: Ele se cansou. Os humanos cansam sabia? — Ah, não me diga!– Fico me perguntando por quanto tempo ele realmente vai esperar por você.
–Preocupado? — Sei que não é o momento, mas dou uma risada
Aurus se levanta e dá alguns passos diminuindo nossa distância. Ele parece se divertir com o meu estado, pois aquele sorrisinho continua estampado em seu rosto.
–Pra quem diz que não é um demônio, voltar pra casa cheirando a sangue humano é um grande avanço — Ele ataca.
Ok... Respire Ametista. Minha vontade é de pular em cima dele, mas de alguma forma eu me controlo. Puta merda, o que eu faço com esse maldito?
–Irritada? — Ele volta a dizer — O que você vê quando se olha no espelho, Ametista?
Oh, isso não é uma pergunta simples. Ele não está falando apenas do meu reflexo, mas vejo uma boa oportunidade pra contra-atacar.
–Sinceramente? Alguém que está de saco cheio de ter um fardo como você por perto. Eu deveria matá-lo!
–Com sangue de anjo eu suponho.
–Claro, seria divertido ver você derreter, mas acho que preferiria ver Lívia te picotar e te dar de comida pra algum demônio…
E isso foi o suficiente para que ele fique diante de mim, próximo o suficiente pra me sentir encurralada. Por um momento me sinto até frágil e me encolho. De qualquer forma terei que me virar, de novo, caso ele saia do controle.
–Você não deveria dizer o que não sabe — Adverte. Posso sentir o ódio escapar por ele.
–Hm… Minha memória não é assim tão ruim… Eu me lembro de você sair do Inferno com o rabo entre as pernas!
Sério… Acho que o que ocorreu no trem derreteu meu cérebro, ou coisa parecida. Estou arriscando muito com quem não deveria, mesmo estando com os poderes, agora, supostamente bloqueados. Se ele se encher, sua força faz todo o trabalho.
–Eu acho melhor, meu querido sogro, você sair de perto dela.
É Zero. Ele está parado na varanda segurando uma de suas pistolas e a adaga em outra mão. Será que tem o sangue de Lorelai ali? Apesar disso não me tranquilizo. O efeito é totalmente inverso. Ver Zero enfrentar Aurus quase me deixa em pânico. Aurus o olha por cima dos ombros com desprezo e logo em seguida seus olhos voltam para mim.
–Seus dias de mestiças estão contados.
O tom misterioso e o sorriso quase vitorioso me faz cerrar os punhos enquanto passa por mim. Como ele pode ter certeza?
Zero avança, certo que poderia fazer algo, mas o seguro pelo braço antes de chegar ao portão.
–O que você está fazendo?! — Zero está furioso. Por um segundo parece até ser outra pessoa, mas continuo a segurá-lo.
–Não vá. Você sabe que se for atrás do meu pai, você não vai voltar.
Ele me encara, estreitando os olhos. O que diabos está acontecendo hoje?
–Por quanto tempo você vai continuar o defendendo? Já passou da hora desse infeliz morrer!
–A questão não é essa! — Rebato — Ele pode ser útil...
–Útil? A quem você quer enganar? — Ele suspira — Não importa... Dá pra me soltar?
Não, eu gostaria de falar, mas automaticamente o solto. O que acabou de acontecer? Me pego perguntando, enquanto entro em casa totalmente chocada. Não é como se nós nunca tivéssemos brigado, mas parece ter algo errado.
Subo rapidamente as escadas sem dar chance para ele continuar a discussão sobre Aurus. Droga, tudo parece estar dando errado!
–Jovem Mestra?
Péssima hora pra me chamar, péssima hora.
–O que foi agora, Shamash? — Minha irritação é aparente, não é pra menos. — Se for sobre o Fenris você pode fazer o favor de deixar pra mais tarde?
–Não é sobre o Fenris. — Ele replica com sua indiferença usual.
–Seja o que for, Shamash. Deixa pra depois.
Seja lá o que fosse, não me interessa no momento. Tudo o que eu preciso é de um bom banho e esquecer o que aconteceu. Tarefa difícil, mas não impossível. Mas apesar de tudo, não consigo tirar um segundo sequer aquela mulher da minha cabeça...
Olho para o relógio no criado-mudo. Logo amanhecerá. O que aconteceu naquele trem... Nem eu mesma saberia dizer, mas espero que de dia eu possa lidar melhor com isso...
FIM
11/11/14.
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