O Dia Da Caça
11 XI - Segunda Chance
Notas iniciais
E Ametista estranhou o fato de Zero não reclamar de sua nova aquisição. Fenris não era a arma mais confiável do mundo, mesmo se lacrando dentro da bainha, mas mesmo assim Zero não reclamou nenhuma vez no caminho de volta para casa, nem quando Ametista fazia o curativo em seu peito após um longo banho. Aquilo estava começando a incomodar, tanto que chegou a dar um suspiro irritado, quase incorporando o humor do parceiro quando ela escondia algo dele.
O silêncio de Zero deveria significar muito além de suas palavras e reclamações, algo que a jovem mestiça não conseguia achar o sentido. Provavelmente era algum tipo de sinal, havia algo muito errado ali. Interiormente, deu um sorriso irritado descobrindo o quão impassível Zero conseguia ser.
Pensou seriamente em perguntar o que estava acontecendo, mas Zero pareceu prever sua pergunta e logo respondeu que estava cansado e que uma boa noite de sono resolveria o problema. Eu queria saber que problema é esse, Ametista o olhou de forma furiosa enquanto ele se virava para dormir, ignorando qualquer pergunta que pudesse vir da jovem.
Ametista soltou um gemido em protesto quando ouviu seu celular, sobre o criado-mudo, tocar. Automaticamente, levou o travesseiro sobre a cabeça e tateou a cama a procura de Zero, em vão. Não é possível, pensou furiosa ao ver que o companheiro não estava ali. Supostamente ele deveria descansar tanto quanto ela. Soltou um pequeno berro pegando o celular vendo-o tocar incessante. Era uma chamada da Devil May Cry. Ficou imaginado o que queriam tão cedo, sendo que ela havia ido dormir tão tarde. Já estava pronta para dar uma bronca seja lá em quem fosse, mas ao ouvir do outro lado a voz de Lady mudou completamente de atitude. Ouviu atenta o que a humana havia para dizer e saltou da cama com velocidade, escolhendo uma roupa no guarda-roupa. Assim que Lady desligou, Ametista tomou um rápido banho vestido sua roupa escolhida: uma blusa grossa de frio de cor verde musgo, calça jeans e tênis. Pegou uma bolsa transversal de cor creme e detalhes em marrom, colocando ali tudo o que julgou que precisava.
Desceu rapidamente para o térreo, encontrando Zero na cozinha preparando o café da manhã. Estranhamente tudo parecia normal. Zero uma hora ou outra bocejava, bagunçando ainda mais seus cabelos castanhos. Nada de estranho, Ametista falou internamente, observando o companheiro. Parecia o mesmo Zero de sempre. Não havia nada de hostil ou demoníaco nele.
–Bom dia, Preciosa – A voz do humano a despertou para a realidade. – Estranho ver você por aqui há essa hora e vestida – Deu um sorriso de canto.
–É-é – Gaguejou, corando e passando a mão pelo rabo-de-cavalo mediano que havia prendido. Limpou a garganta antes de continuar com a voz mais firme – Como você está?
–Bem e meio sonolento – Respondeu dando mais um bocejo – Hm... O corte só está incomodando um pouquinho, se é isso que você quer saber. Já passei por coisa pior do que um cortezinho.
Bem isso é verdade, Ametista concordou internamente. De fato Zero tinha passado por coisas piores do que um corte, mas não era exatamente aquilo que a preocupava de fato.
–Hm... Tem certeza?
Zero suspirou irritado antes de responder:
–Óbvio que sim, Preciosa. Desencana.
–Ok, não está mais aqui quem perguntou – A mestiça bufou.
Durante o café da manhã, Ametista falou sobre sua ligação da Devil May Cry. Parecia que Trish havia conseguido um lugar seguro para Lita, longe de curiosos e o melhor: de demônios. Apesar de intrigada, a mestiça ficou bastante contente com a notícia e acabou por se oferecer em levar a pequena garota a sua nova vida.
–Então aquele idiota conseguiu mesmo – Zero resmungou, fazendo Ametista arquear a sobrancelha.
–Eu perdi alguma coisa enquanto era congelada, ou é impressão?
–Não perdeu muita coisa – Zero rebateu – De qualquer forma é bom saber que Lita teve uma chance.
Ametista concordou animada, entretanto pediu para que Zero ficasse em casa, coisa que ele nem pensou duas vezes em negar. De certa forma isso aliviou a mestiça. Em casa Zero estaria protegido por Shamash caso algo realmente acontecesse. Acabou por fazer uma careta com o pensamento, achando que realmente estava ficando paranoica. Despediu-se de Zero com um beijo e logo partiu para Devil May Cry.
Ametista chegou logo na loja do Filho de Sparda, sendo recebida por Lady, Trish, Lita e Dante que, para variar, parecia dormir em sua mesa. Suspirou sabendo que na verdade ele ouviria tudo ali e que ele só estava fingindo.
–Tem certeza que não quer que eu a leve? – Lady perguntou enquanto Lita corria para abraçar Ametista.
A menininha usava uma blusa branca de gola alta e mangas compridas por baixo de um vestido vinho. Usava meiões brancos e sapatinhos de verniz da mesma cor do vestido. Seu cabelo estava preso em um trança muito bem feita.
–Lógico que tenho – A mestiça rebateu – Começou comigo, termina comigo.
–Bem, parece que não temos escolha – Trish entregou um papel com o endereço – Fica algumas horas de trem.
–Certo... Nada que não possa fazer – Sorriu animada pegando a pequena mala da garotinha.
Logo Ametista e Lita partiram da loja indo em direção à estação de trem. Não conhecia a cidade onde Lita ficaria, mas imaginou um lugar tranquilo. Assim que chegaram à estação, Ametista comprou as passagens e pelo visto o trem não demoraria a chegar. Sentaram em um banco, olhando as outras pessoas num vai-e-vem apressado.
–Ame? – A voz de Lita se fez presente, apesar de estar um pouco tremida. Ametista virou-se para a pequena, antes dela continuar com os olhos marejados. – Eu não verei mais meu pai, minha mãe e nem meu irmão? O que eu vou fazer?
Você vai viver, a mestiça quis dizer, mas invés disso mordeu o lábio inferior. Não sabia o que dizer para a pequena naquele momento. Respirou profundamente levantando-se e colocando a pequena de pé no banco, para poder olhá-la nos olhos.
–Lita... Eu queria dizer que você não vai sofrer com essa perda, mas... Infelizmente as coisas não são bem assim... – Ametista parou por um tempo analisando as palavras – E além do mais, você não perdeu sua família sabe? Eles estão aqui — Colocou a mãozinha da garota no peito – E isso é o que importa. Vai doer um pouco, mas depois a saudade se transforma em lembranças tão boas que você se esquece dela.
–Jura? – Lita soluçou – Eu quero lembrar sempre deles.
Ametista sorriu.
–Juro. Você terá sempre o melhor deles dentro de você.
Lita agarrou se ao pescoço de Ametista deixando suas lágrimas rolar. A mestiça a abraçou e acariciou seu cabelo. Por alguns minutos sentiu-se estranha, talvez por ter passado por uma situação parecida quando mais nova, ou por não saber exatamente como reagir. Entretanto esse sentimento pareceu evaporar quando, ao entrarem no trem e se acomodarem, Lita encostou sua cabeça no braço de Ametista. A menininha ficou um tempo olhando a paisagem antes de adormecer, ainda com os olhos vermelhos por causa do choro.
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