O Diário dos Números

4 Capítulo 3 - A festa de Boas-vindas


Notas iniciais
Após duas semanas estou de volta, com esse capítulo ENORME, mas, modéstia a parte, maravilhoso. Divirtam-se!

Música tema: Brutal — Olivia Rodrigo


A cozinha da casa dos Deloria parecia ainda mais vasta naquela noite. O ar, vindo da janela entreaberta, misturava o cheiro frio e resinoso dos pinheiros com o aroma quente do ensopado. A lareira crepitava alegremente, contudo, alheia àquela família. Sob aquela luz amarelada, Rupert e seus filhos cumpriam o ritual do jantar em família, como exigira docemente o pai.

Mas, entre o ruído dos talheres e a mastigação contida, era o silêncio que imperava.

Preston estava excessivamente concentrado no prato, apático, o rosto algo pálido. Daphne, apesar de cúmplice do silêncio, lançava olhares furtivos para o pai, que comia com a calma cansada de quem já tinha cumprido o seu dever na oficina.

Ela resolveu agir.

— Sabe, pai, eu achei que demoraria para me acostumar, mas estou até gostando bastante daqui! — Daphne sorriu, carismática. — O seu jogo foi legal, as aulas interessantes... fiz até amigos!

Rupert tinha a boca cheia de macarrão, mas o sorriso foi imediato. Ele engoliu, genuinamente satisfeito:

— Que ótimo, filha! Fico muito feliz. Eu sei que Wildale não é Nova Iorque, mas…

— Por exemplo… — cortou ela, suavemente. — A Chloe, você sabe quem é, realmente se tornou uma das minhas melhores amigas!

Preston parou a colher no ar. Era o "Daphnês" em ação. Ele observou, buscando o verdadeiro objetivo daquele papo furado.

— Mas eu percebi uma coisa... Ela é uma garota muito solitária — continuou Daphne, os olhos brilhando com uma empatia meticulosa. — Fiquei sabendo que os Montgomery têm muito poder aqui, é muita pressão sobre ela. Eu sinto que posso ajudar. Solidariedade feminina, sabe, pai?

O nome "Montgomery" pousou na mesa mais pesado que o ensopado. Rupert baixou o garfo lentamente. O sorriso jovial desvaneceu, substituído por um olhar preocupado.

— Sim. A influência dessa gente é realmente… forte por aqui — disse Rupert, escolhendo as palavras com cuidado.

— Pois é. E a Chloe me chamou para dormir na casa dela hoje. Conversar, ver filme…

Preston viu imediatamente a armadilha no chão, coberta por mel e um pedaço de carne preso no mecanismo. Ver filme coisíssima nenhuma, era a tal festa. Ele olhou para a irmã, mas ela não desviou o olhar do pai por um segundo sequer.

Rupert suspirou, limpando os cantos da boca com o guardanapo de papel para ganhar tempo. Finalmente falou:

— Filha, não sei se isso é uma boa ideia — começou ele, a voz rouca. — A realidade daquelas pessoas é... complicada. Eles vivem num ritmo diferente do nosso, Daphne. Um ritmo que nem sempre é gentil com quem não é como eles.

— Mas pai, é justamente por isso. A Chloe não é como o pai — ponderou ela, a voz suavizando para um tom de confidência. — E ser a "diferente" em Wildale... bem, você lembra de como eu me sentia antes da gente se mudar, não lembra? Eu só não quero que ela passe pela mesma coisa que eu.

Rupert desviou o olhar para as brasas da lareira, perdendo-se momentaneamente. O golpe de misericórdia da Daphne foi preciso; Rupert mastigava a comida lentamente, como se ruminar o remorso. Até que disse, dando um grande gole no suco de uva.

— Não sei se um homem como o Jano Montgomery gostaria de gente como nós circulando por lá…

— Ele não vai estar, pai. E a Chloe garantiu que está tudo certo. — Daphne foi rápida, o tom agora puramente prático. — É só uma noite de garotas.

Rupert tamborilou os dedos na mesa. O silêncio esticou-se até quase arrebentar. Preston revirou os olhos. Estava feito. O urso acabara de pisar na armadilha.

— Tudo bem — suspirou. Daphne sorriu, as mãos já ensaiando um gesto de comemoração. — Mas com uma condição.

O sorriso dela vacilou.

— O Denis Montgomery vai estar lá também. Eu sei que ele é um bom rapaz, mas é um rapaz e você é uma moça. Você só vai se o seu irmão for junto. Regra da casa: quando eu estiver longe, onde um gêmeo vai, o outro protege. Se o seu irmão estiver lá, eu fico tranquilo.

Daphne imediatamente virou-se para Preston, os olhos implorando com uma intensidade que quase chegava a ser honesta. O outro, no entanto, bateu o copo na mesa com força. O som estalado do vidro contra a madeira fez o líquido oscilar perigosamente.

— Eu não vou — disse ele, sem olhar para a irmã. A voz estava gélida. — O papai está certo. Eles não são como a gente. E não é de uma forma boa.

Ele se levantou, a cadeira arrastando no chão com um ruído estridente. Rupert deu de ombros, concentrando-se no prato para não demonstrar o alívio com a segurança daquela recusa. Pela janela entreaberta, o vento frio da noite voltou a soprar, preenchendo o espaço vazio deixado por Preston na mesa.



— Por que não?

Após terminar seu jantar, Daphne esperou o pai se recolher e foi direto ao quarto de Preston. Não bateu à porta.

O irmão estava deitado, imóvel, com o tablet na mão e os inseparáveis fones de ouvido. Ele com toda a certeza tinha percebido a entrada da irmã, mas fingiu não ver. Apenas quando Daphne sentou na cama pesadamente, de propósito, o garoto jogou o tablet para o lado e retirou os fones, mantendo-se deitado.

Porque eu não quero. E não vou fazer algo que eu não quero só porque você quer.

— Preston, por favor! — Daphne trocou de posição para obrigá-lo a encará-la. — Eu sei que você não gosta de festas, mas, aqui ou lá, você ia continuar com essa sua cara de enterro. Custa me ajudar?

— Eu-não-vou! — sentenciou o garoto. — Eu não vou mentir para o papai!

Daphne suspirou.

— Éramos mais unidos em Nova Iorque! Você me ajudava quando eu queria ver gente — Daphne tocou a mão do garoto. — E eu te ajudava quando você queria ficar só.

— Não estamos em Nova Iorque. — Preston largou a mão da irmã e pegou o tablet de volta.

— É verdade. Mas não deixamos de ser irmãos gêmeos só porque mudamos de estado!

Preston ficou calado olhando para o teto até ela perceber que ele não diria mais nada.

— Certo. — Ela se levantou. — Então pelo menos me explica o porquê! — Obrigar Preston a tentar explicar o inexplicável era a sua próxima tática.

O rapaz sentou-se na cama e mirou seus olhos âmbar nos olhos negros dela.

— É verdade. Somos irmãos gêmeos. Mas não somos iguais. Eu não gosto dessas pessoas das quais você decidiu gostar. Eu não gosto deste lugar. Eu não vou pendurar luzinhas na janela da minha cela igual você!

Daphne bufou.

— É exatamente isso. Decidir gostar. Eu vi você na educação física. Foi incrível. As pessoas gostaram de você. Você que está decidido a odiar todo mundo!

Preston tentou virar as costas, mas Daphne não deixou, mudando novamente de posição para encará-lo.

— O Denis! Você e o Denis pareciam dividir o mesmo pensamento no jogo. Ele estava radiante!

Preston trincou o maxilar. O ar do quarto pareceu subitamente rarefeito.

— Ele é o pior deles.

— Isso faz absolutamente zero sentido — disse Daphne, revoltada com o que considerava uma idiotice do irmão. — Ele foi falar com você. Ele quer você lá!

Preston riu com escárnio, mas sem humor.

— Você é tão atenta, mas não percebe o óbvio. Eu estou nos protegendo.

A sobrancelha de Daphne arqueou-se de tal modo que perigou sair da testa. Preston suspirou e se levantou.

— Tudo bem. Eu te conto. — Ele ergueu o dedo indicador, a voz forçadamente controlada. — Número um: Não foi incrível na educação física. Eles botaram um alvo na gente de propósito. — Daphne fez menção de falar, mas ele levantou o segundo dedo. — Número dois: Eu ouvi a conversa no vestiário. Eles não querem ser nossos amigos, Daphne. Para eles, nós somos uma piada. Chamaram a gente de Flatlanders. Riram da nossa cara. O time inteiro. — A raiva dele vibrava, generalizada. — E o Jeremy... ele tentou me machucar. Ele é perigoso.

O sorriso de Daphne congelou. Foi uma hesitação minúscula, apenas uma breve pausa no ritmo de sua respiração. Ela piscou, endireitou a postura e forçou um riso anasalado.

— Vamos jogar o seu jogo. Número um: — ela imitou o gesto do irmão. — Você acha que eu sou ingênua? Você pode entender de números, mas eu entendo de pessoas! Garotos são iguais em Manhattan ou aqui no meio do mato. Sempre soube me virar e nunca precisei pedir ajuda para você. Pelo contrário. Te livrei de muito bullying em Nova Iorque sem você sequer saber. Número dois — Daphne encarava Preston profundamente com seu olhar de lince. — Eu sou gata sim e não é um bando de jogadores de hóquei metidos a machões que vão me impedir de ir à festa que a Chloe, minha nova melhor amiga, organizou!

Preston ficou calado, desviando o olhar para a claraboia escura.

— Somos irmãos gêmeos. Não somos iguais. Mas eu vi você se colocar na frente da bolada de um cara de quase dois metros para provar um ponto. Eu sei que você sabe se defender e você deveria confiar que eu sei também. — Daphne virou suavemente o rosto do rapaz para que ele a olhasse. — Vamos juntos. A Chloe é uma ótima pessoa, eu garanto como expert. Nós não podemos fugir das coisas porque estamos com medo. É como o papai disse. Você me protege e eu te protejo.

Preston desviou o olhar para o chão, no canto do quarto. Infelizmente, lá estava a tábua solta cheia de segredos. Daphne deixou o silêncio se alongar por alguns segundos, esperando que ele estivesse considerando o pedido…

Mas o irmão trincou a mandíbula e disse, seco:

— Eu não vou. Fecha a porta quando sair.

Daphne retirou a mão do rosto do irmão. Encarou-o por alguns segundos, usando toda sua força para manter o controle. E então ela se virou sem dizer mais nada e saiu do quarto, deixando a porta escancarada.

Daphne entrou no quarto como um furacão, fechando a porta atrás de si com um clique silencioso, mas definitivo. As luzes de LED violeta pulsavam suavemente nas paredes forradas de pôsteres, criando uma atmosfera de videoclipe meticulosamente planejada. Contudo, Daphne não se sentia nada cinematográfica. Estava, pela primeira vez em muito tempo, impotente.

Ela se jogou na cadeira de acrílico posicionada estrategicamente ao lado da grande janela, o lugar que escolhera para garantir que a luz natural inundasse seus vídeos, transformando aquele canto do quarto em seu estúdio pessoal. Acendeu as luzes do espelho e o brilho estilo camarim iluminou impiedosamente um rosto que fervilhava indignação.

Daphne encarou o próprio reflexo e, por um segundo irritante, viu Preston. Os mesmos traços, a mesma boca, a mesma genética teimosa. Como podiam dividir praticamente o mesmo DNA e serem tão fundamentalmente opostos?

Preston não era apenas introvertido; ele era um suicida social. E o pior: estava a arrastando para o precipício junto com ele, com uma facilidade assustadora, como se ela não fosse nada além de um apêndice decorativo na vida dele.

Ela retirou os brincos de argola com movimentos bruscos, jogando-os na bancada. O som do metal batendo na madeira ecoou sua frustração. Se ela não fosse àquela festa hoje, Chloe entenderia, claro. Mas Daphne não se perdoaria. Era o início do ano. Se ela quisesse realmente viver uma boa temporada ali, precisava socializar da melhor maneira possível. Ser vista. Criar conexões. Em Nova Iorque, perder uma festa era apenas uma terça-feira. Em Wildale, era assinar um atestado de irrelevância.

Mas havia um problema técnico intransponível: ela não sabia dirigir. Em Nova Iorque, a vida acontecia no banco de trás: motoristas, táxis, ubers. Preston sabia, mas detestava a função. Agora, ela não tinha como fugir dali sozinha, no meio da noite, sem conhecer as estradas sinuosas daquela cidade que parecia um labirinto de estradas lamacentas ladeadas por paredões de árvores.

Daphne deixou sua jaqueta bomber sobre o encosto da cadeira e migrou para a mesa de estudos. Abriu seu MacBook com força excessiva, muito ciente de que não conseguiria produzir nada criativo com aquele ódio borbulhando. Exceto, talvez, se escrevesse uma fanfic de Nárnia onde Edmundo Pevensie sofresse muito mais do que a história original teve coragem de fazer uma criança de onze anos sofrer (Preston tinha dezesseis).

Enquanto respondia mecanicamente algumas mensagens no Wattpad, dedicou-se a terminar a edição do vlog "Primeiro Dia em Wildale". Mas a dissonância era amarga: na tela, uma Daphne sorridente e perfeitamente iluminada fazia um tour teatral pelo quarto, vendendo a fantasia de que aquela mudança era uma aventura estética e charmosa cottagecore. Na vida real, a diretora daquele espetáculo estava presa no cenário, por culpa do ator mais difícil do set: seu irmão.

Assim que programou o vídeo para sair na manhã seguinte, uma notificação brilhou na tela do celular ao lado, cortando o silêncio.

Chloe M.

Daphne desbloqueou o aparelho, a luz azul iluminando seu rosto tenso.

[21:55] Chloe:Tudo certo por aí?

Daphne suspirou, seus dedos voando pelo teclado virtual.

[21:56] Daphne:Tudo péssimo.[21:56] Daphne:Meu pai ativou o modo "Pai Protetor de Wildale".[21:56] Daphne:Exigiu que o Preston fosse junto pra "me proteger", já que o Denis estaria lá e blá blá blá.

[21:56] Chloe:Ah, mas tudo bem! Ele pode vir.[21:56] Chloe:O Preston não é tão chato.

[21:57] Daphne:O problema não é ser chato.[21:57] Daphne:O Preston não quis ir.

As reticências de digitação de Chloe apareceram, desapareceram e voltaram frenéticas.

[21:58] Chloe:Como assim não quis ir??[21:58] Chloe:Retiro o que disse.[21:58] Chloe:O Preston é INSUPORTÁVEL![21:58] Chloe:Por que ele não quis ir? Ele pareceu se dar bem com o Denis hoje.

Daphne pensou em digitar sobre o que Preston ouvira no vestiário, mas parou. Seria uma falha tática. Denis, apesar de tudo, era irmão de Chloe e um dos caras mais fortes socialmente ali. Além disso, nunca tinha visto seu irmão falar tanto desde quando chegaram. Ele realmente estava magoado, e expor isso seria cruel.

[21:59] Daphne:Ele deve estar irritado ainda com a mudança.[21:59] Daphne:Ele tá decidido a tornar a experiência de morar aqui em algo péssimo.

[22:00] Chloe:[Sticker de uma carinha derretendo de tristeza][22:00] Chloe:Eu preparei tudo pra gente, Daph![22:00] Chloe:O Denis estava super animado, vocês são a novidade, eu queria mostrar como sabemos dar festas [22:00] Chloe:Se vocês não forem, vai ser depressivo

Daphne leu aquilo e a raiva cedeu lugar a uma pontada de culpa. A menina tinha se esforçado. Daphne concordou que seria épico e pediu desculpas pelo irmão, mas precisava ser realista.

[22:02] Daphne:Desculpa, amiga. Sério.[22:02] Daphne:Mas se tem uma coisa que eu sei sendo gêmea dele...[22:02] Daphne:É que é mais fácil convencer um pinguim a entrar numa sauna do que mudar a ideia daquele garoto.

[22:03] Chloe:O Denis vai odiar.

Daphne pensou consigo mesma que talvez esse fosse exatamente o objetivo de Preston. Fazer Denis descontente. Uma vingança silenciosa, mesquinha e perfeitamente calculada.

O celular ficou quieto por dois minutos agonizantes. Então, vibrou três vezes seguidas, agressivo contra a madeira da mesa.

[22:05] Chloe:Tenho uma ideia.[22:05] Chloe:O Preston não vai.[22:05] Chloe:Mas VOCÊ vai.

Daphne sorriu para a tela. A inocência audaciosa da garota era refrescante.

[22:06] Daphne:Que bom que era só decidir. Só falta uma coisa: como.[22:06] Daphne:Estou ilhada.

[22:07] Chloe:Esteja pronta às 22:30.[22:07] Chloe:Eu já tenho o plano todo na cabeça.[22:07] Chloe:Daphne Deloria VAI estar na primeira festa do Senior Year de Wildale.[22:07] Chloe:Ou meu sobrenome não é Montgomery.

A mensagem final deixou um mix de sentimentos em Daphne: preocupação e deslumbramento. Era uma pena que, diferente de Preston, a cautela ocupasse um espaço tão pequeno na mente obstinada da gêmea Deloria…

Às 22:12, as portas do guarda-roupa foram escancaradas. Seus olhos passearam pelas araras abarrotadas, inspecionando o próprio arsenal. Daphne não ignorara o aviso de Preston. O irmão podia ser antissocial, mas era um observador cirúrgico. O instinto literário dela exigia uma narrativa clara para esta noite: guerra. A bomber jacket colorida foi sumariamente descartada em favor de um casaco de veludo vermelho-sangue: um statement agressivo, desenhado para rasgar a paleta sépia de Vermont. Nos pés, botas de combate Dr. Martens pretas, amarradas com rigor militar.

Mas então, a vaidade atropelou a logística. O erro tático fatal.

Ignorando tecidos flexíveis, Daphne optou por uma Levi's mom jeans vintage. O jeans estupidamente rígido era perfeito para segurar a silhueta em fotos, mas inútil para dobrar os joelhos além de quarenta e cinco graus. A moda, infelizmente, raramente se importa com as leis da física.

[22:24] Chloe:Tô na estrada de baixo, vou chegar logo. Apaga as luzes.

O coração de Daphne deu um salto. Estava na hora. Ela desligou o LED violeta e empurrou a pesada janela de guilhotina. O ar de Vermont a atingiu como um tapa físico, cheirando a pinheiro e terra congelada.

Embora fugas por janelas de chalés rústicos não constassem em seu currículo nova-iorquino, Daphne consumira filmes coming-of-age suficientes para conhecer a coreografia exata: cruzar o parapeito, aterrissar no telhado inclinado da varanda e deslizar pela treliça de madeira onde uma hera morta lutava contra o outono. A teoria era puramente cinematográfica. A prática, sabotada por um jeans que reduzia sua mobilidade a níveis humilhantes, era um teste brutal de sobrevivência.

Ela engoliu em seco e foi.

Na primeira pisada a bota derrapou perigosamente na telha úmida, a madeira da treliça rangeu num protesto agudo contra o peso, mas ela desceu. Silenciosa. Focada. Quando os solados tratorados finalmente tocaram a grama ensopada do quintal sem que ela quebrasse o pescoço ou acordasse Rupert, Daphne soltou a respiração presa de uma vez só.

Um sucesso absoluto para quem tinha seus feitos acrobaticos resumidos à desviar de turistas na Quinta Avenida. Ofegante e com a adrenalina formigando nos dedos, ela visualizou a cena passada em grande-angular: a jaqueta vermelha dançando ao vento noctívago de Vermont, o aesthetic de Ninja moderna implorando por uma batida nipo-eletrônica de fundo. A tragédia de ser a própria protagonista era que suas vitórias mais cinematográficas quase nunca podiam ser postadas.

Ela ajeitou a gola do casaco, pronta para dominar a noite. Havia, no entanto, claro, ainda o trajeto final: atravessar o terreno de mata até a estradinha de terra escondida onde o carro não seria visto da casa.

A ladeira até o asfalto era um barranco hostil, crivado de raízes e escuridão. Sem a lanterna do iPhone que a denunciaria, Daphne deu o primeiro passo. O jeans grosso rangeu na virilha, cortando sua circulação como um garrote de denim a cada movimento. Ela avançava com a graça de um pinguim fashionista. No terceiro passo, o tecido cobrou com juros.

Ao tentar pular uma vala invisível, o jeans travou seu joelho no meio do arco. O movimento saiu patético. A Dr. Martens aterrissou num poço de lama semi-congelada com um scluck asqueroso de sucção. A gravidade de Wildale foi impiedosa. Para salvar a maquiagem impecável de uma colisão frontal, ela espalmou a mão direita na terra.

O choque foi humilhante. A lama não era apenas sujeira; era uma substância viva, gelada e glutinosa que engoliu seus dedos, respingando na manga da jaqueta e picando a pele com o frio.

Não acredito... — sibilou entredentes. Ela puxou a mão, sentindo a lama resistir por um segundo antes de soltar com um som obsceno. Ergueu a mão imunda com asco, segurando-a longe do corpo como material radioativo.

Antes de arrepender-se definitivamente de sua escolha estética, faróis amarelados rasgaram a neblina. O ronco suave anunciou o Porsche Cayenne de Chloe.

Daphne ergueu-se, mantendo a mão suja dramaticamente no ar. Ignorou a fisgada no joelho, correu os últimos metros e abriu a porta pesada do carona com a mão esquerda.

O bafo quente do aquecedor, cheirando a couro e perfume floral caro, atingiu seu rosto. Daphne deslizou para o banco como uma soldada num bunker cinco estrelas. A porta fechou-se com um baque surdo, cortando o vento noturno.

Ao volante, Chloe era a antítese do caos. A herdeira dos Montgomery usava cashmere branco imaculado e um laço dourado de veludo bordô nos cabelos negros. Uma intocável princesa de porcelana.

Chloe virou-se para cumprimentá-la, mas o sorriso congelou. Seus olhos despencaram da maquiagem impecável de Daphne para o desastre absoluto: a bota esquerda incrustada de barro e a mão direita erguida, gotejando uma gosma marrom que ameaçava o console de nogueira imaculado do Porsche.

O silêncio durou exatos três segundos.

A boca da amiga tremeu. O primeiro som foi um engasgo curto. Daphne retrucou com um chiado nasalado de pura indignação, porém, logo a represa cedeu. As duas explodiram numa gargalhada crua e incontrolável.

Riram até cansarem, fazendo lágrimas. Quando se recomporam, Daphne conseguiu dizer, ofegante, ainda mantendo a mão perigosamente no ar.

— Pano. Por favor, um pano…

Chloe agiu rápido, sacando um pacote de lenços umedecidos do porta-luvas como se fosse uma arma de defesa pessoal para proteger o estofado. Ela entregou o pacote à amiga, o riso ainda colorindo sua voz.

— É... — Chloe suspirou, divertida, enquanto Daphne atacava a sujeira. — Bem-vinda à Wildale.

Daphne limpou o que conseguiu da palma da mão e dos nós dos dedos esfolados pelo frio, resignando-se com a mancha amarronzada que agora adornava permanentemente o punho de sua jaqueta de veludo.

Chloe engatou a marcha e o Porsche deslizou silenciosamente pela estradinha de terra, ganhando o asfalto. Elas seguiram sozinhas através do breu absoluto da estrada que cortava as coníferas, o painel do carro banhando o rosto de ambas com uma luz azulada e clínica.

Escondido no final de uma estrada particular sob a cortina de pinheiros do Lago Champlain, o chalé de caça dos Montgomery era um mundo à parte. Pela janela do Porsche, a estrutura era apenas uma silhueta fundida à escuridão, traída somente pelos fios de luz âmbar nas frestas das janelas e pelo grave que já fazia o metal do carro vibrar.

Chloe estacionou entre as picapes Ford F-150, parecendo uma nave espacial em terreno hostil. Daphne mal teve tempo de checar a mancha na manga; a adrenalina da chegada falou mais alto.

— Vamos — disse Chloe, desligando o motor.

A caminhada foi rápida, um borrão de ar cortante com cheiro de terra úmida. A cada passo, a batida deixava de ser som para se tornar uma pressão física no peito, uma pulsação que exigia resposta.

Chloe empurrou a porta de carvalho.

O choque foi imediato.

Daphne foi atingida por uma onda de calor, perfume caro e som. Se o lado de fora era o silêncio do túmulo, o lado de dentro era a ressurreição em glória do High School americano.

O pé-direito duplo, entrecortado por vigas brutas, servia de tela para a curadoria visual de Chloe. Daphne observava, catalogando em silêncio o que parecia ser a assinatura estética da nova amiga: um salão de baile "Old Money" iluminado por cascatas de luzes âmbar que pendiam do teto como vaga-lumes. A penumbra dourada, estrategicamente pensada para tornar todos mais atraentes, transformava a cabana quase em um editorial da Vogue. Sobre a lareira monumental, a faixa WELCOME BACK, SENIORS exibia uma caligrafia impecável. Entre sofás de couro e tapetes persas, o bar ostentava garrafas que custavam mais que a mesada de Daphne, provando que Chloe possuía um toque de Midas para organização de festas. O local já estava apinhado de adolescentes, dançando e rindo a toa.

— Vou pegar bebidas pra gente! — gritou Chloe, sua voz quase sumindo sob a batida de Starboy do The Weeknd.

Ela nem chegou a dar três passos. Uma garota de tiara de flores surgiu do nada, agarrando o braço de Chloe com um semblante de pânico logístico. Daphne viu a amiga ser arrastada para um canto estratégico perto da cozinha, gesticulando sobre algo que parecia envolver gelo ou copos extras.

Daphne ficou sozinha no hall, sentindo o peso imediato do julgamento. O som do The Weeknd tornou-se ruído de fundo diante do silêncio da muralha formada pelos jogadores e suas acompanhantes.

A varadeura foi cirúrgica: os rapazes mediram a atitude; as garotas, ignoraram o rosto e foram direto aos pés. Sob as luzes âmbar, a lama na bota de combate gritava contra o tapete persa, e a mancha na manga parecia brilhar em neon. Uma loira apontou com o queixo, soltando um riso seco que selou o veredito: a garota da cidade estava fora de seu habitat.

O sangue de Daphne ferveu, subindo pelo pescoço. A vontade de cruzar os braços e esconder a mancha foi visceral. Ela se sentiu uma penetra suja invadindo o baile da realeza.

Não, pensou ela, endireitando a coluna até estalar. Daphne Deloria não se esconde.

A escritora dentro dela assumiu o controle. A sujeira não era um fracasso; era lore. Era a prova física de que ela havia descido às trincheiras de Wildale e sobrevivido para contar a história. Aquilo não era desleixo; era "grunge de batalha". Ela ergueu o queixo, varreu o grupo com um olhar de tédio absoluto e abriu o casaco deliberadamente, expondo o outfit e a atitude.

Que lidassem com isso.

Do outro lado da sala, perto do bar, Denis Montgomery observava a cena. Ele viu a irmã ser "sequestrada" e notou Daphne isolada no fogo cruzado dos olhares. Pegou dois copos que acabavam de ser servidos, trocou um aceno rápido com Chloe e rompeu a muralha humana.

Ele surgiu com a facilidade de quem é o dono da casa, vestindo uma camisa de flanela azul-marinho sobre uma camiseta branca, as mangas dobradas com um desleixo estudado. O cabelo castanho-escuro caía sobre a testa naquele estilo "acabei de acordar assim" que exige meia hora de gel na frente do espelho. Ele interceptou os olhares maldosos com sua presença solar.

— Daphne! Que bom que sobreviveu ao pântano. — Ele estendeu o copo da direita, rindo. — E boa ideia não vir de salto; o guincho da cidade está de folga hoje. Toma, você merece.

— Eu não deixo o terreno ditar meus passos. — Daphne pegou o copo, sustentando o olhar dele. A piada boba funcionou como um escudo melhor do que qualquer resposta arrogante. — Botas pesadas para tempos difíceis. É o meu lema.

Denis riu, um som fácil e genuíno. Mas logo seus olhos desviaram, olhando por trás das costas dela, segurando firmemente o copo extra na mão esquerda.

— E o resto do time? — perguntou ele, tentando soar casual. — Cadê o seu irmão? Achei que ele estaria logo atrás de você.

Uma pontada de irritação subiu pela espinha de Daphne, farta de explicar o martírio do irmão. — Ele não vem — cortou ela. — Preston tem um encontro inadiável com o silêncio.

O rosto de Denis murchou na hora. Ele baixou a cabeça, encarando o copo extra como um peso morto. A armadura de Daphne trincou. O gesto era patético e não batia com o vilão que Preston pintara.

— Denis… — começou ela, baixando o tom para furar a música —, trazer o Preston aqui é questão de sobrevivência. Ele precisa saber que não será devorado pela matilha. — Ela indicou o copo na mão dele com o queixo. — Ele precisa confiar que não vão soltar a mão dele quando os lobos chegarem. E confiança é mais difícil de conseguir que cerveja grátis, não acha?

Denis absorveu o golpe em silêncio.

— Entendi — murmurou. Ele virou o copo que seria de Preston de um gole só e se afastou, levando a rejeição consigo.

Daphne suspirou, sentindo o gosto amargo da vitória.

A música se tornou subitamente um ruído sufocante, então ela buscou um lugar mais silencioso, de preferência com um bom sinal de internet para sua presença ali não ficar apenas na narração.

Chloe estava sendo arrastada por um grupo de líderes de torcida para uma selfie no espelho do banheiro, então Daphne aproveitou a brecha. Deslizou por uma porta lateral de vidro, buscando o santuário do ar livre.

O choque térmico foi instantâneo. O ar da varanda dos fundos não estava apenas frio; estava vivo, úmido e cheirava a água profunda e pedras antigas.

O cenário era de uma beleza gótica que Daphne, se não estivesse tremendo, teria admirado. A varanda de madeira escura se estendia sobre um declive que descia para o Lago Champlain. A água era um breu infinito, denunciada apenas pelo som rítmico e pesado das ondas lambendo o cascalho lá embaixo. Não havia luzes artificiais ali, apenas a lua pálida lutando contra as nuvens de chumbo.

Daphne tirou o celular do bolso da jaqueta.

— Vamos lá, uma barrinha... só uma — murmurou, erguendo o aparelho como uma oferenda aos deuses do 5G.

A tela mostrava "Sem Serviço". Ela andou até o parapeito, esticando o braço sobre o abismo escuro do quintal. Nada. Ela bufou, frustrada, a nuvem de vapor de sua respiração se dissipando no escuro.

— Desiste, princesa.

A voz veio das sombras, grave e arranhada como cascalho.

Daphne deu um pulo, o coração batendo na garganta. Ela girou sobre os calcanhares, apertando o celular contra o peito como uma arma.

Num canto escuro da varanda, sentado em uma cadeira de balanço de madeira rústica, estava um vulto. A ponta laranja de um cigarro brilhou intensamente antes de diminuir, revelando, na penumbra, o rosto de Jeremy.

Ele estava sentado curvado na cadeira, como se quisesse sumir no breu. O casaco do time estava aberto, ignorando o frio que fazia Daphne bater os dentes.

Ele soltou a fumaça lentamente para o lado, os olhos fixos nela com um desprezo entediado.

— O sinal morre na linha das árvores — continuou ele, a voz monótona. — É o jeito da natureza dizer que ninguém lá fora se importa com onde você está.

Daphne levou um segundo para recalibrar. O susto cedeu lugar à irritação. Aquele era o gorila do vestiário. O brutamontes que havia ameaçado Preston. Ela endireitou a postura, recusando-se a parecer intimidada.

— Ou talvez a natureza só esteja tentando me poupar da companhia local — rebateu ela, a voz saindo mais firme do que esperava. — O que, convenhamos, é um favor.

Jeremy soltou um riso curto pelo nariz, sem humor. Ele tragou o cigarro novamente, mas, em vez de responder com outra grosseria, desviou o olhar para o lago. O perfil dele, iluminado apenas pela lua, parecia menos hostil e mais... cansado.

O silêncio esticou-se entre eles, preenchido apenas pelo barulho da água. Jeremy parecia ter esquecido que ela estava ali. Ele expirou a fumaça, olhando para a escuridão da floresta.

Eu fui para os bosques porque queria viver deliberadamente — murmurou ele, a voz baixa, quase inaudível, como se recitasse uma oração profana. — Não para caçar likes numa cabana chique.

Daphne travou. O cérebro dando um tilt.

Ela baixou o celular lentamente.

Walden? — A pergunta saiu num sussurro incrédulo. Ela deu um passo à frente, estreitando os olhos. — Você acabou de citar Henry David Thoreau numa festa de adolescentes?

O efeito foi imediato.

A postura relaxada de Jeremy desapareceu. Ele enrijeceu na cadeira como se tivesse levado um choque elétrico. A cabeça dele girou na direção dela, e, por uma fração de segundo, Daphne não viu o bully. Viu pânico.

Mas a recuperação foi rápida e violenta. Jeremy levantou-se num movimento brusco, a cadeira de balanço pegando o impulso e perigando bater na parede. Ele apagou o cigarro no parapeito, endurecendo a mandíbula até um músculo saltar em sua bochecha. Os olhos, antes distantes, voltaram a ser duas fendas de hostilidade.

— Li na traseira de um caminhão de lenha — rosnou ele, áspero. — Não viaja, garota.

Ele avançou em direção à porta, invadindo o espaço pessoal de Daphne. Ela teve que recuar um passo para não ser atropelada. Ele passou por ela como uma tempestade, cheirando a tabaco e frio.

A porta de vidro deslizou e bateu.

Daphne ficou sozinha na varanda gélida. O som da festa vazou por um momento e foi cortado novamente. Ela olhou para a porta fechada, depois para o lago escuro, o coração batendo num ritmo diferente agora. Algo cresceu nela: uma curiosidade voraz.

— Caminhão de lenha... — repetiu ela para o vento, um sorriso lento e perigoso curvando seus lábios. — Conta outra.

Ela guardou o celular. O sinal não importava mais. Ela tinha acabado de encontrar algo muito mais interessante do que a internet.

Ao deslizar de volta para o interior do chalé, a quietude do lago foi instantaneamente engolida. O ar quente a atingiu como uma parede sólida de madeira, perfume caro e hormônios adolescentes.

— Você estava aí!

Chloe emergiu da multidão como uma náufraga avistando terra firme. Desvencilhou-se de um grupo de garotas perto da escada e espremeu-se entre dois sofás de couro, segurando dois copos vermelhos como se fossem troféus de guerra.

— Achei que tinha resolvido dar um mergulho no lago gelado.

O séquito atrás de Chloe soltou risadinhas agudas e imediatas, um coral treinado. Daphne apenas arqueou uma sobrancelha, achando a adulação escrachada, mas manteve o sorriso para a amiga.

— Quase. — Daphne aceitou o copo, o tom de voz pingando ironia. — Mas o vermelho do meu casaco combina mais com o marrom da lama do que o azul da hipotermia.

Chloe riu, dessa vez genuinamente, e relaxou os ombros. Ela parecia estar no controle, mas alguns fios de seus cabelos negros haviam escapado do laço de veludo vermelho, dando-lhe um ar levemente desconstruído de quem trabalhara duro nos bastidores. Atrás dela, o séquito anterior mantinha a formação, ainda rindo um pouco alto demais, lançando olhares furtivos para a novata merecia a atenção exclusiva da anfitriã.

— Nem consegui te agradecer direito e, claro, o mais importante, te elogiar. A organização está impecável, Chloe. — Daphne correu os olhos pelo teto catedral. — Luz âmbar indireta nas vigas para aquecer o ambiente, caixas de som escondidas atrás dos arranjos para não quebrar a estética... — Ela ergueu o copo num brinde sutil. — Isso não é Pinterest. Isso é visão. A vibe está intimista, mas grandiosa.

Os ombros de Chloe relaxaram visivelmente, como se ela tivesse passado num teste oral surpresa. Uma das garotas do grupo tentou se aproximar para sussurrar algo, mas Chloe apenas tocou o antebraço dela sem desviar os olhos de Daphne, um gesto suave, mas firme, de "agora não".

— Obrigada! — Chloe brilhou. — É difícil fazer esse pessoal entender que o segredo não é o exagero, é a iluminação certa.

Ao redor delas, a festa pulsava. Tapetes enrolados revelavam o assoalho de madeira nobre transformado em pista. Não era uma balada de Manhattan, mas o grave da música fazia as janelas panorâmicas vibrarem.

Elas se moveram para a orla da pista. O "time" de Chloe formou um semicírculo protetor nas costas delas; quando um garoto bêbado tropeçou na direção de Daphne, duas dessas garotas fecharam o espaço sutilmente, bloqueando-o com as costas como seguranças de boate disfarçadas de socialites do interior. Daphne notou a dinâmica e sorriu, balançando os ombros no ritmo. Estar com a irmã dos Montgomery tinha seus privilégios.

No centro do salão, perto da lareira de pedra maciça, estava Denis.

Ele não precisava chamar atenção; a gravidade da festa o orbitava. Mesmo sem o uniforme de capitão, sua postura ocupava espaço. Ele ria com a cabeça jogada para trás enquanto um colega do time gesticulava freneticamente, exibindo aquele carisma natural que fazia a sala inteira parecer menor quando ele estava presente.

Mas, fora daquela órbita, havia Jeremy.

Apoiado no corrimão da escada, ele segurava uma garrafa de cerveja pelo gargalo, arranhando o rótulo úmido com a unha do polegar, num gesto repetitivo de provável tédio. Por uma fração de segundo, os olhos dele encontraram os de Daphne. Havia um peso naquele olhar cinzento, uma âncora no meio da leveza fútil da festa. Ele piscou, quebrando a conexão, e voltou a encarar o vidro marrom como se contivesse os segredos do universo.

— Elas são ridículas, não são?

A voz de Chloe a acordou. Daphne acompanhou o olhar da amiga. Ela estava falando das líderes de torcida.

Elas tinham acabado de chegar, já se posicionando próximas demais de Denis, como penduricalhos humanos. Batiam cabelo e faziam movimentos exagerados, rindo alto demais para piadas que ninguém tinha contado.

Daphne arqueou a sobrancelha, achando a cena patética. Chloe, notando a direção do olhar da amiga, percebeu o que estava acontecendo.

Quando as líderes perceberam que eram observadas pela anfitriã e pela novata, a loira do centro cochichou algo e o grupo explodiu numa risada performática, virando os rostos na direção delas.

— Estão nos medindo — constatou Chloe, girando o anel no dedo com uma frieza calculada. — Acham que você veio roubar a cena. — Ela olhou para Daphne, os olhos verdes estreitando-se minimamente. — Quer que eu faça algo a respeito?

Daphne soltou uma risada curta, sentindo o álcool aquecer a garganta. A oferta de Chloe não era uma bravata; era o poder real de quem segurava as chaves do reino social de Wildale. Mas Daphne não precisava de guarda-costas.

— Não precisa, querida. — Daphne pousou a mão no ombro dela. — elas são sardinhas se achando tubarões. Deixa elas sonharem.

Nesse momento, a playlist mudou. A batida grave e arrastada de Paint The Town Red começou a preencher o chalé, vibrando no assoalho.

Daphne olhou para as líderes de torcida. Elas tentaram adaptar o rebolado genérico ao ritmo quebrado da Doja Cat. Sabiam dançar, tecnicamente falando, mas não tinham alma. Era mecânico. Uma contagem de passos sem a atitude necessária.

— Que desperdício de beat — murmurou Daphne, virando-se para Chloe. — Você conhece a coreografia, não conhece?

Os olhos de Chloe se arregalaram levemente.

— Eu... eu sei. Mas nunca fiz fora do meu quarto.

— Elas estão assassinando a música, Chloe. É uma ofensa pessoal. — Daphne pousou o copo numa mesa lateral com um baque surdo.

Rapidamente, ela tirou o casaco de veludo vermelho e o amarrou firmemente na cintura, escondendo a mancha de lama na manga e, ao mesmo tempo, criando uma silhueta mais urbana. Em seguida, num movimento discreto sob o tecido amarrado, soltou o botão da calça jeans rígida que fora sua algoz há algumas horas, prendendo-o com um elástico de cabelo que trazia no pulso para ganhar a mobilidade necessária.

Estava pronta.

— Vamos ensinar como se faz.

— O quê? Lá no meio? — Chloe hesitou por um milésimo de segundo. — Daphne, eu sou a anfitriã, eu deveria ficar aqui e…

— Chloe, você é linda, essa é sua casa, e você é uma Montgomery. — A voz de Daphne era um segredo compartilhado no meio do barulho. — Mas rainhas que ficam apenas sentadas no trono não são respeitadas, Chloe. Às vezes, elas precisam descer para o campo de batalha e lembrar a todos quem é que manda.

Chloe inspirou fundo. Olhou para as líderes de torcida performáticas, depois para a mão estendida de Daphne. Algo mudou em sua postura. O receio deu lugar a uma arrogância divertida. Ela virou o resto da bebida num gole só, bateu o copo na mesa e estalou os dedos.

— Vamos nessa.

A entrada delas na pista não foi um pedido de licença, foi uma invasão. Daphne caminhou com a coluna ereta, jogando os cachos volumosos para trás, e as pessoas simplesmente abriram caminho como o Mar Vermelho.

Assim que o refrão explodiu — "Bitch, I said what I said" — elas não precisaram de contagem.

Daphne liderou com precisão profissional, cada isolamento de quadril e ombro cravado no tempo exato da batida, a bota pesada e suja de lama batendo no chão com autoridade. E Chloe... Chloe se transformou. A garota de porcelana evaporou, substituída por uma energia reprimida que eletrizou o ar. O contraste entre a morena cínica de Nova Iorque e a herdeira pálida de Vermont era hipnótico.

Num giro, Daphne viu Denis. Ele tinha parado a conversa no meio da frase. Estava encostado na lareira, batendo palmas no ritmo, um sorriso genuíno rasgando o rosto enquanto apontava a irmã para o amigo ao lado.

O grupo das líderes de torcida murchou. A loira do centro cruzou os braços, descruzou, mexeu no cabelo e, finalmente, puxou o celular da bolsa, fingindo subitamente que tinha uma mensagem urgente para responder. O palco tinha sido roubado.

Quando a música terminou na pose final, o chalé explodiu em assovios e gritos.

Daphne passou a mão pelo cabelo, recuperando a compostura real, e projetou a voz na direção do time de hóquei, superando o barulho:

— Alguém anotou o placar? Porque eu acho que isso foi gol para os Flatlanders.

Chloe agarrou o braço de Daphne, puxando-a para longe do centro, gargalhando tanto que mal conseguia andar.

— Daphne, você é louca! Na cara delas? Na frente do time todo?

Daphne sorriu, a adrenalina zumbindo nos ouvidos, o jeans aberto seguro pelo elástico e pelo casaco na cintura. Ela olhou para cima. Jeremy ainda estava na escada, imóvel, observando. Depois olhou para Denis, que ergueu o copo vermelho em direção a elas através da sala.

— Amiga, ser alvo no jogo de queimado foi alguma coisa — Daphne piscou, irônica. — Mas ser alvo na pista de dança combina melhor com o meu estilo.

Longe das luzes neon e do grave abafado da festa onde ocorria a coroação da irmã, o quarto estava mergulhado em um breu quase absoluto. A única fonte de iluminação era um feixe pálido e frio de luz da lua que atravessava a claraboia, cortando o ar e desenhando um quadrado prateado sobre o piso de madeira rústica. Deitado de costas, com os olhos cravados no teto, um Preston insone travava uma guerra silenciosa e inútil contra a própria mente.

Ele encarava a lua, calculando a relatividade do tempo com base na translação dos astros menores. Tentava convencer a si mesmo de que a insignificância de algumas horas insones, em um ano de 365 dias, era risível perante a grande trama de um universo em expansão. Todo aquele sofrimento deveria ser inútil, um mero piscar de olhos cósmico. Afinal, perder o sono de madrugada, lamentando a efemeridade da vida humana em uma cidadezinha subpovoada, era estatisticamente ridículo.

Mas sua própria mente o traía. Ela viajava como um satélite cruelmente programado para entrar na órbita dos acontecimentos mais mundanos possíveis, sendo puxada pela gravidade de um indivíduo que tinha sua existência inteira centrada em hóquei e popularidade local. O raciocínio percorreu a rota inevitável do desastre: as vitórias isoladas de Preston na aula de matemática e na educação física, seguidas pelo desastre absoluto no vestiário e pela discussão com a pessoa mais próxima e, paradoxalmente, a mais distante no universo: sua irmã gêmea.

A mesma irmã que tivera a brilhante ideia de entregar seu Instagram secreto de bandeja para o tal capitão do time, afim de fortalecer uma amizade imaginária. O indivíduo que o havia salvado de diversas boladas na quadra, apenas para acertá-lo com um golpe cruel no vestiário, sob o escrutínio de todo o time. A raiva crescia em progressão geométrica. O ácido clorídrico em seu estômago ferveu como em uma reação exotérmica. Ele fechou os olhos contra o brilho lunar e tentou algum exercício de respiração, mas a batalha já estava perdida.

Preston esticou o braço no escuro, sem precisar tatear, e pegou o celular na mesa de cabeceira. A luz azulada da tela explodiu em seu rosto moreno, fazendo-o semicerrar os olhos.

Ele sabia exatamente o que encontraria. O ato de destravar a tela era, afinal, a sua rendição à curiosidade galopante e total perda de controle.

Ele abriu o aplicativo. Seu perfil era um autêntico deserto digital: sem foto, zero postagens. Um feed alimentado estritamente por institutos de pesquisa, revistas científicas e, por uma obrigação contratual da genética, Daphne, sua única seguidora e a única pessoa que ele seguia de volta. Um observatório puramente analítico.

No canto superior, o ícone de notificações exibia o esperado ponto vermelho. Uma solicitação de amizade. Uma mensagem direta pendente. Nenhuma surpresa.

Mas o que paralisou os polegares de Preston, a variável anômala que não constava em seus cálculos, não foram os pedidos. Foi o contorno verde neon na barra superior, um anel isolando a foto perfeitamente estética de Denis.

Melhores Amigos. O cérebro de Preston entrou em curto-circuito. Por que o capitão do time de hóquei, o garoto mais idolatrado de Wildale, colocaria o novato esquisito, que sequer havia aceitado sua solicitação de amizade ainda, em uma lista VIP e íntima? A equação não fazia sentido. Tinha que ser uma piada interna. Uma armadilha.

O choque era excessivo para que ele pudesse calcular as consequências de sua ação a seguir. A curiosidade gritava, rompendo o silêncio da sua lógica. Ele tocou no círculo verde.

A imagem preencheu a tela. Denis desafiava a entropia da festa, vestindo uma flanela azul sobre camiseta branca com as mangas dobradas num desleixo planejado. O cabelo castanho caía curto sobre a testa num caos artificial, enquanto a pele pálida contrastava agressivamente com os olhos negros e o sorriso largo que ele usava como máscara social.

Por um milissegundo, o sistema de Preston falhou. O coração saltou uma batida, uma taquicardia que ele prontamente atribuiu à fúria pela perfeição descuidada daquele indivíduo. Mas, antes que a biologia o traísse, a guilhotina do intelecto silenciou o impulso, restando apenas um desprezo gélido.

Exibicionismo barato, Preston concluiu, os dentes trincados. Um algoritmo social óbvio, desenhado para pescar reações. Denis estava apenas testando o alcance de sua influência sobre uma amostra estatisticamente irrelevante.

Um toque na tela e o próximo Story carregou. No centro da tela, sob luzes piscantes e a vibração de graves abafados, estava Daphne. Ela dançava no meio de uma roda, o cabelo brilhando sob a iluminação, rindo e dominando completamente as atenções. Perfeitamente integrada. Perfeitamente amada. Na parte inferior do vídeo de quinze segundos, uma legenda digitada por Denis: "A novata ensinando como se faz".

Preston parou de respirar. O ódio quente foi instantaneamente substituído por uma frieza calculista enquanto sua mente conectava os pontos da pior maneira possível.

Denis não estava estendendo um ramo de oliveira. Denis não estava interessado em ser amigável. Denis estava de olho em Daphne. O vídeo deixava isso claro. A aproximação bizarra no vestiário, a insistência, a inclusão absurda nos Melhores Amigos... tudo isso havia sido apenas uma ponte. Um meio tático de acessar a irmã de Preston.

Ele bloqueou a tela e jogou o celular na mesa de cabeceira. O impacto seco pareceu um tiro no silêncio do quarto.

Restou somente a luz da lua brilhando sob a claraboia e desenhando um padrão quadrado no chão. Preston não se mexeu. Permaneceu deitado, o peito subindo e descendo em um ritmo lento e controlado. Deixou o silêncio da madrugada envolvê-lo, meditando sobre a informação. Calculando. O relógio avançava, e ele sabia que, em algum momento, a euforia de Daphne acabaria e ela tentaria voltar para casa de fininho, como um ladrão.

E ladrões não ligavam luzes e nem faziam barulho.

Na teoria.

A noite de Wildale tinha aquele tipo de frio que cortava a pele, mas Daphne mal sentia a temperatura. Seu corpo inteiro ainda vibrava, ecoando os graves das caixas de som da festa como se ela tivesse engolido um alto-falante. Sua primeira festa na cidadezinha tinha sido gloriosa, isso ninguém poderia discutir, e o calor da vitória a protegia do frio muito mais do que qualquer máquina aquecedora em mansões de luxo em Vermont.

O trajeto do carro de Chloe até os fundos da casa foi feito em modo furtivo, sem tropeços na lama desta vez. Daphne se sentia a protagonista que invadira a biblioteca do Vaticano, roubado alguns pergaminhos altamente secretos e retornado com vida. Na sua cabeça encharcada de adrenalina e algumas doses de batidas de fruta, ela era letal, silenciosa e invisível. A realidade, no entanto, era um pouco menos glamorosa: sua jaqueta vermelha cheirava a uma mistura de suor, fumaça de cigarro e perfume doce, suas botas estavam empapadas de uma lama pantanosa de procedência duvidosa e ela precisou desabotoar novamente o jeans para conseguir escalar melhor.

A descida pela treliça algumas horas atrás havia sido um desastre desajeitado, mas a subida agora parecia fluir. A autoconfiança etílica e o botão aberto da calça lhe davam uma mobilidade surpreendente. Ela conhecia aquele caminho. Seus pés encontravam os apoios certos quase por memória muscular. Em sua mente, ela havia criado o roteiro perfeito de uma infiltração bem-sucedida.

Daphne alcançou o telhado da varanda. Com um empurrão suave, deslizou a janela de guilhotina para cima e passou a primeira perna para dentro do quarto.

O ambiente era um breu absoluto. Nenhuma fresta de luz.

Ela puxou a outra perna, firmando as botas no assoalho de madeira, confiante de que o trajeto até a cama estava milimetricamente decorado em sua mente. Era só dar três passos retos, desviar do tapete para alcançar seu leito.

Ela deu o primeiro passo.

O solado de sua pesada bota Dr. Martens colidiu violentamente contra a perna de uma cadeira de acrílico.

O peso do seu corpo e a força do impacto inesperado empurraram a cadeira com brutalidade para trás. O encosto transparente chicoteou contra a quina da penteadeira.

O que se seguiu foi uma cacofonia desastrosa.

Frascos de vidro grosso de perfume, a paleta de sombras importada, dois copos cheios de pincéis de maquiagem e o pesado espelho de mão rolaram para a beirada da mesa e despencaram em uníssono. Em uma casa de madeira perfeitamente silenciosa no meio do nada, o som do vidro estilhaçando e dos objetos plásticos quicando contra o chão soou como a detonação de uma granada.

Daphne congelou.

O coração subiu pela garganta, batendo tão forte que ela achou que as costelas iriam trincar. No silêncio mortal que se seguiu ao estrondo, sua mente analítica disparou, tentando processar o furo no roteiro. A cadeira não deveria estar ali. Ela tinha quase certeza de que o caminho estava livre. Mas então, a dúvida a atingiu: a pressa da fuga horas antes fora um borrão de adrenalina. Talvez ela mesma tivesse arrastado o móvel para conseguir pular a janela e simplesmente esquecera de reposicioná-lo.

Cercada pelos cacos invisíveis de sua própria vaidade e pelo cheiro forte e enjoativo de perfume floral que explodia no ar, ela sentiu o terror paralisante se transformar em súplica. Daphne cerrou os olhos com força e prendeu a respiração, implorando a qualquer deus, santo ou anjo disponível esse horário que o pai tivesse o sono absurdamente pesado de um urso hibernando.

O universo não atendeu ao pedido.

Bum. Bum. Bum.

Passos. Não eram passos arrastados de alguém que acordou grogue para beber água. Eram passos pesados, rápidos e furiosos, fazendo o corredor de madeira tremer.

Daphne mal teve tempo de recuar um centímetro. A porta do quarto foi escancarada com um estrondo violento contra a parede.

A luz amarela do corredor invadiu o breu, recortando uma silhueta aterrorizante na soleira. Rupert estava ofegante, o rosto pálido e os olhos arregalados de puro instinto de sobrevivência. Nas mãos grossas e calosas, ele segurava um taco de hóquei erguido na altura do ombro, pronto para desferir um golpe letal no possível invasor que havia entrado na casa de seus filhos.

Com um movimento rápido da mão livre, Rupert bateu no interruptor da parede.

A luz de teto fluorescente piscou e acendeu, impiedosa.

Os olhos de Rupert, ainda selvagens, varreram o cenário em busca da ameaça. Eles passaram pela cama, onde um monte de travesseiros muito bem arrumados sob as cobertas simulava um corpo adormecido, a prova cabal do crime premeditado. Depois, desceram para o chão, onde uma poça de perfume brilhava em meio a uma constelação de vidro quebrado, pó de maquiagem e pincéis espalhados.

Por fim, o olhar dele encontrou Daphne.

A invasora do Vaticano estava encolhida perto da janela. O rosto perfeitamente maquiado contrastava de forma patética com o cabelo desgrenhado, a jaqueta suja, o botão da calça escancarado e as botas cobertas de lama seca.

A mudança em Rupert foi instantânea. Toda a postura defensiva desmoronou. O terror instintivo de perder um filho sumiu de seus olhos, sendo drenado lentamente para dar lugar a algo muito pior. Uma decepção fria, silenciosa e devastadora.

Ele não gritou. Não perguntou onde ela estava. Os ombros largos do técnico de hóquei cederam e o taco de fibra de carbono escorregou lentamente até a ponta tocar o chão de madeira.

Daphne engoliu a seco, sentindo a garganta arranhar. Ela sustentou o olhar do pai, desesperada por uma bronca, por um grito, por qualquer punição que fosse menor do que aquele olhar de total quebra de confiança.

Mas nenhuma palavra foi dita. O silêncio que se instalou no quarto era mais cortante do que todos os vidros no chão.


Notas finais
E aí, vocês acham que a Daphne se safa dessa?