O Diário dos Números

5 Capítulo 4 - Pedacinho de Sol no bolso


Notas iniciais
E aí (desviando de tomates)! Estou de volta! Perdão pelo sumiço. Eu fraturei minha fíbula e tive que operar. Mas estou de volta, firme e forte! E esse capítulo tem coisas importantíssimas acontecendo...

Música tema: Pocketful of Sunshine — Natasha Bedingfield


Quando o refrão estridente de "Pocketful of Sunshine" perfurou seus ouvidos, Preston soube que havia algo de errado. Seus olhos âmbar se arregalaram, confirmando o terror. O teto com o lustre cheio de lantejoulas multicoloridas nunca estaria em seu quarto. Num pulo, sentou-se e esmurrou o despertador de gatinho que sorria sádico para ele.

​A cama de colchão rosa almofadado, os pôsteres de divas pop e os diversos espelhos multiplicando aquele arco-íris invadiram sua visão como um carro de sorvete entrando em um escritório de advocacia. Mas, apenas quando ele identificou a origem do enjoativo perfume floral, sua mente começou a recobrar os acontecimentos da noite anterior.

​A cadeira que ele havia ajustado para causar a tragédia ainda continuava caída próxima à janela. Um deslocamento exato de quarenta centímetros para a esquerda garantira que a tíbia de Daphne interceptasse a madeira no exato ângulo do seu ponto cego durante o pulo no escuro. Havia uma névoa tóxica de pó de mica cintilante no ar e o frasco de perfume destroçado no chão. A gêmea, como planejado, fora pega. Sem a evidência daquele reposicionamento geométrico, Preston não poderia ser envolvido com a derrocada da irmã, parecendo apenas o carma agindo da forma mais pura e precisa. Porém, o castigo aplicado pelo pai falhou na equação básica, retornando contra si como um vetor de força em sentido exato e oposto.

​Rupert perdera a inocente confiança na gêmea ardilosa. Não bastou decretar o fim das caronas com Chloe Montgomery. Daphne era uma fera selvagem astuta demais para ficar livre na reserva florestal. Precisava de jaulas. O quarto de Preston, no sótão com a janela capelinha no teto, servia ao exato propósito de evitar fugas fáceis. E, por consequência, jogar Preston no quarto da irmã pareceu ao pai uma troca sensata.

​Mas não era.

​Claro, Preston gostou de ver Daphne castigada, porém odiou perder seu quarto, o único lugar onde tinha paz. A injustiça de fazer o certo e receber como prêmio ficar sem seu quarto o deixava louco.

​Mas não havia jeito. Rupert tinha a maleabilidade de uma bigorna. Não houve protesto, lógica ou súplica do rapaz que o fizesse mudar de ideia. E então ali estava o gêmeo, acordando no quarto de Daphne, onde ficaria por um mês.

​O garoto pegou as roupas na mala que havia feito às pressas na madrugada e se arrumou o mais rápido que pôde, a fim de não morrer asfixiado pelas moléculas odoríferas daquele perfume doce e alérgeno incrustado no tapete.

​Quando Preston chegou à mesa do café, encontrou uma Daphne vestindo um moletom cinza sem formato e jeans retos. Era uma visão tão monótona que destruía sua persona performática. Ela comia calada e desconfiada, como um gato que acabara de receber uma agulhada na traseira. Rupert lavava a louça do café e não se virou quando o filho puxou a cadeira.

​O clima da viagem de carro até o colégio foi tal qual um funeral viking. Ao descerem e se verem no meio dos outros estudantes, Daphne tentou falar algo para o irmão, mas ele não deu oportunidade. Virou as costas e a deixou sozinha. Ela fora para aquela festa entendendo e concordando que o local estava cheio de pessoas que os odiavam, arriscando a paz de ambos.

​Ela o traíra, e agora colheria algo que para Preston era um prêmio e para ela uma maldição: a solidão.

​Apesar de a solitude ser algo muito desejável para o gêmeo Deloria, os dados de quatro faces da escola em Wildale pareciam viciados nas opções ruins. Hoje o resultado fora "arremessar Preston no meio de dezenas de desconhecidos e observar no que ia dar" (o dia anterior havia sido "confiná-lo com um conhecido indesejado").

​Embora a disciplina de Física tenha sido densa e tomado parte do segundo bloco, a optativa de Economia transcorreu rápida e monótona. Como consequência, o garoto caiu no primeiro intervalo, aglomerado junto aos atletas, líderes de torcida e à realeza escolar. Sob essa promessa desestimulante, avançou para o refeitório.

​O vasto salão exibia um cenário bem diferente da calmaria do terceiro horário do dia anterior. As mesas, antes vazias, encontravam-se tomadas. A cacofonia de vozes, talheres de metal raspando no plástico, bandejas esvaziadas e cadeiras arrastadas obliterava qualquer raciocínio coerente. Era o caos destilado. Contudo, Preston sabia que todo sistema de massas tinha um centro de gravidade.

​No centro geométrico do salão, sob a convergência das luzes dos janelões e da lâmpada, uma mesa era povoada por rapazes com moletons azuis-claros prateados exibindo um "W" enorme nas costas e garotas com camisas do mesmo tom com o símbolo do lobo. No centro da mesa estava Denis Montgomery. Era como a Santa Ceia adolescente. O garoto sorria calorosamente, rodeado de colegas. A sua jaqueta varsity estava amarrada na cintura e a camisa branca quase estourava em seu tronco encorpado. Era a definição da visão nauseante.

​Contudo, havia uma cadeira vaga em seu lado esquerdo e Preston descobriria em breve, da pior maneira, quem era seu ocupante.

​Da fila de estudantes barulhentos, Preston viu Daphne e Chloe a caminho da fila, que a essa altura já dava duas voltas em si mesma. No automático, virou de costas para elas e continuou na fila, dessa vez encarando o chão. Após conseguir sua refeição nutritiva e balanceada (almôndegas com molho industrial, legumes recém-descongelados e batatas fritas requentadas), mirou as mesas isoladas no canto oposto à janela e seguiu como pôde, desviando da maré de alunos impacientes.

​Focar no destino, no entanto, cegou sua visão periférica. Próximo à mesa dos Wolves, a correnteza de alunos se abriu abruptamente, revelando uma barreira sólida de músculos e tecido azul no meio do trajeto. O indivíduo à frente não alterou a rota nem desviou um milímetro, apenas ancorou a postura no piso, aguardando o choque causado pela desatenção alheia.

​O ombro de Preston colidiu violentamente contra a muralha.

​A energia cinética transferiu-se de forma implacável. A bandeja voou de suas mãos, espatifando-se no piso engordurado, e o garoto despencou, usando o joelho e a palma da mão para prevenir o pior.

O burburinho das conversas ao redor silenciou por uma fração de segundo, logo substituído por risadas agudas. O calor da humilhação subiu pelo pescoço de Preston, latejando nas têmporas. Ele ergueu o rosto.

​Do alto de seus quase dois metros, os olhos acinzentados de Jeremy Houston o fitavam. Com as mãos afundadas nos bolsos da jaqueta do time, o loiro não moveu um único músculo e tampouco sorriu. Ele analisou o desastre com a apatia de um espectador diante de uma obra insignificante e retomou sua marcha.

​Os olhos do novato arderam. O ruído do refeitório foi abafado pela batedeira furiosa em suas costelas enquanto ele encarava as almôndegas esmagadas sob as botas alheias. Firmou as mãos no chão sujo e içou o próprio corpo num solavanco rápido.

​Mas uma voz conhecida se sobressaiu aos sons de seu organismo, ordenando que alguém pegasse a bandeja e chamasse a limpeza. E logo em seguida uma mão grande e quente pousou firmemente em seu ombro. Preston olhou.

​Denis perguntando se Preston estava bem.

Denis sugerindo buscar outro prato.

Denis apertando o ombro do garoto, no meio de uma plateia agora silenciosa.

​Preston fechou a cara imediatamente. Seu cérebro agora funcionando em pleno vapor sob a fúria. Seu primeiro ato foi bater na mão de Denis, empurrando-a de seu ombro como quem afasta uma aranha venenosa. O capitão piscou, confuso.

​— Por favor, não ofende a minha inteligência — Preston disparou, a voz baixa, mas afiada o suficiente para cortar a pose do outro. — Se fingir de amigo é pior do que me derrubar no meio de todo mundo.

​Sem aguardar a resposta, Preston deu as costas. Marchou ignorando as almôndegas espalhadas em direção à saída. No entanto, Denis continuou ali parado, o rosto adotando um tom violentamente avermelhado.

​O capitão foi direto até Jeremy, que sentava na mesa dos campeões. O loiro estava prestes a começar sua refeição quando Denis aterrissou ao seu lado, ereto e aprumado, como um falcão mirando numa cobra, ele arqueou as sobrancelhas.

​— Quer um pouco do meu molho?

​— Jeremy, você às vezes esquece que eu sou o Capitão do Time de Hockey da cidade?

​Ouviu-se um “uhuhuw” da mesa. Os outros caíram em silêncio, certamente observando, atentos.

​— Um rei que precisa dizer que é rei não é rei de verdade...

​Denis não estava com paciência para encarar o jogo de palavras de Jeremy.

​— Corta essa. Eu vi o que você fez. Essa foi a primeira e última vez que você cresceu para cima do novato.

​Jeremy deu um sorriso um tanto viperino.

​— Ele tropeçou por pura falta de coordenação, majestade. Além do que… Você manda na gente só no Rinque. Fora de lá, eu faço o que eu bem entender.

​O moreno suspirou profundamente.

​— Bem, você pode fazer o que quiser mesmo, mas enquanto eu for Capitão, os meus jogadores sofrem consequências dos seus comportamentos fora do Rinque também. Já temos fama de babacas, não precisamos dar mais razão.

​Jeremy deixou esmaecer um pouco a feição brincalhona.

​— Sabe, Denis, eu simplesmente não entendo essa devoção toda por “eles” (era óbvio que Jeremy queria dizer novamente Flatlanders, mas não na frente do colégio todo). Tudo pela gata? Que desesperado…

​— Não, Jeremy. Eu não preciso estar a fim de alguém para não permitir um Bullying tão descarado (Jeremy revirou os olhos). Você esquece também que “eles”... — Denis se aproximou quase sussurrando — São filhos do nosso técnico.

​— Sinceridade pura, então. — Jeremy largou os talheres na mesa e empurrou o prato, fazendo barulho de propósito, virando-se levemente. — Eu sou seu braço direito, nós somos os melhores jogadores do time. E estamos na pré-temporada. Eu tenho a impressão de que me prejudicar no rinque vai prejudicar o time inteiro.

​O oxigênio no entorno pareceu escassear. A audiência mantinha-se petrificada.

​Denis massageou a têmpora. Estava vermelho novamente, mas dessa vez não era vergonha. Deu um segundo para meditar e então se aproximou perto o suficiente para sussurrar algo que ninguém mais ouviu além do loiro.

​Isso surtiu efeito. Jeremy se pôs de pé instantaneamente. A diferença de altura era gritante.

​Os olhos azuis do enforcer sustentaram os negros do Capitão. Jeremy tinha a feição lívida.

​— Que coisa baixa, Montgomery.

​— Posso ser baixo com você, que é mais baixo ainda. — falou Denis, em voz baixa.

​O loiro não dissemais nada. Em um silêncio de carrasco, virou-se e deixou a mesa, deu o fora do refeitório, deixando a comida pela metade.

​Daphne e Chloe podem não ter visto exatamente o que aconteceu, devido à fila e ao mundaréu de gente do primeiro horário do intervalo. Mas Chloe notara alguma anormalidade no comportamento da multidão e sentiu, acertadamente, que Denis estaria no meio disso. Foram até o encontro do irmão Montgomery, que se encontrava sentado ainda comendo, concentrado. Todos da mesa estavam calados.

​— O que houve? — quis saber Chloe.

​Denis suspirou. Deu uma breve explicação, parecendo exausto. E antes que Daphne falasse algo, o garoto acrescentou:

​— Jeremy está avisado. Nosso time não é assim. Seu irmão será deixado em paz.

​— E o Preston?

​— Sumiu. Não quis minha ajuda.

​Daphne sustentou o olhar com Denis, sabendo exatamente o que se passava na cabeça dele. E, apesar de estar extremamente chateada pelo irmão não acompanhá-la na festa de ontem e ter que usar tons de cinza hoje para comunicar seu estado de espírito, ela não poderia abandonar o seu gêmeo. Agradeceu a Denis, engoliu um pouco da comida e avisou a Chloe:

​— Bem, vamos ao resgate do Bicuço. Alguém precisa tirar aquele garoto da Torre.

A Deloria seguiu acelerada pelos corredores, tendo apenas quinze minutos de intervalo restando. Aquele evento do refeitório devia ter ativado o modo de autodestruição de Preston. Ele exigia isolamento acústico absoluto para remoer seu ódio e ela sabia exatamente onde procurá-lo.

A biblioteca do Wildale Regional High School até tentava disfarçar sua idade com uma ilha de computadores modernos e totens de pesquisa na entrada, mas o fundo do salão não. Longe do brilho das telas, o cheiro crônico de papel envelhecido, cera de chão barata e poeira suspensa criava uma atmosfera de asfixia silenciosa (as lâmpadas fluorescentes no teto baixo coroavam com uma pitada de sanatório). Era, sem dúvida, o habitat natural perfeito para um Preston Deloria em fuga.

​Daphne dobrou pelos corredores estreitos entre as estantes de metal verde-musgo, deixando o zumbido dos computadores para trás. O celular em sua mão exibia três mensagens não lidas enviadas ao irmão, todas pairando no vácuo digital. Após o desastre relatado por Denis no refeitório, a gêmea sabia que a lógica de Preston ditava o local mais isolado possível da biblioteca.

​Ela chegou à esquina da última fileira, a seção de Literatura Britânica do Século XIX, um corredor sem saída que cheirava a mofo e esquecimento, onde nenhum aluno de Wildale pisava por livre e espontânea vontade. Ela conseguia imaginar o irmão, sentado ali, dramático, com os fones, lendo alguma coisa de álgebra.

​Mas foi o inimaginável que a gêmea avistou.

​A figura espremida no canto, sentada no carpete encardido com as costas apoiadas no aquecedor de ferro fundido, não vestia o moletom terroso de Preston. Vestia a jaqueta varsity azul-celeste e creme. Os ombros largos ocupavam quase todo o espaço entre a estante e a parede.

​Jeremy Houston estava ali.

​Ele não estava dormindo, nem matando aula olhando para o celular. Estava lendo. E altamente concentrado. O livro de bolso em suas mãos grandes parecia absurdamente frágil, as páginas amareladas sendo viradas com um cuidado que contrastava violentamente com a brutalidade que ele demonstrou na quadra, na festa ou em seu ato no refeitório.

​Daphne recuou meio passo, dominada por uma súbita dissonância cognitiva. O valentão da escola escondido na última fileira da biblioteca lendo ficção clássica era um furo de roteiro que ofendia seu senso de estrutura narrativa.

​Ela semicerrou os olhos, ajustando o foco para a capa gasta do livro. O Morro dos Ventos Uivantes.

Daphne não conseguiu resistir. O instinto de proteção pelo que ele fizera com Preston mais cedo engatilhou a arma, e o intelecto puxou o gatilho.

​— Heathcliff — a voz dela cortou o silêncio empoeirado, afiada e fria. — Faz todo o sentido. Estudando as referências bibliográficas para aprimorar a sociopatia?

​Jeremy quase derrubou o livro. O movimento foi brusco, os ombros batendo contra o metal do aquecedor. Quando se recuperou do susto, a fitou com o olhar cinzento e hostil de predador encurralado. Ele fechou o livro com um estalo seco, cobrindo a capa com a palma da mão gigante como se pudesse esconder a evidência.

​— Você tem um radar para lugares onde não é bem-vinda, não é, garota? — a voz dele saiu áspera, num sussurro agressivo para não atrair a bibliotecária.

​Daphne não recuou. Pelo contrário, ela encostou o ombro na estante lateral, cruzando os braços sobre o peito. A luz amarelada acentuava a superioridade de seu sorriso cínico.

​— ... Apesar de tudo, é uma leitura previsível para o seu arquétipo, Houston. O bruto incompreendido. — Daphne continuou, ignorando o que Jeremy tinha dito. Ela destilou o veneno, a lembrança da bandeja de Preston no chão do refeitório alimentando a acidez. — Todo mundo finge que o Heathcliff é um anti-herói romântico e complexo, mas no fundo... ele é só um sádico covarde que usa o próprio trauma como desculpa para torturar quem é mais fraco. Uma ótima inspiração para derrubar novatos no refeitório.

​Ela esperava um xingamento. Esperava que ele se levantasse e passasse por ela como no dia anterior.

​Mas Jeremy não se moveu. O músculo em sua bochecha pulsou. Os olhos azuis do loiro escureceram, não com a raiva cega de um brutamontes, mas com a indignação que o fez reagir antes de pensar.

​— Se foi isso que você entendeu do livro, você é uma leitora medíocre — Jeremy rebateu, a voz perigosamente baixa e articulada. — Heathcliff não é apenas um "sádico". Ele é o espelho distorcido da sociedade que o criou. Ele chegou a Wuthering Heights como um órfão que falava uma língua incompreensível e foi tratado como um animal, rebaixado a servo, espancado. Ele não nasceu um monstro, sua patricinha ignorante. A hipocrisia de Earnshaw e a covardia de Catherine forjaram-no.

​Daphne congelou. Mas ele não tinha acabado ainda.

​— Ele é a brutalidade devolvida ao remetente — continuou Jeremy, os olhos cinzentos agora cravados nos negros dela, sustentando um peso que fez o estômago de Daphne formigar. — Ele devolve exatamente o que recebeu, mas sem o verniz da educação aristocrática para disfarçar. Vocês acham que ele é o vilão porque ele não pede desculpas pela própria feiura moral. Ele exibe.

​O silêncio que se seguiu foi absoluto. A poeira dançava no feixe de luz entre eles.

​Daphne estava em choque, o cérebro processando a análise estrutural impecável que acabara de sair da boca daquele "gorila do Hockey". Havia ressentimento genuíno naquela defesa, uma profundidade analítica que obliterava completamente a caricatura bidimensional que ela havia traçado dele. Por dois segundos inteiros, as castas da escola de Wildale desapareceram. Não havia o valentão e a garota da cidade; havia apenas duas mentes dissecando uma ferida literária na penumbra.

​Aí o loiro percebeu o que havia feito.

​O brilho afiado na defesa de Jeremy vacilou quando ele notou a expressão de fascínio e descrença no rosto de Daphne. Ele pigarreou, desviando o olhar para o tapete, voltando à velha expressão taciturna, o paredão de concreto subindo bloco por bloco.

​Mas era tarde demais. Daphne já tinha algo com o que trabalhar ali.

​Ela se desencostou da estante, dando um passo lento em direção a ele. Toda a ironia defensiva sumiu de seu rosto, substituída pela frieza de quem acaba de vencer uma partida de xadrez na mente do adversário.

​— Bravo, Houston... — o tom dela era suave, quase um murmúrio conspiratório. — Quem diria. Um garoto que disseca as motivações de Emily Brontë no escuro da biblioteca…

​Ela inclinou a cabeça, os olhos faiscando com a vitória tática.

​— Você definitivamente não leu aquela frase de Thoreau na traseira de um caminhão de lenha. Se o seu time soubesse…

​O golpe aterrissou. Perfeito e letal.

​Jeremy paralisou. A estática tomou sua musculatura e os dedos apertaram o livro até o papelão estalar seco, os nós das mãos subitamente brancos. O peito largo engatou em uma hiperventilação curta e a saliva empedrou na garganta. Ele não rosnou. Ele apenas a encarou. Um tremor contido tomava todo o seu corpo.

​Mas antes que Jeremy pudesse articular qualquer réplica, o alarme estridente do colégio disparou acima de suas cabeças.

​O sinal rasgou a bolha de tensão, vibrando nas estantes de metal. A trégua havia acabado; o mundo real exigia o retorno dos personagens aos seus arquétipos oficiais.

​O trajeto de volta para casa na caminhonete de Rupert teve a densidade de chumbo. O pai puxou assunto sobre a próxima aula de Educação Física, mas logo desistiu diante do silêncio dos gêmeos no banco de trás. Não insistiu. Não esperava abraços e sorrisos após trocar os filhos de quarto.

​Preston mantinha o pescoço rigidamente virado para a janela, os fones de ouvido cancelando qualquer ruído externo, com uma expressão de afastar moscas. Daphne, por sua vez, lançava olhares furtivos para o irmão. No curto intervalo antes de seu pai chegar para buscá-los, ela até tentara desenvolver algum diálogo, falhando miseravelmente diante do mau-humor lacônico do irmão. Agora, ela apenas abraçava a mochila contra o peito.

​Assim que a caminhonete estacionou sobre a brita barulhenta da entrada, Preston desceu e evaporou em direção ao quintal antes mesmo que Rupert desligasse o motor.

​Daphne suspirou, o peso do cansaço e da culpa pesando nos ombros. Sabia que devia uma conversa ao irmão. Pelo caminho que o gêmeo tomara, ela sabia exatamente para onde ele tinha ido. Seguiu direto para fora de casa.

​A velha oficina mecânica do pai via poucos clientes hoje em dia, mas Rupert a mantinha perfeitamente funcional. Ela atravessou o espaço principal e empurrou a porta da pequena sala de ferramentas, o escritório improvisado do dono.

​O cômodo costumava refletir a organização prática do pai. Contudo, ao entrar, Daphne o encontrou beirando a assepsia de um centro cirúrgico. O arranjo funcional do homem estava sendo elevado a um extremo doentio: chaves de fenda e de boca repousavam sobre a bancada de madeira, alinhadas em uma ordem crescente milimétrica. No centro da sala, Preston não lia um livro de topologia; suas mãos, sujas de fuligem, limpavam as engrenagens de um velho carburador com a precisão de um relojoeiro.

​Daphne hesitou na soleira. De repente, sentiu algo crescendo em seu peito. Era pena.

​— Você vinha muito pra cá quando morávamos aqui... Você era até alegre — Daphne sorriu, a voz suave.

​— Boa ideia. Debocha de mim. — ele respondeu, a voz seca, sem levantar o olhar. Os dedos longos continuaram esfregando uma estopa na peça metálica.

​Daphne deu um passo à frente, ignorando a poeira que ameaçava a barra de sua calça. Ela se encostou na extremidade da bancada, observando o perfil tenso do irmão.

​— Eu não estou debochando de você, Preston... — ela suspirou, abrindo mão de qualquer pose.

— Eu sei que eu te deixei sozinho hoje. Vou fazer a mea culpa. Achei que se eu forçasse a barra, você acabaria cedendo à dinâmica daqui e fazendo amigos. Cometi um erro.

​Preston finalmente parou. Ele soltou a estopa, mas manteve as mãos sobre a mesa, os nós dos dedos brancos pela força que faziam.

​— No nosso colégio... — Daphne continuou, cautelosa. — Eu sabia quem era quem. Sabia de quem te afastar antes mesmo de algo acontecer. Aqui, eu estou tateando no escuro. Eu falhei com você hoje. Me desculpa.

​O silêncio que se seguiu não foi bélico. Foi um daqueles raros milissegundos de sintonia intrauterina. Preston virou o rosto lentamente. Os olhos âmbar, exaustos, encontraram os negros da irmã. Ela parecia estar sendo genuína.

​E então Preston sentiu culpa.

​Culpa por colocar aquela cadeira para a sua irmã gêmea cair e ela não sabia disso. E agora ela ainda tentava ajudá-lo. No fim, ambos estavam tentando se adaptar. Essa era a maneira de Daphne.

​— Eu tô cansado. — O garoto virou a cadeira. — Não consigo me concentrar. Cada segundo aqui é um a menos pra alcançar a vida que eu planejei. E eu te avisei ontem que essas pessoas estavam tentando nos machucar, mas você ignorou.

​— Eu sei. Eu juro que sei. Você tem razão. — Daphne pegou um banquinho e sentou do lado dele, tocando levemente o seu cotovelo, mas a vontade de verdade era abraçá-lo. — Desculpa de novo por não conseguir te defender hoje. Mas sabe quem defendeu? O Denis.

​Preston soltou um suspiro propositadamente audível. Virando-se novamente para trabalhar numa outra peça metálica aleatória. Daphne preparou-se. Fez um mantra mental de guru antes de continuar.

​— Eu falei com ele depois da confusão. Ele me contou o que aconteceu. Eu senti vontade de pular no pescoço do Jeremy, mas o Denis já tinha feito alguma coisa. Ele confrontou o Jeremy na frente de todo mundo para te defender. Na festa a primeira coisa que ele fez foi perguntar de você. Ele realmente se importa.

​Preston pegou a flanela e limpava uma outra peça. Respondeu finalmente, após um longo silêncio.

​— Eu gostei quando você admitiu que forçou a barra. E olha só. Você está forçando de novo.

​Daphne deixou os ombros caírem.

​— Irmão, eu estou tentando demais, mas não estou conseguindo te entender. Está acontecendo mais alguma coisa?

​— Irmã, você que entende tanto de pessoas, será que já pensou na possibilidade de que eu não quero que você me entenda? — respondeu Preston, irônico.

Bem, senhores. Eis o nosso beco sem saída, pensou Daphne, emprumando-se.

​— Preston, você é um gênio. Desde criança você sempre foi um gênio e eu sempre tive orgulho de você e até uma certa inveja. Você conseguia ser racional em qualquer circunstância. Mas recentemente você está sendo brilhantemente irracional.

​— Obrigado. Mais alguma ofensa? — a voz de Preston era cortante e ainda mais irônica.

​— Por enquanto não. — Daphne devolveu a ironia, levantando-se.

​— Então pode ir para o seu quarto. Quer dizer, o meu quarto.

​Daphne saiu do galpão, parabenizando mentalmente a capacidade do irmão de fazê-la há um instante ter vontade de abraçá-lo, e, no instante seguinte, ter vontade de sentar uma chave de fenda na cabeça dele.

​A garota entrou em casa, com passos duros. Seguiu direto para o fim do corredor do segundo andar e subiu os degraus estreitos de madeira.

​Chegou ao sótão. Seu novo exílio, vulgo quarto do Preston. O local era tão monocromático que lhe trazia uma imediata sensação de agência bancária fora do expediente.

​Ela jogou a mochila no chão, trocou de roupa e jogou-se na cama. Encarou aquele teto inclinado, que dava a impressão de que ia cair sobre ela. A claraboia encravada no alto, oferecendo apenas um quadrado acinzentado do céu de Vermont, a fazia se sentir isolada do resto do universo. Ela tinha que responder a comentários, postar alguma coisa no Instagram e terminar de escrever um capítulo da sua Fanfic hoje. Era como jogar o Pierre-Auguste Renoir dentro de um quarto do pânico e mandar ele pintar uma bela paisagem. Que ódio.

​Uma ingratidão monumental. Ela havia engolido o próprio orgulho, oferecido uma genuína bandeira branca, e ele a triturara como se ela fosse nada.

​Preston não estava apenas irritado; ele estava diferente. A última vez que ele havia se trancado tanto dentro de si mesmo daquele jeito, fora nas primeiras difíceis semanas após a mudança para Nova Iorque.

​Daphne puxou o ar, mas a sensação sufocante não passava. O peito comprimiu-se. Ela precisava respirar.

Olhou para a claraboia. Alta demais.

​Comprimindo os lábios, Daphne agarrou uma pesada cadeira de madeira e a arrastou em direção ao canto escuro sob a janela, tencionando subir nela para alcançar o trinco do vidro. Mas, ao dar um passo brusco para trás para posicionar o móvel, seu calcanhar afundou.

CREC.

​A madeira cedeu sob seu peso. O desequilíbrio foi instantâneo. Daphne soltou um gritinho agudo, largando a cadeira e caindo de joelhos com um baque surdo, o coração saltando até a garganta pelo susto.

​Ofegante, ela praguejou baixinho, massageando a perna. Ao olhar para baixo, a fúria deu lugar a uma confusão imediata. A tábua do piso não havia quebrado. Ela havia deslizado.

​Estava propositalmente solta. Daphne franziu o cenho.

Era um esconderijo.

​Ela enfiou os dedos na fresta e puxou a tábua de vez. Dentro da cavidade estreita entre as vigas do piso, repousava um caderno de capa preta e grossa.

​O coração de Daphne mudou de ritmo.

​Ela puxou o objeto para a luz de clínica. Era um Diário. Um velho e acabado Diário... A garota engoliu em seco, sentindo a mão tremer levemente.

​Aquele era o Diário de Preston Deloria.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.